A Quase-Criatura

Beeroi puxou as portas traseiras da van da Companhia Antipragas Intergalática, se colocou para fora e deu uma bela olhada nos céus daquela cidadezinha.

– Mas que diabos, Fischer? – Ele disse para o motorista. – Não tem dragão nenhum aqui.

– Pelo visto não tem mesmo, não. – Respondeu Fischer, colocando a cabeça pela janela.

– Planeta três do setor vinte e sete. Você parou no lugar certo?

– Sim.

– Subtrópico um, rua vinte e três, casa dois. É isso?

– É.

– Talvez você tenha se perdido de novo. – Beeroi guardou a arma nas costas, frustrado com a falta de dragões sobrevoando o local.

– Não, Beeroi, depois da última vez falei com meu médico e instalei um GPS. – Fischer indicou com o dedo o lóbulo da orelha esquerda. – Melhor ir perguntar ao morador. Paramos em frente a casa certa. Chamada alegando “praga de dragões”, é aqui.

– Fique aí, e deixe a van ligada. – Disse Beeroi, e caminhou para o portão da Casa Dois. – Esses idiotas, sempre nos fazendo perder tempo que poderíamos gastar lidando com dragões de verdade.

Fischer recolheu os propulsores da van, apertou o lóbulo esquerdo e sintonizou nas rádios do planeta para apreciar a música local.

*****

O chamado havia sido feito por um homem velho e pobre, notadamente pelos trapos que usava como roupa, peças que não eram mais produzidas pela Companhia  Intergalática de Tecelagem desde o fim do século XXIII.

– Ah, eles estão no meu porão, senhor.

– O que?! Isso é impossível!

– Não, eles estão lá mesmo, senhor.

– Eles são grandes demais pra caber no seu porão.

– Esses são bem pequenos, senhor.

– Eu trabalho na Divisão que cuida dos dragões desde que ela foi criada. Não existem dragões pequenos. E não precisa me chamar de senhor.

– Desculpe. Mas existem sim, senhor. No meu porão.

Desceram ao porão.

Da entrada, os olhos de Beeroi mapearam o local, surpresos com as criaturas que observavam.

– Eu te falei, senhor, dragões.

– Isso não são dragões, definitivamente. Não precisa mesmo me chamar de senhor.

– Bem, senhor, – O velho não podia evitar, aparentemente. – eu sei que são uns dragões bem esquisitos…

– Não são dragões! Tudo bem, eles tem asas de dragão, focinho de dragão e cauda de dragão. Mas quanto eles tem de altura? Cinco, sete centímetros? – Beeroi tentou puxar algo da memória por alguns segundos. – Até hoje só catalogamos dragões de uma espécie, e eles são bem grandes. Isso aí… Não sei o que são, mas não são dragões.

Haviam inúmeras das pequenas criaturas. Ocupavam todo o porão, e não moviam sequer um centímetro, como se estivessem paralisadas. Beeroi perguntou se os seres estavam mortos e o velho respondeu que não, porque haviam mais agora que antes. De alguma forma estavam se reproduzindo. Beeroi sacou das costas algo que parecia uma luneta, apontou-o para uma criatura e pulverizou-a imediatamente.

– Interessante… Seja lá o que forem essas coisas, consigo matá-las. – Apertou um botão no lado da arma e ela fez um rápido e crescente som agudo, num esforço para concentrar energia para um próximo tiro. – Fui enviado pela Companhia Antipragas Intergalática porque reportaram um surto de dragões. Não tem dragão nenhum aqui. Mas farei o favor de limpar o porão para você.

– Obrigado, senhor…

– Poderia ir lá fora e chamar meu motorista? – Beeroi podia apertar o lóbulo, mas era melhor tirar o velho do porão. – Peça para ele o equipamento de captura, vamos precisar levar um desses pra análise.

Beeroi abriu um sorriso e começou a matança enquanto assoviava uma cantiga qualquer e esperava por Fischer e o equipamento de captura.

*****

No laboratório que havia nos fundos de sua casa, Beeroi observava o comportamento da criatura no ambiente controlado, uma gaiola de vidro reforçado e cheia de furos minúsculos, ainda menores que o tal ser, para permitir a passagem de ar. O pequeno dragão, ou qualquer coisa que se parecia muito com um, ainda não havia movido um músculo.

Dragões eram a especialidade de Beeroi, e ele nunca havia visto nada assim. Era pequeno demais. Era como um… Quase que perfeitamente, mas não completamente. Tinha a pele escamada, tinha as duas protuberâncias na cabeça que pareciam chifres, e tinha o pescoço curvado em forma de S, exatamente como dragão. Mas não era um dragão. Era pequena demais.

Beeroi apertou o lóbulo da orelha esquerda e fez uma ligação.

– Estou começando a achar que isso é realmente um dragão, Fischer.

