Quando coloquei fogo na cara e perdi uma sobrancelha: SCIENCE, BITCH

Eu fui a criança mais curiosa e hiperativa do mundo. Passava o dia todo tentando descobrir coisas novas, estava sempre analisando como alguns mecanismos funcionavam e coisas do tipo. Quando ganhava algum brinquedo, raramente durava mais que três dias porque eu sempre desmontava pra ver como funcionava e eventualmente usar suas peças para fazer algo novo.

Eis que esse dia surgiu em minha cabeça uma curiosidade sobre explosões. “Mas afinal, como essa porra acontece?” pensei. Na época (calculo que tinha uns sete anos) o acesso à internet era limitadíssimo, e a melhor forma que imaginei para estudar uma explosão era simulando uma e observando-a.

Então, eu não tinha muitos meios viáveis para fazer isso, muito menos para fazer isso de forma segura. Mas tive uma ideia um tanto quanto genial: acender vários fósforos de uma vez só. A lógica do meu pensamento era de que se um fósforo ao ser acendido causava um pequeno efeito que lembrava o de uma explosão, porém em escala infinitamente menor, vários juntos seriam capazes de fazer algo digno de ser estudado. Fui no boteco ao lado da minha casa e comprei uma caixa por belos R$ 0,25. Temos, então, essa situação:

Untitled-1(ao contrário do ilustrado na figura acima, eu não tenho Síndrome de Down)

Ou seja, coloquei no chão a caixa com trinta e nove palitos e segurei o de número quarenta na mão direita. No chão, os palitos prontos para serem acesos e nas mãos o necessário para acendê-los. E foi isso que eu fiz: risquei o palito que estava na minha mão e o joguei carinhosamente em meio aos outros quase quarenta palitos dentro da caixa. Curiosamente, tudo estava indo bem até o momento, mas eu cometi o grande erro de querer olhar de perto a coisa toda acontecer. Afinal, aquele era um experimento científico feito justamente para observação e aprendizado, né? Pois é, senhores, o resultado foi mais ou menos esse:

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A PARADA EXPLODIU NA MINHA CARA!

Nem preciso dizer mais nada: Untitled-3

 

PS: Minha vó passou alguma coisa chamada “babosa” na minha cara todos os dias por semanas e não fiquei com nenhuma sequela, então fica a dica.

PS 2: Faltei na escola vários dias seguidos porque estava com vergonha de sair de casa sem sobrancelha e com um puta queimadão na testa.

No Pré II, caguei nas calças pra me vingar da professora

– Posso ir no banheiro, fêssora?

– Não. Aguenta aí.

Esse diálogo marcou o início de uma vingança extremamente fria e plena.

Ao decorrer da minha curta (porém cabulosa) vida, eu fui obrigado a planejar e executar inúmeras vinganças, mas essa em especial é uma das que mais sinto orgulho, principalmente pelo fato de eu ser apenas uma criança de, se me lembro bem, cinco anos, ou seja, extremamente incapaz e inocente.

No Pré II o aluno tem basicamente duas tarefas: dormir e desenhar. Eventualmente, entre uma e outra ele precisa se aliviar, seja fazendo número um ou número dois. Nesse dia eu estava MUITO apertado para fazer número um, popularmente conhecido como XIXI. Eis que durante a aula eu peço permissão à professora para ir tirar a água do joelho no banheiro e ela me nega tal privilégio. Ela só não contava com minha crueldade e meu sangue frio…

Esperei dar a hora do recreio, que é o momento em que eu estaria livre para cagar e mijar sem ter que pedir permissão. Bateu um pensamento rápido e de última hora tomei a decisão de ao invés de ir no banheiro me aliviar, fazer ali na sala mesmo, só pra professora entender que quando eu digo que preciso de algo é porque eu preciso realmente. O problema maior é que ao invés de fazer xixi nas calças, que é o que eu havia pedido, eu me caguei completamente. Tipo, me caguei mesmo. E me caguei na sala de aula. Fiquei lá, paradão na frente da professora antes mesmo dela sair da sala. E todo cagado.

Não contente, eu usei da minha condição de criança de cinco anos para me mostrar incapaz de me limpar sozinho. Na verdade eu era completamente capaz de me limpar por conta própria, mas só para efeitos vingativos eu fiquei completamente sem reação, OBRIGANDO A PROFESSORA A ME LIMPAR.

Resumo: a TIA não deixou eu ir no banheiro e teve que limpar o meu cocô.

Como menor aprendiz, fui demitido depois de quatro horas de trabalho

Só fui ter aquele “tchum” de que minha mãe não me sustentaria para sempre aos treze ou quatorze anos. Consequentemente passei essa época da minha vida pensando MUITO sobre formas de conseguir fazer muito dinheiro em pouco tempo, e uma das principais conclusões que obtive foi que, para conseguir isso, eu precisaria de alguma reserva. Para conseguir fazer dinheiro, eu iria precisar de dinheiro. Tipo Jesus com os peixes e os pães.

