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A Máquina Voadora do Sr. Heru

Atualização 04/10/2017: Eu escrevi uma análise na qual eu tento identificar os problemas com esse texto e consequentemente suas causas e possíveis soluções. Aqui está: Um pouco sobre a natureza do narrador.


1.

Havia uma cidade que tinha tantas torres que a luz do sol mal conseguia alcançar o chão, mas nas ruas onde havia luz também havia a sombra da máquina voadora do Senhor Heru. O Senhor Heru era conhecido por todos da cidade: os adultos viam ele como um cientista de bastante respeito, já as crianças como um velho rabugentíssimo e tenebroso, apesar que um ou outro garoto que não tinha medo dele sempre era contratado para ajudá-lo a fazer manutenções durante o voo. Uma moedinha de ouro era o suficiente para fazer com que muitos garotos deixassem de lado o medo do Senhor Heru e o medo de altura e se pendurassem na parte de trás da máquina voadora.

Todas as pessoas daquela cidade e de muitas outras se reuniam ali e se espalhavam ao longo de muitas tendas e barracas na primeira sexta-feira de todos os meses, e eles vendiam e compravam muitas coisas. Em um desses dias o Sr. Heru passeava com sua máquina voadora, e lá embaixo incontáveis pessoas olhavam para cima boquiabertas. As pessoas que vinham de longe viam a máquina voadora com extrema surpresa e os moradores a olhavam com orgulho, pois a viam sempre e ficavam felizes por ela ter sido criada por alguém da cidade. No meio da multidão de compradores e vendedores um garoto e uma garota estavam olhando a máquina voadora do Sr. Heru, e eles não estavam nem surpresos e nem felizes – seus nomes eram Leo e Finna. Então eles apontaram os olhos para o chão, abaixaram os capuzes cinzas que estavam usando e voltaram a subir a rua. Estava tudo tão lotado que Finna segurou Leo pela mão e foi abrindo caminho e empurrando as pessoas antes de dar cada passo, e muitas dessas pessoas também usavam capuz pois o sol era poderoso onde alcançava.

Sobre as cabeças de Leo e Finna a máquina do Sr. Heru continuava planando de um lado para o outro, e ele só foi parar com as manobras mais impressionantes quando uma fumaça preta começou a sair de uma das asas. De repente todas as pessoas que estavam fazendo negócios levantaram a cabeça de uma vez e gritaram “Ó!”, e Leo e Finna também olharam boquiabertos. O Sr. Heru estava voando sem nenhum ajudante naquele dia para fazer uma manutenção durante o voo e pôde apenas guiar a máquina cambaleantemente até uma grande janela da sua própria torre, onde poderia pousar e consertá-la. Finna ficou animada com a cena e seu queixo caído logo se tornou um sorriso de canto de boca, mas Leo foi tomado por calafrios e maus pressentimentos. Ele puxou Finna pela mão para baixo de uma árvore onde havia poucas pessoas:

“Você acha que é melhor desistir?” Ele perguntou para ela. “Como vamos roubar a máquina se ela estiver com algum defeito?”

“Você está brincando?” Ela respondeu enquanto apertava as sobrancelhas. “Ele entrou voando na torre, a máquina está funcionando.”

“Não muito bem, senão o Sr. Heru teria continuado voando…” Leo inclinou a cabeça e virou os olhos como se estivesse desviando um olhar tímido. Finna colocou a mão em seu ombro e suspirou.

“Bem, o Sr. Heru vai consertar a máquina de qualquer maneira,” ele continuou dizendo. “Será que o Sr. Goliais não entenderia se a gente esperasse até ela estar voando normalmente?”

“Eu acho que não”, ela respondeu encolhendo os ombros. “Ele foi bem claro: roubamos a máquina  voadora do Sr. Heru e encontramos o Sr. Goliais quando o sol estiver se pondo, fazemos a entrega, pegamos o pagamento e pronto. Aquelas doze moedas de ouro vão resolver nossos problemas por muitos meses!”

Os olhos de Leo continuavam indo cada vez mais pro canto enquanto ele tentava pensar em alguma desculpa pra escapar daquela situação toda. Ele começou a gaguejar alguma coisa e por fim desabafou timidamente: “Vou te contar a verdade”, ele disse, “eu já estava com medo de pilotar a máquina antes, e agora com aquela fumaça saindo de uma das asas então…”

Finna já estava esperando que Leo se acovardasse em cima da hora e não conseguiu segurar suas risadas. Leo ficou todo vermelho e encolhido enquanto ela chacoalhava os ombros zombando dele. “Mas Leo”, ela disse, “você sabia que eu queria pilotar a máquina desde que o Sr. Goliais passou a missão. Se não queria fazer isso, por que não me deixou ficar com a parte complicada?”

“Ah, ah…” Ele respondeu desconcertado e envergonhado. “Você sabe, depois do desastre que foi aquele último roubo eu precisava ganhar uns pontos com o Sr. Goliais.” Ele deu de ombros enquanto se justificava e Finna contiuava rindo enquanto se lembrava da última missão que fizeram juntos. “Ainda preciso! Vamos esperar o Sr. Heru consertar a máquina, pelo menos não corro o risco de cair lá de cima ou sei lá.”

“Leo, está tudo bem,” Finna respondeu colocando a mão no ombro dele. “Está tudo bem. Deixa que eu entro na torre do Sr. Heru e roubo a máquina. Você distrai o Sr. Goliais. Essa parte da missão é tão importante quanto a pilotagem mas, bem, você sabe, eu gosto de fazer coisas mais agitadas .”

Leo pensou que aquela era uma oferta muito tentadora, mas ele continuava preocupado com o risco da máquina parar de funcionar no meio do ar. “Mas nesse caso quem vai correr o risco de morrer é você, dá na mesma!”

“Claro, claro!” Ela respondeu dando risadas. “Pode ser minha aventura mais divertida em muitos anos.”

Leo tentou responder, mas enquanto gaguejava Finna já entregava um pacote em uma de suas mãos e pela outra o puxava rua acima falando “vamos, vamos! Está combinado: você distrai o Sr. Heru enquanto eu roubo a máquina!” Eles continuaram subindo a avenida até que viraram para a esquerda em uma esquina, e então pararam no início de uma larga rua com várias casas muito modestas dos dois lados. Havia um grande portão centralizado onde a rua parava de seguir em linha reta e começava a dar a volta.  Era um portão muito alto, e muito alto era também o muro no qual ele ficava: pois esse muro cercava a torre do Sr. Heru, e a coisa toda era tão grande que ocupava o espaço de várias casas e era rodeada por uma rua circular que se ligava com outras retas que iam para todos os cantos da cidade, e em uma dessas Finna e Leo haviam parado e ficaram admirando o portão um pouco. Eles olharam um para o outro, e então Leo acenou para ela com a cabeça e eles se separaram: Finna se enfiou num beco entre as casas e Leo continuou andando em direção ao portão da torre do Sr. Heru.

“Sr. Heru, Sr. Heru!” Ele gritou. Depois colocou no chão o pacote que o Sr. Goliais havia preparado para distrair o Sr. Heru e bateu muitas palmas enquanto olhava para cima na expectativa de uma resposta. O velho finalmente colocou a cabeça para fora da janela mais alta da torre e lançou para Leo uma expressão muito rabugenta que ele mal conseguiu enxergar lá de baixo. Suas sobrancelhas estavam apertadas e seu rosto e seu manto cinza estavam sujos com a graxa da máquina voadora, e ele ergueu os óculos de proteção que usava e gritou com toda a força: “Quem é? O que você quer?”

Leo levantou o pacote e gritou que estava lá para fazer uma entrega e que o Sr. Heru deveria descer para pegar, mas o velho não ia bem dos ouvidos e nem dos olhos, e daquela distância só conseguiu entender uma ou outra palavra sem sentido se misturando ao vento forte das alturas e enxergou apenas o que supôs ser uma pessoa sacudindo algo que parecia um pacote marrom acima da sua cabeça, e então ele gritou que quem quer que fosse que estivesse lá embaixo era um maldito por incomodar e que ele estaria descendo imediatamente.

O portão se abriu e o Sr. Heru se colocou parado ao lado dele, segurando-o aberto e revelando as paredes da torre lá dentro. A simples aproximação do Sr. Heru foi suficiente para fazer Leo dar um passo para trás assustado com a sua presença. Ele era um velho muito magro e sua pele era enrugada até a ponta dos dedos, mas estava sempre bem disposto e com muita pressa. Quando estava para perguntar quem era e o que queria o Sr. Heru reparou que diante dele estava um garoto, então de repente seus problemas foram iluminados por uma boa ideia e ele levantou as sobrancelhas com animação. “Perfeito!” Ele disse, “entra, entra!”

“Eu…” começou a dizer Leo, que estava preocupado em manter o Sr. Heru fora da torre e não tinha nenhum plano de deixar ele entrar, ou pelo menos seria um desastre se isso acontecesse antes de Finna sair de lá com a máquina voadora. Ele estendeu o pacote que o Sr. Goliais havia preparado como distração e começou a gaguejar: “Eu vim fazer uma entrega, senhor.”

O Sr. Heru desprezou completamente o pacote. Ele fez um sinal de desdenho com a mão e o empurrou para o lado. “Entra, foi muita coincidência ter aparecido alguém”, ele disse e então se aproximou animadamente de Leo e colocou a mão em seu ombro.  “Eu estava mesmo precisando de alguém para me ajudar a consertar a máquina.”

Leo ficou atordoado com o toque do Sr. Heru e com a proximidade de seu rosto, que ele considerava muito feio e amedrontador. Ele reuniu coragem das profundezas de seu coração e voltou a levantar o pacote. “Senhor, eu estou trabalhando. Pegue o pacote. Eu ainda tenho mais encomendas para entregar”, ele disse enquanto colocava o pacote entre ele e o Sr. Heru, que novamente o afastou com a mão e voltou a se colocar ao lado do portão e a segurá-lo aberto.

Calafrios tomaram o corpo de Leo quando ele percebeu que não ia conseguir manter o Sr. Heru lá fora pelo tempo necessário. Ele abaixou o pacote e o desespero dominou seus pensamentos. Sentiu uma tremedeira subir pela espinha e não gostou nada dela, então olhou para a direção do beco no qual Finna havia se enfiado mas ela já não estava mais lá. “É coisa simples,” ele ouviu o Sr. Heru dizer, “me ajude a consertar a máquina e eu até te dou umas moedas de prata.”

Leo pensou que aquela seria a oportunidade perfeita para desistir se Finna já não estivesse tentando entrar na torre, mas o medo dela ser pega caso ele não conseguisse atrasar o Sr. Heru ali fora o dominou e ele levantou de novo o pacote e disse “Então eu ajudo, claro, claro! Mas antes o senhor pode confirmar que está tudo certo com a encomenda? Senão meu patrão…” mas o Sr. Heru já o havia ignorado novamente e estava entrando apressado pelo portão: Leo pôde apenas ir correndo atrás. Quando abriram a porta e entraram na torre ele mal teve tempo de admirar a vastidão da sala, e antes mesmo que ele pudesse fazer uma nova tentativa de entrega e pelo menos manter o Sr. Heru por ali o velho já estava subindo uma escadaria ao lado da porta.

