A Bela e a Fera através dos tempos – Origem e Versões de Cinema

Parte 1: Origem da história – Antecedentes e primeiras versões

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Parte 2: Três Filmes

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Link para o roteiro dos vídeos.
(As fontes, referências e complementos abaixo compreendem os dois vídeos da série; também estão disponíveis no fim do roteiro do link acima.)

1. Referências e Recomendações
(pt) Livro que inclui as duas versões de A Bela e a Fera citadas no vídeo e uma introdução sobre as duas autoras que serviu como principal base à contextualização que eu fiz.
(pt) Artigo da Aída Carla Rangel comentando o livro acima e comparando alguns pontos das duas versões; e inclusive levantando dúvidas em relação à biografia das autoras (por ex, Madame de Villeneuve teria se casado com 11 anos).
(en) Maioria dos contos de fadas similares à Bela e A Fera citados.
(en) Outros contos de fadas, similares à Leste do Sol e Oeste da Lua.
– (pt) Conto “A Leste do Sol e Oeste da Lua”.
(en) Índice ATU, que classifica contos populares ao redor do mundo de acordo com “motivos”. (Contos similares à Bela e A Fera encontram-se sob o tipo 425, “busca pelo marido perdido”)
– (pt) O site acima também é um banco de dados maravilhoso de contos populares. Há contos de vários lugares e em várias línguas. Basta acessar este link e selecionar “português” em “language” ou “language of origin” e desfrutar.
(en) Ensaio “On Fairy Stories”, do Tolkien, que permanence a melhor coisa que eu já li sobre contos de fadas.
(pt) Ensaio “Sobre Contos de Fadas”, do Tolkien.
“The Uses of Enchantment” (“A Psicanálise dos Contos de Fadas), do Bruno Bettelheim: não tenho o pdfzão da massa, mas fica a recomendação. A primeira parte do livro, e especialmente a introdução, são maravilhosas e exploram bastante algumas características dessas histórias.
(en) Sobre o problema do narrador, recomendo “Defining Media from the Perspective of Narratology”, da Marie-Laure Ryan, que eu usei como base para formular a explicação do vídeo.
(pt) Entrevista sobre Charles Perrault cheia de reflexões interessantes com Eliane Bueno Ribeiro, tradutora do autor.
(pt) Entrevista com a rainha Karin Volobuef sobre Hans Christian Andersen, também cheia de reflexões interessantes.
(pt) Sobre os protagonistas em contos de fadas serem figuras passivas, recomendo meu vídeo sobre Vladimir Propp e sua “Morfologia dos Contos de Fadas”, em que eu abordo as teorias dele por meio de uma análise de estrutura de enredo.
(pt) Sobre como estabelecer a fantasia do filme, meu vergonhoso porém bem-intencionado vídeo “Como filmes de fantasia contam que não se passam no mundo real?”.
(pt) Sobre o que é o “caráter” do personagem, meu vídeo “Vilões Empáticos, Severino de O Auto da Compadecida e Caráter/Caracterização”.
Album no imgur com as pinturas que aparecem no primeiro vídeo e seus autores.
Album no imgur com as ilustrações que aparecem no primeiro vídeo e seus autores.

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2. “Toda uma ideia equívocada de que contos de fadas se resumem a princesas, principes encantados, e ao amor salvando tudo”
Por razões diversas, quando as pessoas pensam em “contos de fadas” vem-se logo à mente a imagem da princesa no topo do castelo aguardando o príncipe encantado – como se Rapunzel fosse a síntese máxima dessas narrativas folclóricas. Pelos meus entendimentos, a Disney realmente enraizou esses três elementos de maneira muito profunda no imaginário popular. Bem. É verdade que muitos contos de fadas, talvez a maioria dos mais conhecidos, possuem protagonistas que são príncipes ou princesas, ou então possuem um protagonista zé-ninguém que termina a história se tornando herdeiro de um grande reino – mas eu devo dizer, é muito raro esses elementos assumirem status central no enredo.

No caso dos contos com protagonistas que são príncipes ou princesas e que tratam disso como algo relevante, penso que os maiores representantes são os contos sobre casamentos arranjados entre realezas e os contos sobre príncipes se mostrando dignos de herdar o reino. Digamos, A Pastorinha de Gansos (dos Grimm), que é sobre uma princesa entregue para um príncipe de um reino vizinho e que acaba sendo substituída por uma impostora; ou então As Três Penas, sobre um rei decidindo qual dos filhos herdará seu cargo. Nesses casos, o título das personagens tem relevância em termos de enredo.

