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Estranhas esperanças lá em cima

Eu dançava com as estrelas quando ela apareceu. Do céu, do céu, desci com minha mãe e minha irmã; e a recebi com toda a esperança. Estava cansado – estava cansada, exausta, não se colocava em pé. Eu, também. Ponhei-a nas costas e subimos de volta ao céu. Lá demos de comer de tantas frutas, e de beber de tantos vinhos; e de dormir de tantas camas, e, creio, de ver de tantos lugares, que ela melhorou. Passados os dias e os dias, e muitos, ela começou a contentar-se em ver sem tocar seus três amantes. Eles gritavam seu nome e acendiam balões, mas ela não cedia: olhava… mas, enquanto seus olhos apontavam para baixo, os meus iam para ela. Eu via e sofria. Todas as estrelas deixaram de dançar depois do tempo que passou: as coisas estavam para recomeçar no universo, não fosse eu, eterno, e ela, eterna, sempre no mesmo lugar: duas almas puras e imóveis, indesejáveis para os viventes e, ainda assim, inseparáveis. Um dia o tempo morreu e não foi dia mais, e nós continuamos lá. Foi então que eu decidi que a chamaria. Chamei primeiro e vieram de volta as coisas; depois chamei e veio o céu; veio, então, a luz; mas ela não me ouviu. Chamei pelo nome, pelo antinome; pelo olhar, pelo desejo. Chamei de todo jeito: vieram de volta as estrelas chamando para dançar, e não era nada disso que eu queria, mas dancei um pouco – um pouco, e desisti… senti saudade de olhar pra ela e voltei a chamá-la. Quando o tempo já tinha retornado e já estava velho, eu gritei: “não quero seu amor, entendo que já ame aqueles que olha. Mas podes me ver partir!”, e, com isso, desisti e, sem olhar para ver como aquilo tinha chegado, fui-me…

APoetisaJoanMiro

Desencontro

Se,

se, diz-me o homem. quase sem fim é esta colocação; quase sem esperança; lugar que não será jamais alcançado. sofre o homem. chora, lamenta. ouvem seus gritos no pavilhão acima. cai no chão, rasteja; rasteja da cama à porta, e ao abismo, e salta.

Ela não tem tempo. ele dobra o céu pra dentro do bolso e senta diante dela. olha pra mim! ele diz, eu vou me apresentar pra você que não me conhece ainda. ela ignora, os ouvidos não servem pra ouvir aquelas palavras. ele não se incomoda. canta duas notas, e três, e tantas. mas … ela não tem tempo, precisa ir embora. a casa urge uma limpeza. o jardim precisa ser regado. a esperam no trabalho no outro dia de manhã. ainda precisa tomar um banho e descansar um pouco. ainda tem que ler. gostaria de assistir algo antes de dormir. mas, mas, ele ignora tudo isso, não sabe sequer o fato: ela não tem tempo. ele continua cantando. não entra pelos ouvidos.

Em casa, ele chora. desdobra o céu do bolso e chora em cima dele. todos lhe abraçam e dizem que não há problemas no mundo, que ele agora não precisa se importar mais com os quereres da vida. e ela, resolve não lavar o cabelo. deita na cama e pensa na família. não quer ninguém agora.

The Church at Auvers Van Gogh

O tempo passa

eu sou deusa, eu sei de tudo, e vejo tudo e conheço todas as coisas. e sou triste. preciso dizer, eu sou triste. sou triste por ele e por ela; as coisas não acontecem jamais e eles vivem dias compridos. e eles sentem o tempo passando por cima deles. parece que dói.

olho e vejo diante dele uma estrada. Ele espera. Um dia prometeu que cruzariam seus caminhos, e nunca essa oportunidade foi concedida; abstenho, eles não tiveram a sorte. vem alguém de bicicleta. vem alguém correndo. alguém, vem alguém. sempre alguém. e enquanto continua assim, a estrada cresce e cresce, e vai dar cada vez mais funda no céu. pra ir embora fica mais difícil. o caminho é maior, ele não tem essa força toda pra chegar no fim. não tem jeito; eu diria, não tem jeito pra ele. vai ter que ficar parado. esperando e esperando. sozinho.