O Sr. Heru subia os degraus com passadas larguíssimas e com muita pressa enquanto Leo o acompanhava cambaleando, parte com a impressão de que a qualquer momento criaturas terríveis surgiriam daquele corredor mal iluminado que subia pelas paredes da torre e parte imaginando que tipo de coisas estariam guardadas nas dezenas de salas que surgiam enquanto eles subiam. Os sapatos do Sr. Heru batiam na madeira dos degraus e ecoava pelas paredes da escadaria, e quando ele começou a falar seus gritos rabugentos também reverberaram incompreensivelmente.

“É muito azar! É muito azar” Ele dizia a cada passo. “Eu tenho muitas coisas para fazer esta tarde e preciso dessa máquina funcionando até lá. Mas se você me ajudar acho que conseguimos terminar a coisa toda logo.”

“Eu não posso ficar muito, tenho muitas outras entregas pra fazer.” Leo respondeu e ficou surpreso quando sua voz também ecoou nas paredes.

“Inferno, garoto, eu disse que lhe pago!”

O Sr. Heru parou e se voltou para Leo enquanto tirou uma moeda de prata do bolso do manto e atirou para o garoto. Leo pegou a moeda e abaixou a cabeça enquanto olhava para a mão em que a segurava, depois olhou para a outra mão na qual segurava o pacote preparado pelo Sr. Goliais, então deu de ombros e voltou a subir as escadas atrás do Sr. Heru para enfrentar as crueldades do destino.

*****

2.

Finna se sentiu muito frustrada ao rodear a torre e descobrir que a rua estava cheíssima de pessoas e que não haveria nenhuma hipótese de pular o muro por aquele lado sem ser vista. Ela se meteu de novo nos becos e foi para alguma rua que ficava do lado esquerdo do portão no qual o Sr. Heru deveria estar com Leo. Ali só encontrou cachorros e pôde pular o muro para dentro da torre sem problemas.

Havia grama plantada em todo o chão e muitas plantas espalhadas pelo interior do muro. Assim que se jogou lá pra dentro ela logo se levantou e se escondeu atrás de um arbustro e começou a espiar em todas as direções. Foi quando ela viu uma das portas da torre aberta, e ao lado da porta havia três vasos de petúnias. Ela deu um sorriso para si mesma pois aquilo era exatamente como o Sr. Goliais havia descrito. O lugar todo pareceu estar completamente deserto, então ela correu em direção à porta já pensando em subir as escadas até a sala mais alta, mas quando ela estava para passar pela porta de repente ouviu vindo de dentro um eco de vozes vindo lá de dentro e por impulso se espremeu na parede ao lado dos vasos de petúnias.

Lá de fora ela não pôde entender nenhuma palavra entre os sons que ouviu, e depois disso as vozes não disseram mais nada por alguns minutos. Com o silêncio ela inclinou a cabeça e espiou dentro da torre, e os olhos de Finna viram apenas a grande sala vazia com outra porta aberta para a direção em que Leo deveria estar, uma escada surgindo para cima à sua direita e uma para baixo à sua esquerda. Ela ficou muito confusa e começou a se perguntar se Leo teria conseguido segurar o Sr. Heru lá fora ou se o velho teria descido para o subsolo da torre, pois as escadas que desciam à sua esquerda estavam com o alçapão aberto.

Finna começou a alternar seus olhares enquanto pensava. Olhava para as escadas descendo à esquerda, para as escadas subindo à direita e para a porta aberta do outro lado e imaginava onde o Sr. Heru estaria. Seu sangue começou a correr mais rápido nas veias e ela se sentiu agitada, pois aquele era um risco que não estava esperando. Ela se deixou guiar pelo próprio instinto e pela confiança em Leo e decidiu correr escadaria acima e continuar com o plano inicial.

Mas Finna não subiu se esgueirando pelas paredes, ao invés disso ela subiu dando passos largos, firmes e decididos, pensando apenas nas instruções de voo que o Sr. Goliais havia dado: quais botões do painel apertar para ligar a máquina voadora, como rodar a hélice para o motor funcionar, como decolar com ela pela janela da torre, como fazer curvas fechadas e como chegar com ela até o ponto de entrega. Ela passou por muitas portas que davam para muitas salas e muitos corredores, mas só se animou realmente quando viu a porta no fim da escadaria, pois aquela porta dava para a sala no topo da torre e lá deveria estar a máquina.

Ela estava tão excitada com a coisa toda que abriu um sorriso de orelha à orelha, e justo quando se apressou para a porta ouviu outra voz ecoar, mas dessa vez se tratava claramente de um grito de dor e descontentamento. Os próximos passos de Finna teriam sido diretamente para dentro da sala e para a máquina voadora que lá estaria, mas ao ouvir esse grito ela desviou para o lado e se espremeu na parede ao lado da porta, sentiu o coração quase sair pela boca com o susto e começou a suar frio. Ela estava para se acalmar quando o Sr. Heru surgiu correndo da porta ao seu lado como se fosse um vulto e desceu as escadas desesperadamente.

Antes de se perguntar o que teria acontecido ela pensou que aquela era sua chance. A adrenalina tomou conta do corpo de Finna e ela sentiu seu sangue pulsando nas veias. Da expressão de susto outro sorriso surgiu em seu rosto e ela virou para dentro da porta de uma vez sentindo que o voo na máquina proporcionaria uma das sensações mais recompensadoras do mundo, e então ela entrou de uma vez e quase não reparou na  máquina voadora à sua disposição no centro da sala, pois logo ao lado estava Leo sentado em um banquinho e com a cabeça baixa.

*****

3.

Quando Leo entrou na sala no topo da torre sua visão foi das mais excitantes, pois ele viu a máquina voadora parada no centro e muitas outras máquinas das quais ninguém nunca havia ouvido falar ao redor dela, ferramentas e peças de todos os tipos espalhadas em prateleiras e pelo chão, baús abertos e cheios até a tampa. E de todas as coisas que ele admirou a que mais o deixou impressionado foi a grande janela aberta da qual se podia ver o topo de muitas torres da cidade, e enquanto ele olhava para o céu azul com seus olhos arregalados a voz do Sr. Heru dominou a sala e trouxe seus pensamentos de volta à situação:

“Não toque em nada sem eu mandar!” Ele disse.

Então o Sr. Heru caminhou até uma das prateleiras ao lado da grande janela e pegou duas ferramentas muito pequenas para apertar parafusos, e de um dos baús ele pegou mais uma para cortar fios. Ele se ajoelhou ao lado de uma das asas da máquina, entregou uma das ferramentas para Leo e explicou exatamente o que ele deveria fazer, depois ele caminhou até a outra asa do outro lado e os dois começaram a trabalhar.

O problema das asas eles consertaram rapidamente pois apenas a que o Sr. Heru mexeu estava danificada, mas as engrenagens das duas eram ligadas e para mexer seguramente em uma era preciso manter a outra no lugar. Leo achou as instruções muito simples e apenas as seguiu sem dificuldades, mas seus pensamentos estavam inteiramente voltados para Finna. Ele estava preocupado que ela subiria as escadas para roubar a máquina voadora sem ter a consciência de que eles estariam lá em cima. Ele fez muitas perguntas para o Sr. Heru sobre as diversas máquinas que estavam na sala com a esperança de que Finna os ouviria conversando e não seria pega subindo as escadas, mas o Sr. Heru logo pediu a paciência e pediu silêncio enquanto ele se concentrava no conserto da máquina.

Ele começou a pensar em coisas diferentes que poderia ter dito e que teriam convencido o velho a aceitar o pacote, ou que pelo menos o manteriam lá fora por tempo suficiente para ela subir as escadas e sair voando. Foi quando o Sr. Heru deitou no chão e se enfiou embaixo da máquina para consertar o motor principal, e esta era a parte mais danificada. Leo precisou erguer a máquina rapidamente do chão para que o Sr. Heru pudesse mexer os braços com as ferramentas lá embaixo, mas enquanto a segurava a porta da sala aberta mostrava o abismo que era a escadaria da torre indo lá para baixo, e ele a olhava com a impressão que a qualquer momento Finna surgiria dali toda estabanada e que o Sr. Heru os pegaria e que então eles estariam com muitos problemas. A apreensão subiu pelas suas pernas e a preocupação que dominou seu corpo fez com que seus braços não conseguissem segurar a máquina por muito tempo, e se não fosse por isso ela já seria pesada demais de qualquer maneira: deixou a coisa toda desabar de uma vez em cima do velho.

O primeiro grito do Sr. Heru foi pela dor mas também exprimiu uma irritação que pareceu estar guardada há tempos. Sua voz ecoou em toda a sala, saiu pela janela e até desceu as escadas enquanto Leo se tremeu todo cem uma sensação de que havia cometido um erro terrível e fez o que pôde para puxar a máquina, mas o Sr. Heru começou a empurrá-la por conta própria e a dar muitos outros gritos assustadores. O pobre garoto não conseguiu entender uma palavra em meio ao seu desespero, mas a expressão rabugenta que estava no rosto do Sr. Heru quando ele se levantou de uma vez falou por si só: a mão cobria o nariz de onde escorria sangue, e todo o resto estava muito enrugado de ódio. Ele tirou a mão da frente da boca, apontou para o garoto e finalmente disse algo de maneira bem clara:

“Agora,” e chegou com seu rosto assombroso bem perto do de Leo, “eu te pagaria, garoto, mas agora é você quem me paga.” E apontou para um banquinho. “Sente ali e não mova um músculo até eu voltar.”

Uma grossa gota de sangue pingou pelo dedo do Sr. Heru, e logo que ele viu colocou de novo a mão no rosto e saiu correndo para um banheiro que havia alguns andares para baixo. Leo ficou sentado no banquinho com a cabeça baixa, mas sua mente ainda estava fascinada com a máquina. Ele percebeu que aquele momento poderia ser uma oportunidade e começou a cair em profundos pensamentos, mas antes que tivesse tempo de elaborar qualquer coisa ele ouviu uma voz:

“Leo?” ele ergueu a cabeça e viu que era Finna, com as sobrancelhas apertadas e parecendo estar muito confusa.

*****

4.

 “Isso é genial”, disse Finna ao se virar e encarar a máquina. “Eu lá embaixo pensando como faria pra subir, e você aqui pronto pra sair voando com a máquina e me deixar pra trás!” Ela jogou os ombros pra trás e começou a rir da coisa toda. “Quem diria, quem diria?”

“Bem….” Leo tentou responder mas da sua boca só saíram murmúrios e palavras gaguejadas. Finalmente ficou de pé, também deu de ombros e disse: “quando eu me dei conta já estava aqui.”

Pararam os dois um do lado do outro e admiraram a máquina voadora, parada no centro da sala e com a parte da frente apontada para a janela aberta. “Eu piloto”, ela disse colocando uma mão sobre o ombro de Leo.

“Nós morreríamos”, ele respondeu secamente, “o Sr. Heru ainda não terminou de consertar a máquina.”

Ela se ajoelhou e deu pancadinhas nas asas como se as estivesse examinando. Nenhum pedaço caiu e Finna ficou satisfeita com isso, então ela pulou para dentro da máquina e começou a apertar os botões indicados pelo Sr. Goliais. As hélices nas asas começaram a girar, primeiro muito devagar e depois cada vez mais rápidas até que o som que saía delas havia preenchido toda a sala. O Sr. Heru também ouviu lá de baixo e soltou outro grito de dor e ódio que subiu as escadas até o topo da torre para se misturar ao som da máquina e passar quase despercebido pelos dois. Leo notou e olhou na direção das escadas mas teve a impressão que o grito vinha de muito longe.

