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Sozinha nas nuvens

Com saltos leves ela passava de um degrau para o outro, e de pouco em pouco ela vinha descendo – de lá! De lá de cima: do céu! Pois sobre as nuvens ela caminhava, e assim fazia com pés delicados tais que sequer tocavam qualquer coisa, mas – ela descia! E olhando para as árvores na floresta; alaranjadas côs raios do sol nascente tocando suas folhas – ela descia! Ó ela descia: cantando num murmúrio suave de notas melancólicas – daquelas! Possíveis de serem produzidos senão por um coração afundado em tristezas; mas no reunir do seu ímpeto de esperança – ela…! Ela descia!

Mas, ah! Ela não desceu de fato. Porque do último degrau ela saltou, ainda muito alta acima das gramas no chão – e de lá os pássaros a pegaram; e eles, abençoados de força e bonitos das asas – e com as compaixões saindo pelas gargantas: eles também cantaram melancolias. E imparáveis nas suas bondades, eles prenderam-se no vestido dela, e ela – ah! Ela não desceu! Não! Levada planando por sobre o solo, ela foi; e deixada pelas aves na frente dum carvalho, ela também foi.

E os pássaros, eles soltaram ela; e ela, caiu de joelhos na grama: e se ralou, e doeu, e sangrou – mas! Ela fechou os olhos e se curvou, e na sua reverência um assovio desceu do alto da árvore diante dela. E ela! Se levantou. E olhou para cima; mas viu apenas folhas. E ela gritou: três vezes, ela gritou. “Ó mãe!” ela gritou – “ó mãe minha!” também – “ó tu que conténs em ti uma parte de mim! Ó mãe de mim!” ainda, ela gritou! Mas de mais alturas na sua voz – ah, sim! De alturas que fizeram o grito parar longe; nos fundos da floresta não houve uma criatura que não o ouviu; ah, dos coelhos aos bois – dos animais poucos aos animais muitos, em todos os ouvidos aquele grito foi parar: e não diferente nos da Mãe ela mesma. Ah!

Porque a Mãe, ela ouviu também. E lá do alto da árvore ela pulou como quem pula com vontade de um abismo sem fim, e no chão ela caiu com o peso de infinitos trotes de cavalos – e a força! De infinitos trotes de cavalos. E a terra, ela tremeu! – e as árvores: tremeram! E as criaturas: chacoalharam e caíram! E a Mãe parou de pé, tal fosse ela em sua forma física uma árvore das mais altas, se erguendo para muitos metros! De aparência imovível, ela ficou de pé! E ela, a Mãe, disse: “Minha querida filha, ó minha pequena! De mim podes pedir tudo, que na verdade tu já tens, só não sabe ainda; porque tu tens o que eu tenho. E eu tenho tudo, eu ó a Mãe de todas as criaturas que te cercam! Eu ó a plantadora de todas as árvores! Eu ó a iluminadora do sol de todas as manhãs! Pedes, filha, que eu te darei.”

“Ó mãe minha”, respondeu a delicada moça. “Só, eu estou! Minha alma dói na vastidão da floresta! Eu caminho por entre as nuvens, e os pássaros me carregam. E eles cantam, e eu canto. Mas, Mãe! Nossos cantos são diferentes. Eles não me compreendem. Minhas solidões, elas todas dentro de mim. Elas se enfurecem e me batem por dentro! Onde eu não consigo alcançá-las, Mãe! Ó Mãe! Me dê um braço que se estique até onde as minhas feridas precisam de curativos!” Ela falou assim cá cabeça baixa, côs olhos apertados, cás lágrimas inundando os olhos e escorrendo para a terra, e regando as gramas e a raíz do carvalho atrás da Mãe; e chorando dessa maneira, com seu coração doendo de pensar e de sentir. Tão verdadeiro foi seu choro, que de pé diante dela, também a Mãe se comoveu. E choraram ambas por muito tempo, até as lágrimas secarem e a fonte da tristeza gritar de dentro do peito uma promessa de que produziria novas no futuro.

“Filha minha!” Disse a mãe. “Tu terás esse braço que tanto desejas! E ele vai tratar de todas as tuas feridas. E ele vai abraçar o teu conforto, e tu se sentirás bem. Porque, ó minha filha, mais que um braço, será feito! Verdadeiramente eu te digo: uma muleta! Minha querida, sim! Essa muleta que tu precisas para apoiar as tuas manquices será feita também do material que há em mim! E bela, ela será, e forte, e firme! E ela te proverás por onde andar sem cair! E um apoio tal ela será que, ó, se tu alguma vez andares torta será pelo peso excessivo da alegria no lado que se encontra o teu coração.” E com essa última palavra, ela, a Mãe, saiu correndo e desapareceu no meio das árvores.

 

E a moça solitária! Por doze dias mais ela permaneceu lamentando a sua solidão nas nuvens. Doze! Por doze dias também sua Mãe não deu sinal nenhum: sequer no seu carvalho ela apareceu; sequer nas beiradas dos rios; sequer no topo das montanhas. Doze! Por doze dias a moça procurou pela Mãe, na angústia de ter seu pedido atendido; e por doze dias suas esperanças desvaneceram e se converteram num manto ainda maior de tristeza – mas! Mal sabia ela que a Mãe – a Mãe! Estava moldando; estava arrancando as coisas necessárias e colocando elas no formato adequado. Estava desenhando com linhas sensíveis nos pedaços para que o todo final pudesse ser capaz de ostentar um sopro de movimento!

Então, eis que a Mãe! Ó, por sua vez; num canto escondido da floresta, dentro duma caverna coberta pelas folhas das árvores: ela trabalhou por doze dias sem nenhum descontínuo: sem mesmo um para o sono! Sem mesmo um para a fome; menos ainda um para a sede; precisão nenhuma tinha ela daquelas coisas enquanto talhava; e…! E ela talhou: ela talhou do primeiro ao décimo segundo dia – mas nesse ela talhou pela última vez: porque ah! Nada mais ela tinha a retirar da forma grotesca que pela primeira vez havia se colocado diante dela: aquela forma que outrora havia precisado ser moldada jazia-se na frente dela ofertando apenas a possibilidade da adição – e a Mãe, ela adicionou. O que faltava no resultado do seu trabalho – ela adicionou!

Pois abrindo a boca ela deixou sair um ar de quentura tal que esfumaçou – mas! Esfumaçou… vejam vocês! Esfumaçou – colorido! Ah! E o ar quente saiu pela boca da caverna, e ele empurrou os galhos das árvores, e as folhas delas se abriram – e a luz! Do sol; a luz do sol! Ah! Ela entrou e iluminou mesmo a parede final lá de dentro; e a fumaça colorida! Se misturou na luz. E no meio daquilo, desapareceram: a Mãe e sua obra.

 

E na noite daquele dia: de fato, tarde – da noite, a Mãe saiu da sua caverna e deslizou por cima – e, ó! Para cima – das árvores até as nuvens. Nos ombros: carregava o presente para a moça triste; que recém havia dormido das suas insônias de tristeza. Ah! A situação era tal que a escuridão encontrava-se fora e dentro da coitada; e desacordada estava não no seu único momento possível de luz, mas no seu único momento – de nada! E se não era aquele o último consolo do seu coração até então desamparado.

Mas enquanto a Mãe se movia para os céus, sua velocidade tremenda cortava o ar – e fazia soar para todos os lados, como que! Ah! Como que trovões de mil tempestades! Acordaram: os animais; os que estavam no topo das árvores e os que estavam enfiados em raízes; e! Mesmo os que estavam debaixo d’água: acordaram – e a moça! Ó! Acordou também do seu refúgio noturno.

Ela se levantou com uma perturbação corporal imensa; com olhos de choros guardados. Enquanto coçava as pálpebras e olhava ao redor, ouviu mais uma vez o estrondo das tempestades… e, pobrezinha! Que susto ela tomou! E: que desespero, também! Ficou de pé num instante e saiu correndo pelas nuvens, buscando a origem do grande distúrbio – mas na escuridão sem fim que era aquela noite, ela pôde apenas correr sem rumo. Ouviu mais uma vez os trovões e viu um clarão surgindo num canto dos olhos: e correu na direção dele.

Quando chegou na borda das nuvens, sua Mãe surgiu de repente – e contemplem! Lá! Nos ombros da Mãe! Ela viu, ó! Ela viu: alguma coisa que brilhava! Algum ponto claro na negritude da noite! Tamanha foi a curiosidade que seu coração se apressou, e ela…! Respirou fundo e apertou os olhos numa tentativa de enxergar – mas!

“Minha filha! Eu senti pena dos teus sofrimentos, e na floresta que eles formavam eu decidi abrir um caminho que te permitirás escapar! Para essa coisa que tu precisavas eu atribuí tudo o que achei de bem – mas, minha filha! Algo ainda falta no teu presente! Algo que poderá ser atribuído por ti apenas, pois assim eu determino melhor – e esse algo, ó minha filha, chama-se: amor! Esta é tua tarefa, e enquanto ela não for cumprida teu presente permanecerá sendo senão uma luz no horizonte do teu olhar!” Assim disse a Mãe, que, depois de fazê-lo, retirou do ombro a coisa que brilhava, colocou-a nas nuvens diante da moça assustada e desapareceu.

 

Pois tal se encontrava a donzela: perplexa na borda das nuvens, encarando qualquer coisa emanando luz diante de si. No silêncio da noite, ela tentava decifrar as qualidades e formas do seu presente. “O que é isso?” Ela se perguntava, “qués que minha Mãe me deu? Oh, o que será?” Mas seus olhos doíam com a claridade contrastante. – Ela se afastava um pouco, se curvava e dava voltas: mas, nada; apenas o incômodo nas pupilas. E então, quando a frustração estava para invadir o seu coração – ela ouviu: “tu me entendes?”

Ó!

A moça deu um salto para trás. Ela ficou côs braços armados e as pernas abertas, como um animal aguardando o ataque dum inimigo.

Voltou a voz: “Ontem eu ouvi os pássaros, mas eu não os entendi. Eles são engraçados. Falaram e falaram, e eu quieta quieta tentando disfarçar que não estava conseguindo entendê-los…”

Ó! Pois, vejam vocês – qual foi a surpresa da moça! Se não era da coisa brilhante que a voz saía – e, além! Para uma surpresa ainda mais: como uma pena carregada pelo vento, ela chegava trazendo palavras sobre pássaros. Sobre pássaros!

“Ah! Eu te entendo sim! Então! É isso que tu fazes!” A moça disse, abaixando sua guarda.

“Eu não sei. Causa de quê que tu estavas me examinando daquela maneira?” Disse a dona da voz.

“Causa que eu não sei o quê tu fazes!” Respondeu a moça, e se calou. E, no silêncio, ela decidiu dar passos lentos e se aproximar – mas, a coitada! Fez isso olhando para os pés, porque à sua frente permanecia ainda a terrível claridade que machucava os olhos.

“Mas tu descobriste?” A dona da voz disse de repente.

A moça parou e se armou novamente, e respondeu: “Não! Não descobri o que tu fazes! Não muito bem, não!”

“Então tu olhaste tudo que tinha para ser olhado em mim e não compreendeste nada?” A dona da voz disse, e! E…! E riu! A moça se intrigou ainda mais, e voltou com seus passos vagarosos.

“Ah! Do qués que tu ris? Eu olhei, mas eu não vi. É que tu és tão clara que dóem minhas vistas e eu não enxergo nada.”

