Montagem Cinematográfica: Sobre o Conceito de Plano | Colagem e Planificação (Decupagem)

Link para assistir no Youtube.

Algumas notas (originalmente postadas nos comentários):

Link para o roteiro do vídeo.

1. Referências e Recomendações
(pt) Estética da Montagem, do Vincent Amiel. Conceitos de planificação e colagem são apresentados na Introdução. No capítulo 1 ele traça uma breve evolução dos planos, bem parecida com a que eu fiz no vídeo; vale a pena a leitura de ambos. Livro bastante didático, me parece bom para quem nunca teve contato.
(pt) David Bordwell: sobre a narrativa cinematográfica, artigo do Francisco das C. F. Santiago Júnior passando rapidamente em alguns conceitos do David Bordwell. Importante porque Bordwell propõe o conceito de “narrativa clássica hollywoodiana”, que explora justamente a questão de como diabos os filmes falam de um jeito que tanta gente consegue entender. Acho uma explicação satisfatória, a do Bordwell. O artigo eu acho pesado, mas caralhudo.
(pt) Técnicas de Edição para Cinema e Vídeo: História, Teoria e Prática, um livrão de quase 500 páginas do Ken Dancyger com título auto-explicativo.
(en) The History of The Discovery of Cinematography, site com textos cronológicos explorando a história das imagens em movimento. Se propõe a cobrir desde tempos pré-históricos até a primeira exibição pública do cinematógrafo.
(pt) A Estética do Filme, livro (clássicão dos cursos de cinema) do Jacques Aumont.
(pt) Historiografia Clássica do Cinema Brasileiro, de Jean Claude Bernadette
(pt) A Construção do Campo Cinematográfico: O Nascimento de um Meio de Comunicação Social, de João Batista Chaves da Cunha
(en) Os 45 episódios (10 mins cada) da série “Film: History, Production and Criticism” do CrashCoursh
Documentário da BBC “Paul Merton’s Weird and Wonderful World of Early Cinema” 
(en) Os videos do canal FilmMakerIQ, especialmente os intitulados “the history of…”
(en) Do canal acima, o vídeo “the history of cutting” toca muito no que eu falei
As 23 aulas do curso de História do Cinema oferecida pelo professor David Thorburn no MIT – realmente magníficas

E 2 filmes que exploram o conceito de colagem e fogem do cinema narrativo:
Samsara, do diretor Ron Fricke. Filme de 2011: não confundir com o Samsara de 2001.
Koyaanisqatsi: Uma Vida Fora de Equilíbrio, do diretor Godfrey Reggio. 1983.

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2. Sobre os conceitos de “planificação” e “colagem”
Eu tentei no vídeo abrir mão do texto como instrumento didático e expressivo, e usar a montagem para dizer o que eu tinha para dizer. Por isso, é possível que alguns conceitos tenham ficado meio perdidos. Segue-se as definições dadas pelo Vincent Amiel de planificação e colagem, e um posterior comentário sobre elas:
Planificação: “Existe num roteiro uma ordem de apresentação das ações que é de essência literária, quer dizer, comparável ao ordenamento escolhido pelo narrador, ou romancista, quando tem de apresentar uma narrativa. Mas, mais especificamente ligada às características do Cinema, (…) uma forma, não de descrever a ação, mas de delinear o seu curso através de uma escolha de pontos de vista. Um grande plano aqui, em seguida um movimento de câmera a acompanhar o gesto, um contracampo num quarto vazio etc. Estas já são escolhas cinematográficas. Através destas escolhas, que só podem ser compreendidas em relação a uma continuidade, esboça-se uma verdadeira escrita fílmica, pela qual o espectador é apanhado, conduzido, como o seria pela sintaxe de uma frase. Esta forma de composição das sequências, que toda a gente qualifica como ‘montagem’, é convencional designá-la por ‘planificação’ [ou decupagem]. (…) A planificação pressupõe que o autor e o espectador têm em mente a mesma representação de mundo, o mesmo background sobre o qual ‘fragmentos de ações’ se tornam compreensíveis, e ajudam a situar. Para que com algumas indicações e alusões cada um compreenda a ação, as reações das personagens e o contexto, é preciso que essas representações sejam partilhadas por todos, que pertençam a uma visão comum.”

Colagem: “Ora, quando se fala de um cinema de montagem, quando fazemos referência a grandes cineastas-montadores, é em algo completamente diferente que pensamos. Eisenstein, Welles, Resnais ou Godard utilizam de fato a montagem numa ótica muito mais radical. Nas grandes sequências de O Encouraçado Potemkin (1925), Outubro (1927) ou Alexander Nevsky (1938), as imagens entrechocam-se, colidem, respondem-se, sem propor o trajeto límpido de um olhar que unifica. Na sua sucessão, os planos não elaboram uma continuidade, mas antes uma série de sobressaltos que, longe de ajudar a conduzir o olhar, o deixam algo interrogativo. (…) São planos cuja sucessão não é de ordem realista, mas demonstrativa. É a ‘estrutura’ do acontecimento que é mostrada, mais do que o próprio acontecimento. (…) A montagem associa nesses momentos planos cuja coerência temporal ou a lógica da ação não são manifestas. (…) Já não se trata de respeitar uma ordem, lógica ou cronológica, na qual o espectador reconheceria facilmente. Poderia-se mesmo dizer que ela está à medida da criatividade do montador. Este não é movido por nenhuma necessidade, seja qual for, imposta por um sistema de referências exterior à imagem.”