“Você está brincando”, disse Finna, “se ele conseguiu entrar aqui voando, nós conseguiremos sair. Sobe, sobe!”

Leo ficou muito impressionado com as hélices das asas girando à toda velocidade e mal ele abriu a boca para dizer “caramba, então nós realmente consertamos…” e elas pararam. As luzes do painel se apagaram e a máquina voadora desligou completamente. Finna voltou a apertar os botões mas nada aconteceu, e antes que o silêncio pudesse dominar a sala o grito do Sr. Heru se colocou em alto e bom tom, e seus sapatos também ecoavam a cada passo que ele dava em sua corrida escadaria acima. Fina olhou para a direção das escadas e deu uma pancada no volante com as duas mãos enquanto suspirou sua frustração. “Droga!” Ela disse. “Nós morreremos. Como podemos nos esconder dentro de uma sala?”

“Não, nós realmente consertamos a máquina!” Leo disse e correu até a hélice da frente e começou a girá-la. Fina bateu com a mão no rosto enquanto se lembrava das instruções do Sr. Goliais e disse “a hélice, claro, claro!”

Ela voltou a apertar os botões enquanto Leo girava, e finalmente os motores ligaram completamente. Os painéis reacenderam e as hélices voltaram a girar com todas as forças nas asas. Os dois abriram sorrisos largos. Leo pulou para dentro da máquina e Finna apertou vários botões e logo a coisa toda saiu em linha reta pela janela a toda velocidade.

Então era a sombra deles que corria pelas ruas da cidade lá embaixo, e o sangue correu tão rápido como nunca pelo corpo de Finna quando ela olhou e viu as pessoas pequenininhas caminhando entre as barracas. Ela puxou o volante com toda a força e fez a máquina rodopiar e fazer muitas curvas, e no chão todas as pessoas pararam para admirar. Naquelas alturas o vento era muito forte e ela mal podia ouvir os próprios pensamentos enquanto seus longos cabelos se esticavam e chicoteavam o rosto de Leo, que estava sentado logo atrás. Ela abriu a boca e soltou um grito de exaltação que se perdeu ao ser levado pelo vento, mas Finna se sentiu feliz como nunca.

Leo por sua vez não sentiu o vento em seu rosto mas apenas os cortantes fios de cabelo de Finna. Ele estava preocupadíssimo com o Sr. Heru e não parava de olhar para a torre com a impressão de que o velho sairia de lá enfurecido, talvez voando com asas próprias ou sabe-se lá o tipo de coisa que ele não deveria ter guardado naquela torre, mas o Sr. Heru não aparecia. Finna guiava a máquina em círculos no ar e eles davam cambalhotas e cambalhotas e subiam cada vez mais alto, mas Leo olhava para a torre e não via o Sr. Heru. “Vamos fazer o que o Sr. Goliais mandou e entregar a máquina!” Ele gritava, mas sua voz também era carregada pelo vento e suas palavras se perdiam para sempre.

O Sr. Goliais na verdade já havia entrado pela porta da sala e visto pela janela Leo e Finna voando com a máquina, e havia descido até uma das salas para pegar alguma de suas armas. Não que ele fosse gagá o suficiente para destruir sua própria invenção, mas ele a amava tanto que estava disposto a arriscar uma asa ou a outra para recuperar o aparato todo. Ele pensou em fazer uma das hélices parar, assim a máquina começaria a cair e um paraquedas de emergência se abriria e ele conseguiria recuperá-la no chão. Ele pegou uma arma com dois canos muito longos e finos e voltou a subir as escadas com toda a velocidade, torcendo para que os garotos ainda estivessem fazendo manobras em algum lugar próximo da torre.

E eles estavam: Leo gritava inaudivelmente para que fugissem com a máquina de uma vez e terminassem o serviço dado pelo Sr. Goliais enquanto Finna se divertia como nunca e guiava a máquina em manobras arriscadíssimas com um largo sorriso no rosto. O vento continuava poderoso contra seus rostos, mas justo quando Finna apontou a máquina para fugir e eles começaram a voar em linha reta veio da janela da torre do Sr. Heru uma pequena bala de metal desafiando as rajadas e passando de raspão por cima da asa direita da máquina. Depois veio outra também de raspão, e outra que acertou em cheio e fez um furo na estrutura. E então uma acertou a hélice, e Leo e Finna olharam horrorizados para a fumaça preta que começou a sair da asa, pois ao mesmo tempo a máquina começou a cambalear como se estivesse mais pesada de um lado do que do outro.

*****

5.

Leo olhou para a janela da torre e viu o Sr. Heru com uma arma abaixada em uma das mãos e uma luneta apontada para eles na outra. Depois viu o velho sair correndo escada abaixo a toda velocidade deixando a luneta pra trás e levando a arma consigo.

“Está tudo bem, está tudo bem”, Finna virou para trás e começou a gritar enquanto Leo tentava fazer uma leitura labial, “eu vou conseguir pousar!”

Ele olhou atônito e confuso, e ela pôde apenas repetir “pousar, pousar!” em gritos cada vez mais altos e abafados, pois a máquina começava a perder altitude. Leo pensou que aquilo era mal, muitíssimo mal, pois se eles chegassem ao chão ainda vivos o Sr. Heru estaria lá esperando. Ele não conseguiu pensar em outra solução a não ser levar a máquina até o lugar indicado pelo Sr. Goliais, mas antes que ele pudesse manifestar qualquer pensamento a hélice da asa direita parou completamente. A máquina voadora começou a rodopiar no ar e a cair vertiginosamente. A mudança de pressão foi tão alta e tão rápida que Finna desmaiou instantaneamente e Leo sentiu como se sua cabeça fosse explodir, mas de uma vez o paraquedas de segurança se abriu e eles começaram a cair muito devagar.

Leo olhou para baixo completamente desorientado e viu as pessoas se reunindo no ponto em que eles cairiam com a máquina. Ele gritou por Finna e sua voz finalmente soava pelo ar de maneira audível, mas ela ainda estava desmaiada e não respondeu nada. Leo a chacoalhou incessantemente pelo ombro e também nada aconteceu. Poucas possibilidades passaram por sua cabeça, mas seus pensamentos estavam dominados pelo temor de inevitavelmente chegarem ao chão e serem pegos pelo Sr. Heru. Em seu desespero e falta de opções, Leo olhou para as hélices soltando fumaça e só pôde se rastejar por cima da asa para tentar consertar o estrago.

Foi muito difícil para ele se manter concentrado em analisar as hélices e descobrir se poderia fazer alguma coisa, e enquanto ele suava frio e puxava um e outro fio o Sr. Heru certamente se aproximava pelas ruas lá embaixo com a arma nas mãos. Havia muitas coisas tirando sua atenção, mas ele apenas quase perdeu o equilíbrio e se esborrachou no chão quando Finna abriu os olhos e soltou um grito de espanto.

*****

6.

A vista de Finna estava muito mais dominada por torres e árvores altas do que pelo azul do céu e as nuvens se movendo calmamente nele, e no momento em que acordou ela também pôde ouvir um ou outro grito de fascínio vindo de baixo, pois a máquina voadora continuava caindo muito lentamente. Ela sentiu um breve alívio ao ver o paraquedas aberto guiando-os levemente até o chão, mas foi Leo sentado em uma das asas a visão que lhe causou uma súbita aflição: ele não estava segurando em nada e havia um finzinho de fumaça preta saindo das hélices. Ela olhou para baixo e percebeu a distância que estavam do chão, e viu também as pessoas se reunindo naquele ponto da rua, mas virando uma esquina distante estava o Sr. Heru, correndo conforme sua vitalidade permitia e segurando na mão a arma com canos longos. Então ela alternou seus olhares rapidamente entre Leo e o chão, e exprimiu toda a sua confusão em um grito.

Leo sentiu o coração pulsando na altura da garganta, não pelo grito inesperado em si mas porque por alguns segundos ele teve a certeza absoluta de que iria perder o equilíbrio e que despencaria daquela altura como uma fruta madura cai do pé. Ele se reequilibrou e olhou para Finna enquanto limpava um suor frio do rosto. Ela estava e mal sabia o que iria perguntar primeiro, mas finalmente acabou gritando: “Você consertou?”

Leo estava completamente sem jeito e desengonçado. Ele não tinha uma alça para segurar com firmeza e segurava a asa da máquina com toda a força possível entre as pernas. Além disso, seu corpo estava em choque com toda a situação e sua pele estava mais pálida do que nunca, mas havia um sentimento de dever cumprido pois as hélices realmente não estavam mais soltando fumaça. “Não sei. Vamos tentar!” Ele gritou de volta.

E ela tentou: apertou todos os botões que o Sr. Goliais havia dito para apertar, e o painel ao lado do volante acendeu suas luzes e as hélices das asas começaram a girar com toda velocidade enquanto Leo voltava para o banco. Eles abriram largos sorrisos, mas antes que as pessoas no chão pudessem voltar para seus negócios com um assunto a mais para conversar as hélices pararam de novo e a máquina voltou a desligar. Finna gritou e bateu com as mãos no volante com muito descontentamento. “A hélice da frente!” Ela gritou.

“Mais um arranhão e eu mato vocês!” Veio a voz do Sr. Heru lá de baixo, com a arma apontada para cima. “Apenas deixem cair! Deixem cair!”

Leo já estava rastejando por cima da máquina até seu bico, mas parou e gritou para o Sr. Heru “então explode ela!” E depois girou as hélices da frente enquanto Finna voltou a apertar os botões. A máquina ligou finalmente, e a arrancada para frente que tentaram dar foi tão potente que teriam desaparecido de uma vez no horizonte se não fosse o paraquedas impedindo a coisa toda de sair do lugar: mais uma vez Leo rastejou por cima da estrutura para tentar soltar as cordas do paraquedas.

O Sr. Heru estava com o dedo no gatilho e tremia como nunca. Ele pensou que daquela distância não erraria e certamente traria a máquina ao chão, mas talvez de maneira completamente inútil. Então ele apontou sua mira para Leo e começou a atirar com a esperança de recuperar a máquina de alguma maneira, mas já era tarde demais: Leo soltou o paraquedas e se agarrou na lataria enquanto Finna puxou uma alavanca e a máquina desapareceu no horizonte na direção da floresta além da cidade.

*****

7.

Leo e Finna sobrevoaram muitas árvores antes de chegarem até a clareira na qual encontraram o Sr. Goliais. Finna se divertiu tanto guiando a máquina em várias manobras arriscadas que gritou até ficar rouca. Leo ficou apenas sentado no banco de trás admirando a paisagem, pois as árvores e as montanhas surgindo para seus olhos traziam uma sensação de alívio recompensadora e uma visão que o deixava fascinado.

Quando eles pousaram e entregaram a máquina ao Sr. Goliais ele fez muitas perguntas e eles contaram toda a história de como o roubo aconteceu. O Sr. Goliais ficou tão impressionado que além de ter pago as doze moedas de ouro que havia prometido também deu uma moeda de prata especialmente para Leo, e ele guardou ela no bolso junto com a outra moeda de prata que o Sr. Heru havia lhe dado na torre.

