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A Quase-Criatura

Beeroi puxou as portas traseiras da van da Companhia Antipragas Intergalática, se colocou para fora e deu uma bela olhada nos céus daquela cidadezinha.

– Mas que diabos, Fischer? – Ele disse para o motorista. – Não tem dragão nenhum aqui.

– Pelo visto não tem mesmo, não. – Respondeu Fischer, colocando a cabeça pela janela.

– Planeta três do setor vinte e sete. Você parou no lugar certo?

– Sim.

– Subtrópico um, rua vinte e três, casa dois. É isso?

– É.

– Talvez você tenha se perdido de novo. – Beeroi guardou a arma nas costas, frustrado com a falta de dragões sobrevoando o local.

– Não, Beeroi, depois da última vez falei com meu médico e instalei um GPS. – Fischer indicou com o dedo o lóbulo da orelha esquerda. – Melhor ir perguntar ao morador. Paramos em frente a casa certa. Chamada alegando “praga de dragões”, é aqui.

– Fique aí, e deixe a van ligada. – Disse Beeroi, e caminhou para o portão da Casa Dois. – Esses idiotas, sempre nos fazendo perder tempo que poderíamos gastar lidando com dragões de verdade.

Fischer recolheu os propulsores da van, apertou o lóbulo esquerdo e sintonizou nas rádios do planeta para apreciar a música local.

*****

O chamado havia sido feito por um homem velho e pobre, notadamente pelos trapos que usava como roupa, peças que não eram mais produzidas pela Companhia  Intergalática de Tecelagem desde o fim do século XXIII.

– Ah, eles estão no meu porão, senhor.

– O que?! Isso é impossível!

– Não, eles estão lá mesmo, senhor.

– Eles são grandes demais pra caber no seu porão.

– Esses são bem pequenos, senhor.

– Eu trabalho na Divisão que cuida dos dragões desde que ela foi criada. Não existem dragões pequenos. E não precisa me chamar de senhor.

– Desculpe. Mas existem sim, senhor. No meu porão.

Desceram ao porão.

Da entrada, os olhos de Beeroi mapearam o local, surpresos com as criaturas que observavam.

– Eu te falei, senhor, dragões.

– Isso não são dragões, definitivamente. Não precisa mesmo me chamar de senhor.

– Bem, senhor, – O velho não podia evitar, aparentemente. – eu sei que são uns dragões bem esquisitos…

– Não são dragões! Tudo bem, eles tem asas de dragão, focinho de dragão e cauda de dragão. Mas quanto eles tem de altura? Cinco, sete centímetros? – Beeroi tentou puxar algo da memória por alguns segundos. – Até hoje só catalogamos dragões de uma espécie, e eles são bem grandes. Isso aí… Não sei o que são, mas não são dragões.

Haviam inúmeras das pequenas criaturas. Ocupavam todo o porão, e não moviam sequer um centímetro, como se estivessem paralisadas. Beeroi perguntou se os seres estavam mortos e o velho respondeu que não, porque haviam mais agora que antes. De alguma forma estavam se reproduzindo. Beeroi sacou das costas algo que parecia uma luneta, apontou-o para uma criatura e pulverizou-a imediatamente.

– Interessante… Seja lá o que forem essas coisas, consigo matá-las. – Apertou um botão no lado da arma e ela fez um rápido e crescente som agudo, num esforço para concentrar energia para um próximo tiro. – Fui enviado pela Companhia Antipragas Intergalática porque reportaram um surto de dragões. Não tem dragão nenhum aqui. Mas farei o favor de limpar o porão para você.

– Obrigado, senhor…

– Poderia ir lá fora e chamar meu motorista? – Beeroi podia apertar o lóbulo, mas era melhor tirar o velho do porão. – Peça para ele o equipamento de captura, vamos precisar levar um desses pra análise.

Beeroi abriu um sorriso e começou a matança enquanto assoviava uma cantiga qualquer e esperava por Fischer e o equipamento de captura.