A dona da voz ignorou a primeira pergunta e se ateve à parte que julgou interessante: “Clara? Mas está tudo tão escuro aqui,” e riu novamente. “Qués que é isso em que eu estou pisando?”

“São as nuvens. Eu vivo aqui. Do qués que tu ris?”

“Aqui! Nas nuvens! Ora só!” E riu ainda uma vez mais. “Então o que eu estava admirando ainda ontem era o seu lar!”

“Tu estavas? Do qués que tu ris?”

Mas! A dona da voz, resoluta a satisfazer apenas suas próprias vontades – não respondeu. Apenas riu de maneira descontrolada; riu em gritinhos agudos que ecoaram pela noite. E então: a moça não aguentou mais. Ela! Aproveitou que já havia se aproximado um tanto, se encolheu um pouco, como uma onça… e! Num instante ínfimo! Se saltou na direção da coisa brilhante – e! Voou com os braços abertos, agarrou o que conseguiu, e, ah! E…! E caíram ambas lá de cima!

De olhos fechados, a moça não sentiu o vento cortando eles durante a queda – mas! Muitas outras coisas ela sentiu: ela apertou seu presente – e apalpou, e deslizou cás mãos no que não podia ser senão uma cintura: e “ah!” ela suspirou boquiaberta! E, ainda durante a queda! Ela levantou os dedos e enrolou neles fios que não podiam ser senão de cabelos: e “ah!” uma vez mais ela exclamou! E então, ó! Ela compreendeu tudo. E, em choque, ela acarinhou o presente da Mãe.

 

Enquanto a outra começava a rir com os toques da mocinha, como quem recebe gracejos inesperados – os pássaros! Pássaros da noite! Eles vieram e impediram-nas de cair; e eles pegaram as moças e levaram-nas abraçadas de volta para as nuvens.

“Do qués que tu ris?” Disse a moça quando pisou novamente e soltou a outra.

“É que tu és muito engraçadinha! Cheia de sustos!” E riu.

Foi dali, ó que coisa, que elas começaram uma conversa agradável. E elas falaram no decorrer da madrugada, e elas contaram piadas e compartilharam gostos, e pararam apenas quando o sol começou a nascer – para saltar pelas nuvens e cantar côs pássaros. Naquela manhã, juntas, elas fizeram uma canção que dizia assim:

            “Andando aqui, em cima das nuvens, e

                  saltando sobre elas, de mãos dadas.

            Correndo contigo, ao meu lado,

                  nós nos divertimos!

                        Oh oh!

            Voando, vêm os pássaros, e,

                  cantando, se afastam.

            Planando, perdem altura,

                  olhando-os, nós nos divertimos!

                        Oh oh!

            Ricos raios (de sol) atravessam

                  nossas nuvens pelos lados.

            Chegam como (se fossem) águas tônicas, e

                  nós nos divertimos!

                        Oh oh!

            Andando aqui, em cima das nuvens, e

                  saltando sobre elas, de mãos dadas.

            Correndo contigo, ao meu lado,

                  nós nos divertimos!

                        Oh oh!”

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A Senhorita que veio do mar

Os vento sopravam as velas do navio, e parada na proa a Senhorita Vivian observava as árvores se erguendo atrás da praia. Qualquer homem ao seu lado não teria visto senão um borrão no horizonte atrapalhando a mistura da águas com o céu – mas ah, vejam vocês! Hoje em dia eles contam que as águas eram a sua mãe, e o céu o seu pai! E a Senhorita Vivian olhava e via o que homem nenhum teria visto, e no seu coração ela desejava o que homem nenhum teria desejado, pois ninguém estava no navio além dela, e na sua solidão o navio se movia pela pura vontade do mar.

E então os homens se juntaram na praia e subiram nas árvores, e eles olharam e eles viram, mas não mais que apenas o navio eles enxergaram; quando este deixou de ser um ponto inalcançável nas distâncias e se tornou uma parede de madeira cobrindo toda a visão, só então eles perceberam a Senhorita Vivian. E eles contemplaram! E contemplavam! Os cabelos escuros como as águas durante a noite, o manto branco como as nuvens no céu durante o dia! E no seu esplendor, os olhos que refletiam a pureza do coração! E os homens olhavam, e eles suspiravam – mas eles não conheciam o desejo, não! Eles desceram das árvores, e em seus modos mais primitivos eles se ajoelharam e reverenciaram a Senhorita enviada pelas águas.

Com as cabeças apontadas para o chão, eles fecharam os seus olhos. Nos seus pensamentos mais profundos, os homens tiveram a certeza de que não deveriam olhar para aquela que havia vindo do mar, e, naquele momento, eles enxergaram a Senhorita Vivian apenas com o coração – mas ela! Com os olhos bem abertos, ela viu a essência por trás dos homens. Não árvores, e não animais, e não nada os seus olhos enxergaram além da essência dos homens! Os homens vendo o preto por trás das pálpebras sentiram um olhar caindo sobre eles, e era o olhar da Senhorita Vivian.

Os ventos desceram a Senhorita Vivian do navio, e os homens se levantaram. E o navio – ele se foi! Carregado pelas águas para longe, e depois engolido para as profundezas: ele se foi. Quando os homens sentiram os pés da Senhorita Vivian pisando na terra em que eles viviam, eles abriram os olhos, e mais uma vez eles contemplaram, e então ela sorriu para eles e eles sorriram para ela, e dentro deles a tristeza pela alegria foi iluminada. Eles sorriram para ela, sim; mas groceiro, o sorriso dos homens! Groceiro! Eles ainda não sabiam sorrir. Hoje em dia eles contam que aprenderam com ela, pois naquele momento os seus lábios finos puxaram delicadamente o canto da boca e revelaram não mais que um delicado arco branco. Eles olharam para o sorriso dela, e se envergonharam – nos seus corações o desejo mais profundo nasceu: eles queriam sorrir como a Senhorita Vivian. Eles não queriam sorrir para ela como groceiros! As bochechas dos homens se avermelharam. Eles sentiram vergonha.

E ela, vejam vocês! Ela se sentiu grata, e ela quis agradecer, e ela agradeceu: no fim da sua solidão, a Senhorita Vivian cantou para os homens. Ela cantou a sua gratidão com muitas palavras, mas eles não compreenderam nenhuma delas – eles ainda não sabiam compreender as palavras. Eles apenas ouviram a melodia, e os seus ouvidos se deliciaram com a voz doce ecoando por entre as árvores para dentro da floresta – mas ela! Ela cantou para os homens, e para as águas, e para o céu! E para a floresta ela também cantou! Ela cantou para que os homens não esquecessem, e para que os pássaros imitassem a sua música – e assim foi! Pela primeira vez os pássaros e os homens cantaram a mesma música que a Senhorita Vivian.


Conto escrito para um mini-concurso feito em um grupo de escritores no Whatsapp.

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O macaco, a pedra e o sofá

Atualização 31/05/2018: Eu escrevi uma análise na qual eu tento identificar os problemas com esse texto e consequentemente suas causas e possíveis soluções. Aqui está: O problema da presença do narrador, mimesis e diegesis.


Um dia Ana chegou em casa e encontrou um macaco sentado em seu sofá. Ele não a percebeu de imediato pois estava entretido olhando para o teto, mas os seus pelos estavam visivelmente imundos e isso havia sujado todo o sofá. As manchas de terra incomodaram muito Ana, e ela deu três batidas na porta que fizeram o macaco olhar para ela.

“Com licença, Sr. Macaco. O que você está fazendo aqui?” Ana disse.

“Ora, eu decidi me mudar para cá. Quem é você?” Respondeu o macaco, coçando a cabeça e analisando Ana de cima para baixo.

Ana colocou sua cesta de frutas no chão, tirou os sapatos sujos de lama e se apressou até o macaco. “Mas Sr. Macaco, essa casa é minha! Esse sofá também é meu. Se você estiver querendo comprá-lo, essa é outra questão que nós podemos discutir com prazer –”

“Não, não”, interrompeu o macaco. “Veja bem, a floresta agora me pertence. A sua casa está na floresta e por isso também me pertence, naturalmente.”

“Mas Sr. Macaco!”

O macaco se levantou devagar e levantou um dos dedos, e quando Ana ficou em silêncio ele a entregou uma pequena pedra colorida. “Viu só? A floresta é minha, eu lutei pela pedra e venci.”

“Oh.”

Ana olhou frustrada para a pedra em suas mãos: a floresta era realmente do macaco e quanto a isso ela não poderia fazer nada, mas ela gostava muito da sua casa e estava disposta a tentar mantê-la.

“Tudo bem, eu entendo, mas tenha pena de mim! Eu não tenho para onde ir. Essa casa é tudo o que eu possuo, se você for ficar com ela… O que será de mim?” Ana disse.

“Eu acho que isso não é muito problema meu.” O macaco respondeu.

Ana bateu um pé forte no chão e olhou espantada para o macaco. “Isso é um absurdo, Sr. Macaco! Se é desse jeito que você pretende cuidar da floresta, ela não vai ficar nas suas mãos por muito tempo. Disso eu tenho certeza!” Ela disse.

“Isso sim é problema meu, senhorita,” disse o macaco, e então ele pegou a pedra das mãos de Ana e voltou a se sentar e a encarar o teto. “Mas apenas meu. Se algum dia essa pedra passar para as mãos de outra pessoa talvez você possa voltar para esta casa. Até lá, queira por gentileza se retirar.”

“Eu não me irei me retirar, Sr. Macaco!” Ana disse, e ela se sentou no sofá ao lado do macaco com os braços cruzados. “Na verdade, eu só vou me levantar daqui quando você for embora.”

O macaco estava tão decidido a continuar com a casa que também resolveu que só iria se levantar quando Ana fosse embora, e por isso os dois ficaram sentados se sentindo irritados até a noite cair. Entretanto, pouco depois de escurecer muitos amigos do macaco entraram pela porta sem fazer perguntas. Todos estavam gritando e pareciam prontos para dar uma festa para comemorar a nova casa do macaco, e Ana não conseguiu ficar parada diante disso. Ela se levantou para mandá-los embora e depois voltou a se sentar.

“Ah, seus sujos, meus tapetes! Ah, xô, xô!” Ela disse para eles, e eles foram embora confusos já que olharam para o macaco e ele apenas se manteve inexpressível no sofá.

Os dois passaram a noite dormindo no sofá, e quando a manhã chegou o macaco acordou e encontrou Ana ainda ao seu lado com os olhos fechados. Ele pegou a sua pedra colorida e a encarou por alguns minutos enquanto refletia. Ele pensou nas coisas que teria para fazer mais tarde, e pensou também que por causa delas não poderia ficar sentado ali para sempre, então ele acordou Ana com a intenção de resolver a coisa toda finalmente.

“Você é muito teimosa”, disse o macaco.

“Você não me deixa outra opção!” Ana respondeu.

O macaco caminhou até a janela e olhou para as árvores. “Muito bem, eu tenho uma proposta.” Ele disse, e Ana ficou de pé e escutou-o com atenção. “Você pode ficar com a casa, mas eu quero o sofá. E também quero que você cate meus piolhos duas vezes por semana.”

“Oh, eu não acho que farei isso. Digo, o sofá é muito importante para mim. Ele está aqui desde que eu me mudei para cá… Ah, não, não! Não dá para eu me desfazer dele desse jeito, Sr. Macaco!” Disse Ana.

O macaco deu um suspiro profundo e disse finalmente “Ora, então você vai ficar sem o sofá e sem a casa, porque de qualquer maneira eu tenho a pedra… Você quer lutar por ela?”