O sol já havia se afundado no horizonte e desaparecido além das montanhas mais distantes quando eles voltaram para a cidade. Foram direto para o banco depositar parte das moedas de ouro e depois resolveram ir pra casa. Eles estavam descendo uma grande avenida e ela ainda estava movimentadíssima, pois as pessoas que haviam se reunido ali em muitas barracas durante o dia para comprar e vender suas coisas também estavam se reunindo durante a noite para festejar. Muita gente vinha de fora para fazer comércio naquela cidade na primeira sexta feira de cada mês, e antes de ir embora eles passavam a noite comendo, bebendo e se divertindo.

Finna estava novamente puxando Leo pela mão avenida-abaixo enquanto abria caminho na multidão quando ele parou e guiou ela até uma das barracas de lanches que abriam especialmente naquelas sextas-feiras. Com as duas moedas de prata ele comprou dois espetos muito grandes com carnes e mandioca assada, e então eles sentaram em baixo de uma árvore ao lado da barraca e ficaram comendo. Enquanto assistiam as pessoas indo e vindo, Finna não parava de relembrar o roubo da máquina voadora e de falar sobre o quanto ela havia se divertido com as manobras arriscadas que haviam feito pelos ares. “Uma sensação tão boa, tão boa!” Eram as palavras roucas dela, e Leo apenas ouviu a ela em silêncio, com muita atenção e admiração, fazendo sinais com a cabeça sempre que ela dizia algo e dando pequenos sorrisos enquanto mastigava.


Atualização 04/10/2017: Eu escrevi uma análise na qual eu tento identificar os problemas com esse texto e consequentemente suas causas e possíveis soluções. Aqui está: Um pouco sobre a natureza do narrador.

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A Vida e os Papéis de Carmen Santos

Texto originalmente escrito para a disciplina de História do Cinema Brasileiro, referente ao terceiro período do curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal Fluminense.

 

Carmen Santos na capa da revista Scena Muda nº 538, de 1931.

Maria do Carmo Gonçalves nasceu em Vila Flor, no norte de Portugal, em 8 de junho de 1904. Mas foi no Brasil que fez história: imigrou aos oito anos com a família, abandonou a escola para trabalhar pregando botões e estreou como atriz aos quinze, em 1919. Seus três primeiros filmes, entretanto, Urutau (1919), A Carne (1924) e Mademoiselle Cinema (1925) nunca foram exibidos ao público e Carmen só foi aparecer nas telas em Sangue Mineiro (1929), filme dirigido por Humberto Mauro, com quem faria muitas parcerias nos anos seguintes.

A divulgação desses filmes feitos em cima da figura de Carmen fez com que ela adquirisse status de estrela de cinema ao longo dos anos 20, algo completamente novo ao cinema brasileiro, estampando revistas, distribuindo autógrafos e recebendo inúmeras cartas de fãs apaixonadas. Mas foi atrás das telas que deu sua maior contribuição ao cinema no Brasil: como produtora, não só financiou projetos de extrema importância como também foi diretamente responsável pelo sucesso da carreira de grandes nomes como Humberto Mauro e Adhemar Gonzaga.

Carmen Santos fundou a Film Artístico Brasileiro (FAB) e a Brasil Vita Filmes, produtora de grande importância para o desenvolvimento do cinema sonoro no país. Atuou ainda em Onde a Terra Acaba (1933), de Octávio Gabus Mendes, e Favela dos Meus Amores (1935), Cidade Mulher (1936) e Argila (1940), os três dirigidos por Humberto Mauro, além da participação no lendário Limite (1931), de Mário Peixoto.

Seu maior projeto foi Inconfidência Mineira (1948), filme baseado no episódio histórico de mesmo nome, no qual Carmen foi não só atriz e produtora mas também diretora – das primeiras do Brasil, junto com Cléo de Verberena e seu O Mistério do Dominó Preto (1930) e Gilda de Abreu e seu O Ébrio (1946).

Entre seus trabalhos como atriz, seu legado como produtora e seu pioneirismo como diretora, hoje sabemos de Carmen Santos apenas pelos inúmeros registros que há de sua vida e obra em revistas e jornais. Dos filmes, apenas Sangue Mineiro, Argila e Limite sobreviveram aos dias atuais, o restante foi irremediavelmente perdido em incêndios que abastaram seus próprios estúdios em 1958, seis anos depois de ter morrido devido a um câncer aos 48 anos.

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Convencendo a Casa Cansada

No pé de uma montanha havia uma casa conversando com um homem. A casa era muito velha e havia sido construída por homens de eras ainda mais antigas; ela estava muito cansada e com o desejo de ser demolida.

A casa era toda feita de madeira retirada diretamente da floresta que rodeava a montanha, e muitas partes da sua estrutura haviam sido corroídas pelo tempo ou consumidas por cupins, e outras haviam sido substituídas ou removidas permanentemente durante reformas feitas pelos homens no passar dos anos. Ela tinha uma porta centralizada na frente, e ao lado da porta havia uma pequena janela de vidro fosco, que permitia a entrada de ar mas não de olhares estranhos, e no lado esquerdo havia outra janela da mesma maneira. No lado direito não haviam janelas porque naquela parede ficava o cômodo usado como armazém, e na parte de trás havia uma porta que se abria para um gramado nos fundos que algum dia havia sido um pequeno jardim. O telhado era de barro e tinha forma triangular, e dava espaço para um sótão que se erguia sobre outra parte do telhado que se estendia e formava uma pequena varanda na frente da casa. Havia sido uma casa respeitável e aconchegante algum dia. Não havia muito sol vindo do lado sem janelas pois a montanha o cobria, mas nos outros lados as árvores eram espaçadas e não eram muito altas, de modo que a luz do sol preenchia todo o ambiente e o ar circulava muito bem. O chão ao redor era coberto por grama e flores que cresciam dispersamente, e a terra era boa para fazer crescer de tudo, como havia sido certa vez o pequeno jardim nos fundos.

Os homens que construíram a casa eram parte de um povo viajante, e eles vieram pelo mar e cruzaram a região rumo ao outro lado da montanha, e por muitas outras pretendiam passar depois. Centenas deles desceram dos navios, mas a caminhada por florestas e montanhas foi tão longa que alguns desistiram da peregrinação e preferiram viver onde a terra se mostrasse fértil, e então a casa ao pé da montanha foi construída. Eles também ergueram outras casas ao redor, e ficaram bastante satisfeitos com tudo o que fizeram, mas outras casas se cansaram e pereceram muito antes da casa dessa história, A Casa, a última de todas as casas construídas pelos antigos homens que vieram do mar. Ela estava decadente, e quais forças a seguravam em pé naqueles tempos ninguém ainda sabe dizer, mas ela pensava que finalmente havia chegado o tempo de ceder, e deixar a coisa toda desabar e encontrar um fim. Sobre esse assunto ela havia conversado muitas vezes com um homem.

“Eu estou muito cansada,” ela disse algum dia. “Pegue suas ferramentas e me ponhe para baixo.”

O homem ficou muito triste ao ouvir esse pedido pois ele gostava muito da casa, e conhecia a sua história e a respeitava muito. Ele se chamava Pirro e vivia na cidade além da montanha, mas ele sempre a cruzava para conversar com a casa. A trilha que existia no meio da mata havia sido feita por ele, e quando a cruzava ele vestia apenas sandálias de madeira e couro, um manto amarelado de lã que cobria todo o corpo, e um grande chapéu em forma de cone feito de palha trançada que sombreava até seus braços abertos, e essas vestimentas de viagens eram as mesmas usadas pelos homens dali desde que eles vieram do mar: um costume antiquíssimo. Ele sempre se sentava do lado de fora da casa com as costas encostadas em baixo da janela ao lado da porta, e colocava o chapéu no chão e conversava com a casa.

“Ah! Cansada, você?” Ele disse.

“Eu estou.” Ela respondeu. “Eu estou aqui há muito tempo, e vi muitas coisas virem e irem. E os homens foram e não voltaram mais. Digo, a não ser você, no momento, meu querido Pirro.”

E então ele abaixou a cabeça e fez um longo silêncio enquanto pensava, pois naquele momento ele soube que a casa não contaria histórias por algum tempo e aquilo o entristeceu.

“Minha velha amiga, eu posso te visitar mais vezes, se isso fizer você se sentir melhor. O que acha?” Ele disse finalmente.

E então foi a vez da casa cair num longo silêncio, e após profundos pensamentos ela disse com uma voz arrastada e rouca: “Não, eu acho que não é isso. Os homens me abandonaram há muitos anos. Eu estou só há muitos anos antes de você nascer. E algum dia você também irá, mas eu ficarei até outro como você aparecer, e isso eu não sei quando vai acontecer. Quer dizer, você é dono das suas vontades, mestre Pirro, e sobre elas ninguém domina, mas eu estou angustiada e peço que atenda meu pedido.”

“Mas eu não posso te demolir,” Pirro respondeu. “Imagine só, eu, logo eu? Não, eu não tenho as entranhas para fazer isso, e mesmo que as tivesse eu não o faria pois eu acho que você perderia muitos bons dias que ainda irão vir, e isso seria muita crueldade.”

Depois disso, Pirro passou a visitar a casa mais vezes. Ele sempre precisava cruzar a montanha pelos caminhos ainda rústicos que ele mesmo havia feito, e em outros tempos a dificuldade da viagem se fazia valer pelas histórias que a casa contava, mas agora ela não contava mais histórias e apenas divagava sobre questões existenciais e diversos problemas que afligem as casas.

E de fato sua presença não estava ajudando muito no panorama das coisas, pois a casa era muito velha e tinha muito mais sabedoria que Pirro, e as dificuldades pelas quais ela passava ele não compreendia, e nem a forma com a qual ela via o mundo ele conseguia entender. Ele não conseguia pensar em como ajudar a casa a ficar menos cansada pois ele não conseguia entender como a casa poderia ter ficado cansada em primeiro lugar. Até onde ele pôde compreender, se tratava de algum tipo de saudade dos homens antigos que vieram do mar, os construtores e primeiros habitantes da região; mas mesmo que fosse isso, suas visitas não pareceram estar ajudando em nada.

“Eu irei e eu trarei outros homens, e nós vamos sentar encostados nas suas paredes e você nos contará histórias. Eu acho que isso irá curar o seu cansaço.” Ele disse algum dia.

“Eu não sei se isso iria,” a casa respondeu. “Mas seria algo muito agradável.”

E então da próxima vez que Pirro cruzou a montanha, alguns homens fizeram a caminhada com ele. Eram sete homens ao lado de Pirro, e eles nunca haviam atravessado a montanha e nem se embrenhado muito fundo nas árvores, e ficaram espantados com a coisa toda. As árvores eram mais ou menos as mesmas nos dois lados da montanha e também ao longo de toda a trilha, mas havia certa mágica no ato de chegar ao outro lado e ficar lá, com os olhos admirando terras que em algum momento pareceram inalcançáveis.