*****

No laboratório que havia nos fundos de sua casa, Beeroi observava o comportamento da criatura no ambiente controlado, uma gaiola de vidro reforçado e cheia de furos minúsculos, ainda menores que o tal ser, para permitir a passagem de ar. O pequeno dragão, ou qualquer coisa que se parecia muito com um, ainda não havia movido um músculo.

Dragões eram a especialidade de Beeroi, e ele nunca havia visto nada assim. Era pequeno demais. Era como um… Quase que perfeitamente, mas não completamente. Tinha a pele escamada, tinha as duas protuberâncias na cabeça que pareciam chifres, e tinha o pescoço curvado em forma de S, exatamente como dragão. Mas não era um dragão. Era pequena demais.

Beeroi apertou o lóbulo da orelha esquerda e fez uma ligação.

– Estou começando a achar que isso é realmente um dragão, Fischer.

– Isso mudaria algumas definições, não?

– Mudaria, mas não tenho outras opções.

– Bem, e as comparações?

– Cem porcento. Fisiologicamente, os dados batem cem porcento em todos os aspectos testados. – Apertou o lóbulo e do outro lado da linha Fischer absorveu uma série de informações sobre dragões e a tal criatura que se parecia com um. – Confere você.

– Fascinante. Ele tem até a proporção entre o tamanho da cauda e o comprimento do pescoço.

– Tem. As esporas, as quinas das asas, a lingua bifurcada, tudo. Fischer, é espantosamente idêntico. – Beeroi deu com os ombros e continuou. – Não fosse o tamanho, biologicamente, quer dizer, em termos de fisionomia, não haveria dúvidas…

A criatura se apoiou nas patas traseiras e deu passos para frente, algo que Beeroi, em toda sua experiência, nunca havia visto dragão algum fazer. Seus olhos se apertaram, extremamente confusos.

– Entretanto, – ele prosseguiu, se aproximando e batendo com a mão contra o vidro. Mais nenhum movimento, a criatura estava paralisada novamente. – O comportamento é bastante curioso. Completamente esquisito.

– Ah.

– O comportamento é certamente de algo que não é um dragão.

– E como é?

– Acabei de o ver se mexer pela primeira vez, na verdade. Parado demais pra ser um dragão.

– Realmente intrigante, Beeroi. – Fischer parou pra pensar por alguns segundos. – E aí?

– Temo que vai morrer. Não comeu nem bebeu nada.

– Quê?

– Pedaços de ratos, maçãs, cobras, frangos, laranjas, coelhos. Leite, álcool, água. Não se interessou por nada, e não sei mais com o que testar. Nem uma mordida, lambida, cheirada, nada mesmo.

– Ah, que pena. A Companhia Antipragas Intergalática não tem uma divisão pra lidar com espécies desconhecidas? Repassa pra eles.

– Virou pessoal, Fischer. – Respondeu se jogando numa cadeira. – De qualquer forma, se for um dragão, é responsabilidade minha, se não for um dragão, é algo que se parece muito com um, e também é responsabilidade minha. – Suspirou. – Descobrirei. Amanhã a noite devo conseguir algo.

*****

De manhã, Fischer chegou com a van da Companhia Antipragas Intergalática à casa de Beeroi para começar o expediente.

– Deixei os computadores rodando umas análises. Quando voltarmos saberemos mais detalhes.

– Ah, não quer me deixar entrar e dar uma olhada?

– Claro. – Disse Beeroi.

Fischer desligou a Van.

Quando entraram, o quase dragão estava com uma coxa de galinha na boca.

– Caramba, Fischer, tá comendo!

– Não, só tá com a coxa encaixada na boca. Ainda tá inteira.

O quase-dragão cerrou o maxilar e cravou as presas na coxa de galinha. Penetraram a carne e certamente atravessariam se fossem maiores. A criatura começou a se transformar, e suas pequenas patas tornaram-se pequenas pernas, ao passo que seu pequeno focinho tornou-se um pequeno bico e seu pequeno par de chifres tornou-se uma pequena crista, já a pequena cauda deu lugar a pequenas penas.

