A Vida e os Papéis de Carmen Santos

Texto originalmente escrito para a disciplina de História do Cinema Brasileiro, referente ao terceiro período do curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal Fluminense.

 

Carmen Santos na capa da revista Scena Muda nº 538, de 1931.

Maria do Carmo Gonçalves nasceu em Vila Flor, no norte de Portugal, em 8 de junho de 1904. Mas foi no Brasil que fez história: imigrou aos oito anos com a família, abandonou a escola para trabalhar pregando botões e estreou como atriz aos quinze, em 1919. Seus três primeiros filmes, entretanto, Urutau (1919), A Carne (1924) e Mademoiselle Cinema (1925) nunca foram exibidos ao público e Carmen só foi aparecer nas telas em Sangue Mineiro (1929), filme dirigido por Humberto Mauro, com quem faria muitas parcerias nos anos seguintes.

A divulgação desses filmes feitos em cima da figura de Carmen fez com que ela adquirisse status de estrela de cinema ao longo dos anos 20, algo completamente novo ao cinema brasileiro, estampando revistas, distribuindo autógrafos e recebendo inúmeras cartas de fãs apaixonadas. Mas foi atrás das telas que deu sua maior contribuição ao cinema no Brasil: como produtora, não só financiou projetos de extrema importância como também foi diretamente responsável pelo sucesso da carreira de grandes nomes como Humberto Mauro e Adhemar Gonzaga.

Carmen Santos fundou a Film Artístico Brasileiro (FAB) e a Brasil Vita Filmes, produtora de grande importância para o desenvolvimento do cinema sonoro no país. Atuou ainda em Onde a Terra Acaba (1933), de Octávio Gabus Mendes, e Favela dos Meus Amores (1935), Cidade Mulher (1936) e Argila (1940), os três dirigidos por Humberto Mauro, além da participação no lendário Limite (1931), de Mário Peixoto.

Seu maior projeto foi Inconfidência Mineira (1948), filme baseado no episódio histórico de mesmo nome, no qual Carmen foi não só atriz e produtora mas também diretora – das primeiras do Brasil, junto com Cléo de Verberena e seu O Mistério do Dominó Preto (1930) e Gilda de Abreu e seu O Ébrio (1946).

Entre seus trabalhos como atriz, seu legado como produtora e seu pioneirismo como diretora, hoje sabemos de Carmen Santos apenas pelos inúmeros registros que há de sua vida e obra em revistas e jornais. Dos filmes, apenas Sangue Mineiro, Argila e Limite sobreviveram aos dias atuais, o restante foi irremediavelmente perdido em incêndios que abastaram seus próprios estúdios em 1958, seis anos depois de ter morrido devido a um câncer aos 48 anos.

A vida e os papéis de Carmen Santos

A carreira de Carmen Santos no meio cinematográfico conheceu seu início em 1919, quando a jovem de então quinze anos foi selecionada para protagonizar o filme Urutau (1919), dirigido pelo americano William Jansen. Nessa altura, Carmen era apenas uma garota pobre e filha de imigrantes portugueses, condições que a obrigaram a abandonar a escola pública para trabalhar pregando botões, sendo posteriormente promovida à vendedora pelas graças da beleza que tinha.

Com o apoio de comerciantes, William Jansen criou a Omega Filmes e partiu para produzir Urutau, filme com roteiro baseado em lendas indígenas, missionários e tensões sexuais. Através de um concurso, Carmen Santos foi a selecionada entre outras dezenas de jovens testadas para interpretar o papel de Marta, uma jovem desamparada e inocente. O filme chegou a ser elogiado nas duas exibições fechadas para jornalistas do Rio de Janeiro e de São Paulo, mas após não conseguir espaço nos circuitos lotados de filmes estrangeiros, todas as cópias acabaram desaparecendo junto com o diretor.

No ano seguinte, em 1920, Carmen Santos foi entrevistada pela revista Palcos e Telas, em artigo publicado com o título Uma Futura Estrela: Carmen Santos. Até aparecer para o público pela primeira vez nas telas em 1929 com o filme Sangue Mineiro, essa foi a maneira pela qual Carmen se manteve no imaginário do público: passou o decorrer dos anos 20 divulgando trabalhos através de ensaios fotográficos e entrevistas para revistas, e assim se tornou a primeira estrela do cinema brasileiro mesmo sem o público tê-la visto em filme.

Logo após o insucesso com Urutau, Carmen se envolveu com Antonio Lartigau Seabra, um empresário de família de origem portuguesa. Com sua ajuda financeira, Carmen produziu e protagonizou A Carne (1924) e Mademoseille Cinema (1925), o primeiro sendo adaptação do romance de Julio Ribeiro e o segundo da obra de Benjamin Constant, ambos dirigidos pelo cineasta Leo Merten e assinados pela produtora fundada por Carmen, a Film Artístico Brasileiro (FAB). Carmen Santos interpretou, respectivamente, as jovens Lenita e Rosalina, mas ela considerou o primeiro filme aquém de suas pretensões e ambos foram arquivados antes da finalização, sendo posteriormente perdidos durante um incêndio em 1926.