Pirro e seus sete companheiros sentaram com as costas na parede e ouviram histórias, e a casa contou muita coisa sobre os antigos homens e as primeiras casas que eles ergueram, e sobre as reformas que outros homens fizeram posteriormente e sobre as primeiras casas que demoliram; mas sobre essas últimas ela não contou muitas histórias e só as mencionou rapidamente com muita tristeza e saudade. Os homens gostaram muito e voltaram várias vezes por conta própria, às vezes cruzando a montanha pela trilha de Pirro sozinhos. Isso tudo deixou a casa bastante alegre, e ela entendia muito sobre essas coisas e sabia que as boas sensações são sempre passageiras, e então algum dia ela disse:

“Meu querido Pirro, você me deixou de fato muito alegre. Mas eu acho que isso vai passar algum dia, e você vai ir e os outros homens também. Eu ainda estou cansada, e penso que, sim, às vezes posso me sentir melhor, mas o futuro trará decepções e eu não quero me sentir cansada de novo. Me ponhe para baixo enquanto ainda me sinto bem, por gentileza.”

“Isso eu não posso fazer,” ele respondeu. “Eu não consigo entender o seu cansaço, mas, bem, você é uma casa, e eu não posso compreender as coisas pelas quais você passa e passou, eu acho.”

Os dois fizeram silêncio e caíram em pensamentos profundos, e então Pirro voltou a dizer: “Pode ser isso. Eu acho que outras do seu tipo podem te entender melhor que eu ou os outros homens, o que você acha?”

Ouvindo isso, a casa se sentiu como se um baú estivesse sendo descoberto dentro de seu coração, e como se de dentro dele saísse uma esperança que a dominava em toda a estrutura. Ela respondeu muito alegremente:

“Ah, de fato, de fato! Mas isso seria um trabalho muito grande, sabe, construir novas casas e tudo o mais.”

“Não,” disse Pirro. “Nós sempre construímos casas, só precisamos construir aqui. E de qualquer forma meus amigos sempre vêm ouvir suas histórias, então, bem, é isso.”

 E então Pirro foi, e quando voltou estava com os outros homens, e ao longo de várias semanas eles construíram outras três pequenas casas no pé da montanha, feitas com madeira de árvores que cortaram nos arredores da velha casa. Os homens ficaram muito satisfeitos com toda a coisa que fizeram, e em um primeiro momento passaram a visitar as quatro casas com bastante frequência, mas depois alguns se mudaram permanentemente e outras casas foram construídas. Após algum tempo a casa cansada havia voltado a contar histórias para Pirro, e um dia eles colocaram um ponto final no assunto:

“Vocês são excelentes”, disse a casa, “ou minha consciência vêm se enganando há muitos e muitos séculos.”

Pirro agradeceu e disse que não havia sido nada, e que ele ajudaria sempre que possível, e todas essas coisas que as pessoas respondem quando são agradecidas. E nada mais foi dito sobre o cansaço da casa enquanto Pirro estava lá para ouvir, pois por muitas décadas ele continuou visitando a casa, mas nunca se mudou para lá. Certo dia ele não pôde mais atravessar a montanha, e depois disso seus pés não o levariam a lugar algum, mas ao que se sabe a casa permaneceu lá por um longo tempo, ainda hoje alguns dizem que por um tempo absolutamente indeterminável, pois o que não se sabe é se ainda há homens a visitando e a convencendo cada vez que ela fica cansada.

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Yan na Ponta da Agulha

A aventura de Yan começou há muitos anos, quando ele partiu de sua casa no Oeste levando apenas roupas e comida em uma bolsa que era maior que ele. Os motivos da sua partida não fazem parte dessa história, e é suficiente dizer que no momento em que ela começa ele se encontrava parado diante de gigantescas muralhas, e que levava duas espadas leves e pequenas guardadas nas bainhas de couro na cintura; usava um capuz jogado para trás do pescoço por cima de um colete de couro, que por sua vez escondia uma cota de malha velhíssima que usava como proteção desde sempre; ao seu lado estava Famber, o cavalo que recebeu como pagamento por alguns serviços feitos em Lugos, e ele fazia o trabalho de carregar bolsas com todos os bens que Yan coletava pelas terras que passava. Era um cavalo preto, forte e jovem, e Yan tinha tanto amor por ele quanto pelos bens que ele levava, mas as costas de Famber já eram pesadas demais com a bagagem, portanto ele era obrigado a caminhar. Tinha esperanças de conseguir mais cavalo para dividir os pesos, e havia grande esperança de fazer isso na cidade que se erguia diante de si.

Apesar disso, não foi esse o motivo principal que o levou a visitar Cidaces. Por muitos anos e em muitos lugares ele ouviu falar de uma taverna chamada Ponta da Agulha. Diziam ser uma taverna muito grande, feita de pedra esculpida imitando um pequeno castelo, e que ocupava o espaço de três casas no centro de Cidaces. O lugar era famoso porque seu dono, o taverneiro Denomo, tinha acordos com criaturas de todos os reinos, e conseguia reunir em sua taverna frutas vindas de terras muito distantes; ele as triturava e as misturava e produzia bebidas muito apreciadas. Yan estava fazendo alguns trabalhos há apenas alguns dias da cidade, e resolveu aproveitar a oportunidade para visitar a Ponta da Agulha.

Ele gostava de beber e comer as especialidades dos lugares que visitava, e nunca tinha estado em Cidaces antes. Quando parou diante das muralhas e viu a lua já surgir atrás delas enquanto o sol se punha, puxou as rédeas que guiavam Famber o cavalo e seguiu ansioso para tomar as vitaminas. Os portões de madeira estavam aberto e ele achou isso esquisitíssimo, pois era bem conhecido por todos que qualquer um podia entrar em Cidaces, mas era preciso ser revistado pelos guardas antes.

Quando colocou os pés sob o portão, Yan viu muitas coisas esquisitas e uma cidade mergulhada em caos. Haviam pessoas gritando e correndo para todas as direções, abanando os braços em desespero e pedindo socorro; as casas de madeira pegavam fogo, e também os carros de bois e cavalos, e todo o feno que alimentava os animais, que também galopavam desesperados pelas ruas. Aquilo tudo lhe pareceu muito estranho e errado, mas até onde ele podia imaginar não era problema dele, então seguiu seu caminho para o centro de Cidaces, para a Ponta da Agulha.

Ele pôde caminhar pelas ruas sem ser diretamente perturbado. O que quer que estivesse perturbando os moradores o deixou em paz. Ele fez seu caminho até que a frente da taverna apareceu em sua vista, e ela pareceu ser ainda mais magnífica do que diziam: mais alta, mais larga, feitas de pedras mais bem esculpidas e polidas, e detalhada nos cantos com madeiras mais brilhantes e resistentes. Ela era de fato muito parecida com um pequeno castelo, pois era retangular e tinha pequenas torres nos cantos, e as portas eram de metais, com as bordas arredondadas e uma faixa de metal no centro, e com argolas de aço penduradas para abrir e fechar. O coração de Yan rapidamente se encheu de esperança de que as famosas bebidas também seriam melhores do que os rumores apontavam, mas sua ansiedade foi desafiada quando percebeu que as portas estavam fechadas.

Yan se aproximou pensando que não poderia deixar a cidade sem provar alguma das bebidas, e parado diante das grandes portas fechadas ele gritou:

“Eu quero beber!”

Houve silêncio, e por alguns instantes nenhuma resposta veio e as portas permaneceram sem dar sinais de que seriam abertas, então ele repetiu o grito enquanto dava pancadas fortes com a mão na madeira:

“Eu quero beber!” Ele disse. “Abram as portas!”

Dentro da taverna as pessoas começaram a murmurar, e Yan ouviu e bateu ainda mais forte nas portas.

“Vá embora, não temos nada aqui!” Disse uma voz vinda de dentro. “Não arrebente minhas portas!”

“Ah, então tem gente aí dentro,” disse Yan, “Você é Denomo o taverneiro? Quero provar as bebidas, abra, abra!”

“Deixe minhas portas em paz,” disse a voz, “vai embora!”

“Taverneiro, eu estou em uma viagem muito longa.” Disse Yan depois de parar de bater. “Minha aventura é grande, e minha sede por suas bebidas vem de muitas milhas que caminhei ao lado de Famber o cavalo, meu companheiro.” E então ele voltou a dar pancadas na madeira, “então abra, abra!”

“Ah!, ó!, seria uma alegria lhe servir minhas bebidas em outros tempos,” respondeu o taverneiro, “mas no momento eu me importo mais com minhas portas que com suas aventuras e sua sede”.

“Eu não vou sair sem beber, taverneiro.” Disse Yan, e as madeiras ainda fazendo um pesado tum-tum que ecoavam dentro da taverna.

“Eu não sei como você chegou vivo no centro da cidade, não viu eles aí fora?” Gritou Denomo, com a voz trêmula. “Não posso abrir as portas enquanto eles estiverem atacando a cidade. Então vá, vá embora!”

“Eu não vou sair.”

Yan decidiu que arrombaria as portas e entraria à força, depois pediria desculpa e pagaria pelas portas ou qualquer outro problema que causasse. Então deu passos para trás e o silêncio deixou todos ansiosos dentro da taverna. Yan correu com o ombro inclinado para frente e bateu em cheio na madeira. Houve um grande estrondo e as estruturas chacoalharam, e o cadeado que trancava as portas pelas argolas do lado de dentro quase se partiu.

“Ah! Ah, ouça, ouça!” Gritou o taverneiro, muito preocupado com as portas. “Ouça, você não ouviu? Eu ficaria alegre em te servir, mas não posso abrir as portas com eles aí fora.”

“Então você pode abrir, pois aqui fora só vejo os moradores correndo em desespero, e nada mais.” Respondeu Yan.

“Claro! E por quê você acha que eles estão correndo, imbecil?” Disse Denomo.

“Eu não sei, mas eu sou Yan, e essas portas podem ser abertas sem problemas enquanto eu estiver com uma espada e disposição para brandi-la, e no momento eu tenho duas, pois uma conquistei de inimigo morto e outra foi presente.”

O taverneiro fez silêncio e pensou por alguns instantes.

“Muito bem, Yan o aventureiro!” Ele disse finalmente. “Muito bem, me diga de onde você vem e para onde você vai.”

“Eu venho de Mabus, e antes disso de Mabais, e Vetus, e porquê deixei minhas terras no Oeste não posso contar, mas pelo que passei para chegar até aqui é uma história que ficarei feliz de compartilhar.” Gritou Yan para as portas. “E para onde vou, ora, eu acabei de chegar onde estava indo, e já disse que há muito tempo caminho para provar suas bebidas, e minha sede é grande. Abra!”

Novamente o taverneiro fez silêncio enquanto pensava.

“Eu fiz meu julgamento,” ele disse finalmente, “e quero ouvir sua história, mas isso será perigoso para minha taverna.”

“Perigoso de fato, e eu entendo o apreço pela taverna. Magnífica ela me parece!” Disse Yan. “Me sirva do lado de fora, então.”

“Meu conselho para você, Yan o aventureiro,” disse Denomo, “é que você vá embora e volte quando eles tiverem deixado a cidade. Você vai morrer aí fora.”

“Não,” disse Yan, “eu tenho minhas armas e meu cavalo, me sirva aqui.”

“Muito bem, muito bem, que assim seja! Então use suas armas para manter essas portas vazias,” gritou o taverneiro, com seu julgamento final, “eu vou abri-las por alguns instantes e lhe darei algo para beber.” E então ele sorriu, pois gostava muito de preparar as bebidas para os forasteiros que nunca as tinham provado, mas Yan não pôde ver do lado de fora. “Você gosta de maçãs?, e bananas?”