longe de lá ela passeia pelas florestas. duas, três, mil florestas ela visita. em cada floresta conhece as árvores, e a cada árvore faz uma nova promessa. e agora ela prometeu ao mundo todo e não pode mais escapar disso. deve para sempre visitar as florestas e cumprir sua palavra, ou então vai deixar as árvores chateadas. não se pode chatear as árvores; elas nunca esquecem e contam umas às outras, e suas raízes vão fundo embaixo das pedras e guardam lá muito bem o nome de todos que gostam e odeiam. e elas passam a odiar muito facilmente quem as chateia. e ela, eu tenho pena dela. sua primeira promessa foi a ele. agora ela não pode respeitar mais o seu primeiro amor. ela não pode respeitar o seu primeiro amor. parece que dói.

ele espera. a estrada cresce. os rios fazem nascer mais árvores; a chuva vem também para ele. ele diz, eu não ligo!, e espera e espera. faz desenhos na areia e puxa do bolso uma sacola; estica e assobia. só os passarinhos escutam. ele acha os passarinhos bonitos, mas não se importa que eles escutem. ela não escuta. está longe, não vem. a estrada cresceu demais. ela ainda cumpre as promessas às árvores; sabe das consequências, não consegue escapar disso. ela faz, não perde jamais as forças. busca honrar as palavras dadas para a natureza. mas ele. ele. ele não tem mais sobre o que pensar. está cansado. sozinho em sua mente. companhias no mundo não o satisfazem mais. não tem para onde ir. o horizonte acabou. pensa, não tem jeito. … parece que não tem mesmo. estou triste. triste por ele. desiste. desiste, rapaz. algum dia vai morrer aí mesmo. e ela que não sabe da sua situação vai continuar cumprindo promessas. a primeira só pode ser a última, se for. vai demorar, no mínimo vai demorar. não adianta esperar. você vai esperar pra sempre e vai morrer. e ela vai ficar cansada de tentar. desiste que eu falo pra ela parar. desiste que eu falo pra ela ir fazer outras coisas. ser feliz. divertir-se. desiste. … é uma pena que ele não me escuta. … a estrada cresce. as árvores nascem e complicam o mundo. ela continua. ele continua. eu repito: o tempo passa pra eles. parece que dói.

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O deus do novo mundo

Em verdade eu lhes digo, ó como os ventos foram fortes, os que me atravessaram pelas paredes de água! Que elas subiam e subiam, todas as sete delas por cima do mar; e eu vinha com meu barco; as madeiras de minha casa e as velas que me fizeram nas montanhas – e o vento vinha pois de um sopro que me dizia, “venha à minha terra, venha ao meu lar”. Essa é minha lenda; tal a boa vinda me fez o deus seu pai.

Se lhes digo, quão mais vivo é seu vívido! Das florestas aos animais. E eu que fui das cavernas aos mares e ao submundo, e cruzei as pontes que atravessam as colinas e os picos de neve; e eu que cavei o poço donde toda a vila bebia a água; eu que criei as ovelhas e nosso fiel cavalo, eu, tinha jamais visto assim das belezas. Eis o novo mundo, disse o deus com o vento, e eu ouvi quando o barco mexeu e senti o eco até chegar acá.

Lhes digo com toda sinceridade, pois a mim vieram os presentes por ter sido fiel servo do senhor em toda vida. Lhes garanto das promessas da palavra; lhes falo, ora: o novo mundo é este, e o velho não conhecereis. Existe ainda para lá das muralhas do mar, existe com todos os vãos e de alma impura, e de coração sórdido e de vícios muitos; existe para eles, que não podem ficar sem um lar, ainda que desprezem tudo que deus (seu pai) deu.

Digo, oh lhes digo que aqueles que mudarem, lhes digo que fora-lhes preservado todo o belo do livre, e todas as terras de todas as emoções para se caminhar. Pode alguém ir às montanhas? Pode, eu fui. Pode alguém conversar com os animais? Pode, eu pude. Pode alguém respirar o ar que limpa? Pode, eu o fiz. Pode, perguntareis, pode – pode alguém abraçar os seus queridos e seus inimigos até entendê-los? Pode, eu abracei meus inimigos e eu os entendi. Pode alguém saber do bem e do mal, e julgar o bem e o mal como tal, e fazer aquilo que quiser? Pode, eu quero o bem e julgo o bem e faço o bem.