“Lutar pela pedra? Francamente! Se nós lutássemos você deixaria minhas roupas imundas como fez com meu sofá.”

“Se você não quiser lutar por ele, o sofá é meu e eu diria que ele não está nem um pouco imundo.”

“Ah, Sr. Macaco, vocês do norte da floresta são criaturas terríveis! Você sabe muito bem que só poderia me vencer em uma barbaridade como uma luta. Nós aqui do sul não resolvemos nossos problemas com essas coisas estúpidas e sem sentido, nós resolvemos com educação.”

O macaco pareceu se sentir insultado, mas logo ele se calou e sentou no sofá ao lado de Ana.

“Muito bem, então, muito bem! O que você propõe?” Ele disse.

“Em primeiro lugar eu proponho que você vá embora,” Ana respondeu. “Mas eu acho que você irá recusar essa proposta muito antes de levar ela em consideração, então, bem, eu tenho uma que você vai aceitar sem precisar pensar duas vezes… Eu proponho que você me dê a pedra e fique com a casa.”

“Garota tola, garota tola, eu não serei enganado assim tão fácil… Nesse caso eu te entregaria a pedra e você usaria ela para pegar a casa de volta. Não, não mesmo.”

“Hummmm… Então eu proponho uma partida de xadrez.”

O macaco achou a proposta muito justa, e logo Ana colocou um tabuleiro entre os dois no sofá. O macaco jogou com as peças escuras e começou movendo um dos peões que ficam em frente aos cavalos. Esse movimento rende posições que com certeza são muito agradáveis para pessoas que sabem jogá-las, mas o macaco não sabia. Por outro lado, Ana sabia, e ela se aproveitou do deslize do macaco para aplicá-lo um mate-pastor, que é uma das formas mais humilhantes de se vencer um adversário no xadrez pois a vitória ocorre depois de quatro movimentos. O macaco se sentiu de fato humilhado, mas Ana queria apenas resolver o problema e não tirou sarro dele.

“Agora você pode me dar a pedra e sair da minha casa, por gentileza.” Ana disse.

O macaco olhou para as paredes um tanto frustrado. “A pedra?” Ele disse. “Eu achei que a partida tivesse sido só pela casa.”

“Ah, não, Sr. Macaco. Você disse que nós deveríamos lutar pela pedra e eu propus um jogo de xadrez, sim?”

O macaco era uma criatura que mantinha suas palavras, no fim das contas. Então ele se levantou do sofá, entregou a pedra para Ana e saiu pela porta cabisbaixo e resmungando consigo mesmo. Ana viu pela janela ele desaparecer na floresta, caminhando por cima das folhas no chão. O pobre animal sequer teve forças para subir em uma árvore e ir pulando para sua antiga casa, mas Ana não sentiu pena nenhuma dele. Ao contrário, seu sofá estava imundo e ela precisava lavá-lo com a maior urgência possível, e como ela havia sentado no sofá ela também precisava se lavar. Depois Ana pensou na possibilidade de ter se contaminado com os piolhos do macaco, e isso a deixou muito preocupada. A sua preocupação foi tão grande que ela passou o resto da manhã limpando a casa, e durante toda a tarde ela esteve em baixo do chuveiro, mas depois que todo o serviço havia sido feito ela estava se sentindo muito bem em casa de novo.


Atualização 31/05/2018: Eu escrevi uma análise na qual eu tento identificar os problemas com esse texto e consequentemente suas causas e possíveis soluções. Aqui está: O problema da presença do narrador, mimesis e diegesis.

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O Reconhecimento da Superfície Verde

A nave se materializou um pouco longe do Planeta 1 do Setor 7, e por isso os tripulantes não o viram imediatamente. Fred só foi acordar quando as ondulações no espaço terminaram de se dissipar, e imediatamente ele ouviu um gemido vindo da sua direita. Ele tirou os pés que estavam estendidos sobre o painel e se sentou olhando para o lado.

“Minha nossa, garoto!” Ele disse, enquanto Sam vomitava nos próprios pés. “Eu já te disse, uma hora você se acostuma.”

“Sim, sim…” Sam disse murmurando, quase como se tivesse feito algo de errado. “Diz para a nave limpar isso, por gentileza.”

Fred alcançou alguns botões no painel e logo um pequeno robô multi-tarefas se soltou de um compartimento ao lado da porta principal e começou a limpar o chão. O robô tinha uma inteligência artificial de mais baixo nível, e nos seus pobres julgamentos decidiu que seria uma boa ideia limpar não só o chão como também as pernas de Sam até a altura do joelho.

Fred se levantou para pegar uma xícara de café do outro lado da sala e ver se ela o faria acordar por completo e se livrar daquela sensação de que o tempo não passava. O interior da nave estava sempre quieto demais para ele. “Quer café?” Ele perguntou. Sam estava ocupado se sentindo aborrecido com o mal estar do vômito e com o braço do pequeno robô aspirando sua perna, mas respondeu que sim, claro, e que café é sempre ótimo.

Sam resolveu se colocar de pé, esticar todo o corpo e fazer estralar as pontas dos pés e o pescoço pois ele sentia como se todos os ossos tivessem sido ligeiramente deslocados para mais perto uns dos outros. Mas quando ele olhou para a grande tela diante de si um pequeno detalhe quase fez seu coração sair pela boca: um pontinho verde. Muito, muito longe em algum lugar estava um pontinho verde; e ele rapidamente verificou que era para lá que a nave estava indo. Depois de um breve murmúrio de susto, ele apontou para o pontinho e arregalou os olhos.

“Verde!” Ele disse, e depois ficou reto como uma vara e apertou as sobrancelhas. “Verde…?”

Ouvindo isso, Fred se virou de uma vez e também ficou fascinado. Sua mente se desconectou tanto do seu corpo que enquanto imagens de mil memórias passavam dentro da sua cabeça os seus músculos pararam de indicar qualquer sinal de atividade. Os seus dedos se relaxaram e ele deixou as duas xícaras de café caírem e sujarem o chão, e imediatamente o robô multi-tarefas julgou essencial limpar suas pernas e começou a agir.

Depois de alguns segundos que Fred e Sam passaram olhando em silêncio para o Planeta 1 do Setor 7 na tela, Fred se livrou do robô, pegou mais duas xícaras de café e parou ao lado de Sam. Os dois com os olhos maravilhados apontados para o círculo verde que ia ficando cada vez maior na tela, pois a nave estava se aproximando muito rápido do planeta. Fred entregou uma das xícaras para Sam, que deu um gole profundo, mas os dois estavam tão encantados que o único som foi o do robô multi-tarefas se acoplando novamente ao compartimento ao lado da porta.

“Quem diria, hein?” Disse Fred finalmente. “Eu não esperava que o Planeta 1 fosse verde…”

Sam assentiu com a cabeça. “É…” mas tanto ele quanto Fred estavam com os olhos fixados no planeta crescendo na tela. Os dois sabiam que só havia uma coisa que poderia estar sobre a superfície fazendo o planeta ser verde: árvores. Eles estavam preparados para lidar com árvores e até com florestas, mas o planeta inteiro os pegou desprevenidos. “É muito parecido com o Planeta Natal–” e então ele percebeu o lado escuro do planeta e novamente ficou em silêncio admirando. Havia um número incontável de pequenos pontos brilhantes naquele lado que ficava cada vez menos escuro conforme eles se aproximavam, e entre essa metade escura e a outra metade verde do planeta havia uma faixa de vermelho. Não era o vermelho causado por um efeito da falta de luz sobre a superfície verde, mas sim um vermelho vivo, quase rosa.

“Então… vida inteligente?” Disse Sam percebendo que enquanto o planeta girava e a noite caía sobre sua parte verde, novos pontos de luz surgiam em todos os lugares, mas a faixa vermelha continuava intacta. “Devemos reportar isso? Porque nesse caso nosso procedimento seria completamente diferente… Quer dizer, nós deveríamos voltar e eles mandariam alguém pra negociar, não?”

“Vamos esperar a nave analisar a superfície antes de fazer qualquer coisa. Vida inteligente avançada o suficiente pra produzir tanta luz? Pode ser.” Fred se sentou e voltou a beber o café. “Vida inteligente vivendo em um planeta que é pura floresta? Duvido muito.”

Sam concordou e foi fazer os preparativos para a ativação do programa de instalação da colônia. Ele estava de pé diante de um painel lateral inserindo algumas informações necessárias, mas continuava dando olhadelas para a tela principal da sala de comando da nave. O Planeta 1 do Setor 7 continuava se comportando de maneira muito curiosa: agora a parte verde parecia se mover suavemente, como se um terremoto estivesse acontecendo lá; a parte escura continuava piscando e a faixa vermelha que separava os dois lados permanecia inabalada.

Eles estavam preparados para lidar com superfícies esquisitas e formas de vida peculiares, mas a mistura dessas duas coisas com o verde continuava impressionando Fred. Ele continuava sentado olhando para a tela, concentrado e com a mente mergulhada em pensamentos profundos. “Muito bem”, ele disse quando voltou para si e olhou para as pequenas telas no painel. “A nave está pronta para entrar na atmosfera. Ativou o programa de instalação?” Sam respondeu que sim, e então eles se prenderam nas cadeiras e se prepararam para eventuais turbulências.


Nota: Essa não é, evidentemente, a história toda. Eu escrevi essa parte e ela ficou por muito tempo acumulando poeira nos confins do painel administrativo desse blog, e uolô! Aparentemente há poucas esperanças de que irei escrever o restante dela em algum tempo próximo. A camada de poeira estava se tornando tão grossa que não sei se eu seria capaz de retirar ela no futuro. Portanto resolvi postar mesmo apenas o fragmento, e mover adiante para contar outras histórias. Vou-me já!

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A Máquina Voadora do Sr. Heru

Atualização 04/10/2017: Eu escrevi uma análise na qual eu tento identificar os problemas com esse texto e consequentemente suas causas e possíveis soluções. Aqui está: Um pouco sobre a natureza do narrador.


1.

Havia uma cidade que tinha tantas torres que a luz do sol mal conseguia alcançar o chão, mas nas ruas onde havia luz também havia a sombra da máquina voadora do Senhor Heru. O Senhor Heru era conhecido por todos da cidade: os adultos viam ele como um cientista de bastante respeito, já as crianças como um velho rabugentíssimo e tenebroso, apesar que um ou outro garoto que não tinha medo dele sempre era contratado para ajudá-lo a fazer manutenções durante o voo. Uma moedinha de ouro era o suficiente para fazer com que muitos garotos deixassem de lado o medo do Senhor Heru e o medo de altura e se pendurassem na parte de trás da máquina voadora.

Todas as pessoas daquela cidade e de muitas outras se reuniam ali e se espalhavam ao longo de muitas tendas e barracas na primeira sexta-feira de todos os meses, e eles vendiam e compravam muitas coisas. Em um desses dias o Sr. Heru passeava com sua máquina voadora, e lá embaixo incontáveis pessoas olhavam para cima boquiabertas. As pessoas que vinham de longe viam a máquina voadora com extrema surpresa e os moradores a olhavam com orgulho, pois a viam sempre e ficavam felizes por ela ter sido criada por alguém da cidade. No meio da multidão de compradores e vendedores um garoto e uma garota estavam olhando a máquina voadora do Sr. Heru, e eles não estavam nem surpresos e nem felizes – seus nomes eram Leo e Finna. Então eles apontaram os olhos para o chão, abaixaram os capuzes cinzas que estavam usando e voltaram a subir a rua. Estava tudo tão lotado que Finna segurou Leo pela mão e foi abrindo caminho e empurrando as pessoas antes de dar cada passo, e muitas dessas pessoas também usavam capuz pois o sol era poderoso onde alcançava.