Nesse período Carmen se consagrou como estrela de cinema. Suas imagens como Lenita e Rosalina sempre figuravam em revistas como Scena Muda e Cinearte, fazendo publicidade não só dos filmes nunca lançados mas de sua própria imagem como atriz. Mesmo sem ainda ter sido vista em tela, foi por causa dessas propagandas que Carmen passou a receber cartas de fãs apaixonados e a respondê-las com fotos autografadas.

Carmen Santos como Lenita em A Carne.

Sua imagem foi tão adorada pelo público que ela foi enviada como correspondente para a Europa em 1927 por Adhemar Gonzaga, então diretor da revista Cinearte, e apesar dela não ter enviado de volta nenhuma linha, o fato foi citado pela revista como grande notícia. Entretanto, a ausência de Carmen do Brasil a fez perder para Nita Ney o papel de protagonista em um filme que viria a ser o terceiro do promissor diretor mineiro Humberto Mauro, Brasa Dormida. Em 1929 Adhemar Gonzaga resolveu iniciar carreira como diretor e convidou Carmen para atuar no mais importante dos três papéis femininos do filme Barro Humano. Ela aceitou sem pensar duas vezes, e como relatou em entrevista posterior à revista Cinearte, se arrependeu:

“Tive um momento de desfalecimento e fraqueza, e cheguei a ir filmar. Mas, em pouco tempo, a visão amarga de todas as minhas provações me obrigou a desistir, e… desertei, mais e mais convencida de que o Cinema, embora exercendo sobre mim fascinação irresistível, não passava, para a minha felicidade, de uma miragem!”

Sem Carmen, o filme de Adhemar Gonzaga foi muito bem recebido, e foi a ele que ela imediatamente procurou, solicitando um novo papel apenas algumas semanas depois de negar o primeiro. Adhemar era admirador de Carmen desde suas primeiras aparições na revista Cinearte, e deu um jeito de encaixá-la no quarto filme de Humberto Mauro: assim, apenas em 1929 o público satisfez seu desejo de finalmente ver Carmen Santos nas telas, no papel da protagonista ingênua e sofredora do filme Sangue Mineiro. Apesar de ter sido muito mal recebido pela crítica e de ter ficado poucas semanas em cartaz, o filme marcou o início da parceria entre Carmen e o diretor Humberto Mauro, com quem desenvolveu e realizou vários projetos nos anos seguintes.

No mesmo ano Carmen se associou ao diretor Adhemar Gonzaga para o filme Lábios Sem Beijos, o qual ela iria protagonizar e financiar integralmente. O diretor acabou dando mais atenção a outro filme que realizava simultaneamente, Saudade, que seria o primeiro longa feito pela Cinédia, seu próprio estúdio, e Lábios Sem Beijos passou para as mãos  de Humberto Mauro. Em março de 1930, Carmen se ausentou temporariamente devido a um tombo nos sets de filmagem, e durante sua ausência se descobriu grávida, o que a levou a abandonar o projeto. A atriz Lelita Rosa assumiu o seu lugar e Lábios Sem Beijos foi lançado como sucesso, com críticas positivas.

Ainda em 1930, Carmen foi a convite de Adhemar Gonzaga visitar as gravações do filme Limite, do diretor Mário Peixoto. Ele já a conhecia pelo nome, e ela se interessou tanto pelo que viu que o convidou para dirigir seu próximo filme. Mário Peixoto aceitou trabalhar na próxima produção de Carmen Santos contanto que ela aceitasse gravar algumas cenas para o próprio Limite, e assim se deu seu único trabalho como atriz naquele ano.

Juntos começam a trabalhar no filme Onde a Terra Acaba, com roteiro escrito por Mário Peixoto para ser protagonizado especialmente por Carmen Santos no papel de uma escritora madura e decidida que se refugia em uma ilha para escrever, onde se apaixona por um jovem que a apoia como escritora, mas tudo é abalado pelo aparecimento de um antigo amante. Mario e Carmen se desentenderam e ela o demitiu, recorrendo a Adhemar Gonzaga para salvar o projeto, que não aceitou pois trabalhava em outros projetos. Mas Carmen resolveu não desperdiçar toda a divulgação feita para revistas e jornais em cima do nome Onde a Terra Acaba e resolveu reaproveitá-lo em uma adaptação do romance Senhora, de José de Alencar.

O novo Onde a Terra Acaba foi dirigido por Octávio Gabus Mendes e estreou em 1933, recebendo críticas ruins e ficando poucas semanas em cartaz. Grande parte do insucesso do filme se deu pelo fato de que os cinemas brasileiros já estavam exibindo filmes americanos não-mudos, inclusive grandes musicais, e as legendas superpostas no filme de Carmen Santos não satisfez a audiência.

Em janeiro de 1932, o governo do então presidente Getúlio Vargas realizou a Convenção Cinematográfica Nacional, na qual Carmen Santos foi a única mulher que se manifestou, tendo se mostrado entusiasmada com a possibilidade de realizar filmes educativos.

Carmen Santos em Sangue Mineiro.