Aí pensei que “pô, eles dão emprego pra menor de idade, não dão?” e fui me informar sobre isso na internet. Tá, confirmei que sim, eles dão emprego pra menor de idade. Falei com minha mãe e ela rapidamente usou seus poderes para falar com outras pessoas que manjavam do assunto, uma dessas pessoas era o namorado dela na época. O cara é meio que um grande fazendeiro aqui da região (acredite, ser um grande fazendeiro EM RONDÔNIA é algo MUITO FODA) e conseguiu um emprego pra mim.

Ele entrou em contato com várias pessoas que trabalhavam pra ele ou com ele e conseguiu arrumar algo muito bom: legalmente como menor aprendiz, carteira assinada, um salário mínimo, meio período, café da manhã e almoço na empresa, e mais um bocado de coisa.

Sabe o que eu fiz? SABE O QUE EU FIZ? Caguei. Literalmente caguei PRO emprego e NO emprego.

Quer dizer, a princípio me interessou muito: fui lá na empresa numa quinta feira, fiz uma rápida entrevista e o cara se interessou muito pelo meu perfil, até chegou a dizer que gostou muito de mim e que via um bom futuro etc e tal, disse que eu estava contratado e que era pra ir lá no dia seguinte (sexta), às 08:00 da manhã para meu primeiro dia de trabalho. Saí de lá com um puta sorriso no rosto e um pensamento estupidamente falho de “ei, Rondônia, conheça seu novo filho milionário”, passei no emprego da minha mãe e ela me levou pra casa.

No outro dia, sexta-feira, acordei às 07:00, tomei banho, bebi um café e fui trabalhar. Não minto pra você se dizer que foi a coisa mais constrangedora da minha vida… todo mundo lá já se conhecia. Vinte caras criados na mais pura roça (vendendo produtos agrícolas pra caras igualmente criados na roça) estavam tendo que lidar com a presença de um novo funcionário: um playboyzinho de quatorze anos criado a leite com pêra e ovomaltino, e que além de tudo tem medo de equinos e bovinos. Cara, eu estava completamente deslocado. COMPLETAMENTE. Foi um fracasso, uma vergonha. Qualquer coisa que me mandavam fazer eu era incapaz, principalmente porque era um ambiente que eu completamente desconhecia e tudo mais. Felizmente eu aprendo rápido, até passei parte desse dia lendo BULAS DE REMÉDIOS PRA CAVALO pra ver se aprendia a fazer algo direito. Fora isso, eu tive que contar duzentos parafusos, carregar um cortador de grama pra um caminhão e espanar as celas dos cavalos. Ah, ainda passei por um constrangimento por culpa de uns funcionários zoeiros: um cara chegou e pediu “uma cerrinha de cano” pra um atendente, o atendente me chamou e disse “atende o rapaz aqui”, logicamente eu pensei “mas que porra?” e respondi “claro”. Não fazia a menor ideia de onde estavam as cerras e muito menos de como era o processo de efetuar a venda de um produto da loja. Repassei o serviço pra outro cara e vida que segue. Ok…

Aquela motivação de “vou virar milionário” passou completamente assim que cheguei em casa e pensei na manhã de merda que eu tinha acabado de ter. Táva desmotivado pra caramba: odiava o lugar, ia perder todas as manhãs fazendo algo que não gosto, as pessoas de lá preferiam me zoar que me ajudar, o ambiente era completamente desconhecido pra mim e exatamente o oposto ao que eu me criei… “Cara, eu posso aguentar isso em troca de um salário mínimo todo mês” pensei, mas eis que caiu do céu a oportunidade de largar aquele emprego odioso.

No outro dia, no sábado, eu fui jogar um futebol de manhã, como era de costume fazer sempre. A diferença desse jogo para os outros jogos da minha vida é que dessa vez eu estava trabalhando, e ninguém me avisou que pessoas trabalham na manhã de sábado. Ou seja, faltei no serviço pra jogar futebol. Foda que quando eu cheguei lá eu lembrei que trabalhava e que talvez eu teria que estar espanando algo ao invés de chutando uma bola, mas ignorei e segui jogando.

Cheguei em casa e minha mãe me avisou da cagada que eu havia feito. Ela até disse que o gerente ligou pra ela e perguntou se eu estava doente, mas ela estupidamente disse que “não, ele foi jogar futebol” e aí eu meio que me fodi. Cheguei lá na segunda já pensando em sair daquele lugar infernal, mas o gerente nem falou comigo, mais ou menos como fez no primeiro dia de trabalho: na hora eu tive a clara noção de que ele pensou “hum, deixa ele trabalhar aí, ele não sabia… se ele fizer tudo direitinho hoje, eu deixo ele continuar”, mas eu realmente não queria continuar lá e fiquei o tempo todo encostado numa mesa esperando ele me mandar embora. Umas duas horas depois de chegar, ele me chamou na sala dele, disse que “ainda não era o momento certo”, que eu “deveria estar mais maduro antes de trabalhar”, me deu CEM REAIS (!!!), assinou uma “referência de trabalho” e me mandou embora.

