Promessa antiga

Pela floresta ia andando docemente uma moça; e ao redor seis anjinhos cantavam assim:

                    Oh que flores mais lindas!

                    Essas cores nós nunca vimos, e ó!

                    Que cheiros que nunca sentimos!

                    Ara ara, aiaiai mas que lindeza!

E eles dançavam no ar e batiam as palminhas das mãos em seus pandeiros; e estes faziam tí-qui-tch! tí-qui-tch! e todo mundo gostava – até as lagartas que não gostavam de nada (nada no mundo!) nem ninguém; até elas achavam bom; e sorriam e falavam umas para as outras: “Mas que companhia mais bonita!” ou então “donde vem aqueles lá que cantam daquele jeito!”, e aí as outras concordavam, “não é, donde mesmo!” e ficavam todas bestas: oh todo mundo gostava!

E feliz da vida vinha atrás um asno; um asno que não sabia agir conforme queria, mas que sabia querer todas as coisas e era satisfeito com isso – e ele puxava uma carroça velha que fazia inhé! inhé! das rodas enferrujadas. E todo mundo gostava!

E gostaram mais quando chegaram todos num mar de cerejeiras, rosinhas de viver feliz. E nessa altura a floresta toda já acompanhava a moça e cantava e dançava com os anjinhos – e gostava muito não é! – todo mundo embaixo das cerejeiras sentindo o cheiro rosa. Cheirava rosa! E parecia rosa! E sentia rosa! Era tudo rosa naquelas terras das cerejeiras! Porque elas gostavam assim e queriam assim.

E uma delas falou para a moça dos passos doces: “Oh oi você! Pois eu te conheço, é?”

E a moça deu risadinhas até ficar com as bochechas rosadas e pensarem que ela era cerejeira também; e respondeu “ai, sim! Você me encontrou quando–”

“Quando quê!” interrompeu a cerejeira, ora muitíssima surpreendida. “Se eu nunca saí daqui!”

E a moça bateu palmas e os anjinhos foram sentar nos galhos da cerejeira; e ela disse, “é que você era semente ainda.”

“Ah-ha-ha!” riu a cerejeira até chacoalhar os anjinhos de volta pro céu, com desdém de pessoa séria. “Então você mente! Porque eu nem lembro de ser semente.”

“Lembra de mim, você!” respondeu a moça doce, “porque me amava.”

“Porque quê!” respondeu a cerejeira.

“Faz mal não!” disse alegremente a moça. “Posso te cortar?”

“Não! Vai embora, que seus papos são esquisitos e eu não gosto,” disse a cerejeira, e a moça não ligava para nada e tinha mais diversão para conseguir em outros lugares; então foi mesmo embora. Ah trá lá lá! Até os anjinhos voltaram e cantaram e dançaram junto com todo mundo…

Mas na outra semana a moça voltou com a chuva, e aí não teve jeito. Chegou pra cerejeira e falou assim, “será que eu posso te cortar?” e as gotinhas da chuva atazanando a pobre da árvore. “Sua peste!” ela respondeu, “eu pensei muito sobre isso. Não pode não.”

E riu a moça, que era danada mesmo! “Mas é melhor eu poder,” ela disse, “porque eu vou te cortar de qualquer jeito. Ai eu te prometi, querida!”

“Mas! Eu não permito! Eu! Não! Permito!” respondeu a cerejeira com o coraçãozinho cheio de raiva.

“Ai mas muita coisa! Se eu te corto sem você deixar não vai ser bom!” disse a moça, e danou de chorar até todo mundo ficar com dó. Até a chuva choveu mais um pouco de tristeza por causa dela; até as lagartas, que nunca choravam por nada (nada no mundo!) nem ninguém, choraram pela moça doce; oh tadinha! Falavam assim, as lagartas: “coitada dela, que coisa feia!” e também “quem é que faz mal pra uma coisinha assim!” e aí elas mesmas respondiam, “não é, quem faz! Que maldade!”

“Eu não acredito!” respondeu a cerejeira, “então pode me cortar! Mas vou deixar claro, é permissão mas não é vontade não viu! Vou deixar, mas sob protesto!”

E a moça sorriu! E comemorou como se tivesse ganhado o mundo de presente; e gritou, “ai, ai!” e “sim! Sim! Então vem pra cá meu asno!” e aí o asno obedeceu, porque ele fazia assim. E ele trouxe a carroça, e a moça foi delicadamente e pegou lá de cima um machado feito todinho de saudade, bem brilhante e afiado; e levantou ele pro alto bem forte, e – chomp! E chomp!, chomp!, chomp! fez o machado, e ai ai ai! Os anjinhos cantaram a música deles, e todo mundo dançou feliz – e a moça trabalhou duro enquanto isso, e olhem só vocês! Trouxe abaixo aquela cerejeira, que fez tchhhh-bum! E disse com bastante rancor, “ai!”

E danou a reclamar, a cerejeira! Estendida no chão, e bla-bla-bla! pra cá! E blá-blá-blá! pra lá! E continuou a moça com seu machado de saudade, chomp!, chomp!, chom! até a cerejeira perder todos os galhinhos e as flores rosas; e depois chomp!, chomp!, chomp! mais um pouco, e bla! bla! bla! daquele tronco reclamando sem parar! Mas ah! Se enfim! Ora enfim, por fim, no final! Não é que ela fez o que queria, aquela moça doce!

Saiu correndo pra beirada do rio e jogou aquele machado lá embaixo; todo feio e murcho, e podre e enferrujado! E gritou, “ai tchau!” e o machado nem respondeu – foi embora casado com as águas; e voltou pulando para sua cerejeira – e agora eu vou contar de verdade o que aconteceu! Pois não é! Não é que a cerejeira de tanto levar machadadas tomou outra forma! Ganhou uns bracinhos bem delicados e um cabelo rosa muito bonito, e os anjinhos trouxeram um vestido de seda que caiu assim, realmente muito bem! Ah enfim! Por fim, foi assim! Ah não, ah é! Não tinha mais nada para reclamar, a cerejeira; oh-há-há! Parou com os blá-blá-blás e danou a falar coisas bonitas de agradecimento e de alívio pra moça doce; e se abraçaram e se amaram que nem tinham feito antes, muito antes. Nossa, olha ali! Uma borboleta na janela! Será que ela quer entrar ou sair?