Eu e minha ilha

Um dia um garotinho chegou numa tartaruga na minha ilha. Eu fiquei incrível, porque ele era muito limpinho; vestia umas roupinhas assim bem novinhas. É que todos os outros garotos tinham chegado vestindo uns trapos muito feios… então eu já não sei de mais nada. Sempre achei que a viagem devia de ser realmente muito complicada. Mas aí chegou esse garoto limpinho. Eu não sei mesmo. Fui correndo para a praia quando vi ele chegando lá de longe. Gritei que nem um louco e ele até olhou pra mim, mas não me gritou nada em resposta. Só colocou as mãos na cintura (pra não perder o equilíbrio em cima da tartaruga dele, eu acho; ou pra fazer pose) e continuou vindo pra minha ilha; aí quando ele chegou eu fui logo pra cima dele perguntar das roupas. Falei assim: “garoto, me conta! E essas roupas tão limpinhas?”

Pois aí eu já não sei dizer se ele fez que não me ouviu ou se ele realmente não me ouviu, mas ele me respondeu assim: “cadê os elefantes, oh meu senhor?” Ah! Então aquele pestinha tinha era se perdido. Ele estava atrás dos elefantes. Mas e as roupinhas? Eu cheguei com a cara bem perto dele pra ver se ele se intimidava, abri uns olhões pra ele saber que eu estava falando muito sério e perguntei de novo, “e essas roupinhas aí, cara?” Ele bateu com o pé no chão, deu uns saltos emburrados e começou a chorar de tão nervoso que ficou. Fez uma pirraça das grandes. Das grandes mesmo. Aí assim de um segundo pro outro ele montou na tartaruga dele e foi embora. Fiquei olhando e coçando a cabeça. Mas bem, e daí? Pensei, “deixa pra lá, então”. Eu tinha um montão de coisas pra fazer e não podia ficar ali parado…

Mas no outro dia ele voltou com umas cem gaivotas voando por cima dele. Elas malemal batiam as asas, só planavam em círculos. Fui correndo para a praia e fiquei admirando aquilo, achei muito bonitinhas aquelas gaivotas todas ordenadas. E o garotinho das roupas limpas em cima da tartaruga, parado que nem uma estátua com aquelas mãozinhas na cintura. Devia estar se achando muito elegante. Como eu já tinha conhecido ele um pouco, pensei “nossa, olha só que mau caráter, imagina que orgulho e que ego ele não deve ter, aquele danado”. Ele foi chegando mais perto e justo quando estava para atracar na praia a tartaruga fez uma curva nas águas. Eles foram pro outro lado e ficaram dando umas voltas na frente da minha ilha. Ah não. Gritei pra ele, “vem pra cá seu pestinha! E essas roupas limpinhas aí? Como que você fez?” E ele nada, só de pé, do mesmo jeito; e as gaivotas também, tudo lá voando. Fiquei nervoso e fui fazer minhas coisas. Umas duas ou três horas depois, quando eu já estava quase esquecendo da coisa toda, olhei pra cima e as gaivotas ainda estavam lá. No mesmo instante elas se foram. Acho que elas estavam só esperando eu olhar pra poder ir embora. Não tenho dúvida que foi ordem daquele garotinho.

Aí teve um último dia em que ele apareceu, que foi o dia seguinte. De novo naquela tartaruga, de novo com os braços na cintura, de novo com as gaivotas. Umas cem delas, de novo. Fui correndo pra praia e fiquei olhando pras gaivotas enquanto se aproximavam, aí quando olhei pro garotinho reparei que tinham umas outras cinquenta tartarugas atrás dele, cada uma com um coelho em cima. O garotinho, ah ele quando estava para chegar na minha ilha novamente fez a curva e ficou dando voltas na minha frente; mas as tartarugas com os coelhos vieram direto pra minha prainha. Os coelhos sairam pulando e desapareceram atrás de mim, aí as tartarugas foram embora e o garotinho ficou lá circulando embaixo das gaivotas. Praguejei ele demais. Gritei pra ele mandar aqueles coelhos embora porque eu não gostava de coelhos. Eu não sei o que passava na mente dele, mas de certo que era pura maldade. Era um diabinho aquele garoto. Xinguei ele de todos os nomes que consegui me lembrar, nomes que eu não ouvia desde que eu tinha a idade dele e fazia umas coisas parecidas. Aí ele gritou, aquele peste, gritou pra eu calar a boca; e veio com a tartaruga dele pra minha praia. Desceu sem nem tirar os braços da cintura e ficou me encarando. Aí eu fiquei encarando ele também. Eu já não aguentava mais. Olhei pra ele com uma cara de que ele não era bem vindo, que era pra ele ir embora porque ele estava me fazendo passar muita raiva. Mas ô menino determinado! Do jeito que parou quando desceu da tartaruga, ficou. E ficamos lá nos encarando até o céu ficar laranja e depois escuro. E passamos a noite inteira nos encarando; quer dizer, eu acho. Tudo tão preto que eu nem via ele mais, mas eu sabia que ele estava lá e ele sabia que eu estava também. E também as gaivotas o tempo todo soltando aqueles sons horríveis. Quando o sol começou a nascer de novo eu percebi que não era coisa da minha cabeça e que de fato nós estávamos nos encarando desde a tarde anterior. E ele com aquelas roupas ainda limpinhas. Eu não sei como. Bem. Fiquei de saco cheio da coisa toda. Eu realmente tinha muitas coisas para fazer (e já tinha perdido uma noite e não sei quantas horas naquela molecagem), então desisti. Peguei e falei pra ele me acompanhar porque eu iria mostrar para ele onde eu guardava os elefantes.