O Porto do Comércio

Daniel foi tirado da água pelos piratas depois que ouviram seus gritos de socorro vindo de um barquinho, e assim que pôs seus pés no navio saiu à procura de um novo corpo – acabou possuindo um dos cozinheiros dos piratas, um homem baixo e cheio de cicatrizes, com marcas de queimaduras de óleo espalhadas pelos braços, um bigode grosso e amarelado pelo cigarro, o restante da barba rala e grisalha, nariz achatado e olhos fundos que pareciam estar sempre fechados. Ele também era muito, muito gordo, e parecia comer tanta banha de porco que havia se tornado um ele próprio. Esse se tornou o novo corpo de Daniel, e o antigo os piratas consideraram como morto e lançaram o cadáver de volta ao mar.

Estar com a alma dentro do corpo do cozinheiro era uma sensação tão ruim quanto vê-lo de fora, mas Daniel não tinha outra opção, apesar que ele adoraria ter: corpos deteriorados e pútridos eram os únicos que ele conseguia possuir, pois estes eram os que abrigavam almas fracas suficientes para serem chutadas para fora, e assim o cozinheiro gordo e moribundo foi possuído.

Daniel estava na cozinha do navio, mastigando incansável uma maçã que de tão velha havia se tornada emborrachada como chiclete, tentando encontrar algo capaz de melhorar o aspecto do corpo do cozinheiro. Ele pensou no quanto aquela situação era irônica: trocar de corpo para fugir do pessoal da Alma Perdida e da morte, e então uma preocupação imensa para evitar a morte natural do novo corpo. Apesar de não ter feito tantas vezes esse procedimento em alto mar, Daniel acabou percebendo que toda a comida de um navio pirata é velha e de pior qualidade. Ele encontrou batatas e beterrabas, e enquanto constatava que as cenouras estavam tão más que o fariam se sentir pior naquele corpo do que melhor, ouviu um grito abafado vindo de cima.

“Pesqueiros, pesqueiros à vista! Navios pesqueiros à vista!” Dizia o grito, tão alto que todos os piratas pararam para ouvir, “Porto do Comércio em uma semana!”.

Então todos no navio passaram uma semana comendo o que de pior havia para ser comido, pois Daniel preparava os melhores alimentos para si mesmo em uma tentativa falha de se sentir melhor. Apesar disso, ele conseguiu passar toda a viagem sem ser notado, disfarçado como cozinheiro do navio. Os piratas tinham o costume de beber e conversar, e lá Daniel ouviu muitas histórias enquanto o tempo passava. Quando ele voltou a ouvir o grito vindo de cima, dessa vez indicando que finalmente  haviam chegado ao Porto do Comércio, espiou com ansiedade pela janela e viu o grande mercado flutuando no oceano.

A estrutura enorme se erguia como se fosse uma metrópole no meio de um continente, com incontáveis casas de madeira que podiam ser vistas à grande distância. Muitas pessoas moravam no Porto do Comércio, e muitas outras vinham dos quatro continentes para se encontrar ali e fazer negócios. As ruas eram recheadas de barracas que vendiam todo tipo de produto, mas muitas delas vendiam peixes pescados na região pelos próprios moradores, que faziam a vida assim. Quando o navio se aproximou, Daniel pôde ver a fachada da Taverna dos Porcos erguendo-se gigantesca no centro do mercado, a maior e mais movimentada taverna de todo o Porto do Comércio, que ele conhecia muito bem de outras visitas.

O sol estava escaldante, e fazia brilhar todas as peças de metais que ornamentavam os  inúmeros navios que iam e vinham. Haviam navios de todos os tipos, vindo de todos os mares, e muitos possuíam estátuas espalhadas na proa, brasões desenhados nas laterais e velas, e cores extravagantes. Quando os navios ancoravam as pessoas logo desciam e iam se amontoar nas ruas centrais do Porto do Comércio, de modo que as bordas eram quase desertas em comparação ao centro, e de qualquer forma ninguém ficava no mesmo lugar por mais que alguns minutos.