Ao fim lhes digo, com a ênfase do assobio, olhais aos pássaros que rumam aos riachos, são estes que sabem das fontes limpas. Falais aos rios e às árvores, e ficais em silêncio até compreender a resposta. Receberás o convite para ir à casa do sábio das duas túnicas que vive ao pé de uma montanha; serás lá carregado pelas raposas que lhe mostrarão os caminhos das florestas e dos vales; e atravessarás desertos e pântanos antes de encontrar o sábio. E ele dirá, ó tu que vens acá, falais agora com deus naquela fogueira. Te aproximarás da fogueira e queimarás suas mãos nas brasas, mas falarás com o deus teu pai, e ele lhe mandará destruir sua casa e te dirás onde encontrar as velas. Subirás no barco e farás como eu: atravessarás, eu lhes digo como verdade, a cada um de vocês um a um, atravessarás tudo que sobe nas águas. As paredes donde não vês adiante, donde cai a água escura; se houver vento, e haverá pois eu lhes prometo, pois lhes promete também deus seu pai, atravessarás e virás também ao novo mundo, donde verás das coisas que nunca viu, e das quais o sábio das duas túnicas não lhes falará nunca. Beijarás o chão e chorarás sozinho por sete anos, pensarás morrer de fome mas virão os animais dar de beber dum côco verde; comerás ainda a massa do côco e viverás para contar esta história pelas raízes dos capins, e as raízes dos capins cruzarão os mundos e levarão tua fala lá para o velho mundo, e todos terão esperança ao ouvi-la.

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Promessa antiga

Pela floresta ia andando docemente uma moça; e ao redor seis anjinhos cantavam assim:

                    Oh que flores mais lindas!

                    Essas cores nós nunca vimos, e ó!

                    Que cheiros que nunca sentimos!

                    Ara ara, aiaiai mas que lindeza!

E eles dançavam no ar e batiam as palminhas das mãos em seus pandeiros; e estes faziam tí-qui-tch! tí-qui-tch! e todo mundo gostava – até as lagartas que não gostavam de nada (nada no mundo!) nem ninguém; até elas achavam bom; e sorriam e falavam umas para as outras: “Mas que companhia mais bonita!” ou então “donde vem aqueles lá que cantam daquele jeito!”, e aí as outras concordavam, “não é, donde mesmo!” e ficavam todas bestas: oh todo mundo gostava!

E feliz da vida vinha atrás um asno; um asno que não sabia agir conforme queria, mas que sabia querer todas as coisas e era satisfeito com isso – e ele puxava uma carroça velha que fazia inhé! inhé! das rodas enferrujadas. E todo mundo gostava!

E gostaram mais quando chegaram todos num mar de cerejeiras, rosinhas de viver feliz. E nessa altura a floresta toda já acompanhava a moça e cantava e dançava com os anjinhos – e gostava muito não é! – todo mundo embaixo das cerejeiras sentindo o cheiro rosa. Cheirava rosa! E parecia rosa! E sentia rosa! Era tudo rosa naquelas terras das cerejeiras! Porque elas gostavam assim e queriam assim.

E uma delas falou para a moça dos passos doces: “Oh oi você! Pois eu te conheço, é?”

E a moça deu risadinhas até ficar com as bochechas rosadas e pensarem que ela era cerejeira também; e respondeu “ai, sim! Você me encontrou quando–”

“Quando quê!” interrompeu a cerejeira, ora muitíssima surpreendida. “Se eu nunca saí daqui!”

E a moça bateu palmas e os anjinhos foram sentar nos galhos da cerejeira; e ela disse, “é que você era semente ainda.”

“Ah-ha-ha!” riu a cerejeira até chacoalhar os anjinhos de volta pro céu, com desdém de pessoa séria. “Então você mente! Porque eu nem lembro de ser semente.”

“Lembra de mim, você!” respondeu a moça doce, “porque me amava.”

“Porque quê!” respondeu a cerejeira.

“Faz mal não!” disse alegremente a moça. “Posso te cortar?”

