O Reconhecimento da Superfície Verde

A nave se materializou um pouco longe do Planeta 1 do Setor 7, e por isso os tripulantes não o viram imediatamente. Fred só foi acordar quando as ondulações no espaço terminaram de se dissipar, e imediatamente ele ouviu um gemido vindo da sua direita. Ele tirou os pés que estavam estendidos sobre o painel e se sentou olhando para o lado.

“Minha nossa, garoto!” Ele disse, enquanto Sam vomitava nos próprios pés. “Eu já te disse, uma hora você se acostuma.”

“Sim, sim…” Sam disse murmurando, quase como se tivesse feito algo de errado. “Diz para a nave limpar isso, por gentileza.”

Fred alcançou alguns botões no painel e logo um pequeno robô multi-tarefas se soltou de um compartimento ao lado da porta principal e começou a limpar o chão. O robô tinha uma inteligência artificial de mais baixo nível, e nos seus pobres julgamentos decidiu que seria uma boa ideia limpar não só o chão como também as pernas de Sam até a altura do joelho.

Fred se levantou para pegar uma xícara de café do outro lado da sala e ver se ela o faria acordar por completo e se livrar daquela sensação de que o tempo não passava. O interior da nave estava sempre quieto demais para ele. “Quer café?” Ele perguntou. Sam estava ocupado se sentindo aborrecido com o mal estar do vômito e com o braço do pequeno robô aspirando sua perna, mas respondeu que sim, claro, e que café é sempre ótimo.

Sam resolveu se colocar de pé, esticar todo o corpo e fazer estralar as pontas dos pés e o pescoço pois ele sentia como se todos os ossos tivessem sido ligeiramente deslocados para mais perto uns dos outros. Mas quando ele olhou para a grande tela diante de si um pequeno detalhe quase fez seu coração sair pela boca: um pontinho verde. Muito, muito longe em algum lugar estava um pontinho verde; e ele rapidamente verificou que era para lá que a nave estava indo. Depois de um breve murmúrio de susto, ele apontou para o pontinho e arregalou os olhos.

“Verde!” Ele disse, e depois ficou reto como uma vara e apertou as sobrancelhas. “Verde…?”

Ouvindo isso, Fred se virou de uma vez e também ficou fascinado. Sua mente se desconectou tanto do seu corpo que enquanto imagens de mil memórias passavam dentro da sua cabeça os seus músculos pararam de indicar qualquer sinal de atividade. Os seus dedos se relaxaram e ele deixou as duas xícaras de café caírem e sujarem o chão, e imediatamente o robô multi-tarefas julgou essencial limpar suas pernas e começou a agir.

Depois de alguns segundos que Fred e Sam passaram olhando em silêncio para o Planeta 1 do Setor 7 na tela, Fred se livrou do robô, pegou mais duas xícaras de café e parou ao lado de Sam. Os dois com os olhos maravilhados apontados para o círculo verde que ia ficando cada vez maior na tela, pois a nave estava se aproximando muito rápido do planeta. Fred entregou uma das xícaras para Sam, que deu um gole profundo, mas os dois estavam tão encantados que o único som foi o do robô multi-tarefas se acoplando novamente ao compartimento ao lado da porta.

“Quem diria, hein?” Disse Fred finalmente. “Eu não esperava que o Planeta 1 fosse verde…”

Sam assentiu com a cabeça. “É…” mas tanto ele quanto Fred estavam com os olhos fixados no planeta crescendo na tela. Os dois sabiam que só havia uma coisa que poderia estar sobre a superfície fazendo o planeta ser verde: árvores. Eles estavam preparados para lidar com árvores e até com florestas, mas o planeta inteiro os pegou desprevenidos. “É muito parecido com o Planeta Natal–” e então ele percebeu o lado escuro do planeta e novamente ficou em silêncio admirando. Havia um número incontável de pequenos pontos brilhantes naquele lado que ficava cada vez menos escuro conforme eles se aproximavam, e entre essa metade escura e a outra metade verde do planeta havia uma faixa de vermelho. Não era o vermelho causado por um efeito da falta de luz sobre a superfície verde, mas sim um vermelho vivo, quase rosa.

“Então… vida inteligente?” Disse Sam percebendo que enquanto o planeta girava e a noite caía sobre sua parte verde, novos pontos de luz surgiam em todos os lugares, mas a faixa vermelha continuava intacta. “Devemos reportar isso? Porque nesse caso nosso procedimento seria completamente diferente… Quer dizer, nós deveríamos voltar e eles mandariam alguém pra negociar, não?”

“Vamos esperar a nave analisar a superfície antes de fazer qualquer coisa. Vida inteligente avançada o suficiente pra produzir tanta luz? Pode ser.” Fred se sentou e voltou a beber o café. “Vida inteligente vivendo em um planeta que é pura floresta? Duvido muito.”

Sam concordou e foi fazer os preparativos para a ativação do programa de instalação da colônia. Ele estava de pé diante de um painel lateral inserindo algumas informações necessárias, mas continuava dando olhadelas para a tela principal da sala de comando da nave. O Planeta 1 do Setor 7 continuava se comportando de maneira muito curiosa: agora a parte verde parecia se mover suavemente, como se um terremoto estivesse acontecendo lá; a parte escura continuava piscando e a faixa vermelha que separava os dois lados permanecia inabalada.

Eles estavam preparados para lidar com superfícies esquisitas e formas de vida peculiares, mas a mistura dessas duas coisas com o verde continuava impressionando Fred. Ele continuava sentado olhando para a tela, concentrado e com a mente mergulhada em pensamentos profundos. “Muito bem”, ele disse quando voltou para si e olhou para as pequenas telas no painel. “A nave está pronta para entrar na atmosfera. Ativou o programa de instalação?” Sam respondeu que sim, e então eles se prenderam nas cadeiras e se prepararam para eventuais turbulências.


Nota: Essa não é, evidentemente, a história toda. Eu escrevi essa parte e ela ficou por muito tempo acumulando poeira nos confins do painel administrativo desse blog, e uolô! Aparentemente há poucas esperanças de que irei escrever o restante dela em algum tempo próximo. A camada de poeira estava se tornando tão grossa que não sei se eu seria capaz de retirar ela no futuro. Portanto resolvi postar mesmo apenas o fragmento, e mover adiante para contar outras histórias. Vou-me já!