O pequeno dragão passou por uma transformação completa, e agora lá estava uma pequena galinha. Quer dizer, era idêntica a uma galinha: tinha pescoço de galinha, peitoral musculoso de galinha, asas de galinha. Era quase uma galinha por completo. Mas não era uma galinha genuína, e não poderia ser. Era pequena demais.

– Ah.

– Ah…

*****

Beeroi e Fischer admiravam o pequeno cachorro na gaiola de vidro no laboratório. Se parecia com o cão que vivia no quintal de Beeroi: tinha as mesmas patas, os mesmos dentes, e até as mesmas manchas pretas no pelo majoritariamente branco. Apesar disso, não poderia ser um cachorro. Era pequeno demais.

– Pelo menos agora sabemos como funciona. É só levar à boca que…

– É, mas não faz o menor sentido. – Disse Beeroi andando pra lá e pra cá, apertando o lóbulo da orelha e fazendo mais pesquisas que gostaria. – Não acho nenhuma informação sobre nada do tipo em galáxia nenhuma. Não faz sentido mesmo.

– Não. Quer testar com algumas criaturas mais esquisitas?

Beeroi deu de ombros.

– Claro.

Entraram na van e foram buscar algumas criaturas mais esquisitas.

*****

A van estacionou e fez sua identificação na base do Planeta Um, do Setor Cento e Quatro, usado pela Companhia Antipragas Intergalática para armazenar exemplares das mais diversas criaturas que funcionários como Beeroi e Fischer coletavam.

– Vamos aproveitar pra dar uma olhada nos dragões? – Perguntou Fischer.

– Nah, aquele setor não é atualizado há séculos. – Respondeu Beeroi. – Da última vez que capturaram uma espécie nova eu nem… Eu nem… Ah, na verdade só capturaram uma espécie nova uma única vez, e foi quando ainda não havia nenhuma por aqui.

– Triste pra você, imagino.

Beeroi apertou a orelha.

– Dizem que o pessoal da Divisão Três descobre algo novo em cada chamada que atendem. Vamos ver o que eles têm colocado lá.

*****

A Divisão Três da Companhia Antipragas Intergalática realmente tinha sua parte no planeta-armazém lotada de criaturas esquisitas.

Eles eram responsáveis por atender aos chamados com criaturas não identificadas. Vez ou outra alguém ligava para a Companhia, e a conversa dava num ponto assim:

– Qual o problema, senhor? – Dizia a atendente da Companhia.

– Não sei. – Dizia o cliente.

E lá ia o pessoal da Divisão Três. Cuidavam de qualquer chamada em que o cliente não soubesse dizer com qual praga teriam que lidar. Quase sempre chegavam e davam de cara com algo tão comum e clichê em outro ponto da galáxia que se entediavam de ter que realizar o trabalho, mas se alguma Divisão realmente tinha chances de encontrar algo novo, era a Divisão Três. A divisão de Beeroi nunca encontrava algo novo.

*****

A galáxia era muito vasta, e Beeroi e Fischer comprovavam isso admirando as incontáveis criaturas nas gaiolas do pessoal da Divisão Três. O pequeno ser que haviam capturado numa chamada que alegava “praga de dragões” deveria estar ali, mas esperava no laboratório de Beeroi.

Aquelas não parecem com nada. Nojento. – Disse Fischer apontando pra uma gaiola à esquerda.

– Não, não parecem. Não parecem cachorros, pelo menos. Nojento de fato. – Respondeu Beeroi; os olhos admirados com a visão confusa.

– Elas não parecem enguias também, cara. Nem duendes. Nem bestas de hidrogênio. Nem águas-vivas.

– Nem gatos.

– Nem gatos-da-água, nem aqueles gatos-voadores que nos empurraram por engano no outro dia.

– Não. Olha aquelas… Patas?

– É. Elas parecem escorrer. Estão mais pra tentáculos, eu acho.

– Focinho esquisito. Vamos levar e testar no quase-dragão.

– Atualmente, quase-cachorro. Quase-seu-cachorro.

– É. Ainda estou frustrado por não ser um dragão.