Depois, no caso dos contos que terminam com o personagem se tornando príncipe ou rei (como, digamos, Irmãozinho e Irmãzinha (dos Grimm), sobre irmãos se aventurando pelo mundo numa fuga de uma madrasta malvada; ou João-Ouriço (dos Grimm), sobre um garoto-ouriço tentando se virar sozinho no mundo), o fato dos protagonistas ganharem um reino no fim da história me parece muito mais funcionar como uma recompensa por feitos incríveis, ou então como um símbolo das transformações pelas quais o personagem passou.
Em ambos, seria um erro dizer que são histórias “sobre” príncipes/princesas.

Já em relação aos príncipes encantados, oras bolas, há uma caralhada de contos de fadas sobre príncipes encantados – mas aí são príncipes que foram afetados por algum encantamento. Todos os contos citados no vídeo são exemplos disso; o índice ATU tem 60 “tipos” de contos classificados como “marido, esposa ou outro parente supernatural ou encantado” (http://www.mftd.org/index.php?action=atu&act=range&id=400-459).

E sobre o amor salvando tudo… oh boy. Coisa da Disney. Acho que eu nunca li um conto de fadas que tratasse diretamente do amor da maneira que nós concebemos na sociedade brasileira contemporânea. Me lembro de O Rei Sapo ou Henrique de Ferro (dos Grimm), em que, se a tradução que eu li estiver correta, o sapo promete ajudar uma garota contanto que ela “o ame”, seja amigo dele, jante com ele etc. Fora isso, hum… pra não dizer “nada”: conheço muitos contos que tratam sobre sexo, ou desejo sexual (geralmente é assim que eu defino os casos de “amor à primeira vista”), e muitos que tratam sobre casamento (os contos citados no vídeo, por exemplo; especialmente A Bela e a Fera). No fim da história, o que salva a Fera não é a bela dizendo “eu te amo” – é a bela dizendo “eu aceito casar com você”. Em outras histórias, é “eu aceito me deitar com você”, por aí vai. O ponto é: nós estamos em 2018, e um personagem aceitar se casar com o outro (especialmente em casos de casamentos arranjados, sequestros, encantamentos etc), ou um personagem aceitar fazer sexo com o outro, não são mais sinônimo de “eu te amo”. Então não, além dos filmes da Disney e dos contos surgidos a partir deles, contos de fadas tradicionais, ao meu ver, não tem absolutamente nada a ver com “o amor salvando tudo”.

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3. Sobre contos de fadas serem ou não para crianças
Se é para falar deste tópico, eu prefiro usar as minhas palavras para traduzir as do Tolkien:
“Na verdade, a associação entre crianças e contos de fadas é um acidente da nossa história doméstica. (…) Não é a escolha das crianças que decide isto. Crianças, como uma classe – exceto numa falta de experiência comum, elas não são uma – nem gostam mais de contos de fadas, nem entendem eles melhor do que os adultos; e não gostam mais deles do que gostam de muitas outras coisas. Eles são jovens e estão em fase de crescimento, e normalmente possuem apetites aguçados, então contos de fadas, via de regra, descem bem o suficiente. Mas, na verdade, apenas algumas crianças, e alguns adultos, possuem um paladar mais receptivo a eles, e, quando este é o caso, ele não é exclusivo, sequer necessariamente dominante.”

O grosso do que nós conhecemos como “contos de fadas” não foi exatamente “feito” – e apenas por isso já é muito absurdo dizer que um conto de fadas em específico “foi feito para crianças”. Uma tecla que o Bruno Bettelheim bate várias vezes no livro “A Psicanálise dos contos de fadas” é a tecla de que contos de fadas foram feitos, na verdade, pelas crianças, e não para as crianças. Isto é, não é que em algum momento um escritor sentou e pensou quais coisas aconteceriam em Chapeuzinho Vermelho; nem ninguém teve que conceber o enredo de A Bela Adormecida. Quando estas histórias foram escritas da forma que nós as conhecemos hoje, versões antigas delas já vinham sendo contadas oralmente havia séculos e séculos. Cada vez que uma mãe contava uma história para uma criança, ela contava uma história que já conhecia, e fazia os ajustes necessários para aquela tal criança. E de geração em geração, de ajuste em ajuste, de pequena retorção em pequena retorção buscando agradar um ouvinte, as histórias chegaram até nós. Então, de certa forma, ao longo de muitos séculos várias crianças foram responsáveis por fazer os contos de fadas se tornarem o que eles são hoje (crianças e os adultos-contadores capazes de perceber as reações do ouvinte e fazer as alterações com base nelas).

