Yan na Ponta da Agulha

A aventura de Yan começou há muitos anos, quando ele partiu de sua casa no Oeste levando apenas roupas e comida em uma bolsa que era maior que ele. Os motivos da sua partida não fazem parte dessa história, e é suficiente dizer que no momento em que ela começa ele se encontrava parado diante de gigantescas muralhas, e que levava duas espadas leves e pequenas guardadas nas bainhas de couro na cintura; usava um capuz jogado para trás do pescoço por cima de um colete de couro, que por sua vez escondia uma cota de malha velhíssima que usava como proteção desde sempre; ao seu lado estava Famber, o cavalo que recebeu como pagamento por alguns serviços feitos em Lugos, e ele fazia o trabalho de carregar bolsas com todos os bens que Yan coletava pelas terras que passava. Era um cavalo preto, forte e jovem, e Yan tinha tanto amor por ele quanto pelos bens que ele levava, mas as costas de Famber já eram pesadas demais com a bagagem, portanto ele era obrigado a caminhar. Tinha esperanças de conseguir mais cavalo para dividir os pesos, e havia grande esperança de fazer isso na cidade que se erguia diante de si.

Apesar disso, não foi esse o motivo principal que o levou a visitar Cidaces. Por muitos anos e em muitos lugares ele ouviu falar de uma taverna chamada Ponta da Agulha. Diziam ser uma taverna muito grande, feita de pedra esculpida imitando um pequeno castelo, e que ocupava o espaço de três casas no centro de Cidaces. O lugar era famoso porque seu dono, o taverneiro Denomo, tinha acordos com criaturas de todos os reinos, e conseguia reunir em sua taverna frutas vindas de terras muito distantes; ele as triturava e as misturava e produzia bebidas muito apreciadas. Yan estava fazendo alguns trabalhos há apenas alguns dias da cidade, e resolveu aproveitar a oportunidade para visitar a Ponta da Agulha.

Ele gostava de beber e comer as especialidades dos lugares que visitava, e nunca tinha estado em Cidaces antes. Quando parou diante das muralhas e viu a lua já surgir atrás delas enquanto o sol se punha, puxou as rédeas que guiavam Famber o cavalo e seguiu ansioso para tomar as vitaminas. Os portões de madeira estavam aberto e ele achou isso esquisitíssimo, pois era bem conhecido por todos que qualquer um podia entrar em Cidaces, mas era preciso ser revistado pelos guardas antes.

Quando colocou os pés sob o portão, Yan viu muitas coisas esquisitas e uma cidade mergulhada em caos. Haviam pessoas gritando e correndo para todas as direções, abanando os braços em desespero e pedindo socorro; as casas de madeira pegavam fogo, e também os carros de bois e cavalos, e todo o feno que alimentava os animais, que também galopavam desesperados pelas ruas. Aquilo tudo lhe pareceu muito estranho e errado, mas até onde ele podia imaginar não era problema dele, então seguiu seu caminho para o centro de Cidaces, para a Ponta da Agulha.

Ele pôde caminhar pelas ruas sem ser diretamente perturbado. O que quer que estivesse perturbando os moradores o deixou em paz. Ele fez seu caminho até que a frente da taverna apareceu em sua vista, e ela pareceu ser ainda mais magnífica do que diziam: mais alta, mais larga, feitas de pedras mais bem esculpidas e polidas, e detalhada nos cantos com madeiras mais brilhantes e resistentes. Ela era de fato muito parecida com um pequeno castelo, pois era retangular e tinha pequenas torres nos cantos, e as portas eram de metais, com as bordas arredondadas e uma faixa de metal no centro, e com argolas de aço penduradas para abrir e fechar. O coração de Yan rapidamente se encheu de esperança de que as famosas bebidas também seriam melhores do que os rumores apontavam, mas sua ansiedade foi desafiada quando percebeu que as portas estavam fechadas.

Yan se aproximou pensando que não poderia deixar a cidade sem provar alguma das bebidas, e parado diante das grandes portas fechadas ele gritou:

“Eu quero beber!”

Houve silêncio, e por alguns instantes nenhuma resposta veio e as portas permaneceram sem dar sinais de que seriam abertas, então ele repetiu o grito enquanto dava pancadas fortes com a mão na madeira:

“Eu quero beber!” Ele disse. “Abram as portas!”

Dentro da taverna as pessoas começaram a murmurar, e Yan ouviu e bateu ainda mais forte nas portas.

“Vá embora, não temos nada aqui!” Disse uma voz vinda de dentro. “Não arrebente minhas portas!”

