Desencontro

Se,

se, diz-me o homem. quase sem fim é esta colocação; quase sem esperança; lugar que não será jamais alcançado. sofre o homem. chora, lamenta. ouvem seus gritos no pavilhão acima. cai no chão, rasteja; rasteja da cama à porta, e ao abismo, e salta.

Ela não tem tempo. ele dobra o céu pra dentro do bolso e senta diante dela. olha pra mim! ele diz, eu vou me apresentar pra você que não me conhece ainda. ela ignora, os ouvidos não servem pra ouvir aquelas palavras. ele não se incomoda. canta duas notas, e três, e tantas. mas … ela não tem tempo, precisa ir embora. a casa urge uma limpeza. o jardim precisa ser regado. a esperam no trabalho no outro dia de manhã. ainda precisa tomar um banho e descansar um pouco. ainda tem que ler. gostaria de assistir algo antes de dormir. mas, mas, ele ignora tudo isso, não sabe sequer o fato: ela não tem tempo. ele continua cantando. não entra pelos ouvidos.

Em casa, ele chora. desdobra o céu do bolso e chora em cima dele. todos lhe abraçam e dizem que não há problemas no mundo, que ele agora não precisa se importar mais com os quereres da vida. e ela, resolve não lavar o cabelo. deita na cama e pensa na família. não quer ninguém agora.