“Maçãs e bananas são de meu gosto.” Disse Yan, satisfeito com a situação.

Então Denomo começou a fazer seus negócios, e preparou uma bebida com maçã e banana. Isso levou cerca de dez minutos, pelo que Yan pôde perceber, e foi um tempo no qual ele passou por muita ansiedade.

“Estou enviando um garoto com sua bebida,” gritou finalmente o taverneiro, “ele vai abrir as portas, te entregar, voltar e fecharemos de novo no mesmo instante. Como está o lado de fora? Vazio, não vai entrar nada?”

“Não, aqui está limpo,” disse Yan, “envie o garoto.”

Uma pequena fresta se abriu no meio das portas, e através dela surgiu um garoto de nome Dumos e que era um dos filhos do taverneiro, e seus olhos apareceram checando a situação de Cidaces ao redor da Ponta da Agulha. Ele viu apenas Yan segurando uma espada manchada de sangue e Famber o cavalo com todos os trambolhos que carregava; e não vendo mais nada saiu cuidadoso como um coelho saindo da toca.

“Olá, senhor,” disse Dumos, estendendo para Yan uma bandeja com um grande copo, “esteja servido!”

Yan guardou a espada na bainha e segurou o copo com as duas mãos, pois era um copo de vidro muito alto e largo, e sem alça. O garoto deu uma bela olhada no estado da cidade ao redor, depois se curvou e cumprimentou Yan, e voltou para dentro da taverna. Então Yan provou a bebida, e ela matou sua sede e agradou seu paladar, pois ele já havia comido muitos pratos feitos com bananas em terras distantes, e muitos outros feitos com maçãs em outras ainda mais além, mas as duas em um copo era algo novo. Ele se deliciou e gritou um agradecimento ao taverneiro.

“Então, é bom?” respondeu Denomo.

“Bastante,” disse Yan, “essa é a melhor bebida que tomarei nessas terras, e muitas milhas viajarei antes de beber algo assim novamente. Disso não tenho dúvidas.”

“Muitas milhas, é verdade!” Respondeu o taverneiro, “pois se quiser beber algo assim novamente terá que voltar aqui. A menos que meus concorrentes também tenham feito negócios para conseguir as frutas, mas disso eu tenho muitas dúvidas.”

Yan deu os últimos goles e esvaziou o copo, e logo o taverneiro voltou a gritar.

“Mais um copo seria de bom grado, meu senhor, Yan?”, ele disse.

“Quantos mais seus modos permitirem me dar.” Yan respondeu.

“Nesse caso espero que goste de mamões.” Gritou o taverneiro, e depois de uma breve pausa acrescentou: “então! Meu garoto, Dumos, disse que viu as cabeças deles jogadas aí fora, aos seus pés.”

“Sim, há cabeças próximas aos meus pés. E há agora mais do que havia quando ele veio.”

“Eh, eh! Obrigado, então!” Disse Denomo, “venha! Você manteve as portas limpas, entre e vou lhe servir de modos adequados.”

Então Yan amarrou Famber o cavalo em um dos postes-para-cavalos que ficavam do lado esquerdo da Ponta da Agulha, as portas se abriram e ele entrou na taverna. Com um pano tirado da cintura ele limpou o sangue da espada e guardou-a na bainha de couro, e então entregou ao taverneiro o grande copo vazio que segurava na outra mão. Ele pôde ver que a taverna era por dentro ainda mais magnífica do que diziam as descrições, pois ela era muito grande e cheia de mesas redondas de madeira, cada uma com quatro cadeiras baixas; haviam velas espalhadas que iluminavam o local, pois as janelas estavam fechadas e de outra maneira estaria muito escuro; havia uma grande lareira esculpida por mãos hábeis, mas ela ela para os tempos de frio e estava apagada; do seu lado direito o balcão onde Denomo preparava as bebidas, e em sua extensão haviam bancos com algumas pessoas sentadas, e haviam outras em pés e nas mesas. Yan tomou muitas bebidas que o taverneiro ofereceu, e eles contaram muitas histórias e passaram bons bocados durante toda a tarde.

“Há nessa cidade algum lugar onde eu possa conseguir um cavalo e um carro para ser puxado por dois animais? Pois um eu já tenho, Famber o cavalo. Mas ele carrega todos os meus bens, e sem outro tão forte quanto Famber e um carro eu sou obrigado a caminhar.” disse Yan pouco antes de ir embora, quando o sol já estava se pondo e a lua tomava seu lugar no céu.

O taverneiro contou sobre dois estábulos que ficavam em cantos opostos da cidade, um no nordeste e outro no sudoeste, e recomendou que Yan visitasse o do nordeste. Ele disse que a menos que os cavalos tivessem fugido ou morrido durante o ataque daquela manhã, ele conseguiria lá animais grandes e graciosos, e também carros muito firmes e adequados para longas viagens.

Yan se despediu, e o taverneiro havia gostado tanto das suas histórias e da sua companhia que lhe presenteou com muitas bebidas engarrafadas, algumas com misturas que Yan não havia tido tempo de provar naquela tarde. Ele carregou as costas de Famber com os novos pertences e os dois seguiram para o estábulo no nordeste de Cidaces.

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O Porto do Comércio

Daniel foi tirado da água pelos piratas depois que ouviram seus gritos de socorro vindo de um barquinho, e assim que pôs seus pés no navio saiu à procura de um novo corpo – acabou possuindo um dos cozinheiros dos piratas, um homem baixo e cheio de cicatrizes, com marcas de queimaduras de óleo espalhadas pelos braços, um bigode grosso e amarelado pelo cigarro, o restante da barba rala e grisalha, nariz achatado e olhos fundos que pareciam estar sempre fechados. Ele também era muito, muito gordo, e parecia comer tanta banha de porco que havia se tornado um ele próprio. Esse se tornou o novo corpo de Daniel, e o antigo os piratas consideraram como morto e lançaram o cadáver de volta ao mar.

Estar com a alma dentro do corpo do cozinheiro era uma sensação tão ruim quanto vê-lo de fora, mas Daniel não tinha outra opção, apesar que ele adoraria ter: corpos deteriorados e pútridos eram os únicos que ele conseguia possuir, pois estes eram os que abrigavam almas fracas suficientes para serem chutadas para fora, e assim o cozinheiro gordo e moribundo foi possuído.

Daniel estava na cozinha do navio, mastigando incansável uma maçã que de tão velha havia se tornada emborrachada como chiclete, tentando encontrar algo capaz de melhorar o aspecto do corpo do cozinheiro. Ele pensou no quanto aquela situação era irônica: trocar de corpo para fugir do pessoal da Alma Perdida e da morte, e então uma preocupação imensa para evitar a morte natural do novo corpo. Apesar de não ter feito tantas vezes esse procedimento em alto mar, Daniel acabou percebendo que toda a comida de um navio pirata é velha e de pior qualidade. Ele encontrou batatas e beterrabas, e enquanto constatava que as cenouras estavam tão más que o fariam se sentir pior naquele corpo do que melhor, ouviu um grito abafado vindo de cima.

“Pesqueiros, pesqueiros à vista! Navios pesqueiros à vista!” Dizia o grito, tão alto que todos os piratas pararam para ouvir, “Porto do Comércio em uma semana!”.

Então todos no navio passaram uma semana comendo o que de pior havia para ser comido, pois Daniel preparava os melhores alimentos para si mesmo em uma tentativa falha de se sentir melhor. Apesar disso, ele conseguiu passar toda a viagem sem ser notado, disfarçado como cozinheiro do navio. Os piratas tinham o costume de beber e conversar, e lá Daniel ouviu muitas histórias enquanto o tempo passava. Quando ele voltou a ouvir o grito vindo de cima, dessa vez indicando que finalmente  haviam chegado ao Porto do Comércio, espiou com ansiedade pela janela e viu o grande mercado flutuando no oceano.

A estrutura enorme se erguia como se fosse uma metrópole no meio de um continente, com incontáveis casas de madeira que podiam ser vistas à grande distância. Muitas pessoas moravam no Porto do Comércio, e muitas outras vinham dos quatro continentes para se encontrar ali e fazer negócios. As ruas eram recheadas de barracas que vendiam todo tipo de produto, mas muitas delas vendiam peixes pescados na região pelos próprios moradores, que faziam a vida assim. Quando o navio se aproximou, Daniel pôde ver a fachada da Taverna dos Porcos erguendo-se gigantesca no centro do mercado, a maior e mais movimentada taverna de todo o Porto do Comércio, que ele conhecia muito bem de outras visitas.

O sol estava escaldante, e fazia brilhar todas as peças de metais que ornamentavam os  inúmeros navios que iam e vinham. Haviam navios de todos os tipos, vindo de todos os mares, e muitos possuíam estátuas espalhadas na proa, brasões desenhados nas laterais e velas, e cores extravagantes. Quando os navios ancoravam as pessoas logo desciam e iam se amontoar nas ruas centrais do Porto do Comércio, de modo que as bordas eram quase desertas em comparação ao centro, e de qualquer forma ninguém ficava no mesmo lugar por mais que alguns minutos.

O navio de Daniel foi ancorar no lado Leste, onde costumavam atracar os navios que ficariam lá por alguns dias. Os navios pesqueiros que precisavam sair e voltar o tempo todo usavam o lado Sul do porto, e nos lados Norte e Oeste acontecia embarque e desembarque de outras mercadorias. A coisa era tão grande que não havia como regular e, na verdade, era uma gigantesca bagunça que se misturava em todas as direções – os únicos que respeitavam os lados corretos de se ancorar um navio eram os próprios moradores e os que operavam sob lei de algum reinado, e estes eram minoria, pois quase todos os que visitavam o Porto do Comércio eram piratas que atracavam no lado que estivesse mais próximo.

A âncora começou a descer, e Daniel olhou pela janela do navio estacionado: lá estava uma grande rua, que se estendia em linha reta até se perder no horizonte. O chão era de madeira, e se erguia sobre a água em cima de inúmeras pilastras flutuantes, muito grossas e também de madeiras, de modo que a estrutura ficava numa altura razoável na qual a maioria dos navios conseguia atracar e as pessoas conseguiam descer sem dificuldades. Haviam muitos caixotes e containers gigantes espalhados, esperando um navio específico vir buscar, e haviam outros sendo arrastados por pessoas esquisitissimas que vinham sabe-se lá de onde e os colocavam no lugar certo. As gaivotas sobrevoavam e se acumulavam em cima de navios pesqueiros que não deveriam estar desembarcando ali no lado Leste, mas muitas também davam voos rasantes e pescavam seus peixes por conta própria. Daniel as viu ainda pela janela de seu navio pirata e ficou contente por um instante, depois se intrigou com a vida das gaivotas e começou a pensar sobre o tipo de coisa que ele vinha fazer no Porto do Comércio para conseguir viver.