– Isso mudaria algumas definições, não?

– Mudaria, mas não tenho outras opções.

– Bem, e as comparações?

– Cem porcento. Fisiologicamente, os dados batem cem porcento em todos os aspectos testados. – Apertou o lóbulo e do outro lado da linha Fischer absorveu uma série de informações sobre dragões e a tal criatura que se parecia com um. – Confere você.

– Fascinante. Ele tem até a proporção entre o tamanho da cauda e o comprimento do pescoço.

– Tem. As esporas, as quinas das asas, a lingua bifurcada, tudo. Fischer, é espantosamente idêntico. – Beeroi deu com os ombros e continuou. – Não fosse o tamanho, biologicamente, quer dizer, em termos de fisionomia, não haveria dúvidas…

A criatura se apoiou nas patas traseiras e deu passos para frente, algo que Beeroi, em toda sua experiência, nunca havia visto dragão algum fazer. Seus olhos se apertaram, extremamente confusos.

– Entretanto, – ele prosseguiu, se aproximando e batendo com a mão contra o vidro. Mais nenhum movimento, a criatura estava paralisada novamente. – O comportamento é bastante curioso. Completamente esquisito.

– Ah.

– O comportamento é certamente de algo que não é um dragão.

– E como é?

– Acabei de o ver se mexer pela primeira vez, na verdade. Parado demais pra ser um dragão.

– Realmente intrigante, Beeroi. – Fischer parou pra pensar por alguns segundos. – E aí?

– Temo que vai morrer. Não comeu nem bebeu nada.

– Quê?

– Pedaços de ratos, maçãs, cobras, frangos, laranjas, coelhos. Leite, álcool, água. Não se interessou por nada, e não sei mais com o que testar. Nem uma mordida, lambida, cheirada, nada mesmo.

– Ah, que pena. A Companhia Antipragas Intergalática não tem uma divisão pra lidar com espécies desconhecidas? Repassa pra eles.

– Virou pessoal, Fischer. – Respondeu se jogando numa cadeira. – De qualquer forma, se for um dragão, é responsabilidade minha, se não for um dragão, é algo que se parece muito com um, e também é responsabilidade minha. – Suspirou. – Descobrirei. Amanhã a noite devo conseguir algo.

*****

De manhã, Fischer chegou com a van da Companhia Antipragas Intergalática à casa de Beeroi para começar o expediente.

– Deixei os computadores rodando umas análises. Quando voltarmos saberemos mais detalhes.

– Ah, não quer me deixar entrar e dar uma olhada?

– Claro. – Disse Beeroi.

Fischer desligou a Van.

Quando entraram, o quase dragão estava com uma coxa de galinha na boca.

– Caramba, Fischer, tá comendo!

– Não, só tá com a coxa encaixada na boca. Ainda tá inteira.

O quase-dragão cerrou o maxilar e cravou as presas na coxa de galinha. Penetraram a carne e certamente atravessariam se fossem maiores. A criatura começou a se transformar, e suas pequenas patas tornaram-se pequenas pernas, ao passo que seu pequeno focinho tornou-se um pequeno bico e seu pequeno par de chifres tornou-se uma pequena crista, já a pequena cauda deu lugar a pequenas penas.

O pequeno dragão passou por uma transformação completa, e agora lá estava uma pequena galinha. Quer dizer, era idêntica a uma galinha: tinha pescoço de galinha, peitoral musculoso de galinha, asas de galinha. Era quase uma galinha por completo. Mas não era uma galinha genuína, e não poderia ser. Era pequena demais.

– Ah.

– Ah…

*****

Beeroi e Fischer admiravam o pequeno cachorro na gaiola de vidro no laboratório. Se parecia com o cão que vivia no quintal de Beeroi: tinha as mesmas patas, os mesmos dentes, e até as mesmas manchas pretas no pelo majoritariamente branco. Apesar disso, não poderia ser um cachorro. Era pequeno demais.

– Pelo menos agora sabemos como funciona. É só levar à boca que…

– É, mas não faz o menor sentido. – Disse Beeroi andando pra lá e pra cá, apertando o lóbulo da orelha e fazendo mais pesquisas que gostaria. – Não acho nenhuma informação sobre nada do tipo em galáxia nenhuma. Não faz sentido mesmo.

– Não. Quer testar com algumas criaturas mais esquisitas?

Beeroi deu de ombros.

– Claro.

Entraram na van e foram buscar algumas criaturas mais esquisitas.

*****

A van estacionou e fez sua identificação na base do Planeta Um, do Setor Cento e Quatro, usado pela Companhia Antipragas Intergalática para armazenar exemplares das mais diversas criaturas que funcionários como Beeroi e Fischer coletavam.

– Vamos aproveitar pra dar uma olhada nos dragões? – Perguntou Fischer.