Voltaram para a Van com um clone da criatura esquisita numa gaiola.

*****

Jogaram o ser bizarro na gaiola do quase-cachorro, que sequer se moveu quando a criatura contorceu seus tentáculos e se arrastou enquanto cheirava tudo. Quando se aproximou do quase-cachorro, foi abocanhada de repente: as presas afundaram e uma transformação aconteceu.

A criatura capturada por Beeroi agora era duplamente mais esquisita do que jamais fora: tinha tentáculos, um focinho desproporcional e saltado do corpo, duas cavidades no topo da cabeça e algo que parecia uma língua que ficava pra fora. Parecia muito ser da mesma espécie da criatura que pegaram do pessoal da Divisão Três, mas não era. Era muito pequena pra ser da mesma espécie.

E pequena o suficiente pra conseguir deslizar seu corpo flácido por entre os buracos para passagem de ar da gaiola. Pela segunda vez, demonstrou algum comportamento que não consistia em enfiar os dentes e se transformar na criatura mordida. Escapou da gaiola.

*****

O pequeno ser esquisito caiu no chão como uma fruta podre, e usou seus tentáculos para deslizar com uma agilidade surpreendente pelo laboratório.

Beeroi e Fischer cambalearam para trás, porque suas pernas foram pegas de surpresa e não sabiam se corriam até uma porta ou o quê. Tropeçaram aqui e ali, soltaram uns palavrões e olharam desesperados ao redor, procurando alguma arma.

Fischer caiu e bateu a cabeça de maneira completamente patética.

Beeroi havia deixado uma arma numa mesinha de canto, e logo que pôde raciocinar se pôs a caminhar até ela. Deu dois passos e no mesmo tempo a criatura escorreu pelo chão até suas pernas, em alta velocidade.

Beeroi chutou com toda a força que pôde.

A criatura cravou os dentes com toda a força que pôde.

E lá estava.

Agora tinha um par de pernas com joelhos flexionados, cabelos castanhos que cobriam a testa, polegar opositor e um nariz desproporcional. Parecia muito com Beeroi, um humano. Mas não era um humano, não podia ser.

Era pequena demais pra ser um humano.


Penso que esse texto foi indiretamente inspirado parte pelo Sandkings, do George R. R. Martin, parte pelo I Hate Dragons, do Brandon Sanderson. Dois textos de mais alto grau de sensacionalidade, recomendo ambos demais. :)

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A flauta de Romeu

Atualização 19/06/2017: Eu escrevi uma análise na qual eu tento identificar os problemas com esse texto e consequentemente suas causas e possíveis soluções. Aqui está: Analisando a vergonha que sinto de velhos textos: A Flauta de Romeu.


Havia uma vila na qual todos os jovens precisavam passar por um ritual para que pudessem se tornar magos. O ritual consistia em visitar o velho Babel, fazer o que quer que fosse que ele te ordenasse, e receber como prêmio um flauta que ele especialmente te fabricaria enquanto cumpriste tua tarefa. Nunca jovem algum havia deixado a casa de Babel sem carregar consigo a própria flauta, e Romeu, que estava em dia de enfrentar o ritual, não queria ser o primeiro a não ter o instrumento que lhe daria a Magia.

Ele chamou do lado de fora e logo o velho Babel abriu a porta e o convidou para sentar-se à mesa. Haveriam de apreciar um chá de hortelã com canela enquanto Babel decidiria a tarefa que Romeu deveria cumprir, e para tomar a mais sábia decisão, certificou-se de aprender os defeitos de Romeu através da conversação. O vai e vem das frases se arrastou mais que o esperado, e só depois de algumas horas Babel se deu conta de algo que presenciava pela primeira vez: a fraqueza do jovem estava no diálogo em si. Ele demonstrava excessivo interesse, e fazia muitas perguntas sobre a Magia, sobre as flautas e como elas funcionavam. O jovem Romeu não consegue utilizar a Magia porque tem ganância e desejo de conhecê-la, pensou o velho Babel.