Quando o sol iluminou os caminhos que saíam da borda Leste e levavam ao centro do mercado, ele voltou a se sentir melhor pois a visão o fez se lembrar da Taverna dos Porcos e do carneiro grelhado que serviam lá, e das bebidas que acharia para comprar nas barracas próximas à borda Sul, e dos artistas que se apresentavam nos cabarés no centro do mercado à noite. Então ele tentou pensar em alguma maneira de visitar todos esses lugares e ainda conseguir cumprir sua missão, pois Daniel estava bastante preocupado e consciente de que seria complicado fazer seu trabalho no Porto do Comércio sem ser percebido pelo pessoal da Alma Perdida.

Quando os piratas finalmente esticaram a prancha para fora do navio, Daniel desceu para o mercado muito mais preocupado com eles, o pessoal da Alma Perdida, do que com a missão que tinha que cumprir e a Taverna dos Porcos. “Uma pena que aqueles malditos me seguem por todos os cantos desse mundo”, ele pensou, “as pessoas nunca deixam alguns homens fazerem seu trabalho em paz”. Então desceu, ainda desajeitado e se sentindo mal no corpo do cozinheiro, e seguiu pelos caminhos mais desertos que conseguiu encontrar. Em algum lugar no centro do Porto do Comércio deveria achar um corpo melhor para possuir, pelo menos era isso que planejava.


Uma nota: os textos de ficção que escrevo pra esse blog são textos de estudo, quer dizer, coisas que escrevo pra testar ou treinar algo. O de hoje não é uma história com começo, meio e fim – em formato de conto, como costumo fazer – na verdade é, hummm, uma versão aprofundada, talvez, do texto Corpos e Almas no Porto do Comércio, e esse sim é um conto. Algo equivalente a um capítulo de uma narrativa maior, imagino. Digo isso porque escrevi esse texto pra testar umas ideias que andei tendo sobre descrições, e preferi simplesmente reutilizar o Porto do Comércio ao invés de me preocupar em criar algo novo, e talvez eu acabe fazendo isso muitas outras vezes no futuro e essa nota venha a calhar. É isso. : P

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Corpos e Almas no Porto do Comércio

Atualização 12/04: Duas semanas depois desse texto ter sido publicado eu escrevi outro explorando o início dessa mesma história. Leia “O Porto do Comércio” clicando aqui.


Daniel estava no corpo, e descia com uma garotinha pelos caminhos que cortavam o mercado enquanto a alma que antes havia habitado aquela carne agora vagava livremente pelo mundo. À venda nas prateleiras, o cheiro das incontáveis espécies locais de peixes se misturava com o de todo tipo de produto vindo dos quatro cantos do mundo, impregnava o ar e fazia queimar o nariz. Era impossível que Daniel não fosse visto por algum membro da Alma Perdida ali, em um lugar tão movimentado.

Ele estava preocupadíssimo que o pessoal da Alma Perdida certamente o veria, e que aquele seria um lugar horrível para enfrenta-los, e que era de partir o coração ter que se apoderar do corpo do pai daquela garotinha. Ela devia ter uns seis ou sete anos, e portava um rosto com feições ingênuas, com olhos grandes e de muita inocência. Quando a viu pessoalmente, Daniel quase não acreditou que uma garota tão cativante era tão importante e, de certa forma, perigosa.

Mas ela era; em fato, a garotinha, cujo nome atual era Alice, era muito poderosa – mais poderosa que Daniel. Nas entranhas da sua aparência habitava uma alma que vagava de corpo em corpo há milênios, e que havia se apoderado do da garota enquanto ela ainda era um bebê de alma fraca.

Ninguém sabia – nem que a tal alma poderosa estava no corpo da garota, nem do que a ela era capaz, pois durante todo esse tempo de existência ela pouco havia feito além de viver vidas perfeitamente normais e inexpressivas. Ninguém exceto o pessoal da Alma Perdida e o pessoal que estava pagando Daniel pelo serviço. Por alguma razão, a alma estava usando o corpo de Alice de forma disfarçada há uns seis ou sete anos, e sabe-se lá por quanto tempo mais continuaria sob esse disfarce, fingindo.

Daniel nunca recebia muitas informações, e o contato com seus patrões era mínimo. Eles sempre passavam as missões da maneira mais direta e sucinta possível, diziam o que ele deveria fazer e ficava por isso mesmo; dessa vez, sua tarefa era dominar o corpo do pai biológico da garotinha sem que ela percebesse a nova alma ao seu lado, e guia-la até a cabine de um navio ancorado. Depois que conseguisse colocar a garota para dentro, poderia sair do corpo, ir embora e deixar o restante com outro agente qualquer que não lhe informaram. Falaram apenas isso, e que a alma da garota era a alma, cuja história Daniel e todos os outros já haviam ouvido.

Metade da missão estava completa e a garota o seguia em direção às embarcações ancoradas. Era isso. Isso e chegar ao navio sem ser notado por alguém da Alma Perdida, e consequentemente muito menos por Alice.

*****

Era uma sensação esquisitíssima a de estar no corpo do pai de Alice. Daniel ficou imaginando as coisas horríveis que as pessoas não fazem com o próprio corpo, e que elas seriam mais atenciosas se tivessem que de repente transferir a própria alma pra um corpo mal cuidado. A garota olhava fixamente para ele, e ele a encarava de volta como se a alma controlando o corpo ainda fosse a do pai.

Por isso Daniel era tão bom: ele conseguia pensar em outras coisas e continuar agindo como a alma original. Normalmente, alguém que salta de um corpo para outro precisa manter um foco tremendo pra conseguir imitar o modo de agir do dono anterior, sem contar o trabalho de pesquisa e observação necessário de se fazer antes da transferência.

Não Daniel, ele ficava ali, pensando num belo carneiro assado, ou em ficar bêbado até esquecer seu verdadeiro nome, e ao mesmo tempo conseguia replicar os comportamentos que fossem precisos replicar. Por isso ele havia sido o contratado para este caso.

O pessoal da Alma Perdida andava pra lá e pra cá, tentando identificar Alice no meio da multidão; eles não viam a alma de Daniel, mas Daniel via as almas deles. Já havia percebido algumas dúzias vagando aleatoriamente pelas ruelas da cidade, e sempre precisava desviar com a garota para evitar qualquer aproximação – eles só poderiam reconhecê-la se estivessem próximos o suficiente para sentir a presença da alma dela.

O pessoal da Alma Perdida era pútrido. Almas que abandonaram os corpos originais há muito, muito tempo, que resignaram do direito de ter um corpo fixo em troca da imortalidade; almas que sacrificaram suas presenças no mundo material pela existência da Alma Perdida, e assim a organização existia sabe-se lá há quantos milênios.

Eles estavam atrás de Daniel desde que ele deixou a organização. Passaram 40 anos tentando encontra-lo no Condado Condor, a maior metrópole já feita pelo homem, tão grande e agitada que até um elefante conseguiria se esconder por meses sem ser notado – a menos que o elefante e sua alma estivessem sendo procurados pelo pessoal da Alma Perdida, nesse caso, nem que levasse todo o tempo do mundo, encontrariam até a alma de uma formiga.

Depois disso, encontraram-no numa vilazinha no meio de um deserto no Sudoeste, uma vilazinha tão isolada e esquecida pelo restante dos homens que nem nome tinha. Ainda assim, encontraram Daniel, e de lá o seguiram para os mares. De fato seguiram os rastros deixados por qualquer que fosse o navio no qual Daniel se escondia, mas não o alcançavam, exceto quando ele eventualmente era obrigado a parar em alguma cidade para algum serviço.

Assim, ali estavam todos em Equília, ou, como a costumavam chamar, Porto do Comércio. Tratava-se de um grande mercado flutuante no centro do oceano – realmente grande, imenso, com hospedarias, três portos, tavernas, até casas, e tudo o mais – e posicionava-se à mesma distância de todos os quatro continentes, sendo o local ideal para todo tipo de venda e troca de produtos. De forma geral, não funcionava de maneira diferente de uma cidade tinha até ruas e líderes políticos.

O navio de Daniel estava ancorado na borda oeste do Porto do Comércio, ao lado de outras muitas dúzias de navios de comerciantes; especificamente, seu navio estava ancorado ao lado de um navio muito extrovertido, com grandes velas listradas de laranja e roxo e dois leões esculpidos em ouro presos à proa, de modo que era fácil para Daniel encontrar seu navio em meio aos outros todos. Esse tipo de embarcação costuma ser alvo de piadas de várias pessoas respeitáveis, de modo que era provavelmente propriedade de algum rei ou qualquer outro poderoso, do qual ninguém ousava tirar sarro.

Apesar de não ser tão chamativo, o navio de Daniel também era muito grande – na verdade, o navio não era propriamente seu, e ele apenas havia possuído a alma de algum dos cozinheiros, um chefe. Era um navio pirata, e tão logo Daniel possuiu a alma do homem os piratas passaram a comer dos pratos mais terríveis, de uma hora pra outra, pois nem Daniel tinha capacidade de preparar algo bom, nem os piratas ousavam quebrar seus códigos de ética e reclamar do cozinheiro.

A essa altura a alma do cozinheiro já deveria ter voltado para seu corpo que jazia em um canto escondido do Porto do Comércio, no qual Daniel trocou para o corpo do Pai de Alice. Estavam os dois caminhando com o oceano na direita, o ex-navio pirata de Daniel ancorado a algumas centenas de metros, e ele procurando pelo navio de seus patrões, no qual deveria entregar Alice.

Ninguém havia lhe informado como era esse tal navio, se era como os de sempre ou se era algo disfarçado e menos chamativo que o habitual. Seus olhos saltavam extremamente confusos de um para o outro, tentando adivinhar em qual haveria alguém o esperando com a garota. Isto é, alguém que não fizesse parte do pessoal da Alma Perdida, pois se eles descobrissem o navio antes de Daniel, certamente o duplicariam para enganá-lo ou outra coisa do tipo – os meios para esse tipo de artimanha eles possuíam.

Mas naquele momento Daniel teve que se preocupar com alguém que não era membro da Alma Perdida: Alice. A garota, que não parava de olhá-lo fixamente desde que começaram a caminhar em direção aos navios ancorados, ainda no centro do Porto do Comércio, finalmente falou.

– Quem é você? – Ela disse, com a expressão mais inocente lançada, fixamente, na direção de Daniel.

Daniel, que estava pensando em algum lugar do Porto do Comércio que servisse carne de porco, se virou de repente, as rugas nas testas e os olhos muito assustados.

– O quê? – Ele disse.

– Quem é você? – Repetiu Alice, ainda de maneira calma e doce.

– Seu pai, ora, garota! – Disse Daniel, que continuava imitando os mais detalhados trejeitos da pobre alma que algum dia havia habitado aquele corpo, e puxou-a pela mão.

– Vamos, vem!

–Perguntarei o contrário, então. – Ela respondeu com o pé firme no chão, se recusando a sair do lugar. – Você sabe quem eu sou?

E Daniel respondeu que ele era seu pai e ela era sua filha, e que ela deveria parar de falar daquela maneira porque estava assustando-o e ele não estava entendendo. Entretanto, nas profundezas da sua alma, enfiada nos cantos daquele corpo deplorável, ele estava desesperado tentando pensar em como escapar daquela situação.

Ali estava ele, sequestrando Alice, de alma tão conhecida e poderosa, e pronto para entregá-la para quem o contratou para o serviço – mas agora ela sabia. “Agora ela sabe!”, pensou ele, num desespero tremendo, “e agora, e agora?”.