Sobre as cabeças de Leo e Finna a máquina do Sr. Heru continuava planando de um lado para o outro, e ele só foi parar com as manobras mais impressionantes quando uma fumaça preta começou a sair de uma das asas. De repente todas as pessoas que estavam fazendo negócios levantaram a cabeça de uma vez e gritaram “Ó!”, e Leo e Finna também olharam boquiabertos. O Sr. Heru estava voando sem nenhum ajudante naquele dia para fazer uma manutenção durante o voo e pôde apenas guiar a máquina cambaleantemente até uma grande janela da sua própria torre, onde poderia pousar e consertá-la. Finna ficou animada com a cena e seu queixo caído logo se tornou um sorriso de canto de boca, mas Leo foi tomado por calafrios e maus pressentimentos. Ele puxou Finna pela mão para baixo de uma árvore onde havia poucas pessoas:

“Você acha que é melhor desistir?” Ele perguntou para ela. “Como vamos roubar a máquina se ela estiver com algum defeito?”

“Você está brincando?” Ela respondeu enquanto apertava as sobrancelhas. “Ele entrou voando na torre, a máquina está funcionando.”

“Não muito bem, senão o Sr. Heru teria continuado voando…” Leo inclinou a cabeça e virou os olhos como se estivesse desviando um olhar tímido. Finna colocou a mão em seu ombro e suspirou.

“Bem, o Sr. Heru vai consertar a máquina de qualquer maneira,” ele continuou dizendo. “Será que o Sr. Goliais não entenderia se a gente esperasse até ela estar voando normalmente?”

“Eu acho que não”, ela respondeu encolhendo os ombros. “Ele foi bem claro: roubamos a máquina  voadora do Sr. Heru e encontramos o Sr. Goliais quando o sol estiver se pondo, fazemos a entrega, pegamos o pagamento e pronto. Aquelas doze moedas de ouro vão resolver nossos problemas por muitos meses!”

Os olhos de Leo continuavam indo cada vez mais pro canto enquanto ele tentava pensar em alguma desculpa pra escapar daquela situação toda. Ele começou a gaguejar alguma coisa e por fim desabafou timidamente: “Vou te contar a verdade”, ele disse, “eu já estava com medo de pilotar a máquina antes, e agora com aquela fumaça saindo de uma das asas então…”

Finna já estava esperando que Leo se acovardasse em cima da hora e não conseguiu segurar suas risadas. Leo ficou todo vermelho e encolhido enquanto ela chacoalhava os ombros zombando dele. “Mas Leo”, ela disse, “você sabia que eu queria pilotar a máquina desde que o Sr. Goliais passou a missão. Se não queria fazer isso, por que não me deixou ficar com a parte complicada?”

“Ah, ah…” Ele respondeu desconcertado e envergonhado. “Você sabe, depois do desastre que foi aquele último roubo eu precisava ganhar uns pontos com o Sr. Goliais.” Ele deu de ombros enquanto se justificava e Finna contiuava rindo enquanto se lembrava da última missão que fizeram juntos. “Ainda preciso! Vamos esperar o Sr. Heru consertar a máquina, pelo menos não corro o risco de cair lá de cima ou sei lá.”

“Leo, está tudo bem,” Finna respondeu colocando a mão no ombro dele. “Está tudo bem. Deixa que eu entro na torre do Sr. Heru e roubo a máquina. Você distrai o Sr. Goliais. Essa parte da missão é tão importante quanto a pilotagem mas, bem, você sabe, eu gosto de fazer coisas mais agitadas .”

Leo pensou que aquela era uma oferta muito tentadora, mas ele continuava preocupado com o risco da máquina parar de funcionar no meio do ar. “Mas nesse caso quem vai correr o risco de morrer é você, dá na mesma!”

“Claro, claro!” Ela respondeu dando risadas. “Pode ser minha aventura mais divertida em muitos anos.”

Leo tentou responder, mas enquanto gaguejava Finna já entregava um pacote em uma de suas mãos e pela outra o puxava rua acima falando “vamos, vamos! Está combinado: você distrai o Sr. Heru enquanto eu roubo a máquina!” Eles continuaram subindo a avenida até que viraram para a esquerda em uma esquina, e então pararam no início de uma larga rua com várias casas muito modestas dos dois lados. Havia um grande portão centralizado onde a rua parava de seguir em linha reta e começava a dar a volta.  Era um portão muito alto, e muito alto era também o muro no qual ele ficava: pois esse muro cercava a torre do Sr. Heru, e a coisa toda era tão grande que ocupava o espaço de várias casas e era rodeada por uma rua circular que se ligava com outras retas que iam para todos os cantos da cidade, e em uma dessas Finna e Leo haviam parado e ficaram admirando o portão um pouco. Eles olharam um para o outro, e então Leo acenou para ela com a cabeça e eles se separaram: Finna se enfiou num beco entre as casas e Leo continuou andando em direção ao portão da torre do Sr. Heru.

“Sr. Heru, Sr. Heru!” Ele gritou. Depois colocou no chão o pacote que o Sr. Goliais havia preparado para distrair o Sr. Heru e bateu muitas palmas enquanto olhava para cima na expectativa de uma resposta. O velho finalmente colocou a cabeça para fora da janela mais alta da torre e lançou para Leo uma expressão muito rabugenta que ele mal conseguiu enxergar lá de baixo. Suas sobrancelhas estavam apertadas e seu rosto e seu manto cinza estavam sujos com a graxa da máquina voadora, e ele ergueu os óculos de proteção que usava e gritou com toda a força: “Quem é? O que você quer?”

Leo levantou o pacote e gritou que estava lá para fazer uma entrega e que o Sr. Heru deveria descer para pegar, mas o velho não ia bem dos ouvidos e nem dos olhos, e daquela distância só conseguiu entender uma ou outra palavra sem sentido se misturando ao vento forte das alturas e enxergou apenas o que supôs ser uma pessoa sacudindo algo que parecia um pacote marrom acima da sua cabeça, e então ele gritou que quem quer que fosse que estivesse lá embaixo era um maldito por incomodar e que ele estaria descendo imediatamente.

O portão se abriu e o Sr. Heru se colocou parado ao lado dele, segurando-o aberto e revelando as paredes da torre lá dentro. A simples aproximação do Sr. Heru foi suficiente para fazer Leo dar um passo para trás assustado com a sua presença. Ele era um velho muito magro e sua pele era enrugada até a ponta dos dedos, mas estava sempre bem disposto e com muita pressa. Quando estava para perguntar quem era e o que queria o Sr. Heru reparou que diante dele estava um garoto, então de repente seus problemas foram iluminados por uma boa ideia e ele levantou as sobrancelhas com animação. “Perfeito!” Ele disse, “entra, entra!”

“Eu…” começou a dizer Leo, que estava preocupado em manter o Sr. Heru fora da torre e não tinha nenhum plano de deixar ele entrar, ou pelo menos seria um desastre se isso acontecesse antes de Finna sair de lá com a máquina voadora. Ele estendeu o pacote que o Sr. Goliais havia preparado como distração e começou a gaguejar: “Eu vim fazer uma entrega, senhor.”

O Sr. Heru desprezou completamente o pacote. Ele fez um sinal de desdenho com a mão e o empurrou para o lado. “Entra, foi muita coincidência ter aparecido alguém”, ele disse e então se aproximou animadamente de Leo e colocou a mão em seu ombro.  “Eu estava mesmo precisando de alguém para me ajudar a consertar a máquina.”

Leo ficou atordoado com o toque do Sr. Heru e com a proximidade de seu rosto, que ele considerava muito feio e amedrontador. Ele reuniu coragem das profundezas de seu coração e voltou a levantar o pacote. “Senhor, eu estou trabalhando. Pegue o pacote. Eu ainda tenho mais encomendas para entregar”, ele disse enquanto colocava o pacote entre ele e o Sr. Heru, que novamente o afastou com a mão e voltou a se colocar ao lado do portão e a segurá-lo aberto.

Calafrios tomaram o corpo de Leo quando ele percebeu que não ia conseguir manter o Sr. Heru lá fora pelo tempo necessário. Ele abaixou o pacote e o desespero dominou seus pensamentos. Sentiu uma tremedeira subir pela espinha e não gostou nada dela, então olhou para a direção do beco no qual Finna havia se enfiado mas ela já não estava mais lá. “É coisa simples,” ele ouviu o Sr. Heru dizer, “me ajude a consertar a máquina e eu até te dou umas moedas de prata.”

Leo pensou que aquela seria a oportunidade perfeita para desistir se Finna já não estivesse tentando entrar na torre, mas o medo dela ser pega caso ele não conseguisse atrasar o Sr. Heru ali fora o dominou e ele levantou de novo o pacote e disse “Então eu ajudo, claro, claro! Mas antes o senhor pode confirmar que está tudo certo com a encomenda? Senão meu patrão…” mas o Sr. Heru já o havia ignorado novamente e estava entrando apressado pelo portão: Leo pôde apenas ir correndo atrás. Quando abriram a porta e entraram na torre ele mal teve tempo de admirar a vastidão da sala, e antes mesmo que ele pudesse fazer uma nova tentativa de entrega e pelo menos manter o Sr. Heru por ali o velho já estava subindo uma escadaria ao lado da porta.

O Sr. Heru subia os degraus com passadas larguíssimas e com muita pressa enquanto Leo o acompanhava cambaleando, parte com a impressão de que a qualquer momento criaturas terríveis surgiriam daquele corredor mal iluminado que subia pelas paredes da torre e parte imaginando que tipo de coisas estariam guardadas nas dezenas de salas que surgiam enquanto eles subiam. Os sapatos do Sr. Heru batiam na madeira dos degraus e ecoava pelas paredes da escadaria, e quando ele começou a falar seus gritos rabugentos também reverberaram incompreensivelmente.

“É muito azar! É muito azar” Ele dizia a cada passo. “Eu tenho muitas coisas para fazer esta tarde e preciso dessa máquina funcionando até lá. Mas se você me ajudar acho que conseguimos terminar a coisa toda logo.”

“Eu não posso ficar muito, tenho muitas outras entregas pra fazer.” Leo respondeu e ficou surpreso quando sua voz também ecoou nas paredes.

“Inferno, garoto, eu disse que lhe pago!”

O Sr. Heru parou e se voltou para Leo enquanto tirou uma moeda de prata do bolso do manto e atirou para o garoto. Leo pegou a moeda e abaixou a cabeça enquanto olhava para a mão em que a segurava, depois olhou para a outra mão na qual segurava o pacote preparado pelo Sr. Goliais, então deu de ombros e voltou a subir as escadas atrás do Sr. Heru para enfrentar as crueldades do destino.

*****

2.

Finna se sentiu muito frustrada ao rodear a torre e descobrir que a rua estava cheíssima de pessoas e que não haveria nenhuma hipótese de pular o muro por aquele lado sem ser vista. Ela se meteu de novo nos becos e foi para alguma rua que ficava do lado esquerdo do portão no qual o Sr. Heru deveria estar com Leo. Ali só encontrou cachorros e pôde pular o muro para dentro da torre sem problemas.