Quando se escreve uma história, se perde essa interação com o ouvinte. Digamos, quando você conta uma história para uma criança e ela pergunta “mas e o ogro?”, e aí você tem que voltar alguns passos e incluir algum desfecho satisfatório para o ogro. Na escrita dos contos de fadas, geralmente se projeta o leitor, e se toma uma série de escolhas importantes com base nisso. Charles Perrault, por exemplo, escrevia seus contos para as moças da corte do Rei Luís XIV, então quando ele foi recontar “Tália, Sol e Lua” (do Basille), ele substituiu o rei que estuprava a princesa e se casava com ela quando acordava por uma fada malvada e um principe apaixonado, e escreveu A Bela Adormecida. Os grimm tomaram outras decisões, partindo de outras bases. A Beaumont e a Villeneuve, como explicado no vídeo, também tomaram outras decisões pensando em outros tipos de leitores.

Mas nós também temos contos de fadas criados artificialmente. Contos que foram, de fato, inventados por um escritor que sentou a bunda na cadeira e pensou no enredo, ou algo do tipo. Tipo Stardust ou A Princesa Prometida, ouso dizer. E nós temos também recontagens de contos clássicos: existem infinitas e infinitas versões estúpidas de Cinderela, O Patinho Feio, A Branca de Neve etc etc. Versões que vendem muito – novamente, não porque as crianças decidiram que é o tipo de história que eles querem ler, mas porque os pais vão à livraria e julgam ser as histórias que eles devem levar para os filhos. De forma geral, eu pessoalmente creio que trata-se de versões escritas pensando em uma criança que não existe – graças a esse “acidente da nossa história doméstica”, as pessoas acham que a maneira adequada de se escrever um conto de fadas é tentando adivinhar do que as crianças gostam e colocar tudo isso em um texto. Os resultados são ruins porque geralmente adultos idealizam as crianças como burras, possuídoras de mal-gosto e capazes de aceitar todo tipo de baboseira narrativa, e essas coisas não são verdades nem aqui nem na lua. Seria muito melhor abordar a criação de um conto de fadas da maneira que se aborda a criação de qualquer outra arte de alta estima cultural, e também seria interessante se nós, como sociedade, nos dispuséssemos a fazer mais uso das histórias construídas pelas crianças, e deixásse-mos que elas continuassem a fazê-lo.

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4. Possivel outra origem de A Bela e A Fera
Houve no século XVI um espanhol chamado Pedro González. Ele sofria de hipertricose, que é uma doença que causa crescimento excessivo de pêlos no corpo. O rapaz acabou sendo levado para a corte do Rei Henrique II da França com a finalidade de divertir a galera, e eventualmente adquiriu algum status de nobreza por lá. Se casou e teve filhos, e, inclusive, algumas das crianças supostamente chegaram a ser vendidas como atração para outras cortes. O nerdologia sobre contos de fadas aborda essa história (apesar que eu tenho várias discordâncias teóricas com o restante do que foi dito naquele vídeo).

Sobre a história de Pedro González ter ou não ter influenciado a Madame de Villeneuve, bem, sabe-se lá. Em qualquer caso, a história que ela escreveu possui a estrutura de um conto de fadas; e possui todas as outras coisas que os contos de fadas possuem. Presunção por presunção, a mais adequada me parece ser a de que um conto de fadas só vem de outros contos de fadas. Influências vêm de todos os lugares e se misturam de maneiras muito esquisitas para poder originar qualquer coisa – mas há, de maneira que eu diria ser inegável, derivações diretas de outros contos. Ela certamente era familiar a essa literatura, e por isso eu não atribuiria muita responsabilidade ao caso do Pedro González, não.

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5. Sobre o conceito de “personagem femina forte”
Eu pretendo fazer um vídeo sobre o assunto em breve, esperançosamente com a ajuda de alguma amiga, mas rapidamente gostaria de esclarecer algo que pode ter ficado mal-entendido pelo que eu disse no segundo vídeo: uma personagem feminina forte não é uma personagem com traços sociais tipicamente atribuídos aos homens. Digo, é claro que pode ser. Existem tonalidades infinitas de personagens femininas fortes, porque uma personagem feminina forte é, na verdade, uma personagem que tem a complexidade de possuir vários traços – o que, acreditem ou não, não acontece nas narrativas cinematográficas e literárias que dominam o mercado, visto que de geral personagens femininas são relegadas a papéis estereotipados, ou então são utilizadas como prêmio/obstáculo simbólico ao herói masculino e sua jornada, ou então são narrativamente movidas apenas pelos desejos de agradar aos homens etc e tudo mais. De cara, recomendo o texto “prazer visual e cinema narrativo”, da Laura Mulvey (em inglês / em português) e uma pesquisa simples sobre o Teste de Bechdel.