Dali não levou muito a elaborar a tarefa, e pediu que Romeu o acompanhasse. Abriu uma porta e mandou que Romeu entrasse, dava num quarto vazio e com paredes de madeira e brancas. Uma imensa massa de calor se deslocou por eles e saiu para fora do quarto, como que se a porta fechada prendesse do lado de dentro muito mais ar do que havia do lado de fora. Romeu balançou para os lados e para trás, fez força nos pés e não caiu, mas suas sobrancelhas se mostraram impressionadas e espantadas com aquela força que fluiu por todo seu corpo; Babel apenas caminhou até o centro do quarto como se nada houvesse ali capaz de lhe abalar as estruturas. Com os dois sós, o velho disse assim:

– Romeu, passarás aqui três dias e três noites. Não te preocupes com comida e bebida, mas apenas em manter o silêncio. Veja as paredes brancas, aqui reina a Magia, eu garanto, e o quarto é vazio: nada há para perturbar sua Magia a não ser tu mesmo. Três dias, Romeu, e isso não irás fazer.

A porta se fechou e Romeu passou três dias em silêncio. Não disse nada, e tratou de ficar parado para que o corpo também se calasse. O mais difícil, porém, aconteceu depois: o velho Babel não voltara após os três dias. A luz começava a entrar por baixo da porta indicando uma quarta manhã, e nada do velho. Romeu esperava que aparecesse após os três dias, mas não veio, e resolveu que esperaria até o fim do quarto.

Chegada a quarta noite, o garoto se repetia as palavras de Babel: Romeu, passará aqui três dias e três noites. Ele o fez, e agora a pergunta que lhe intrigava era se deveria sair por conta própria. Ou haveria o próprio velho de abrir a porta? Pensou para concluir que, de um jeito ou de outro, a tarefa dada já estava cumprida, e era outra questão se importaria o que acontecesse depois dos três dias inicialmente demandados.

Mesmo com a certeza de ter realizado o dever, Romeu temeu cometer uma atitude desengonçada e arriscar perder sua flauta por causa dela. Ah, se quebrar o voto de silêncio no quinto dia e o velho resolver que isso seria uma boa razão para negar a flauta, pensou Romeu, ficaria sem a Magia… Passou o sexto e o sétimo ponderando da mesma maneira, mas no oitavo dia resolveu se levantar: não falou nada, e nem abriu a porta, mas caminhou pelo quarto enquanto pensava consigo a razão da demora.

– Como poderia estar ficando minha flauta? Deve ser mesmo muito trabalhoso fazer as flautas assim, com Magia e tudo…

Essas palavras foram suspiradas baixinhas por Romeu em algum momento da oitava tarde. Àquele mesmo tempo, o velho Babel colhia galhos para uma fogueira na floresta do lado de fora da casa, e as paredes brancas trataram de levar aquele pensamento alto até ele. O velho, sozinho, ouviu o sussurro dos ventos e respondeu com risos a pergunta que Romeu havia feito a si mesmo: decidira ainda no primeiro dia que não faria flauta nenhuma para o garoto.

A décima quarta noite foi para Romeu mais escura que todas as outras. Nela, decidiu que esperaria o dia seguinte, e se fosse o caso do velho não voltar iria ele mesmo abrir a porta e sair. Toda a monotonia o fez pensar se era assim tão importante sair de lá com a Magia, afinal ela reinava naquele quarto e suas paredes eram brancas, e não havia nada lá que não fosse ou sua própria presença ou meramente a ausência de algo do lado de fora da porta: realmente não precisou se preocupar com comer e beber porque sua fome e sede eram saciadas sem que precisasse abrir a boca, mas havia outras coisas pelas quais ainda sentia desejo.

Na manhã seguinte, Romeu acordou e tomou como primeiro ato um grito libertador. Não foi palavra porque não tinha nenhuma a dizer, apenas abriu a boca e deixou que o palato vibrasse com o que quer que fosse o som que estivesse com vontade de escapar. Girou tranquilamente a maçaneta da porta e não se espantou ao perceber o velho Babel sentado numa cadeira o encarando, como se o esperasse naquela mesma posição há dias.