O navio de Daniel foi ancorar no lado Leste, onde costumavam atracar os navios que ficariam lá por alguns dias. Os navios pesqueiros que precisavam sair e voltar o tempo todo usavam o lado Sul do porto, e nos lados Norte e Oeste acontecia embarque e desembarque de outras mercadorias. A coisa era tão grande que não havia como regular e, na verdade, era uma gigantesca bagunça que se misturava em todas as direções – os únicos que respeitavam os lados corretos de se ancorar um navio eram os próprios moradores e os que operavam sob lei de algum reinado, e estes eram minoria, pois quase todos os que visitavam o Porto do Comércio eram piratas que atracavam no lado que estivesse mais próximo.

A âncora começou a descer, e Daniel olhou pela janela do navio estacionado: lá estava uma grande rua, que se estendia em linha reta até se perder no horizonte. O chão era de madeira, e se erguia sobre a água em cima de inúmeras pilastras flutuantes, muito grossas e também de madeiras, de modo que a estrutura ficava numa altura razoável na qual a maioria dos navios conseguia atracar e as pessoas conseguiam descer sem dificuldades. Haviam muitos caixotes e containers gigantes espalhados, esperando um navio específico vir buscar, e haviam outros sendo arrastados por pessoas esquisitissimas que vinham sabe-se lá de onde e os colocavam no lugar certo. As gaivotas sobrevoavam e se acumulavam em cima de navios pesqueiros que não deveriam estar desembarcando ali no lado Leste, mas muitas também davam voos rasantes e pescavam seus peixes por conta própria. Daniel as viu ainda pela janela de seu navio pirata e ficou contente por um instante, depois se intrigou com a vida das gaivotas e começou a pensar sobre o tipo de coisa que ele vinha fazer no Porto do Comércio para conseguir viver.

Quando o sol iluminou os caminhos que saíam da borda Leste e levavam ao centro do mercado, ele voltou a se sentir melhor pois a visão o fez se lembrar da Taverna dos Porcos e do carneiro grelhado que serviam lá, e das bebidas que acharia para comprar nas barracas próximas à borda Sul, e dos artistas que se apresentavam nos cabarés no centro do mercado à noite. Então ele tentou pensar em alguma maneira de visitar todos esses lugares e ainda conseguir cumprir sua missão, pois Daniel estava bastante preocupado e consciente de que seria complicado fazer seu trabalho no Porto do Comércio sem ser percebido pelo pessoal da Alma Perdida.

Quando os piratas finalmente esticaram a prancha para fora do navio, Daniel desceu para o mercado muito mais preocupado com eles, o pessoal da Alma Perdida, do que com a missão que tinha que cumprir e a Taverna dos Porcos. “Uma pena que aqueles malditos me seguem por todos os cantos desse mundo”, ele pensou, “as pessoas nunca deixam alguns homens fazerem seu trabalho em paz”. Então desceu, ainda desajeitado e se sentindo mal no corpo do cozinheiro, e seguiu pelos caminhos mais desertos que conseguiu encontrar. Em algum lugar no centro do Porto do Comércio deveria achar um corpo melhor para possuir, pelo menos era isso que planejava.


Uma nota: os textos de ficção que escrevo pra esse blog são textos de estudo, quer dizer, coisas que escrevo pra testar ou treinar algo. O de hoje não é uma história com começo, meio e fim – em formato de conto, como costumo fazer – na verdade é, hummm, uma versão aprofundada, talvez, do texto Corpos e Almas no Porto do Comércio, e esse sim é um conto. Algo equivalente a um capítulo de uma narrativa maior, imagino. Digo isso porque escrevi esse texto pra testar umas ideias que andei tendo sobre descrições, e preferi simplesmente reutilizar o Porto do Comércio ao invés de me preocupar em criar algo novo, e talvez eu acabe fazendo isso muitas outras vezes no futuro e essa nota venha a calhar. É isso. : P