Havia grama plantada em todo o chão e muitas plantas espalhadas pelo interior do muro. Assim que se jogou lá pra dentro ela logo se levantou e se escondeu atrás de um arbustro e começou a espiar em todas as direções. Foi quando ela viu uma das portas da torre aberta, e ao lado da porta havia três vasos de petúnias. Ela deu um sorriso para si mesma pois aquilo era exatamente como o Sr. Goliais havia descrito. O lugar todo pareceu estar completamente deserto, então ela correu em direção à porta já pensando em subir as escadas até a sala mais alta, mas quando ela estava para passar pela porta de repente ouviu vindo de dentro um eco de vozes vindo lá de dentro e por impulso se espremeu na parede ao lado dos vasos de petúnias.

Lá de fora ela não pôde entender nenhuma palavra entre os sons que ouviu, e depois disso as vozes não disseram mais nada por alguns minutos. Com o silêncio ela inclinou a cabeça e espiou dentro da torre, e os olhos de Finna viram apenas a grande sala vazia com outra porta aberta para a direção em que Leo deveria estar, uma escada surgindo para cima à sua direita e uma para baixo à sua esquerda. Ela ficou muito confusa e começou a se perguntar se Leo teria conseguido segurar o Sr. Heru lá fora ou se o velho teria descido para o subsolo da torre, pois as escadas que desciam à sua esquerda estavam com o alçapão aberto.

Finna começou a alternar seus olhares enquanto pensava. Olhava para as escadas descendo à esquerda, para as escadas subindo à direita e para a porta aberta do outro lado e imaginava onde o Sr. Heru estaria. Seu sangue começou a correr mais rápido nas veias e ela se sentiu agitada, pois aquele era um risco que não estava esperando. Ela se deixou guiar pelo próprio instinto e pela confiança em Leo e decidiu correr escadaria acima e continuar com o plano inicial.

Mas Finna não subiu se esgueirando pelas paredes, ao invés disso ela subiu dando passos largos, firmes e decididos, pensando apenas nas instruções de voo que o Sr. Goliais havia dado: quais botões do painel apertar para ligar a máquina voadora, como rodar a hélice para o motor funcionar, como decolar com ela pela janela da torre, como fazer curvas fechadas e como chegar com ela até o ponto de entrega. Ela passou por muitas portas que davam para muitas salas e muitos corredores, mas só se animou realmente quando viu a porta no fim da escadaria, pois aquela porta dava para a sala no topo da torre e lá deveria estar a máquina.

Ela estava tão excitada com a coisa toda que abriu um sorriso de orelha à orelha, e justo quando se apressou para a porta ouviu outra voz ecoar, mas dessa vez se tratava claramente de um grito de dor e descontentamento. Os próximos passos de Finna teriam sido diretamente para dentro da sala e para a máquina voadora que lá estaria, mas ao ouvir esse grito ela desviou para o lado e se espremeu na parede ao lado da porta, sentiu o coração quase sair pela boca com o susto e começou a suar frio. Ela estava para se acalmar quando o Sr. Heru surgiu correndo da porta ao seu lado como se fosse um vulto e desceu as escadas desesperadamente.

Antes de se perguntar o que teria acontecido ela pensou que aquela era sua chance. A adrenalina tomou conta do corpo de Finna e ela sentiu seu sangue pulsando nas veias. Da expressão de susto outro sorriso surgiu em seu rosto e ela virou para dentro da porta de uma vez sentindo que o voo na máquina proporcionaria uma das sensações mais recompensadoras do mundo, e então ela entrou de uma vez e quase não reparou na  máquina voadora à sua disposição no centro da sala, pois logo ao lado estava Leo sentado em um banquinho e com a cabeça baixa.

*****

3.

Quando Leo entrou na sala no topo da torre sua visão foi das mais excitantes, pois ele viu a máquina voadora parada no centro e muitas outras máquinas das quais ninguém nunca havia ouvido falar ao redor dela, ferramentas e peças de todos os tipos espalhadas em prateleiras e pelo chão, baús abertos e cheios até a tampa. E de todas as coisas que ele admirou a que mais o deixou impressionado foi a grande janela aberta da qual se podia ver o topo de muitas torres da cidade, e enquanto ele olhava para o céu azul com seus olhos arregalados a voz do Sr. Heru dominou a sala e trouxe seus pensamentos de volta à situação:

“Não toque em nada sem eu mandar!” Ele disse.

Então o Sr. Heru caminhou até uma das prateleiras ao lado da grande janela e pegou duas ferramentas muito pequenas para apertar parafusos, e de um dos baús ele pegou mais uma para cortar fios. Ele se ajoelhou ao lado de uma das asas da máquina, entregou uma das ferramentas para Leo e explicou exatamente o que ele deveria fazer, depois ele caminhou até a outra asa do outro lado e os dois começaram a trabalhar.

O problema das asas eles consertaram rapidamente pois apenas a que o Sr. Heru mexeu estava danificada, mas as engrenagens das duas eram ligadas e para mexer seguramente em uma era preciso manter a outra no lugar. Leo achou as instruções muito simples e apenas as seguiu sem dificuldades, mas seus pensamentos estavam inteiramente voltados para Finna. Ele estava preocupado que ela subiria as escadas para roubar a máquina voadora sem ter a consciência de que eles estariam lá em cima. Ele fez muitas perguntas para o Sr. Heru sobre as diversas máquinas que estavam na sala com a esperança de que Finna os ouviria conversando e não seria pega subindo as escadas, mas o Sr. Heru logo pediu a paciência e pediu silêncio enquanto ele se concentrava no conserto da máquina.

Ele começou a pensar em coisas diferentes que poderia ter dito e que teriam convencido o velho a aceitar o pacote, ou que pelo menos o manteriam lá fora por tempo suficiente para ela subir as escadas e sair voando. Foi quando o Sr. Heru deitou no chão e se enfiou embaixo da máquina para consertar o motor principal, e esta era a parte mais danificada. Leo precisou erguer a máquina rapidamente do chão para que o Sr. Heru pudesse mexer os braços com as ferramentas lá embaixo, mas enquanto a segurava a porta da sala aberta mostrava o abismo que era a escadaria da torre indo lá para baixo, e ele a olhava com a impressão que a qualquer momento Finna surgiria dali toda estabanada e que o Sr. Heru os pegaria e que então eles estariam com muitos problemas. A apreensão subiu pelas suas pernas e a preocupação que dominou seu corpo fez com que seus braços não conseguissem segurar a máquina por muito tempo, e se não fosse por isso ela já seria pesada demais de qualquer maneira: deixou a coisa toda desabar de uma vez em cima do velho.

O primeiro grito do Sr. Heru foi pela dor mas também exprimiu uma irritação que pareceu estar guardada há tempos. Sua voz ecoou em toda a sala, saiu pela janela e até desceu as escadas enquanto Leo se tremeu todo cem uma sensação de que havia cometido um erro terrível e fez o que pôde para puxar a máquina, mas o Sr. Heru começou a empurrá-la por conta própria e a dar muitos outros gritos assustadores. O pobre garoto não conseguiu entender uma palavra em meio ao seu desespero, mas a expressão rabugenta que estava no rosto do Sr. Heru quando ele se levantou de uma vez falou por si só: a mão cobria o nariz de onde escorria sangue, e todo o resto estava muito enrugado de ódio. Ele tirou a mão da frente da boca, apontou para o garoto e finalmente disse algo de maneira bem clara:

“Agora,” e chegou com seu rosto assombroso bem perto do de Leo, “eu te pagaria, garoto, mas agora é você quem me paga.” E apontou para um banquinho. “Sente ali e não mova um músculo até eu voltar.”

Uma grossa gota de sangue pingou pelo dedo do Sr. Heru, e logo que ele viu colocou de novo a mão no rosto e saiu correndo para um banheiro que havia alguns andares para baixo. Leo ficou sentado no banquinho com a cabeça baixa, mas sua mente ainda estava fascinada com a máquina. Ele percebeu que aquele momento poderia ser uma oportunidade e começou a cair em profundos pensamentos, mas antes que tivesse tempo de elaborar qualquer coisa ele ouviu uma voz:

“Leo?” ele ergueu a cabeça e viu que era Finna, com as sobrancelhas apertadas e parecendo estar muito confusa.

*****

4.

 “Isso é genial”, disse Finna ao se virar e encarar a máquina. “Eu lá embaixo pensando como faria pra subir, e você aqui pronto pra sair voando com a máquina e me deixar pra trás!” Ela jogou os ombros pra trás e começou a rir da coisa toda. “Quem diria, quem diria?”

“Bem….” Leo tentou responder mas da sua boca só saíram murmúrios e palavras gaguejadas. Finalmente ficou de pé, também deu de ombros e disse: “quando eu me dei conta já estava aqui.”

Pararam os dois um do lado do outro e admiraram a máquina voadora, parada no centro da sala e com a parte da frente apontada para a janela aberta. “Eu piloto”, ela disse colocando uma mão sobre o ombro de Leo.

“Nós morreríamos”, ele respondeu secamente, “o Sr. Heru ainda não terminou de consertar a máquina.”

Ela se ajoelhou e deu pancadinhas nas asas como se as estivesse examinando. Nenhum pedaço caiu e Finna ficou satisfeita com isso, então ela pulou para dentro da máquina e começou a apertar os botões indicados pelo Sr. Goliais. As hélices nas asas começaram a girar, primeiro muito devagar e depois cada vez mais rápidas até que o som que saía delas havia preenchido toda a sala. O Sr. Heru também ouviu lá de baixo e soltou outro grito de dor e ódio que subiu as escadas até o topo da torre para se misturar ao som da máquina e passar quase despercebido pelos dois. Leo notou e olhou na direção das escadas mas teve a impressão que o grito vinha de muito longe.

“Você está brincando”, disse Finna, “se ele conseguiu entrar aqui voando, nós conseguiremos sair. Sobe, sobe!”

Leo ficou muito impressionado com as hélices das asas girando à toda velocidade e mal ele abriu a boca para dizer “caramba, então nós realmente consertamos…” e elas pararam. As luzes do painel se apagaram e a máquina voadora desligou completamente. Finna voltou a apertar os botões mas nada aconteceu, e antes que o silêncio pudesse dominar a sala o grito do Sr. Heru se colocou em alto e bom tom, e seus sapatos também ecoavam a cada passo que ele dava em sua corrida escadaria acima. Fina olhou para a direção das escadas e deu uma pancada no volante com as duas mãos enquanto suspirou sua frustração. “Droga!” Ela disse. “Nós morreremos. Como podemos nos esconder dentro de uma sala?”

“Não, nós realmente consertamos a máquina!” Leo disse e correu até a hélice da frente e começou a girá-la. Fina bateu com a mão no rosto enquanto se lembrava das instruções do Sr. Goliais e disse “a hélice, claro, claro!”

Ela voltou a apertar os botões enquanto Leo girava, e finalmente os motores ligaram completamente. Os painéis reacenderam e as hélices voltaram a girar com todas as forças nas asas. Os dois abriram sorrisos largos. Leo pulou para dentro da máquina e Finna apertou vários botões e logo a coisa toda saiu em linha reta pela janela a toda velocidade.

