O dia em que eu “fugi” de casa

Pra falar a verdade eu não fiz isso só uma vez, mas essa em especial é a que julgo mais interessante e digna de ser postada aqui.

Então, meus pais são separados desde os meus três ou quatro anos (não tenho nenhuma lembrança deles juntos, por exemplo) e sempre vivi com minha mãe. Até teve uma época em que eu alternava, ficava um dia com meu pai e outro com minha mãe, mas foi um período curto porque depois disso meu pai foi preso e tá lá até hoje, vez em quando ele sai, faz uma cagada e volta a ver o sol nascer quadrado. Tenho um milhão de histórias FODAS com ele, mas por sinal vou ter que esperar ele morrer pra contar pros outros.

Como ia dizendo, sempre morei com minha mãe e consequentemente acabei convivendo com um ou outro namorado dela. Nessa época eu tinha uns 5, 6 ou talvez até 7 anos, e morava com minha mãe num quarto na casa da minha avó. Eventualmente, esse namorado dela mantinha algum contato comigo, me levava pra um lugar ou outro etc e tal, principalmente porque minha mãe trabalhava num mercado e não podia ficar o dia inteiro comigo ou fazendo coisas pra mim.

Teve esse dia em que ele tinha uma tarefa muito simples: me buscar. Sério, ele só tinha UM trabalho a fazer e conseguiu falhar MISERAVELMENTE. Fiquei horas esperando o cara, tinha até colocado cueca, calção e camisa numa sacolinha, pro caso de precisar tomar banho na casa dele. Poxa vida, coloquei todos os meus sonhos e esperanças naquele cidadão e ele… vacilou.

Aí, rapaz, eu não sei que loucura que me deu na cabeça, mas eu pensei lá: “Não vou ficar aqui com minha vó, não. Era pro cara ter vindo me pegar, ele não veio então vou ir procurar minha mãe que ela deve saber o que fazer”. Assim, o plano por si só era genial, pra não dizer infalível… pra não dizer infalível porque eu não contava com a Mãe Natureza.

Aqui em Rondônia, o negócio é o seguinte: entre Novembro e Março chove como se o mundo estivesse acabando. Esse ano, por exemplo, o estado já foi quase devorado pelas inundações.

É, eu resolvi fugir de casa num dia entre novembro e março.

Uma criança de 6 anos correndo na rua, atravessando a cidade no meio de um dilúvio. Não lembro de muita coisa dessa fuga, só lembro de quase ter sido levado várias vezes pela correnteza nas ruas. Pensando agora, várias pessoas viram um molequinho sendo levado pela água e ninguém ajudou. Eu, hein.

Enfim, com muito esforço consegui chegar no mercado que minha mãe trabalhava. Táva que nem um mendigo, todo cheio de lama, todo molhado, fedido e tudo mais. Lembro que os funcionários me levaram pra um banheiro, me deram um banho e me vestiram em uma camisa de uniforme. Não achei nenhuma imagem que ilustrasse a situação, pra finalizar esse texto, então fiz eu mesmo um desenho:

fugacamisa