“Ah, então tem gente aí dentro,” disse Yan, “Você é Denomo o taverneiro? Quero provar as bebidas, abra, abra!”

“Deixe minhas portas em paz,” disse a voz, “vai embora!”

“Taverneiro, eu estou em uma viagem muito longa.” Disse Yan depois de parar de bater. “Minha aventura é grande, e minha sede por suas bebidas vem de muitas milhas que caminhei ao lado de Famber o cavalo, meu companheiro.” E então ele voltou a dar pancadas na madeira, “então abra, abra!”

“Ah!, ó!, seria uma alegria lhe servir minhas bebidas em outros tempos,” respondeu o taverneiro, “mas no momento eu me importo mais com minhas portas que com suas aventuras e sua sede”.

“Eu não vou sair sem beber, taverneiro.” Disse Yan, e as madeiras ainda fazendo um pesado tum-tum que ecoavam dentro da taverna.

“Eu não sei como você chegou vivo no centro da cidade, não viu eles aí fora?” Gritou Denomo, com a voz trêmula. “Não posso abrir as portas enquanto eles estiverem atacando a cidade. Então vá, vá embora!”

“Eu não vou sair.”

Yan decidiu que arrombaria as portas e entraria à força, depois pediria desculpa e pagaria pelas portas ou qualquer outro problema que causasse. Então deu passos para trás e o silêncio deixou todos ansiosos dentro da taverna. Yan correu com o ombro inclinado para frente e bateu em cheio na madeira. Houve um grande estrondo e as estruturas chacoalharam, e o cadeado que trancava as portas pelas argolas do lado de dentro quase se partiu.

“Ah! Ah, ouça, ouça!” Gritou o taverneiro, muito preocupado com as portas. “Ouça, você não ouviu? Eu ficaria alegre em te servir, mas não posso abrir as portas com eles aí fora.”

“Então você pode abrir, pois aqui fora só vejo os moradores correndo em desespero, e nada mais.” Respondeu Yan.

“Claro! E por quê você acha que eles estão correndo, imbecil?” Disse Denomo.

“Eu não sei, mas eu sou Yan, e essas portas podem ser abertas sem problemas enquanto eu estiver com uma espada e disposição para brandi-la, e no momento eu tenho duas, pois uma conquistei de inimigo morto e outra foi presente.”

O taverneiro fez silêncio e pensou por alguns instantes.

“Muito bem, Yan o aventureiro!” Ele disse finalmente. “Muito bem, me diga de onde você vem e para onde você vai.”

“Eu venho de Mabus, e antes disso de Mabais, e Vetus, e porquê deixei minhas terras no Oeste não posso contar, mas pelo que passei para chegar até aqui é uma história que ficarei feliz de compartilhar.” Gritou Yan para as portas. “E para onde vou, ora, eu acabei de chegar onde estava indo, e já disse que há muito tempo caminho para provar suas bebidas, e minha sede é grande. Abra!”

Novamente o taverneiro fez silêncio enquanto pensava.

“Eu fiz meu julgamento,” ele disse finalmente, “e quero ouvir sua história, mas isso será perigoso para minha taverna.”

“Perigoso de fato, e eu entendo o apreço pela taverna. Magnífica ela me parece!” Disse Yan. “Me sirva do lado de fora, então.”

“Meu conselho para você, Yan o aventureiro,” disse Denomo, “é que você vá embora e volte quando eles tiverem deixado a cidade. Você vai morrer aí fora.”

“Não,” disse Yan, “eu tenho minhas armas e meu cavalo, me sirva aqui.”

“Muito bem, muito bem, que assim seja! Então use suas armas para manter essas portas vazias,” gritou o taverneiro, com seu julgamento final, “eu vou abri-las por alguns instantes e lhe darei algo para beber.” E então ele sorriu, pois gostava muito de preparar as bebidas para os forasteiros que nunca as tinham provado, mas Yan não pôde ver do lado de fora. “Você gosta de maçãs?, e bananas?”

“Maçãs e bananas são de meu gosto.” Disse Yan, satisfeito com a situação.

Então Denomo começou a fazer seus negócios, e preparou uma bebida com maçã e banana. Isso levou cerca de dez minutos, pelo que Yan pôde perceber, e foi um tempo no qual ele passou por muita ansiedade.

“Estou enviando um garoto com sua bebida,” gritou finalmente o taverneiro, “ele vai abrir as portas, te entregar, voltar e fecharemos de novo no mesmo instante. Como está o lado de fora? Vazio, não vai entrar nada?”

“Não, aqui está limpo,” disse Yan, “envie o garoto.”