Resumo: fui contratado na quinta, na sexta trabalhei por 4 horas, no sábado faltei pra jogar futebol, na segunda de manhã fui demitido e na segunda a tarde comprei um fone de ouvido muito bom. Larguei um emprego odioso e ganhei uma boa história pra contar, então que se dane, existem milhares de formas de se conseguir dinheiro e acredito que vender produtos para cavalos não é bem o meu forte.

Aos oito anos viajei escondido da minha mãe e não fui molestado

Oito, nove, dez… Sei lá, nem lembro mais. Lembro que gostava muito de jogos e o cara me ofereceu isso, então não tive muita escolha:

Minigame

Era um sábado, e sábado na minha cidade é dia de feira. Basicamente a galera toda se junta numa rua (sempre a mesma), a galera monta várias barracas, a galera chega com caminhões de produtos naturais cultivados em casa e a galera vende esses produtos pra uma parte da galera que não está lá para vender. A maioria do pessoal que compra é idoso, daqueles que reclamam da industrialização dos produtos e coisas do tipo: minha avó era (é) uma dessas pessoas. Nesse sábado, eu estava lá na feira com ela, mais pela minha profissão temporária de Carregador de Compras, algo que fazia com maestria – infelizmente hoje dei um tempo e não faço mais esse tipo de serviço sujo.

Nesse dia, especificamente, um rapaz que eu nunca tinha visto na vida apareceu e veio falar comigo. Minha mente ainda era muito pura para pensar em pedofilia, mas eu parei pra observar o maluco: ele era alto, magro e tinha barbicha. Basicamente ele me disse isso aí:

– Seu pai me mandou vir te buscar, a gente vai viajar e é pra você ir junto.

Para o bom entendimento dessa situação, vale ressaltar que nessa época meu pai morava numa cidade vizinha por causa de um emprego, logo essa fala fez muito sentido pra mim. Eu meio que pensei “porra, meu pai é mó legal, não deu pra vir aqui então mandou um amigo me buscar”, peguei e fui.

O foda é que minha vó nem tentou me impedir. Ela falou umas coisas com o sujeito, mas parece que ela já conhecia e confiava nele. Eu fui, parti ali da feira mesmo, levei só a roupa do corpo e deixei as compras pra minha avó carregar.

Fomos pra uma rodoviária e ganhei aquele videogame. A partir desse momento eu soube que estava fazendo a coisa certa e que não dava pra voltar atrás.

Nós pegamos o ônibus à tarde e só fomos chegar na tal cidade vizinha, Vale do Paraíso, no começo da madrugada. Descemos do ônibus e meu pai já estava do lado de fora nos esperando. Ele apertou a mão do cara, agradeceu e fomos embora.

Eu e meu pai seguimos ali da rodoviária para um Lavador (algo me diz que isso tem um nome diferente em outros lugares, mas para todos os efeitos é aquele estabelecimento em que as pessoas lavam os carros dos outros, jogam truco e perdem quantias milionárias comprando geladinho). Nos fundos do lugar haviam uns quartos bem lascados, de madeira e caindo aos pedaços: meu pai morava lá. Nem nos falamos muito, chegamos e fomos direto dormir. Ele até avisou que era pra dormir muito e dormir bem, porque no dia seguinte iríamos passar o começo da madrugada acordados, indo atrás de ônibus pra viajar.

E foi, mano. Só lembro de estar entrando no ônibus e seguindo rumo à Cacoal, outra cidade vizinha. Nós fomos pra lá porque em Cacoal tem um lugar chamado Cacoal Selva Park, que é basicamente um parque integrado à natureza e com várias atrações, tais como piscina, lagoa, animais, tirolesa e outras.

Terrível. Eu realmente gostaria de descrever mais sobre minha estadia no local mas não lembro de PICAS do que aconteceu. Quer dizer, até lembro de uma coisa ou outra por causa de algumas fotos que tenho aqui. Resumidamente:

  • Haviam três onças numa jaula e elas cagavam no mesmo lugar. Um dos cantos era preenchido por uma montanha de merda de onça.
  • Lá eu descobri que tenho medo de araras porque meu pai queria que eu tirasse foto com elas, logo tentei me aproximar mas sentia a morte cada vez mais perto.
  • Eu e meu pai pegamos um PEDALINHO (não sei como isso se chama em outros lugares do Brasil, mas falo daquela coisa que se usa para andar sobre as águas a base de pedaladas) e ROUBAMOS. O funcionário do parque disse que a gente podia ir do ponto X até o ponto Y por Z minutos e meu pai simplesmente cagou pra ele: passamos a tarde toda lá na PQP do riacho, onde ninguém ia.
  • Comi muito Cheetos e bebi muita Fanta Laranja.

E é isso aí. Cheguei em casa e minha mãe quase me matou, apesar da minha avó ter explicado pra ela pra onde eu havia ido, minha mãe passou o mês inteiro contando que havia sonhado comigo se afogando e tinha certeza que isso era uma visão do futuro ou qualquer coisa do tipo.

Atualização 04/10/2015: recuperei uma FOTO do episódio da arara. Tive que tirar uma foto da foto porque não tenho aqueles SCANNERS:

arara

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