O silêncio dominou tanto lá quanto dominara dentro do quarto, e os dois deixaram que os olhos se encarassem um pouco. Romeu não fez nenhuma pergunta; na verdade, os segundos se passaram e ele já se sentia constrangido. Ambos perceberam a Magia reinar no local e fluir de um ponto a outro por todos os lados. Romeu estava pronto pra continuar andando e deixar a casa quando o velho Babel se pôs de pé da cadeira. Ele levantou uma das mãos e disse as palavras que encerrariam aquele ritual:

– Romeu, eu não lhe fiz nenhuma flauta. Você não precisa de uma.

Romeu seguiu seu caminho, e entre um passo e outro apenas respondeu:

– Eu sei.


Atualização 19/06/2017: Eu escrevi uma análise na qual eu tento identificar os problemas com esse texto e consequentemente suas causas e possíveis soluções. Aqui está: Analisando a vergonha que sinto de velhos textos: A Flauta de Romeu.

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Por um autógrafo

O Aeroporto Interplanetário De Terceira Ordem estava lotado com os aventureiros mais desprezíveis do sistema, todos  se dirigindo para realizar mais uma limpeza étnica que o Governo faria. Em algum canto do Aeroporto havia um garoto que preferia estar em casa, mas se encontrava sentado ao lado do pai, se incomodando com uma multidão de criaturas grotescas que só o incomodaria mais se não estivesse com um Catálogo de Criaturas Desprezíveis do Sistema (Edição Especial Pós-Rebelião-Prisional) em mãos, tentando encontrar lá algum bastardo que estivesse ao seu redor. Achou quase todos.

Seus olhos entediados arregalaram-se no momento em que repararam no impossível-de-não-se-reparar capacete dourado flutuando sobre a multidão: era de Blarg, o ídolo das crianças de todas as espécies, considerado um dos aventureiros mais admiráveis da galáxia porque conseguia fazer seu trabalho sem entrar pro Catálogo de Criaturas Desprezíveis do Sistema – e ainda assim ali estava ele, dividindo o saguão do aeroporto com todos os outros. O garoto não pôde senão se colocar de pé, usar uma mão pra segurar a própria cabeça no lugar e a outra pra apontar enquanto gritava:

– Aah! Ma…Mab lá la… É! Aque… Ta!

Estava tão afetado que as palavras não conseguiram sair da sua boca de uma forma que fizessem sentido; ao menos não para ele, porque esses murmúrios fizeram um aventureiro alienígena no banco ao lado se emocionar ao ouvir versos tão famosos em sua língua serem pronunciados por uma criança. O garoto deu quatro passos desesperados em direção ao famoso Blarg e seu capacete dourado, mas freou ao perceber que estava quatro passos mais próximos da multidão de criaturas desprezíveis.

Uma breve pane cerebral o fez dar uma bela olhada nas bestas que teria que enfrentar pra chegar a Blarg. Um grupo de Minhocas D’Água se arrastava pelo chão (que evidentemente não tinha água nenhuma) com um esforço fantástico que deixava pra trás uma gosma amarela suposta a desaparecer no habitat. Três Cachorróides cheiravam a gosma enquanto dois homúnculos felpudos comentavam o fato. Um androide empurrava um carrinho cheio de peças sucateadas, talvez pedaços dele mesmo. Uma imensa bola de gordura contava piadas para uma Moscazona entediada. Um grupo de homens-com-braços-extras brigavam num círculo. Nenhum deles estava injustamente no Catálogo de Criaturas Desprezíveis que o garoto trazia consigo, mas o capacete dourado de Blarg já estava desaparecendo no fim do corredor, onde dava uma sala de embarque. Era se enfiar na multidão ou perder a oportunidade.