Então era a sombra deles que corria pelas ruas da cidade lá embaixo, e o sangue correu tão rápido como nunca pelo corpo de Finna quando ela olhou e viu as pessoas pequenininhas caminhando entre as barracas. Ela puxou o volante com toda a força e fez a máquina rodopiar e fazer muitas curvas, e no chão todas as pessoas pararam para admirar. Naquelas alturas o vento era muito forte e ela mal podia ouvir os próprios pensamentos enquanto seus longos cabelos se esticavam e chicoteavam o rosto de Leo, que estava sentado logo atrás. Ela abriu a boca e soltou um grito de exaltação que se perdeu ao ser levado pelo vento, mas Finna se sentiu feliz como nunca.

Leo por sua vez não sentiu o vento em seu rosto mas apenas os cortantes fios de cabelo de Finna. Ele estava preocupadíssimo com o Sr. Heru e não parava de olhar para a torre com a impressão de que o velho sairia de lá enfurecido, talvez voando com asas próprias ou sabe-se lá o tipo de coisa que ele não deveria ter guardado naquela torre, mas o Sr. Heru não aparecia. Finna guiava a máquina em círculos no ar e eles davam cambalhotas e cambalhotas e subiam cada vez mais alto, mas Leo olhava para a torre e não via o Sr. Heru. “Vamos fazer o que o Sr. Goliais mandou e entregar a máquina!” Ele gritava, mas sua voz também era carregada pelo vento e suas palavras se perdiam para sempre.

O Sr. Goliais na verdade já havia entrado pela porta da sala e visto pela janela Leo e Finna voando com a máquina, e havia descido até uma das salas para pegar alguma de suas armas. Não que ele fosse gagá o suficiente para destruir sua própria invenção, mas ele a amava tanto que estava disposto a arriscar uma asa ou a outra para recuperar o aparato todo. Ele pensou em fazer uma das hélices parar, assim a máquina começaria a cair e um paraquedas de emergência se abriria e ele conseguiria recuperá-la no chão. Ele pegou uma arma com dois canos muito longos e finos e voltou a subir as escadas com toda a velocidade, torcendo para que os garotos ainda estivessem fazendo manobras em algum lugar próximo da torre.

E eles estavam: Leo gritava inaudivelmente para que fugissem com a máquina de uma vez e terminassem o serviço dado pelo Sr. Goliais enquanto Finna se divertia como nunca e guiava a máquina em manobras arriscadíssimas com um largo sorriso no rosto. O vento continuava poderoso contra seus rostos, mas justo quando Finna apontou a máquina para fugir e eles começaram a voar em linha reta veio da janela da torre do Sr. Heru uma pequena bala de metal desafiando as rajadas e passando de raspão por cima da asa direita da máquina. Depois veio outra também de raspão, e outra que acertou em cheio e fez um furo na estrutura. E então uma acertou a hélice, e Leo e Finna olharam horrorizados para a fumaça preta que começou a sair da asa, pois ao mesmo tempo a máquina começou a cambalear como se estivesse mais pesada de um lado do que do outro.

*****

5.

Leo olhou para a janela da torre e viu o Sr. Heru com uma arma abaixada em uma das mãos e uma luneta apontada para eles na outra. Depois viu o velho sair correndo escada abaixo a toda velocidade deixando a luneta pra trás e levando a arma consigo.

“Está tudo bem, está tudo bem”, Finna virou para trás e começou a gritar enquanto Leo tentava fazer uma leitura labial, “eu vou conseguir pousar!”

Ele olhou atônito e confuso, e ela pôde apenas repetir “pousar, pousar!” em gritos cada vez mais altos e abafados, pois a máquina começava a perder altitude. Leo pensou que aquilo era mal, muitíssimo mal, pois se eles chegassem ao chão ainda vivos o Sr. Heru estaria lá esperando. Ele não conseguiu pensar em outra solução a não ser levar a máquina até o lugar indicado pelo Sr. Goliais, mas antes que ele pudesse manifestar qualquer pensamento a hélice da asa direita parou completamente. A máquina voadora começou a rodopiar no ar e a cair vertiginosamente. A mudança de pressão foi tão alta e tão rápida que Finna desmaiou instantaneamente e Leo sentiu como se sua cabeça fosse explodir, mas de uma vez o paraquedas de segurança se abriu e eles começaram a cair muito devagar.

Leo olhou para baixo completamente desorientado e viu as pessoas se reunindo no ponto em que eles cairiam com a máquina. Ele gritou por Finna e sua voz finalmente soava pelo ar de maneira audível, mas ela ainda estava desmaiada e não respondeu nada. Leo a chacoalhou incessantemente pelo ombro e também nada aconteceu. Poucas possibilidades passaram por sua cabeça, mas seus pensamentos estavam dominados pelo temor de inevitavelmente chegarem ao chão e serem pegos pelo Sr. Heru. Em seu desespero e falta de opções, Leo olhou para as hélices soltando fumaça e só pôde se rastejar por cima da asa para tentar consertar o estrago.

Foi muito difícil para ele se manter concentrado em analisar as hélices e descobrir se poderia fazer alguma coisa, e enquanto ele suava frio e puxava um e outro fio o Sr. Heru certamente se aproximava pelas ruas lá embaixo com a arma nas mãos. Havia muitas coisas tirando sua atenção, mas ele apenas quase perdeu o equilíbrio e se esborrachou no chão quando Finna abriu os olhos e soltou um grito de espanto.

*****

6.

A vista de Finna estava muito mais dominada por torres e árvores altas do que pelo azul do céu e as nuvens se movendo calmamente nele, e no momento em que acordou ela também pôde ouvir um ou outro grito de fascínio vindo de baixo, pois a máquina voadora continuava caindo muito lentamente. Ela sentiu um breve alívio ao ver o paraquedas aberto guiando-os levemente até o chão, mas foi Leo sentado em uma das asas a visão que lhe causou uma súbita aflição: ele não estava segurando em nada e havia um finzinho de fumaça preta saindo das hélices. Ela olhou para baixo e percebeu a distância que estavam do chão, e viu também as pessoas se reunindo naquele ponto da rua, mas virando uma esquina distante estava o Sr. Heru, correndo conforme sua vitalidade permitia e segurando na mão a arma com canos longos. Então ela alternou seus olhares rapidamente entre Leo e o chão, e exprimiu toda a sua confusão em um grito.

Leo sentiu o coração pulsando na altura da garganta, não pelo grito inesperado em si mas porque por alguns segundos ele teve a certeza absoluta de que iria perder o equilíbrio e que despencaria daquela altura como uma fruta madura cai do pé. Ele se reequilibrou e olhou para Finna enquanto limpava um suor frio do rosto. Ela estava e mal sabia o que iria perguntar primeiro, mas finalmente acabou gritando: “Você consertou?”

Leo estava completamente sem jeito e desengonçado. Ele não tinha uma alça para segurar com firmeza e segurava a asa da máquina com toda a força possível entre as pernas. Além disso, seu corpo estava em choque com toda a situação e sua pele estava mais pálida do que nunca, mas havia um sentimento de dever cumprido pois as hélices realmente não estavam mais soltando fumaça. “Não sei. Vamos tentar!” Ele gritou de volta.

E ela tentou: apertou todos os botões que o Sr. Goliais havia dito para apertar, e o painel ao lado do volante acendeu suas luzes e as hélices das asas começaram a girar com toda velocidade enquanto Leo voltava para o banco. Eles abriram largos sorrisos, mas antes que as pessoas no chão pudessem voltar para seus negócios com um assunto a mais para conversar as hélices pararam de novo e a máquina voltou a desligar. Finna gritou e bateu com as mãos no volante com muito descontentamento. “A hélice da frente!” Ela gritou.

“Mais um arranhão e eu mato vocês!” Veio a voz do Sr. Heru lá de baixo, com a arma apontada para cima. “Apenas deixem cair! Deixem cair!”

Leo já estava rastejando por cima da máquina até seu bico, mas parou e gritou para o Sr. Heru “então explode ela!” E depois girou as hélices da frente enquanto Finna voltou a apertar os botões. A máquina ligou finalmente, e a arrancada para frente que tentaram dar foi tão potente que teriam desaparecido de uma vez no horizonte se não fosse o paraquedas impedindo a coisa toda de sair do lugar: mais uma vez Leo rastejou por cima da estrutura para tentar soltar as cordas do paraquedas.

O Sr. Heru estava com o dedo no gatilho e tremia como nunca. Ele pensou que daquela distância não erraria e certamente traria a máquina ao chão, mas talvez de maneira completamente inútil. Então ele apontou sua mira para Leo e começou a atirar com a esperança de recuperar a máquina de alguma maneira, mas já era tarde demais: Leo soltou o paraquedas e se agarrou na lataria enquanto Finna puxou uma alavanca e a máquina desapareceu no horizonte na direção da floresta além da cidade.

*****

7.

Leo e Finna sobrevoaram muitas árvores antes de chegarem até a clareira na qual encontraram o Sr. Goliais. Finna se divertiu tanto guiando a máquina em várias manobras arriscadas que gritou até ficar rouca. Leo ficou apenas sentado no banco de trás admirando a paisagem, pois as árvores e as montanhas surgindo para seus olhos traziam uma sensação de alívio recompensadora e uma visão que o deixava fascinado.

Quando eles pousaram e entregaram a máquina ao Sr. Goliais ele fez muitas perguntas e eles contaram toda a história de como o roubo aconteceu. O Sr. Goliais ficou tão impressionado que além de ter pago as doze moedas de ouro que havia prometido também deu uma moeda de prata especialmente para Leo, e ele guardou ela no bolso junto com a outra moeda de prata que o Sr. Heru havia lhe dado na torre.

O sol já havia se afundado no horizonte e desaparecido além das montanhas mais distantes quando eles voltaram para a cidade. Foram direto para o banco depositar parte das moedas de ouro e depois resolveram ir pra casa. Eles estavam descendo uma grande avenida e ela ainda estava movimentadíssima, pois as pessoas que haviam se reunido ali em muitas barracas durante o dia para comprar e vender suas coisas também estavam se reunindo durante a noite para festejar. Muita gente vinha de fora para fazer comércio naquela cidade na primeira sexta feira de cada mês, e antes de ir embora eles passavam a noite comendo, bebendo e se divertindo.

Finna estava novamente puxando Leo pela mão avenida-abaixo enquanto abria caminho na multidão quando ele parou e guiou ela até uma das barracas de lanches que abriam especialmente naquelas sextas-feiras. Com as duas moedas de prata ele comprou dois espetos muito grandes com carnes e mandioca assada, e então eles sentaram em baixo de uma árvore ao lado da barraca e ficaram comendo. Enquanto assistiam as pessoas indo e vindo, Finna não parava de relembrar o roubo da máquina voadora e de falar sobre o quanto ela havia se divertido com as manobras arriscadas que haviam feito pelos ares. “Uma sensação tão boa, tão boa!” Eram as palavras roucas dela, e Leo apenas ouviu a ela em silêncio, com muita atenção e admiração, fazendo sinais com a cabeça sempre que ela dizia algo e dando pequenos sorrisos enquanto mastigava.


Atualização 04/10/2017: Eu escrevi uma análise na qual eu tento identificar os problemas com esse texto e consequentemente suas causas e possíveis soluções. Aqui está: Um pouco sobre a natureza do narrador.

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Convencendo a Casa Cansada

No pé de uma montanha havia uma casa conversando com um homem. A casa era muito velha e havia sido construída por homens de eras ainda mais antigas; ela estava muito cansada e com o desejo de ser demolida.