Continuou pensando, “o que ela vai fazer? O que ela pode fazer?”, e conforme a emoção do choque foi passando, entre uma engasgada e outra que já não era mais capaz de impedir, seu bom senso voltou, e pensou “como ela descobriu? Quando ela descobriu? Quando foi que eu deixei transparecer?”.

– Eu sou mais forte que você. – Ela disse. – Vim de tempos muito mais antigos, e sei muito mais. Ninguém pode se disfarçar perto de mim, eu sinto você, e sinto todos os outros ao redor de nós. O que vocês querem comigo?

Ele ainda pensava no momento em que as coisas tinham dado errado, no qual ele se revelou, então refletiu que contra uma alma como a de Alice não haveria outra maneira senão contar a verdade, de fato nem mesmo ele era capaz de engana-la.

– Certo, garota, se me permite te chamar chamar assim… – O estrondo de alguma arma sendo disparada preencheu o ar e sobrepôs o barulho que fazia os inúmeros navios chacoalhando sobre as águas. Era o pessoal da Alma Perdida. – Desvia!

Alice ouviu com clareza, mas não se moveu um centímetro para os lados; apenas inclinou a cabeça para continuar com os olhos apavorantes fixados em Daniel, que se jogou ao chão imediatamente quando se deu conta do tiro.

Um homem e uma mulher que faziam parte da Alma Perdida surgiram virando por uma das esquinas do Porto do Comércio. O primeiro usava as duas mãos para segurar um grande rifle, muito lustroso e estranhamente prateado, e a segunda levava um revólver em cada mão. Esse era o plano deles: matar Daniel enquanto ele não estivesse perto de nenhuma alma vulnerável, de modo que não pudesse se transferir de última hora e se safar – as pessoas se amontoavam em todas as partes do Porto do Comércio, exceto onde ancoravam os navios, lá só iam de passagem e o local era quase deserto a maior parte do tempo.

Na verdade, esse era o único meio de matar Daniel ou qualquer outro membro ou ex-membro da Alma Perdida. Ser morto sem ter uma alma vulnerável por perto: disso nem mesmo Alice e sua poderosa e antiquíssima alma (sua existência precedia a própria Alma Perdida) poderiam escapar. Assim, naquele momento estavam os dois, Daniel e Alice, correndo sérios riscos de serem, finalmente, mortos.

Entretanto, apenas Daniel demonstrava se preocupar com isso. A dupla da Alma Perdida deu vários disparos, e estavam ainda muito longe, mas se aproximavam a passos largos. Daniel se jogava desesperado de um lado para o outro, na tentativa de desviar, a cada som de tiro que ouvia. Alice, despreocupada, ainda o fitava.

– Quê você está fazendo? – Ele gritou para ela, então a puxou pelo braço, gritou “Vem” e saiu arrastando-a na maior velocidade que pôde na direção contrária da qual vinha o pessoal da Alma Perdida (mais duas mulheres haviam aparecido em outra esquina, e também carregavam rifles).

A garota se deixou levar, e seguiram os dois pela extensa costa do Porto do Comércio. Ela com a expressão séria, sem arrepiar um pelo do corpo sequer. Ele com uma das mãos segurando a dela e a outra segurando a própria cabeça, que naquele momento encontrava-se cheíssima de preocupação. Daniel estava próximo de se tornar o terceiro ex-membro da Alma Perdida a conseguir viver 350 anos depois de abandonar a organização – os membros ativos eram muito, muito mais velhos, mas os que resignavam raramente conseguiam fugir por mais de 70 – e realmente queria, e sempre achou que conseguiria, ir além, quebrar todas as marcas e tudo o mais.

O pessoal da Alma Perdida era como ratos num navio, e surgiam de todos os cantos do Porto do Comércio. Tiros atravessavam as ruas vindo de todas as direções, várias pessoas ficaram confusas, a polícia começou a procurar os atiradores, e a essa altura eles já puxavam os gatilhos sem saber pra onde apontar – ou seja, se estabeleceu uma confusão geral. Daniel e Alice continuaram correndo pelo meio de toda a bagunça, que acontecia mesmo ali, próximo aos navios ancorados.

Correram até encontrarem vários containers, alguns com peixes e outros com camarão, e quando pareceram estar seguros Daniel se ajoelhou e apoiou as mãos nos dois ombros da garota.

– Eu preciso te levar. – Ele disse.

– Por quê? – O rosto de Alice permaneceu inexpressível.

– Eu não sei especificamente, na verdade. – Daniel tirou as mãos dos ombros dela e encolheu os próprios; deu de ombros. – É meu trabalho. – Ele ouviu disparos que pareciam estar verdadeiramente próximos, então se assustou e deu um solavanco com o corpo, depois continuou. – Como você me descobriu? O que foi que eu fiz?

– Nada. Você foi muito bem. – Alice respondeu com os olhos fixos nele. – Mas eu sou melhor.

Os dois foram interrompidos por um rosto que surgiu no canto do container, logo atrás de Alice. Daniel viu e imediatamente empurrou a garota para trás. Ela caiu de costas no chão e sentiu bastante dor, mas o empurrão a fez desviar de um tiro: era o pessoal da Alma Perdida, haviam encontrado Daniel e Alice de novo.

Daniel começou a se jogar de um lado para o outro, num completo desespero e com bastante agilidade. A arma, apontada, o seguia de lá para cá, mas os tiros não o acertavam, pois era grande a habilidade que Daniel tinha de escapar de seja lá o que for. Na fração em que o inimigo se pôs a recarregar a pistola, Daniel puxou Alice com a maior força e logo estavam os dois caídos na água.

O Porto do Comércio se rodeava do mar aberto, com águas muito tranquilas, salvo tempestades. Haviam histórias de grandes e velhas criaturas que viviam nas profundezas da região, mas poucas pessoas levavam isso a sério – Daniel e Alice estavam seguros na água, que os protegia dos tiros. Ele olhou para trás e viu o pessoal da Alma perdida se jogando para persegui-lo, mas quando olhou para frente ele viu, finalmente: o navio dos seus patrões!, para onde deveria levar Alice.

O navio tinha dezenas de círculos vermelhas pintados numa linha horizontal que cobria toda a carapaça, mais círculos vermelhos (estes colossais) pintados nas velas, e outro grande círculo vermelho pintado numa bandeira branca presa à proa. Esse era o visual padrão de todos os navios do Império Sagrado, na verdade, e eram todos assim pois os Sacerdotes gostavam de coisas extravagantes que deixassem claro quem eles eram – e eles eram, ou pelo menos diziam ser, os únicos e verdadeiros servos de Deus, e apesar de pouca gente acreditar nisso, eles tinham grande fortuna e poder político.

Daniel chegou com Alice às escadas de corda que pendiam da lateral. Ela não fez esforço nenhum para subir, e Daniel precisou segurá-la pelo braço e se agarrar com o outro à escada enquanto os Sacerdotes puxavam ambos lá pra cima. O pessoal da Alma Perdida parou na água e ficou olhando pro navio, resmungando e desconcertados, até finalmente darem as costas e nadarem de volta para o Porto do Comércio.

Os Sacerdotes tinham um grande problema com o pessoal da Alma Perdida, e também com Alice, Daniel e todos os outros humanos com almas poderosas. Eles afirmavam que atos como passar a alma de um corpo para outro desagradava Deus, e portanto faziam tudo para impedir esse tipo de coisa – inclusive abrir exceções e contratar um ou outro, como Daniel. Eles pensavam que era melhor pagar um para prender vários, que deixar escapar todos.

Por hora, Daniel estava seguro. Os Sacerdotes não o deixariam ficar muito tempo no navio agora que Alice estava lá, de modo que e o serviço fora completo. Era pegar o pagamento e sair para encontrar um novo corpo e um meio de deixar o Porto do Comércio, pois o pessoal da Alma Perdida agora reconheceria o corpo do pai de Alice que estava utilizando.

Os Sacerdotes começaram se aproximaram e algemaram Alice. Começaram a conduzir a garota, mas Daniel ainda estava perturbado e pediu que esperassem. Perguntou novamente à Alice como foi que ela descobriu que era ele, e o que ele havia feito de errado que o entregara, mas a garota mais uma vez apenas respondeu que ela era mais velha e mais sábia, e que apesar disso ele havia se saído muito bem. Então ela se foi, levada pelos Sacerdotes, e Daniel saiu do navio para encontrar um novo corpo no Porto do Comércio.


Atualização 12/04: Duas semanas depois desse texto ter sido publicado eu escrevi outro explorando o início dessa mesma história. Leia “O Porto do Comércio” clicando aqui.

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DOIS problemas com backup em UMA semana. Dois últimos textos perdidos. Ó vida cruel!

Blah.

Não é a primeira vez, e antes fosse a segunda, mas santa estupidez! Quão problemáticos  os backups podem ser?

No começo da semana fui entrar no site, esse blog cheiroso no qual escrevo, e me deparei com alguns posts faltando. Eis que, investigando um pouco mais, percebi que todos os posts feitos depois do penúltimo backup foram perdidos.

Claro que não faço a menor ideia de como diabos isso foi acontecer, mas por alguns motivos absolutamente satânicos esse penúltimo backup (feito no início de janeiro/2017) foi restaurado ao site. “Não temas, Keven Fongaro!” pensei eu quando me lembrei que tinha um backup do dia 08/02/2017 guardado no computador.

Fui lá eu, tranquilo, recuperar meu backup mais recente e corrigir o que quer que houvesse acontecido ao blog, e PLAU. Dios mio. O último backup estava idêntico ao penúltimo.

E é isso aí. Por mais que eu passe meu tempo tentando recuperar o backup novo, só aparece no site os posts salvo da penúltima vez. Pelo que me lembro, perdi dois textos que havia postado aqui, “O Vinho Dos Trols” e “Os Reis no Jardim da Senhorita Vivian”.

Agora, a perda desses dois textos me é muito, muito, mas muito sofrida. Passei os últimos meses estudando e refletindo sobre estrutura narrativa e tudo o mais sobre como contar histórias da melhor forma possível, de modo que entre um texto e outro existe uma diferença gritante. Isto é, não só eu considerava esses dois textos perdidos muito melhores que os textos que continuam no site, mas ao perdê-los também perdi o registro; não tem mais como, em algum momento do futuro, eu lê-los pra poder perceber o quanto minhas capacidades mudaram.

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Ah, mas não é só isso, ah, antes fosse! Também tive que formatar o computador três vezes nos último três dias. Ó, dor, foram dois dias tristíssimos. Por vários momentos pareceu que eu havia perdido tudo o que estava no computador, e como uso o mesmo HD desde meados de 2011, a perda seria absurdamente grande.

O ponto é: hoje consegui resolver o problema do computador sem perder nenhum arquivo, então tô finalmente respirando aliviado quanto a isso. Mas os dois textos do blog se foram, escafederam-se para sempre. Uma grande perda, inestimável; para mim, um luto, na verdade. Ô, vida.

Meu mais novo método para lidar com esses backups malditos:

  1. Fazer a cópia.
  2. Checar se a cópia foi feita com sucesso.
  3. Checar se o novo backup não é idêntico a algum antigo. [Novo™]
  4. Fazer cópia das cópias em vários dispositivos diferentes.
  5. Fazer upload em algum site, no momento uso Dropbox pra isso.
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