“Não! Vai embora, que seus papos são esquisitos e eu não gosto,” disse a cerejeira, e a moça não ligava para nada e tinha mais diversão para conseguir em outros lugares; então foi mesmo embora. Ah trá lá lá! Até os anjinhos voltaram e cantaram e dançaram junto com todo mundo…

Mas na outra semana a moça voltou com a chuva, e aí não teve jeito. Chegou pra cerejeira e falou assim, “será que eu posso te cortar?” e as gotinhas da chuva atazanando a pobre da árvore. “Sua peste!” ela respondeu, “eu pensei muito sobre isso. Não pode não.”

E riu a moça, que era danada mesmo! “Mas é melhor eu poder,” ela disse, “porque eu vou te cortar de qualquer jeito. Ai eu te prometi, querida!”

“Mas! Eu não permito! Eu! Não! Permito!” respondeu a cerejeira com o coraçãozinho cheio de raiva.

“Ai mas muita coisa! Se eu te corto sem você deixar não vai ser bom!” disse a moça, e danou de chorar até todo mundo ficar com dó. Até a chuva choveu mais um pouco de tristeza por causa dela; até as lagartas, que nunca choravam por nada (nada no mundo!) nem ninguém, choraram pela moça doce; oh tadinha! Falavam assim, as lagartas: “coitada dela, que coisa feia!” e também “quem é que faz mal pra uma coisinha assim!” e aí elas mesmas respondiam, “não é, quem faz! Que maldade!”

“Eu não acredito!” respondeu a cerejeira, “então pode me cortar! Mas vou deixar claro, é permissão mas não é vontade não viu! Vou deixar, mas sob protesto!”

E a moça sorriu! E comemorou como se tivesse ganhado o mundo de presente; e gritou, “ai, ai!” e “sim! Sim! Então vem pra cá meu asno!” e aí o asno obedeceu, porque ele fazia assim. E ele trouxe a carroça, e a moça foi delicadamente e pegou lá de cima um machado feito todinho de saudade, bem brilhante e afiado; e levantou ele pro alto bem forte, e – chomp! E chomp!, chomp!, chomp! fez o machado, e ai ai ai! Os anjinhos cantaram a música deles, e todo mundo dançou feliz – e a moça trabalhou duro enquanto isso, e olhem só vocês! Trouxe abaixo aquela cerejeira, que fez tchhhh-bum! E disse com bastante rancor, “ai!”

E danou a reclamar, a cerejeira! Estendida no chão, e bla-bla-bla! pra cá! E blá-blá-blá! pra lá! E continuou a moça com seu machado de saudade, chomp!, chomp!, chom! até a cerejeira perder todos os galhinhos e as flores rosas; e depois chomp!, chomp!, chomp! mais um pouco, e bla! bla! bla! daquele tronco reclamando sem parar! Mas ah! Se enfim! Ora enfim, por fim, no final! Não é que ela fez o que queria, aquela moça doce!

Saiu correndo pra beirada do rio e jogou aquele machado lá embaixo; todo feio e murcho, e podre e enferrujado! E gritou, “ai tchau!” e o machado nem respondeu – foi embora casado com as águas; e voltou pulando para sua cerejeira – e agora eu vou contar de verdade o que aconteceu! Pois não é! Não é que a cerejeira de tanto levar machadadas tomou outra forma! Ganhou uns bracinhos bem delicados e um cabelo rosa muito bonito, e os anjinhos trouxeram um vestido de seda que caiu assim, realmente muito bem! Ah enfim! Por fim, foi assim! Ah não, ah é! Não tinha mais nada para reclamar, a cerejeira; oh-há-há! Parou com os blá-blá-blás e danou a falar coisas bonitas de agradecimento e de alívio pra moça doce; e se abraçaram e se amaram que nem tinham feito antes, muito antes. Nossa, olha ali! Uma borboleta na janela! Será que ela quer entrar ou sair?

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Senhor!