Bem. Amiel tem um interesse notável de abordar a montagem pelo viés narrativo. Ele chega a propor três “tipos de montagem”: montagem narrativa (busca “contar uma história”), montagem discursiva (busca “estabelecer relações de sentido”) e montagem de correspondência (busca “fazer nascer emoções”) – o livro linkado acima possui um capítulo se aprofundando em cada um.

Colagem e planificação são “procedimentos estéticos” que podem ou não ser utilizados dentro de cada um dos três tipos citados anteriormente, apesar que há uma dominância da planificação na montagem narrativa e da colagem na montagem por correspondência. Digo isso porque ele chega a destacar a existência de momentos de “colagem” no meio de filmes altamente “planificados” (por exemplo, no meio do filme o protagonista fica doidão e uma colagem é utilizada para transmitir isso cinematograficamente). Isso significa que colagem não é necessariamente não-narrativa. Você também pode usar colagem para contar histórias. Você pode usar a colagem para “transmitir alguma coisa”, como eu disse no vídeo; é só que, abdicando da linguagem comum aos vários membros da audiência, não se pode esperar que todos entendam coisas semelhantes (como acontece, por exemplo, quando nós cortamos de um plano do personagem olhando pela janela para um plano da paisagem).

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3. Sobre a opção de usar “planificação” ao invés de “decupagem”
Eu tive acesso ao livro em português de portugal. Lá se usa o termo “planificação” para traduzir o francês “découpage”, aqui nós traduzimos como “decupagem”. “Decupagem” significa cortar, segmentar, fragmentar, quebrar pedaços menores. Geralmente, no Cinema, quando falamos em decupagem estamos falando ou de um processo que busca analisar um filme, ou de um processo que busca conceber/planejar um filme. Ou seja, para uma análise eu posso destrinchar (decupar) o filme nas suas cenas, nas suas sequências, nos seus planos, nas suas linhas de roteiro etc etc etc; da mesma seria feito, classicamente, com um roteiro antes da filmagem (basta pensar nos roteiros dos blockbusters hollywoodianos e no quanto o filme deve ser planejado tintim por tintim antes das filmagens começarem). Por isso, eu decidi usar no vídeo a tradução em pt-pt, “planificação”, e não “decupagem”. Porque nós já usamos o termo decupagem no Cinema, e o Amiel propõe algo que vai além desse uso convencional. Por exemplo, nós diríamos que Eisenstein decupava muito os seus filmes (ele desenhava storyboards, planejava a duração dos planos, o posicionamento dos elementos na tela, as cartelas de texto etc etc) – mas, dentro da teoria do Amiel, isso não é decupagem. Isso colagem. Então há um conflito entre o uso que ele faz do termo e o uso que nós fazemos de maneira corrente – por isso a decisão de diferenciar a decupagem para Amiel, e chamá-la de “planificação”, da decupagem convencionalmente entendida.

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4. Sobre historiografia
Eu começo esse vídeo falando sobre as disputas que acontecem na historiografia do Cinema. Seguinte: muitas coisas aconteceram simultâneamente, e por causa disso é realmente muito problemático eleger um entre os vários nomes como marco de qualquer coisa. Colocar o Cinematógrafo como marco do início do Cinema, por exemplo, é um ato que desconsidera o Cinetoscópio do Thomas Edison, a treta envolvendo Léon Bouly, o Bioscópio dos irmãos Skladanowsky, e uma série de outros dispositivos ópticos, como o zootropo, taumatropo, fenaquistoscópio, fuzil fotográfico etc etc etc. Da mesma maneira, colocar D. W. Griffith como marco inicial do Cinema Narrativo desconsidera cineastas como os que compuseram a Escola de Brighton, que entre 1896 e 1910 contou com nomes como George Albert Smith, Cecil Hepworth e James Smith realizando diversas experiências cinematográficas em Brighton, na Inglaterra – muitas delas no sentido narrativo, inclusive. Portanto, é preciso ter muito cuidado ao falar desses assuntos. Para uma introdução ao problema da historiografia cinematográfica e uma breve discussão sobre a origem do cinema narrativo, recomendo o artigo “O Paradigma Não-Narrativo: Do Cinema de Atrações à Realidade Virtual”, do Marcio Carneiro dos Santos. É uma leitura muito gostosinha.