Um breve caso de bullying na minha infância

Como o primeiro caso que vou contar aconteceu numa igreja católica, já deixo de spoiler que a história não envolve padres.

É o seguinte: como a parte da família que mais convivia comigo era bastante católica, fui forçado a fazer catecismo. Eu acabava indo à igreja por osmose, ficava lá só torcendo pro tempo passar e poder voltar logo pra casa. Achava tudo aquilo um saco e mesmo assim segui as imposições porque falavam comigo de um jeito que eu me sentia muito mal por não ser batizado. Todo mundo achava isso um absurdo e deixavam explícito que ou eu fazia o tal catecismo e me batizava ou eu meio que não seria, sei lá, aceito socialmente.

A situação ficou ainda mais incômoda quando minha bisavó faleceu e passou os últimos meses de vida falando sobre como queria me ver batizado e tudo mais, aí não teve outro jeito, fui lá.

As aulas eram aos sábados nos fundos da igreja, só uma hora por semana – e mesmo assim era insuportável. Fiquei um ano inteiro cursando aquela foda pra no fim das contas nem ser batizado (porque ninguém me avisou da cerimônia e quando eu reparei ela já tinha acontecido). Sem contar que não aprendi nada, só ensinavam as dezenas e dezenas de cantos e orações que eu já estava careca de ouvir nas missas, mas ficou por isso mesmo: um ano jogado fora.

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Perdi toda a exibição que o SBT fez de WWE, e olha que eu gostava bastante.

Não bastasse ter que aturar esse besteirol todo, ainda estudava comigo um cara um pouco mais velho (eu devia ter uns 10 anos e ele uns 15, mas não tenho certeza) que fazia o famigerado bullying. Rapaz… Esse cara, não seja esse cara.

Puta cara chato, meu.

Eu era muito quieto e passava a aula toda tentando me comportar, permanecer em silêncio e ouvir o que os professores tinham pra falar. Ele, por razões completamente avulsas ao meu entendimento, tinha como missão me encher o saco. O tal garoto, que se não me engano se chamava Thalles, ou Thalisson, algo assim, ficava o tempo todo me cutucando, empurrando, jogando bolinha de papel, coisas do tipo.

A princípio, nada de mais. Quero dizer, incomodava? Incomodava, mas eu podia lidar com aquele nível de cara chato.

EIS QUE ele toma uma decisão radical numa aula qualquer: esquentar um lápis numa das oito milhões de velas que existiam na igreja e encostar o lápis quente no meu braço. Foi o cúmulo. Quando aquilo aconteceu, fui automaticamente possuído por um espirito vingador e resolvi que ia partir o cara na porrada (ou melhor, na capoeira) até ele nunca mais incomodar ninguém.

Como eu não queria deixar de ter a imagem de aluno comportado que tinha (isso era algo que deixava minha família bastante orgulhosa), optei por não fazer isso dentro da igreja. Quando a aula acabou, peguei minha bicicleta e fiquei na esquina da igreja esperando ele sair pra poder arrebenta-lo com socos e pontapés.

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Aqui vemos o próprio Papa fazendo facepalm pra essa coisa toda.

Diga-se de passagem, pra você jovenzinho que não sabe, ainda era uma época em que o conceito de bullying mal era conhecido, e quando alguém nos enxia o saco ao invés de chorar nós quebrávamos os dentes uns dos outros. Porrada era a forma mais fácil que a gente tinha pra resolver a maioria dos problemas, algo que, apesar de particularmente não aprovar, fazia parte da cultura em que cresci.

Bem, fiquei lá, paradão, olhando pro portão da igreja e esperando ele sair pra seguir ele até um lugar onde pudéssemos nos tornar quites… E o cara simplesmente entrou num carro e foi embora.

Fiquei pasmo, mas determinado a alcançar minha vingança passei a semana toda, pela primeira vez, ansioso pela próxima aula. Sabe o que aconteceu? Ele nem foi.

Decepção total: o cara nem foi na aula seguinte. E nem nas outras. Nunca mais vi ele.

Foi uma frustração completa saber que ele fez todas aquelas merdas e não levou um soco no olho pra ficar esperto, ou um esporro da mãe, sei lá. Suponho que se me encheu tanto o saco também deve ter feito o mesmo com outros garotos, o que é lamentável. E imagina o quão ruim os pais dele devem ter sido pra conseguir criar uma criança com caráter tão lixoso.

Enfim, passei alguns anos tendo a esperança de reencontrá-lo por aí e finalmente poder realizar o famigerado acerto de contas, mas não aconteceu. Como acabei esquecendo o rosto dele com o passar dos anos, talvez até tenha topado com ele por aí e nem percebi, mas pronto, ficou por isso mesmo.