Quando eles chegaram ela já táva morta. Mais uma. Eu táva cansado. Não aguentava mais. Ficava olhando pra eles passando e pensava, “vai a Lúcia, vai a Dona Maria, vai o Sebastião, mas não vai eu.” Será que algum dia ia eu? Isso aí eu ficava pensando. Quase sozinho já. Eu e mais uns vinte só, debaixo daquela barraca velha. E do outro lado eles iam passando. Cheios de roupa bonita. Com umas pedras que eles deviam ter trazido lá do outro lado da muralha; que aqueles escravos tristes deviam ter trazido, porque eles mesmos não saem. E eu pensando, “será que algum dia vai eu?”

Não sei de onde eu tirava essas coisas, mas eu tinha esperança. Eles passavam e beijavam a testa de alguém; mas nunca a minha. E um pouco depois sumiam no fim da rua. Quando chegavam lá no final, desapareciam de repente. Saíam cheios de pressa, que nem se tivessem outra coisa pra fazer. Mas eu nunca ia. Eles nunca beijavam minha testa; nunca… ah! Ah! Você tá entendendo então porque eu fiz aquilo? Nunca! Nunca, os desgraçados… Nunca me deixavam ir com eles. Não teve outro jeito, não. Ou eu fazia alguma coisa, ou eu ia… porque… porque se fosse depender só deles, eu ia…

– Senhor!

Eu não quero falar disso, não!

Eu quero falar deles.

Desgraçados, eles eram isso daí. A injustiça já nascia nos chifres deles. E naqueles cinturões que eles usavam. Ah, tivesse eu nascido com aquelas coisas… ah, eu ia! Eu ia beijar a testa de todo mundo. Eu ia beijar a testa do Seu Geraldo, e do Mauro, e da Margarida, especialmente da Margarida. Eu ia beijar a Margarida primeiro, porque a coitada táva pior que eu. Ela táva que não aguentava mais. Eu ficava morrendo de pena dela, mas eu ia fazer o quê? A gente táva na mesma situação. Mas eu aguentava mais um pouquinho, ela não. Quando eu saí de lá ela já não aguentava mais nada. Se não beijaram a testa dela naquele dia, ela… ela! Ela…

– Senhor!

Ela, eu não sei não. Coitada da Margarida. Tudo culpa deles! Deles e de quem mandava neles! …mas, não é… mas aí é só coisa que me contaram… Por que é que eles não ficavam mais um pouquinho na rua? Eles passavam tão rápido. A rua era tão pequenininha. Na barraca de onde a gente ficava dava pra ver o começo e o final. A gente sempre via quando eles chegavam e quando eles sumiam. Todo mundo ficava feliz quando eles beijavam a testa de alguém. Aí depois a gente ficava cansado porque não tinha sido a gente. Era ambíguo assim…

– Senhor!

Cê me desculpa. Cê tinha me perguntado da sua mãe. Eu não sei não, meu garoto. Quando eles chegaram ela já táva morta…

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Eu e minha ilha

Um dia um garotinho chegou numa tartaruga na minha ilha. Eu fiquei incrível, porque ele era muito limpinho; vestia umas roupinhas assim bem novinhas. É que todos os outros garotos tinham chegado vestindo uns trapos muito feios… então eu já não sei de mais nada. Sempre achei que a viagem devia de ser realmente muito complicada. Mas aí chegou esse garoto limpinho. Eu não sei mesmo. Fui correndo para a praia quando vi ele chegando lá de longe. Gritei que nem um louco e ele até olhou pra mim, mas não me gritou nada em resposta. Só colocou as mãos na cintura (pra não perder o equilíbrio em cima da tartaruga dele, eu acho; ou pra fazer pose) e continuou vindo pra minha ilha; aí quando ele chegou eu fui logo pra cima dele perguntar das roupas. Falei assim: “garoto, me conta! E essas roupas tão limpinhas?”