Uma pequena fresta se abriu no meio das portas, e através dela surgiu um garoto de nome Dumos e que era um dos filhos do taverneiro, e seus olhos apareceram checando a situação de Cidaces ao redor da Ponta da Agulha. Ele viu apenas Yan segurando uma espada manchada de sangue e Famber o cavalo com todos os trambolhos que carregava; e não vendo mais nada saiu cuidadoso como um coelho saindo da toca.

“Olá, senhor,” disse Dumos, estendendo para Yan uma bandeja com um grande copo, “esteja servido!”

Yan guardou a espada na bainha e segurou o copo com as duas mãos, pois era um copo de vidro muito alto e largo, e sem alça. O garoto deu uma bela olhada no estado da cidade ao redor, depois se curvou e cumprimentou Yan, e voltou para dentro da taverna. Então Yan provou a bebida, e ela matou sua sede e agradou seu paladar, pois ele já havia comido muitos pratos feitos com bananas em terras distantes, e muitos outros feitos com maçãs em outras ainda mais além, mas as duas em um copo era algo novo. Ele se deliciou e gritou um agradecimento ao taverneiro.

“Então, é bom?” respondeu Denomo.

“Bastante,” disse Yan, “essa é a melhor bebida que tomarei nessas terras, e muitas milhas viajarei antes de beber algo assim novamente. Disso não tenho dúvidas.”

“Muitas milhas, é verdade!” Respondeu o taverneiro, “pois se quiser beber algo assim novamente terá que voltar aqui. A menos que meus concorrentes também tenham feito negócios para conseguir as frutas, mas disso eu tenho muitas dúvidas.”

Yan deu os últimos goles e esvaziou o copo, e logo o taverneiro voltou a gritar.

“Mais um copo seria de bom grado, meu senhor, Yan?”, ele disse.

“Quantos mais seus modos permitirem me dar.” Yan respondeu.

“Nesse caso espero que goste de mamões.” Gritou o taverneiro, e depois de uma breve pausa acrescentou: “então! Meu garoto, Dumos, disse que viu as cabeças deles jogadas aí fora, aos seus pés.”

“Sim, há cabeças próximas aos meus pés. E há agora mais do que havia quando ele veio.”

“Eh, eh! Obrigado, então!” Disse Denomo, “venha! Você manteve as portas limpas, entre e vou lhe servir de modos adequados.”

Então Yan amarrou Famber o cavalo em um dos postes-para-cavalos que ficavam do lado esquerdo da Ponta da Agulha, as portas se abriram e ele entrou na taverna. Com um pano tirado da cintura ele limpou o sangue da espada e guardou-a na bainha de couro, e então entregou ao taverneiro o grande copo vazio que segurava na outra mão. Ele pôde ver que a taverna era por dentro ainda mais magnífica do que diziam as descrições, pois ela era muito grande e cheia de mesas redondas de madeira, cada uma com quatro cadeiras baixas; haviam velas espalhadas que iluminavam o local, pois as janelas estavam fechadas e de outra maneira estaria muito escuro; havia uma grande lareira esculpida por mãos hábeis, mas ela ela para os tempos de frio e estava apagada; do seu lado direito o balcão onde Denomo preparava as bebidas, e em sua extensão haviam bancos com algumas pessoas sentadas, e haviam outras em pés e nas mesas. Yan tomou muitas bebidas que o taverneiro ofereceu, e eles contaram muitas histórias e passaram bons bocados durante toda a tarde.

“Há nessa cidade algum lugar onde eu possa conseguir um cavalo e um carro para ser puxado por dois animais? Pois um eu já tenho, Famber o cavalo. Mas ele carrega todos os meus bens, e sem outro tão forte quanto Famber e um carro eu sou obrigado a caminhar.” disse Yan pouco antes de ir embora, quando o sol já estava se pondo e a lua tomava seu lugar no céu.

O taverneiro contou sobre dois estábulos que ficavam em cantos opostos da cidade, um no nordeste e outro no sudoeste, e recomendou que Yan visitasse o do nordeste. Ele disse que a menos que os cavalos tivessem fugido ou morrido durante o ataque daquela manhã, ele conseguiria lá animais grandes e graciosos, e também carros muito firmes e adequados para longas viagens.

Yan se despediu, e o taverneiro havia gostado tanto das suas histórias e da sua companhia que lhe presenteou com muitas bebidas engarrafadas, algumas com misturas que Yan não havia tido tempo de provar naquela tarde. Ele carregou as costas de Famber com os novos pertences e os dois seguiram para o estábulo no nordeste de Cidaces.