A casa era toda feita de madeira retirada diretamente da floresta que rodeava a montanha, e muitas partes da sua estrutura haviam sido corroídas pelo tempo ou consumidas por cupins, e outras haviam sido substituídas ou removidas permanentemente durante reformas feitas pelos homens no passar dos anos. Ela tinha uma porta centralizada na frente, e ao lado da porta havia uma pequena janela de vidro fosco, que permitia a entrada de ar mas não de olhares estranhos, e no lado esquerdo havia outra janela da mesma maneira. No lado direito não haviam janelas porque naquela parede ficava o cômodo usado como armazém, e na parte de trás havia uma porta que se abria para um gramado nos fundos que algum dia havia sido um pequeno jardim. O telhado era de barro e tinha forma triangular, e dava espaço para um sótão que se erguia sobre outra parte do telhado que se estendia e formava uma pequena varanda na frente da casa. Havia sido uma casa respeitável e aconchegante algum dia. Não havia muito sol vindo do lado sem janelas pois a montanha o cobria, mas nos outros lados as árvores eram espaçadas e não eram muito altas, de modo que a luz do sol preenchia todo o ambiente e o ar circulava muito bem. O chão ao redor era coberto por grama e flores que cresciam dispersamente, e a terra era boa para fazer crescer de tudo, como havia sido certa vez o pequeno jardim nos fundos.

Os homens que construíram a casa eram parte de um povo viajante, e eles vieram pelo mar e cruzaram a região rumo ao outro lado da montanha, e por muitas outras pretendiam passar depois. Centenas deles desceram dos navios, mas a caminhada por florestas e montanhas foi tão longa que alguns desistiram da peregrinação e preferiram viver onde a terra se mostrasse fértil, e então a casa ao pé da montanha foi construída. Eles também ergueram outras casas ao redor, e ficaram bastante satisfeitos com tudo o que fizeram, mas outras casas se cansaram e pereceram muito antes da casa dessa história, A Casa, a última de todas as casas construídas pelos antigos homens que vieram do mar. Ela estava decadente, e quais forças a seguravam em pé naqueles tempos ninguém ainda sabe dizer, mas ela pensava que finalmente havia chegado o tempo de ceder, e deixar a coisa toda desabar e encontrar um fim. Sobre esse assunto ela havia conversado muitas vezes com um homem.

“Eu estou muito cansada,” ela disse algum dia. “Pegue suas ferramentas e me ponhe para baixo.”

O homem ficou muito triste ao ouvir esse pedido pois ele gostava muito da casa, e conhecia a sua história e a respeitava muito. Ele se chamava Pirro e vivia na cidade além da montanha, mas ele sempre a cruzava para conversar com a casa. A trilha que existia no meio da mata havia sido feita por ele, e quando a cruzava ele vestia apenas sandálias de madeira e couro, um manto amarelado de lã que cobria todo o corpo, e um grande chapéu em forma de cone feito de palha trançada que sombreava até seus braços abertos, e essas vestimentas de viagens eram as mesmas usadas pelos homens dali desde que eles vieram do mar: um costume antiquíssimo. Ele sempre se sentava do lado de fora da casa com as costas encostadas em baixo da janela ao lado da porta, e colocava o chapéu no chão e conversava com a casa.

“Ah! Cansada, você?” Ele disse.

“Eu estou.” Ela respondeu. “Eu estou aqui há muito tempo, e vi muitas coisas virem e irem. E os homens foram e não voltaram mais. Digo, a não ser você, no momento, meu querido Pirro.”

E então ele abaixou a cabeça e fez um longo silêncio enquanto pensava, pois naquele momento ele soube que a casa não contaria histórias por algum tempo e aquilo o entristeceu.

“Minha velha amiga, eu posso te visitar mais vezes, se isso fizer você se sentir melhor. O que acha?” Ele disse finalmente.

E então foi a vez da casa cair num longo silêncio, e após profundos pensamentos ela disse com uma voz arrastada e rouca: “Não, eu acho que não é isso. Os homens me abandonaram há muitos anos. Eu estou só há muitos anos antes de você nascer. E algum dia você também irá, mas eu ficarei até outro como você aparecer, e isso eu não sei quando vai acontecer. Quer dizer, você é dono das suas vontades, mestre Pirro, e sobre elas ninguém domina, mas eu estou angustiada e peço que atenda meu pedido.”

“Mas eu não posso te demolir,” Pirro respondeu. “Imagine só, eu, logo eu? Não, eu não tenho as entranhas para fazer isso, e mesmo que as tivesse eu não o faria pois eu acho que você perderia muitos bons dias que ainda irão vir, e isso seria muita crueldade.”

Depois disso, Pirro passou a visitar a casa mais vezes. Ele sempre precisava cruzar a montanha pelos caminhos ainda rústicos que ele mesmo havia feito, e em outros tempos a dificuldade da viagem se fazia valer pelas histórias que a casa contava, mas agora ela não contava mais histórias e apenas divagava sobre questões existenciais e diversos problemas que afligem as casas.

E de fato sua presença não estava ajudando muito no panorama das coisas, pois a casa era muito velha e tinha muito mais sabedoria que Pirro, e as dificuldades pelas quais ela passava ele não compreendia, e nem a forma com a qual ela via o mundo ele conseguia entender. Ele não conseguia pensar em como ajudar a casa a ficar menos cansada pois ele não conseguia entender como a casa poderia ter ficado cansada em primeiro lugar. Até onde ele pôde compreender, se tratava de algum tipo de saudade dos homens antigos que vieram do mar, os construtores e primeiros habitantes da região; mas mesmo que fosse isso, suas visitas não pareceram estar ajudando em nada.

“Eu irei e eu trarei outros homens, e nós vamos sentar encostados nas suas paredes e você nos contará histórias. Eu acho que isso irá curar o seu cansaço.” Ele disse algum dia.

“Eu não sei se isso iria,” a casa respondeu. “Mas seria algo muito agradável.”

E então da próxima vez que Pirro cruzou a montanha, alguns homens fizeram a caminhada com ele. Eram sete homens ao lado de Pirro, e eles nunca haviam atravessado a montanha e nem se embrenhado muito fundo nas árvores, e ficaram espantados com a coisa toda. As árvores eram mais ou menos as mesmas nos dois lados da montanha e também ao longo de toda a trilha, mas havia certa mágica no ato de chegar ao outro lado e ficar lá, com os olhos admirando terras que em algum momento pareceram inalcançáveis.

Pirro e seus sete companheiros sentaram com as costas na parede e ouviram histórias, e a casa contou muita coisa sobre os antigos homens e as primeiras casas que eles ergueram, e sobre as reformas que outros homens fizeram posteriormente e sobre as primeiras casas que demoliram; mas sobre essas últimas ela não contou muitas histórias e só as mencionou rapidamente com muita tristeza e saudade. Os homens gostaram muito e voltaram várias vezes por conta própria, às vezes cruzando a montanha pela trilha de Pirro sozinhos. Isso tudo deixou a casa bastante alegre, e ela entendia muito sobre essas coisas e sabia que as boas sensações são sempre passageiras, e então algum dia ela disse:

“Meu querido Pirro, você me deixou de fato muito alegre. Mas eu acho que isso vai passar algum dia, e você vai ir e os outros homens também. Eu ainda estou cansada, e penso que, sim, às vezes posso me sentir melhor, mas o futuro trará decepções e eu não quero me sentir cansada de novo. Me ponhe para baixo enquanto ainda me sinto bem, por gentileza.”

“Isso eu não posso fazer,” ele respondeu. “Eu não consigo entender o seu cansaço, mas, bem, você é uma casa, e eu não posso compreender as coisas pelas quais você passa e passou, eu acho.”

Os dois fizeram silêncio e caíram em pensamentos profundos, e então Pirro voltou a dizer: “Pode ser isso. Eu acho que outras do seu tipo podem te entender melhor que eu ou os outros homens, o que você acha?”

Ouvindo isso, a casa se sentiu como se um baú estivesse sendo descoberto dentro de seu coração, e como se de dentro dele saísse uma esperança que a dominava em toda a estrutura. Ela respondeu muito alegremente:

“Ah, de fato, de fato! Mas isso seria um trabalho muito grande, sabe, construir novas casas e tudo o mais.”

“Não,” disse Pirro. “Nós sempre construímos casas, só precisamos construir aqui. E de qualquer forma meus amigos sempre vêm ouvir suas histórias, então, bem, é isso.”

 E então Pirro foi, e quando voltou estava com os outros homens, e ao longo de várias semanas eles construíram outras três pequenas casas no pé da montanha, feitas com madeira de árvores que cortaram nos arredores da velha casa. Os homens ficaram muito satisfeitos com toda a coisa que fizeram, e em um primeiro momento passaram a visitar as quatro casas com bastante frequência, mas depois alguns se mudaram permanentemente e outras casas foram construídas. Após algum tempo a casa cansada havia voltado a contar histórias para Pirro, e um dia eles colocaram um ponto final no assunto:

“Vocês são excelentes”, disse a casa, “ou minha consciência vêm se enganando há muitos e muitos séculos.”

Pirro agradeceu e disse que não havia sido nada, e que ele ajudaria sempre que possível, e todas essas coisas que as pessoas respondem quando são agradecidas. E nada mais foi dito sobre o cansaço da casa enquanto Pirro estava lá para ouvir, pois por muitas décadas ele continuou visitando a casa, mas nunca se mudou para lá. Certo dia ele não pôde mais atravessar a montanha, e depois disso seus pés não o levariam a lugar algum, mas ao que se sabe a casa permaneceu lá por um longo tempo, ainda hoje alguns dizem que por um tempo absolutamente indeterminável, pois o que não se sabe é se ainda há homens a visitando e a convencendo cada vez que ela fica cansada.

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Yan na Ponta da Agulha

A aventura de Yan começou há muitos anos, quando ele partiu de sua casa no Oeste levando apenas roupas e comida em uma bolsa que era maior que ele. Os motivos da sua partida não fazem parte dessa história, e é suficiente dizer que no momento em que ela começa ele se encontrava parado diante de gigantescas muralhas, e que levava duas espadas leves e pequenas guardadas nas bainhas de couro na cintura; usava um capuz jogado para trás do pescoço por cima de um colete de couro, que por sua vez escondia uma cota de malha velhíssima que usava como proteção desde sempre; ao seu lado estava Famber, o cavalo que recebeu como pagamento por alguns serviços feitos em Lugos, e ele fazia o trabalho de carregar bolsas com todos os bens que Yan coletava pelas terras que passava. Era um cavalo preto, forte e jovem, e Yan tinha tanto amor por ele quanto pelos bens que ele levava, mas as costas de Famber já eram pesadas demais com a bagagem, portanto ele era obrigado a caminhar. Tinha esperanças de conseguir mais cavalo para dividir os pesos, e havia grande esperança de fazer isso na cidade que se erguia diante de si.

Apesar disso, não foi esse o motivo principal que o levou a visitar Cidaces. Por muitos anos e em muitos lugares ele ouviu falar de uma taverna chamada Ponta da Agulha. Diziam ser uma taverna muito grande, feita de pedra esculpida imitando um pequeno castelo, e que ocupava o espaço de três casas no centro de Cidaces. O lugar era famoso porque seu dono, o taverneiro Denomo, tinha acordos com criaturas de todos os reinos, e conseguia reunir em sua taverna frutas vindas de terras muito distantes; ele as triturava e as misturava e produzia bebidas muito apreciadas. Yan estava fazendo alguns trabalhos há apenas alguns dias da cidade, e resolveu aproveitar a oportunidade para visitar a Ponta da Agulha.