Pois aí eu já não sei dizer se ele fez que não me ouviu ou se ele realmente não me ouviu, mas ele me respondeu assim: “cadê os elefantes, oh meu senhor?” Ah! Então aquele pestinha tinha era se perdido. Ele estava atrás dos elefantes. Mas e as roupinhas? Eu cheguei com a cara bem perto dele pra ver se ele se intimidava, abri uns olhões pra ele saber que eu estava falando muito sério e perguntei de novo, “e essas roupinhas aí, cara?” Ele bateu com o pé no chão, deu uns saltos emburrados e começou a chorar de tão nervoso que ficou. Fez uma pirraça das grandes. Das grandes mesmo. Aí assim de um segundo pro outro ele montou na tartaruga dele e foi embora. Fiquei olhando e coçando a cabeça. Mas bem, e daí? Pensei, “deixa pra lá, então”. Eu tinha um montão de coisas pra fazer e não podia ficar ali parado…

Mas no outro dia ele voltou com umas cem gaivotas voando por cima dele. Elas malemal batiam as asas, só planavam em círculos. Fui correndo para a praia e fiquei admirando aquilo, achei muito bonitinhas aquelas gaivotas todas ordenadas. E o garotinho das roupas limpas em cima da tartaruga, parado que nem uma estátua com aquelas mãozinhas na cintura. Devia estar se achando muito elegante. Como eu já tinha conhecido ele um pouco, pensei “nossa, olha só que mau caráter, imagina que orgulho e que ego ele não deve ter, aquele danado”. Ele foi chegando mais perto e justo quando estava para atracar na praia a tartaruga fez uma curva nas águas. Eles foram pro outro lado e ficaram dando umas voltas na frente da minha ilha. Ah não. Gritei pra ele, “vem pra cá seu pestinha! E essas roupas limpinhas aí? Como que você fez?” E ele nada, só de pé, do mesmo jeito; e as gaivotas também, tudo lá voando. Fiquei nervoso e fui fazer minhas coisas. Umas duas ou três horas depois, quando eu já estava quase esquecendo da coisa toda, olhei pra cima e as gaivotas ainda estavam lá. No mesmo instante elas se foram. Acho que elas estavam só esperando eu olhar pra poder ir embora. Não tenho dúvida que foi ordem daquele garotinho.

Aí teve um último dia em que ele apareceu, que foi o dia seguinte. De novo naquela tartaruga, de novo com os braços na cintura, de novo com as gaivotas. Umas cem delas, de novo. Fui correndo pra praia e fiquei olhando pras gaivotas enquanto se aproximavam, aí quando olhei pro garotinho reparei que tinham umas outras cinquenta tartarugas atrás dele, cada uma com um coelho em cima. O garotinho, ah ele quando estava para chegar na minha ilha novamente fez a curva e ficou dando voltas na minha frente; mas as tartarugas com os coelhos vieram direto pra minha prainha. Os coelhos sairam pulando e desapareceram atrás de mim, aí as tartarugas foram embora e o garotinho ficou lá circulando embaixo das gaivotas. Praguejei ele demais. Gritei pra ele mandar aqueles coelhos embora porque eu não gostava de coelhos. Eu não sei o que passava na mente dele, mas de certo que era pura maldade. Era um diabinho aquele garoto. Xinguei ele de todos os nomes que consegui me lembrar, nomes que eu não ouvia desde que eu tinha a idade dele e fazia umas coisas parecidas. Aí ele gritou, aquele peste, gritou pra eu calar a boca; e veio com a tartaruga dele pra minha praia. Desceu sem nem tirar os braços da cintura e ficou me encarando. Aí eu fiquei encarando ele também. Eu já não aguentava mais. Olhei pra ele com uma cara de que ele não era bem vindo, que era pra ele ir embora porque ele estava me fazendo passar muita raiva. Mas ô menino determinado! Do jeito que parou quando desceu da tartaruga, ficou. E ficamos lá nos encarando até o céu ficar laranja e depois escuro. E passamos a noite inteira nos encarando; quer dizer, eu acho. Tudo tão preto que eu nem via ele mais, mas eu sabia que ele estava lá e ele sabia que eu estava também. E também as gaivotas o tempo todo soltando aqueles sons horríveis. Quando o sol começou a nascer de novo eu percebi que não era coisa da minha cabeça e que de fato nós estávamos nos encarando desde a tarde anterior. E ele com aquelas roupas ainda limpinhas. Eu não sei como. Bem. Fiquei de saco cheio da coisa toda. Eu realmente tinha muitas coisas para fazer (e já tinha perdido uma noite e não sei quantas horas naquela molecagem), então desisti. Peguei e falei pra ele me acompanhar porque eu iria mostrar para ele onde eu guardava os elefantes.