Seus pés realmente não queriam caminhar por entre aquela escória, então a primeira coisa que trataram de fazer quando o garoto começou a correr foi de se prenderem na gosma das Minhocas D’Água. Pisou com tanta força que o plasma esverdeado se impregnou nas ranhuras das solas dos sapatos. Isso o obrigou a, logo de cara, enfrentar uma fétida catinga que pairava naquele ponto, talvez vinda da cozinha do Restaurante Atômico No. 1, que servia pratos para criaturas fotossintetizantes que nunca pediam nada além de criatividade e ousadia nas refeições que jamais comiam, ou talvez o cheiro viesse das próprias criaturas fotossintetizantes enfiadas no chão do lado de fora, limpando suas armas.

A travessia seria longa com os sapatos insistindo em grudarem no chão a cada passo, e o fedor estava insuportável. Tirou alguns segundos para acenar a mão num gesto particularmente ofensivo às criaturas fotossintetizantes, e foi o momento em que viu que Blarg estava para entrar na sala de embarque e soltou um grito com seu nome com toda força que pôde, mas o aventureiro não ouviu. Observando a luta do garoto, um dos homens-com-braços-extras se sentiu tocado e resolveu fazer algo: levantou o garoto e começou a carregá-lo até Blarg. O momento do toque foi tão desgostoso  e nojento que o garoto se encolheu sobre si mesmo e se perguntou se valeria a pena passar por isso. Pensou que sim, porque viu uma Moscazona chamando a atenção de Blarg para ele.

O garoto, suspenso por quatro dos braços extras que o homem possuía, olhava para Blarg enquanto este se virava para onde a Moscazona apontava com suas antenas. Houve uma mágica troca de olhares entre a criança e seu ídolo que fez seus olhos brilharem por reconhecerem a unicidade do momento. Impagavelmente, foi colocado no chão e ficou paralisado enquanto Blarg se aproximava.

Parado diante do aventureiro que tinha três ou quatro vezes seu tamanho, deixou o descrente queixo despencar. Blarg parou e tirou o capacete para que seus cabelos fossem chacoalhados pelo vento e eternizassem a memória do garoto, depois se ajoelhou e usou a mão esquerda para lhe acariciar o cabelo. Era a mão que usava para puxar algemas da cintura; a outra, naquele momento, serviu para deixar um autógrafo na camisa do pequeno fã.

Blarg e seu capacete dourado voltavam a entrar na sala de embarque enquanto o garoto esticava as barras da camisa para baixo com olhos esbugalhados de admiração. Era uma camisa de algum Time Interplanetário de Boliche Submarino, esporte que não praticava por não ser uma criatura submarina, e justamente por isso achava tão fascinante de assistir. Ia voltando para seu banco com um sorriso que ia de orelha a orelha, sinalizou um dedão levantado para o homem-com-braços-extras que o ajudara, e este respondeu com seis dedões – era um bom homem-com-braços-extras, os usava muito bem, afinal, não era tão desprezível quanto o catálogo representava.

A satisfação com o autógrafo era tamanha que passou pelo Restaurante Atômico sem sequer notar o cheiro que impregnava o ar, e não só desviou da gosma das Minhocas D’Água, como também fez carinho nos Cachorróides que fungavam aqui e ali. Com olhos alegres, se acomodou no banco e voltou a admirar o autógrafo na camisa. A multidão de criaturas desprezíveis parou por alguns segundos e voltou seus olhos ao garoto, cada qual refletindo a curiosa beleza que havia naquele ato ingenuo.

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Água, Grama e Vento

Quando terminou de ler a palavra “ostium“, incluiu por conta própria um “pronto, é isso?” e imediatamente seu corpo fora envolvido por águas que entraram pela janela. Ao mesmo tempo, o livro fora puxado para longe de suas mãos.

Os olhos do rapaz se esbugalharam ao ponto de parecerem estar decidindo se continuariam ali ou se fugiriam para descobrir o que havia além daquela verde planície interminável. Ele, como constatou ao girar a cabeça desesperadamente para todas as direções, estava cercado por uma grama baixa que se estendia para além do horizonte, e o que quer que houvesse lá estaria muito bem iluminado pelo sol-de-meio-dia que ali reinava.

