A flauta de Romeu

Atualização 19/06/2017: Eu escrevi uma análise na qual eu tento identificar os problemas com esse texto e consequentemente suas causas e possíveis soluções. Aqui está: Analisando a vergonha que sinto de velhos textos: A Flauta de Romeu.


Havia uma vila na qual todos os jovens precisavam passar por um ritual para que pudessem se tornar magos. O ritual consistia em visitar o velho Babel, fazer o que quer que fosse que ele te ordenasse, e receber como prêmio um flauta que ele especialmente te fabricaria enquanto cumpriste tua tarefa. Nunca jovem algum havia deixado a casa de Babel sem carregar consigo a própria flauta, e Romeu, que estava em dia de enfrentar o ritual, não queria ser o primeiro a não ter o instrumento que lhe daria a Magia.

Ele chamou do lado de fora e logo o velho Babel abriu a porta e o convidou para sentar-se à mesa. Haveriam de apreciar um chá de hortelã com canela enquanto Babel decidiria a tarefa que Romeu deveria cumprir, e para tomar a mais sábia decisão, certificou-se de aprender os defeitos de Romeu através da conversação. O vai e vem das frases se arrastou mais que o esperado, e só depois de algumas horas Babel se deu conta de algo que presenciava pela primeira vez: a fraqueza do jovem estava no diálogo em si. Ele demonstrava excessivo interesse, e fazia muitas perguntas sobre a Magia, sobre as flautas e como elas funcionavam. O jovem Romeu não consegue utilizar a Magia porque tem ganância e desejo de conhecê-la, pensou o velho Babel.

Dali não levou muito a elaborar a tarefa, e pediu que Romeu o acompanhasse. Abriu uma porta e mandou que Romeu entrasse, dava num quarto vazio e com paredes de madeira e brancas. Uma imensa massa de calor se deslocou por eles e saiu para fora do quarto, como que se a porta fechada prendesse do lado de dentro muito mais ar do que havia do lado de fora. Romeu balançou para os lados e para trás, fez força nos pés e não caiu, mas suas sobrancelhas se mostraram impressionadas e espantadas com aquela força que fluiu por todo seu corpo; Babel apenas caminhou até o centro do quarto como se nada houvesse ali capaz de lhe abalar as estruturas. Com os dois sós, o velho disse assim:

– Romeu, passarás aqui três dias e três noites. Não te preocupes com comida e bebida, mas apenas em manter o silêncio. Veja as paredes brancas, aqui reina a Magia, eu garanto, e o quarto é vazio: nada há para perturbar sua Magia a não ser tu mesmo. Três dias, Romeu, e isso não irás fazer.

A porta se fechou e Romeu passou três dias em silêncio. Não disse nada, e tratou de ficar parado para que o corpo também se calasse. O mais difícil, porém, aconteceu depois: o velho Babel não voltara após os três dias. A luz começava a entrar por baixo da porta indicando uma quarta manhã, e nada do velho. Romeu esperava que aparecesse após os três dias, mas não veio, e resolveu que esperaria até o fim do quarto.

Chegada a quarta noite, o garoto se repetia as palavras de Babel: Romeu, passará aqui três dias e três noites. Ele o fez, e agora a pergunta que lhe intrigava era se deveria sair por conta própria. Ou haveria o próprio velho de abrir a porta? Pensou para concluir que, de um jeito ou de outro, a tarefa dada já estava cumprida, e era outra questão se importaria o que acontecesse depois dos três dias inicialmente demandados.

Mesmo com a certeza de ter realizado o dever, Romeu temeu cometer uma atitude desengonçada e arriscar perder sua flauta por causa dela. Ah, se quebrar o voto de silêncio no quinto dia e o velho resolver que isso seria uma boa razão para negar a flauta, pensou Romeu, ficaria sem a Magia… Passou o sexto e o sétimo ponderando da mesma maneira, mas no oitavo dia resolveu se levantar: não falou nada, e nem abriu a porta, mas caminhou pelo quarto enquanto pensava consigo a razão da demora.

– Como poderia estar ficando minha flauta? Deve ser mesmo muito trabalhoso fazer as flautas assim, com Magia e tudo…

Essas palavras foram suspiradas baixinhas por Romeu em algum momento da oitava tarde. Àquele mesmo tempo, o velho Babel colhia galhos para uma fogueira na floresta do lado de fora da casa, e as paredes brancas trataram de levar aquele pensamento alto até ele. O velho, sozinho, ouviu o sussurro dos ventos e respondeu com risos a pergunta que Romeu havia feito a si mesmo: decidira ainda no primeiro dia que não faria flauta nenhuma para o garoto.

A décima quarta noite foi para Romeu mais escura que todas as outras. Nela, decidiu que esperaria o dia seguinte, e se fosse o caso do velho não voltar iria ele mesmo abrir a porta e sair. Toda a monotonia o fez pensar se era assim tão importante sair de lá com a Magia, afinal ela reinava naquele quarto e suas paredes eram brancas, e não havia nada lá que não fosse ou sua própria presença ou meramente a ausência de algo do lado de fora da porta: realmente não precisou se preocupar com comer e beber porque sua fome e sede eram saciadas sem que precisasse abrir a boca, mas havia outras coisas pelas quais ainda sentia desejo.

Na manhã seguinte, Romeu acordou e tomou como primeiro ato um grito libertador. Não foi palavra porque não tinha nenhuma a dizer, apenas abriu a boca e deixou que o palato vibrasse com o que quer que fosse o som que estivesse com vontade de escapar. Girou tranquilamente a maçaneta da porta e não se espantou ao perceber o velho Babel sentado numa cadeira o encarando, como se o esperasse naquela mesma posição há dias.

O silêncio dominou tanto lá quanto dominara dentro do quarto, e os dois deixaram que os olhos se encarassem um pouco. Romeu não fez nenhuma pergunta; na verdade, os segundos se passaram e ele já se sentia constrangido. Ambos perceberam a Magia reinar no local e fluir de um ponto a outro por todos os lados. Romeu estava pronto pra continuar andando e deixar a casa quando o velho Babel se pôs de pé da cadeira. Ele levantou uma das mãos e disse as palavras que encerrariam aquele ritual:

– Romeu, eu não lhe fiz nenhuma flauta. Você não precisa de uma.

Romeu seguiu seu caminho, e entre um passo e outro apenas respondeu:

– Eu sei.


Atualização 19/06/2017: Eu escrevi uma análise na qual eu tento identificar os problemas com esse texto e consequentemente suas causas e possíveis soluções. Aqui está: Analisando a vergonha que sinto de velhos textos: A Flauta de Romeu.