Senhor!

Quando eles chegaram ela já táva morta. Mais uma. Eu táva cansado. Não aguentava mais. Ficava olhando pra eles passando e pensava, “vai a Lúcia, vai a Dona Maria, vai o Sebastião, mas não vai eu.” Será que algum dia ia eu? Isso aí eu ficava pensando. Quase sozinho já. Eu e mais uns vinte só, debaixo daquela barraca velha. E do outro lado eles iam passando. Cheios de roupa bonita. Com umas pedras que eles deviam ter trazido lá do outro lado da muralha; que aqueles escravos tristes deviam ter trazido, porque eles mesmos não saem. E eu pensando, “será que algum dia vai eu?”

Não sei de onde eu tirava essas coisas, mas eu tinha esperança. Eles passavam e beijavam a testa de alguém; mas nunca a minha. E um pouco depois sumiam no fim da rua. Quando chegavam lá no final, desapareciam de repente. Saíam cheios de pressa, que nem se tivessem outra coisa pra fazer. Mas eu nunca ia. Eles nunca beijavam minha testa; nunca… ah! Ah! Você tá entendendo então porque eu fiz aquilo? Nunca! Nunca, os desgraçados… Nunca me deixavam ir com eles. Não teve outro jeito, não. Ou eu fazia alguma coisa, ou eu ia… porque… porque se fosse depender só deles, eu ia…

– Senhor!

Eu não quero falar disso, não!

Eu quero falar deles.

Desgraçados, eles eram isso daí. A injustiça já nascia nos chifres deles. E naqueles cinturões que eles usavam. Ah, tivesse eu nascido com aquelas coisas… ah, eu ia! Eu ia beijar a testa de todo mundo. Eu ia beijar a testa do Seu Geraldo, e do Mauro, e da Margarida, especialmente da Margarida. Eu ia beijar a Margarida primeiro, porque a coitada táva pior que eu. Ela táva que não aguentava mais. Eu ficava morrendo de pena dela, mas eu ia fazer o quê? A gente táva na mesma situação. Mas eu aguentava mais um pouquinho, ela não. Quando eu saí de lá ela já não aguentava mais nada. Se não beijaram a testa dela naquele dia, ela… ela! Ela…

– Senhor!

Ela, eu não sei não. Coitada da Margarida. Tudo culpa deles! Deles e de quem mandava neles! …mas, não é… mas aí é só coisa que me contaram… Por que é que eles não ficavam mais um pouquinho na rua? Eles passavam tão rápido. A rua era tão pequenininha. Na barraca de onde a gente ficava dava pra ver o começo e o final. A gente sempre via quando eles chegavam e quando eles sumiam. Todo mundo ficava feliz quando eles beijavam a testa de alguém. Aí depois a gente ficava cansado porque não tinha sido a gente. Era ambíguo assim…

– Senhor!

Cê me desculpa. Cê tinha me perguntado da sua mãe. Eu não sei não, meu garoto. Quando eles chegaram ela já táva morta…