Estranhas esperanças lá em cima

Eu dançava com as estrelas quando ela apareceu. Do céu, do céu, desci com minha mãe e minha irmã; e a recebi com toda a esperança. Estava cansado – estava cansada, exausta, não se colocava em pé. Eu, também. Ponhei-a nas costas e subimos de volta ao céu. Lá demos de comer de tantas frutas, e de beber de tantos vinhos; e de dormir de tantas camas, e, creio, de ver de tantos lugares, que ela melhorou. Passados os dias e os dias, e muitos, ela começou a contentar-se em ver sem tocar seus três amantes. Eles gritavam seu nome e acendiam balões, mas ela não cedia: olhava… mas, enquanto seus olhos apontavam para baixo, os meus iam para ela. Eu via e sofria. Todas as estrelas deixaram de dançar depois do tempo que passou: as coisas estavam para recomeçar no universo, não fosse eu, eterno, e ela, eterna, sempre no mesmo lugar: duas almas puras e imóveis, indesejáveis para os viventes e, ainda assim, inseparáveis. Um dia o tempo morreu e não foi dia mais, e nós continuamos lá. Foi então que eu decidi que a chamaria. Chamei primeiro e vieram de volta as coisas; depois chamei e veio o céu; veio, então, a luz; mas ela não me ouviu. Chamei pelo nome, pelo antinome; pelo olhar, pelo desejo. Chamei de todo jeito: vieram de volta as estrelas chamando para dançar, e não era nada disso que eu queria, mas dancei um pouco – um pouco, e desisti… senti saudade de olhar pra ela e voltei a chamá-la. Quando o tempo já tinha retornado e já estava velho, eu gritei: “não quero seu amor, entendo que já ame aqueles que olha. Mas podes me ver partir!”, e, com isso, desisti e, sem olhar para ver como aquilo tinha chegado, fui-me…