Três notas em Harry Potter

Repostando aqui esse pequeno texto que escrevi para postar no grupo Clube dos Autores de Fantasia.


Três coisas ficaram marcadas na minha memória sobre o universo de Harry Potter:

Primeiro, as informações que são entregues para os leitores podem claramente ser separadas em dois grandes grupos: as coisas que são familiares a nós e as coisas que não são.
Com “as coisas que são familiares a nós” eu me refiro aos cabelos, alturas dos personagens, formato dos lábios, laços parentescos etc; elementos que não são propriamente de fantasia e que definitivamente existem no mundo real e fazem parte das nossas vidas, e que consequentemente não precisam de nenhum tipo de explicação porque nós já os conhecemos suficientemente. Nos momentos em que alguma informação precisa ser passada para o leitor referente a alguma dessas coisas, isso é feito com o uso do narrador. Logo frases como “A cicatriz em sua testa, que tinha formato de raio, estava queimando…” ou “Tio Vernon, tia Petúnia e Dudley eram os únicos parentes vivos de Harry” e outras semelhantes exemplificam isso de o narrador aparecer, entregar a informação que precisa ser entregue e pronto.

Por outro lado, há as coisas que pertencem a um mundo que o leitor ainda não conhece e que consequentemente precisam de explicações para que sua função dentro da história possa ser compreendida. Nesses casos o narrador não aparece e entrega as explicações, como se fosse ele o único capaz de iluminar as nossas mentes e traduzir os elementos fantasiosos em coisas que nós podemos compreender. O que há é uma mistura entre a necessidade das explicações e o que acontece na história. Logo, quando Harry ganha o Manto da Invisibilidade (que é algo fantasioso e portanto pode ter qualquer outra característica além da invisibilidade implicada pelo nome), nós ficamos sabendo o que é preciso saber sobre ele por meio da carta que acompanha o presente. Semelhante ao que acontece na primeira aparição da Nimbus 2000, que se dá em um momento em que várias pessoas contemplam ela em uma vitrine e falam sobre o quanto ela é uma vassoura sensacional e tudo o mais, e também há em seguida uma explicação dada por Ron para o Harry, se minha memória não falha.

Em segundo lugar, apesar de me lembrar muito bem de longas descrições físicas sobre como os personagens, os lugares e os objetos apareciam diante dos olhos do Harry, eu me lembro muito melhor de como ele se sentiu diante das visões. Como o Harry se sentiu na primeira aparição do Hagrid, e do Dumbledore, e o momento do Chapéu Seletor, e a Hermione de vestido e tudo o mais: quando eu paro para me lembrar dos “momentos” da história, a primeira coisa que é evocada em mim é a sensação do que estava acontecendo no momento. Quando penso no Início de O Cálice de Fogo em que Voldemort mata o jardineiro Frank, por exemplo, penso primeiro em uma sensação gigantesca de suspense e horror do que no visual da coisa toda, mesmo com as descrições – isso me parece ser uma causa direta da empatia que é estabelecida entre o leitor e os personagens, no sentido que eu leitor consigo me colocar tanto no lugar deles que a “sensação de ter estado lá” me atinge.

Em terceiro lugar, a sensação de grandeza que é estabelecida sem que o narrador precise contar diretamente o quanto o universo da história é grande e complexo, e ainda por cima o constante aumento nessa sensação de grandeza conforme a história progride. Eu até diria que nós estamos limitados a conhecer apenas as coisas que se relacionam com a história; eu me lembro de ter lido o primeiro livro e pensado “uau, que universo gigantesco, muitas histórias interessantes poderiam ser contadas aqui” mas eu jamais imaginaria que ao terminar a leitura do segundo livro eu estaria pensando o que eu pensei, “oh bem, então o universo de Harry Potter é ainda maior do que eu conhecia pelo primeiro livro” e a mesma coisa aconteceu com as leituras seguintes. Há sempre algo novo para se conhecer nas novas histórias porque nas histórias velhas nós ficamos conhecendo apenas o que se precisava conhecer.