– Nah, aquele setor não é atualizado há séculos. – Respondeu Beeroi. – Da última vez que capturaram uma espécie nova eu nem… Eu nem… Ah, na verdade só capturaram uma espécie nova uma única vez, e foi quando ainda não havia nenhuma por aqui.

– Triste pra você, imagino.

Beeroi apertou a orelha.

– Dizem que o pessoal da Divisão Três descobre algo novo em cada chamada que atendem. Vamos ver o que eles têm colocado lá.

*****

A Divisão Três da Companhia Antipragas Intergalática realmente tinha sua parte no planeta-armazém lotada de criaturas esquisitas.

Eles eram responsáveis por atender aos chamados com criaturas não identificadas. Vez ou outra alguém ligava para a Companhia, e a conversa dava num ponto assim:

– Qual o problema, senhor? – Dizia a atendente da Companhia.

– Não sei. – Dizia o cliente.

E lá ia o pessoal da Divisão Três. Cuidavam de qualquer chamada em que o cliente não soubesse dizer com qual praga teriam que lidar. Quase sempre chegavam e davam de cara com algo tão comum e clichê em outro ponto da galáxia que se entediavam de ter que realizar o trabalho, mas se alguma Divisão realmente tinha chances de encontrar algo novo, era a Divisão Três. A divisão de Beeroi nunca encontrava algo novo.

*****

A galáxia era muito vasta, e Beeroi e Fischer comprovavam isso admirando as incontáveis criaturas nas gaiolas do pessoal da Divisão Três. O pequeno ser que haviam capturado numa chamada que alegava “praga de dragões” deveria estar ali, mas esperava no laboratório de Beeroi.

Aquelas não parecem com nada. Nojento. – Disse Fischer apontando pra uma gaiola à esquerda.

– Não, não parecem. Não parecem cachorros, pelo menos. Nojento de fato. – Respondeu Beeroi; os olhos admirados com a visão confusa.

– Elas não parecem enguias também, cara. Nem duendes. Nem bestas de hidrogênio. Nem águas-vivas.

– Nem gatos.

– Nem gatos-da-água, nem aqueles gatos-voadores que nos empurraram por engano no outro dia.

– Não. Olha aquelas… Patas?

– É. Elas parecem escorrer. Estão mais pra tentáculos, eu acho.

– Focinho esquisito. Vamos levar e testar no quase-dragão.

– Atualmente, quase-cachorro. Quase-seu-cachorro.

– É. Ainda estou frustrado por não ser um dragão.

Voltaram para a Van com um clone da criatura esquisita numa gaiola.

*****

Jogaram o ser bizarro na gaiola do quase-cachorro, que sequer se moveu quando a criatura contorceu seus tentáculos e se arrastou enquanto cheirava tudo. Quando se aproximou do quase-cachorro, foi abocanhada de repente: as presas afundaram e uma transformação aconteceu.

A criatura capturada por Beeroi agora era duplamente mais esquisita do que jamais fora: tinha tentáculos, um focinho desproporcional e saltado do corpo, duas cavidades no topo da cabeça e algo que parecia uma língua que ficava pra fora. Parecia muito ser da mesma espécie da criatura que pegaram do pessoal da Divisão Três, mas não era. Era muito pequena pra ser da mesma espécie.

E pequena o suficiente pra conseguir deslizar seu corpo flácido por entre os buracos para passagem de ar da gaiola. Pela segunda vez, demonstrou algum comportamento que não consistia em enfiar os dentes e se transformar na criatura mordida. Escapou da gaiola.

*****

O pequeno ser esquisito caiu no chão como uma fruta podre, e usou seus tentáculos para deslizar com uma agilidade surpreendente pelo laboratório.

Beeroi e Fischer cambalearam para trás, porque suas pernas foram pegas de surpresa e não sabiam se corriam até uma porta ou o quê. Tropeçaram aqui e ali, soltaram uns palavrões e olharam desesperados ao redor, procurando alguma arma.

Fischer caiu e bateu a cabeça de maneira completamente patética.

Beeroi havia deixado uma arma numa mesinha de canto, e logo que pôde raciocinar se pôs a caminhar até ela. Deu dois passos e no mesmo tempo a criatura escorreu pelo chão até suas pernas, em alta velocidade.

Beeroi chutou com toda a força que pôde.

A criatura cravou os dentes com toda a força que pôde.

E lá estava.

Agora tinha um par de pernas com joelhos flexionados, cabelos castanhos que cobriam a testa, polegar opositor e um nariz desproporcional. Parecia muito com Beeroi, um humano. Mas não era um humano, não podia ser.

Era pequena demais pra ser um humano.


Penso que esse texto foi indiretamente inspirado parte pelo Sandkings, do George R. R. Martin, parte pelo I Hate Dragons, do Brandon Sanderson. Dois textos de mais alto grau de sensacionalidade, recomendo ambos demais. :)