Ainda como forma de reação ao cinema falado e de musicais que dominavam o mercado, Carmen Santos e Humberto Mauro se juntaram em 1934 para fundar a Brasil Vox Filmes. Aproveitaram-se da lei que obrigava a exibição de curtas brasileiros nas salas de cinema, e rapidamente produziram o curta As 7 Maravilhas do Rio de Janeiro no mesmo ano, 1934, e outros dois no ano seguinte, No Jardim Zoológico e Pescadores de Sepetiba, 1935.

Carmen e Humberto realizam também em 1935 o filme Favela dos Meus Amores, produzido e protagonizado por Carmen no papel de Rosinha, uma professora da favela que desperta os amores de um sambista e de um estudante. O filme foi bem recebido pela crítica e sucesso de público, e isso alavancou a realização de um musical no ano seguinte: Cidade Mulher (1936).

Novamente com a direção de Humberto Mauro, Carmen protagonizou sob o papel de Dóris, a filha de um empresário falido, que conta com a ajuda de um namorado compositor para produzir uma revista de sucesso. Nesse período, Carmen se envolveu em uma polêmica disputa com duas instituições surgidas a partir do decreto de Getúlio Vargas de 1932: a Associação Cinematográfica de Produtores Brasileiros (ACPB) e a Distribuidora de Filmes Brasileiros (DFB). A essas instituições cabia a tarefa de garantir a obrigatoriedade da exibição de filmes brasileiros nas salas de cinema, arrecadar parte do lucro dessas exibições e investir o dinheiro de volta no cinema nacional. Carmen havia aderido à associação por conta de Adhemar Gonzaga, que era um dos líderes do projeto, e a disputa se deu por conta do mau uso dessa arrecadação.

Antes do lançamento de Cidade Mulher, a DFB queria que Carmen fechasse um contrato de exclusividade de exibição que garantiria para a DFB 20% da bilheteria bruta do filme em São Paulo e no Rio de Janeiro, e outros 30% nas cidades do interior. Carmen se recusou e a DFB ameaçou proibir a exibição do filme, mas a estreia aconteceu como planejado, em 27 de julho de 1936. Entretanto, a exibição foi de curta duração, as críticas foram extremamente negativas e a amizade entre Carmen Santos e Adhemar Gonzaga acabou.

Em 1938, Carmen iniciou a produção de mais um filme com Humberto Mauro: Argila. Lançado apenas em 1942, a trama tinha Carmen no papel de Luciana, uma jovem rica e viúva que seduz um artesão, Gilberto. O filme trazia grandes mudanças na forma que as protagonistas femininas eram representadas no cinema; em uma das cenas, Luciana toma o papel de atividade, subverte a tradição da prerrogativa masculina, e rouba um beijo de Gilberto em uma imagem que foi destacada no cartaz de divulgação.

A produção demorada do filme se deu pelo fato de Carmen ter começado a trabalhar em dois projetos em 1937, logo após a finalização de Cidade Mulher: a construção dos estúdios da Brasil Vox Filmes e a realização de um grande filme chamado Inconfidência Mineira.

Os estúdios ficaram prontos em 1939, construídos num terreno amplo na Rua do Bonfim, no Rio de Janeiro, e contavam com os modernos equipamentos de som que o mercado cinematográfico exigia à época. O nome havia mudado de Brasil Vox Filmes para Brasil Vita Filmes em 1935 pois o primeiro era constantemente reduzido pelos jornais para “Vox”, e ainda mais constantemente confundido por “Fox”, e isso causou um processo da empresa norte-americana que foi solucionado com uma troca de nome da produtora de Carmen Santos.

Para a realização de Inconfidência Mineira, filme que retratou o episódio histórico de mesmo nome, Carmen entrou em contato com o governo Getúlio Vargas em 1939 através do então Ministro da Educação Gustavo Capanema, perguntando se tal obra seria contrária aos interesses daquele governo. Capanema respondeu que não só qualquer tentativa de fazer “uma obra artística e educativa” a partir de “uma das mais lindas páginas da história brasileira” era uma atitude digna de nota, mas também muniu Carmen com o apoio do historiador Afonso de E. Taunay, ajudando-a a construir figurinos e locações fidelissimas. Em carta ao presidente Vargas, Capanema também diz que Carmen pediu a introdução de leis que suportassem e valorizassem o cinema brasileiro, mas que ela não havia entrado em detalhes que permitissem que a questão fosse melhor considerada.

Carmen Santos não só produziu e dirigiu o filme, como protagonizou no papel de Barbara Heliodora. A produção foi conturbada e a primeira exibição se deu apenas em 1948, 11 anos depois da concepção do projeto. Após críticas ruins e boicotes de exibidores, Inconfidência Mineira foi um fracasso de bilheteria e levou a Brasil Vita Filmes à falência. Carmen foi obrigada a vender seus estúdios em 1950, vindo a falecer precocemente em 24 de setembro de 1952, aos 48 anos, vítima de um câncer. Deixou um pedido que seus estúdios continuassem sendo utilizados para desenvolver o cinema nacional, e assim as instalações foram vendidas para a Herbert Richers e posteriormente à Rede Globo. Em nota, uma última mensagem:

“Nada desejo. Nada espero. Nada.”