Ele gostava de beber e comer as especialidades dos lugares que visitava, e nunca tinha estado em Cidaces antes. Quando parou diante das muralhas e viu a lua já surgir atrás delas enquanto o sol se punha, puxou as rédeas que guiavam Famber o cavalo e seguiu ansioso para tomar as vitaminas. Os portões de madeira estavam aberto e ele achou isso esquisitíssimo, pois era bem conhecido por todos que qualquer um podia entrar em Cidaces, mas era preciso ser revistado pelos guardas antes.

Quando colocou os pés sob o portão, Yan viu muitas coisas esquisitas e uma cidade mergulhada em caos. Haviam pessoas gritando e correndo para todas as direções, abanando os braços em desespero e pedindo socorro; as casas de madeira pegavam fogo, e também os carros de bois e cavalos, e todo o feno que alimentava os animais, que também galopavam desesperados pelas ruas. Aquilo tudo lhe pareceu muito estranho e errado, mas até onde ele podia imaginar não era problema dele, então seguiu seu caminho para o centro de Cidaces, para a Ponta da Agulha.

Ele pôde caminhar pelas ruas sem ser diretamente perturbado. O que quer que estivesse perturbando os moradores o deixou em paz. Ele fez seu caminho até que a frente da taverna apareceu em sua vista, e ela pareceu ser ainda mais magnífica do que diziam: mais alta, mais larga, feitas de pedras mais bem esculpidas e polidas, e detalhada nos cantos com madeiras mais brilhantes e resistentes. Ela era de fato muito parecida com um pequeno castelo, pois era retangular e tinha pequenas torres nos cantos, e as portas eram de metais, com as bordas arredondadas e uma faixa de metal no centro, e com argolas de aço penduradas para abrir e fechar. O coração de Yan rapidamente se encheu de esperança de que as famosas bebidas também seriam melhores do que os rumores apontavam, mas sua ansiedade foi desafiada quando percebeu que as portas estavam fechadas.

Yan se aproximou pensando que não poderia deixar a cidade sem provar alguma das bebidas, e parado diante das grandes portas fechadas ele gritou:

“Eu quero beber!”

Houve silêncio, e por alguns instantes nenhuma resposta veio e as portas permaneceram sem dar sinais de que seriam abertas, então ele repetiu o grito enquanto dava pancadas fortes com a mão na madeira:

“Eu quero beber!” Ele disse. “Abram as portas!”

Dentro da taverna as pessoas começaram a murmurar, e Yan ouviu e bateu ainda mais forte nas portas.

“Vá embora, não temos nada aqui!” Disse uma voz vinda de dentro. “Não arrebente minhas portas!”

“Ah, então tem gente aí dentro,” disse Yan, “Você é Denomo o taverneiro? Quero provar as bebidas, abra, abra!”

“Deixe minhas portas em paz,” disse a voz, “vai embora!”

“Taverneiro, eu estou em uma viagem muito longa.” Disse Yan depois de parar de bater. “Minha aventura é grande, e minha sede por suas bebidas vem de muitas milhas que caminhei ao lado de Famber o cavalo, meu companheiro.” E então ele voltou a dar pancadas na madeira, “então abra, abra!”

“Ah!, ó!, seria uma alegria lhe servir minhas bebidas em outros tempos,” respondeu o taverneiro, “mas no momento eu me importo mais com minhas portas que com suas aventuras e sua sede”.

“Eu não vou sair sem beber, taverneiro.” Disse Yan, e as madeiras ainda fazendo um pesado tum-tum que ecoavam dentro da taverna.

“Eu não sei como você chegou vivo no centro da cidade, não viu eles aí fora?” Gritou Denomo, com a voz trêmula. “Não posso abrir as portas enquanto eles estiverem atacando a cidade. Então vá, vá embora!”

“Eu não vou sair.”

Yan decidiu que arrombaria as portas e entraria à força, depois pediria desculpa e pagaria pelas portas ou qualquer outro problema que causasse. Então deu passos para trás e o silêncio deixou todos ansiosos dentro da taverna. Yan correu com o ombro inclinado para frente e bateu em cheio na madeira. Houve um grande estrondo e as estruturas chacoalharam, e o cadeado que trancava as portas pelas argolas do lado de dentro quase se partiu.

“Ah! Ah, ouça, ouça!” Gritou o taverneiro, muito preocupado com as portas. “Ouça, você não ouviu? Eu ficaria alegre em te servir, mas não posso abrir as portas com eles aí fora.”

“Então você pode abrir, pois aqui fora só vejo os moradores correndo em desespero, e nada mais.” Respondeu Yan.

“Claro! E por quê você acha que eles estão correndo, imbecil?” Disse Denomo.

“Eu não sei, mas eu sou Yan, e essas portas podem ser abertas sem problemas enquanto eu estiver com uma espada e disposição para brandi-la, e no momento eu tenho duas, pois uma conquistei de inimigo morto e outra foi presente.”

O taverneiro fez silêncio e pensou por alguns instantes.

“Muito bem, Yan o aventureiro!” Ele disse finalmente. “Muito bem, me diga de onde você vem e para onde você vai.”

“Eu venho de Mabus, e antes disso de Mabais, e Vetus, e porquê deixei minhas terras no Oeste não posso contar, mas pelo que passei para chegar até aqui é uma história que ficarei feliz de compartilhar.” Gritou Yan para as portas. “E para onde vou, ora, eu acabei de chegar onde estava indo, e já disse que há muito tempo caminho para provar suas bebidas, e minha sede é grande. Abra!”

Novamente o taverneiro fez silêncio enquanto pensava.

“Eu fiz meu julgamento,” ele disse finalmente, “e quero ouvir sua história, mas isso será perigoso para minha taverna.”

“Perigoso de fato, e eu entendo o apreço pela taverna. Magnífica ela me parece!” Disse Yan. “Me sirva do lado de fora, então.”

“Meu conselho para você, Yan o aventureiro,” disse Denomo, “é que você vá embora e volte quando eles tiverem deixado a cidade. Você vai morrer aí fora.”

“Não,” disse Yan, “eu tenho minhas armas e meu cavalo, me sirva aqui.”

“Muito bem, muito bem, que assim seja! Então use suas armas para manter essas portas vazias,” gritou o taverneiro, com seu julgamento final, “eu vou abri-las por alguns instantes e lhe darei algo para beber.” E então ele sorriu, pois gostava muito de preparar as bebidas para os forasteiros que nunca as tinham provado, mas Yan não pôde ver do lado de fora. “Você gosta de maçãs?, e bananas?”

“Maçãs e bananas são de meu gosto.” Disse Yan, satisfeito com a situação.

Então Denomo começou a fazer seus negócios, e preparou uma bebida com maçã e banana. Isso levou cerca de dez minutos, pelo que Yan pôde perceber, e foi um tempo no qual ele passou por muita ansiedade.

“Estou enviando um garoto com sua bebida,” gritou finalmente o taverneiro, “ele vai abrir as portas, te entregar, voltar e fecharemos de novo no mesmo instante. Como está o lado de fora? Vazio, não vai entrar nada?”

“Não, aqui está limpo,” disse Yan, “envie o garoto.”

Uma pequena fresta se abriu no meio das portas, e através dela surgiu um garoto de nome Dumos e que era um dos filhos do taverneiro, e seus olhos apareceram checando a situação de Cidaces ao redor da Ponta da Agulha. Ele viu apenas Yan segurando uma espada manchada de sangue e Famber o cavalo com todos os trambolhos que carregava; e não vendo mais nada saiu cuidadoso como um coelho saindo da toca.

“Olá, senhor,” disse Dumos, estendendo para Yan uma bandeja com um grande copo, “esteja servido!”

Yan guardou a espada na bainha e segurou o copo com as duas mãos, pois era um copo de vidro muito alto e largo, e sem alça. O garoto deu uma bela olhada no estado da cidade ao redor, depois se curvou e cumprimentou Yan, e voltou para dentro da taverna. Então Yan provou a bebida, e ela matou sua sede e agradou seu paladar, pois ele já havia comido muitos pratos feitos com bananas em terras distantes, e muitos outros feitos com maçãs em outras ainda mais além, mas as duas em um copo era algo novo. Ele se deliciou e gritou um agradecimento ao taverneiro.

“Então, é bom?” respondeu Denomo.

“Bastante,” disse Yan, “essa é a melhor bebida que tomarei nessas terras, e muitas milhas viajarei antes de beber algo assim novamente. Disso não tenho dúvidas.”

“Muitas milhas, é verdade!” Respondeu o taverneiro, “pois se quiser beber algo assim novamente terá que voltar aqui. A menos que meus concorrentes também tenham feito negócios para conseguir as frutas, mas disso eu tenho muitas dúvidas.”

Yan deu os últimos goles e esvaziou o copo, e logo o taverneiro voltou a gritar.

“Mais um copo seria de bom grado, meu senhor, Yan?”, ele disse.

“Quantos mais seus modos permitirem me dar.” Yan respondeu.

“Nesse caso espero que goste de mamões.” Gritou o taverneiro, e depois de uma breve pausa acrescentou: “então! Meu garoto, Dumos, disse que viu as cabeças deles jogadas aí fora, aos seus pés.”

“Sim, há cabeças próximas aos meus pés. E há agora mais do que havia quando ele veio.”

“Eh, eh! Obrigado, então!” Disse Denomo, “venha! Você manteve as portas limpas, entre e vou lhe servir de modos adequados.”

Então Yan amarrou Famber o cavalo em um dos postes-para-cavalos que ficavam do lado esquerdo da Ponta da Agulha, as portas se abriram e ele entrou na taverna. Com um pano tirado da cintura ele limpou o sangue da espada e guardou-a na bainha de couro, e então entregou ao taverneiro o grande copo vazio que segurava na outra mão. Ele pôde ver que a taverna era por dentro ainda mais magnífica do que diziam as descrições, pois ela era muito grande e cheia de mesas redondas de madeira, cada uma com quatro cadeiras baixas; haviam velas espalhadas que iluminavam o local, pois as janelas estavam fechadas e de outra maneira estaria muito escuro; havia uma grande lareira esculpida por mãos hábeis, mas ela ela para os tempos de frio e estava apagada; do seu lado direito o balcão onde Denomo preparava as bebidas, e em sua extensão haviam bancos com algumas pessoas sentadas, e haviam outras em pés e nas mesas. Yan tomou muitas bebidas que o taverneiro ofereceu, e eles contaram muitas histórias e passaram bons bocados durante toda a tarde.

“Há nessa cidade algum lugar onde eu possa conseguir um cavalo e um carro para ser puxado por dois animais? Pois um eu já tenho, Famber o cavalo. Mas ele carrega todos os meus bens, e sem outro tão forte quanto Famber e um carro eu sou obrigado a caminhar.” disse Yan pouco antes de ir embora, quando o sol já estava se pondo e a lua tomava seu lugar no céu.

O taverneiro contou sobre dois estábulos que ficavam em cantos opostos da cidade, um no nordeste e outro no sudoeste, e recomendou que Yan visitasse o do nordeste. Ele disse que a menos que os cavalos tivessem fugido ou morrido durante o ataque daquela manhã, ele conseguiria lá animais grandes e graciosos, e também carros muito firmes e adequados para longas viagens.

Yan se despediu, e o taverneiro havia gostado tanto das suas histórias e da sua companhia que lhe presenteou com muitas bebidas engarrafadas, algumas com misturas que Yan não havia tido tempo de provar naquela tarde. Ele carregou as costas de Famber com os novos pertences e os dois seguiram para o estábulo no nordeste de Cidaces.