Cobriu as orelhas com as palmas das mãos e deixou o queixo cair até onde as cartilagens fossem capazes de segurar. Fechou o queixo, apontou para frente. Olhou para trás e não havia ninguém para olhar para onde apontava, então apontou para lá também. Voltou as mãos às orelhas e começou a correr em círculos, se jogou no chão e admirou o céu – quase foi cegado pelo Sol, mas comprovou que o que havia acima de si era azul e não branco, como era o teto de seu quarto. Levantou.

– Funciona, funciona! Quem diria, aquele maldito livro! Inacreditável!

Correu na direção em que nariz apontava, encheu o pulmão de ar e gritou separada e longamente cada uma das seguintes sílabas:

– Ah, ah! I-na-cre-di-tá-vel!

E continuou assim por alguns segundos, exprimindo a surpresa de vivenciar suas expectativas sendo provadas incorretas. Já havia corrido por uns bons muitos metros e o horizonte continuava sendo apenas gramado em todas as direções; parou, tirou o sorriso do rosto e se pôs a analisar o que via. Olhou para a própria mão direita.

– Caramba… – Disse baixinho para si mesmo, suspirando. – O livro não veio comigo…

Voltou a correr. Correu até cansar, e quando caiu foi porque o corpo não tinha mais forças para se manter em pé. Suas pernas talvez estivessem se perguntando quanto mais teriam que correr até os olhos verem algo que não fosse grama.

– Como faço pra voltar? – Gritou com toda a força possível, e sequer ecos voltaram para si. – Como… Faço… Pra… Voltar?

Contemplou um pouco mais o que o cercava e se pôs a caminhar. Parou quando o céu passou de azul para laranja; a noite estava chegando e estava ali preso, sem o livro que o trouxera e sem mudanças no gramado. Sem respostas para seus gritos, também.

– Maldição… – Assim sussurrou, e depois gritou: – Maldição! Maldito! Maldito livro! Magia, tola!

Sentou e continuou a blasfemar, mas se tornara inaudível por causa das poderosas rajadas que se apoderaram do ambiente. O ar corria pelo interminável gramado com a velocidade de um leão, e o peso de um elefante. O rapaz não pôde fazer nada além de se encolher sobre o próprio corpo, contra aquilo não haveria como lutar.

Os minutos se passavam, mas a ventania também era sem fim, como o agora saudoso verde. Se antes queria voltar para casa, agora gritava que queria voltar à calmaria  que encontrara quando chegara ali, mas não adiantava, quanto mais gritava pedindo ao vento que o deixasse em paz com a grama, mais o ar lhe cortava as costas.

Em baixo de si as folhas estavam deitadas para frente, trêmulas. Fixou os olhos naqueles pequenos movimentos e ficou em silêncio. Viu que algumas das folhas eram arrancadas pelas rajadas, e seus olhos se fecharam por conta própria porque não queriam mais ver aquilo.

Começou a abrir a boca para suspirar algo, mas gotas de água surgiram da grama até se reunirem em quantidade suficiente para envolverem seu corpo. Percebendo isso, abriu os olhos para mais uma vez reconhecer a grande mudança que acontecera ao redor de si. A ventania parou, e a grama não estava mais lá; o livro, entretanto, caído no chão e aberto na primeira página.

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A Bruxa e o Saco de Penas

Havia um vilarejo entre um riacho, de onde os moradores tiravam do que beber, e uma floresta, de onde conseguiam os animais que criavam para comer. A harmonia reinava, e tudo e todos tinham sua função muito bem definida: Neves era o padre do vilarejo, Ernando era o plantador de cenouras, Bento era o contador de histórias, e havia até uma Bruxa, Fátima, responsável por fazer uma maldade aqui e ali para que os moradores pudessem reconhecer o bem.

Todas as manhas, a Bruxa, bem como todos os outros, era acordada por Romeu, o garoto que saía da cama antes do sol nascer e tinha a tarefa de acordar toda a comunidade no horário que fosse adequado para cada um. Ele havia herdado essa função do pai, que lhe ensinara a usar o sol e a lua como relógios, e a própria força de vontade como despertador. Assim, ele sempre acordava quando queria e nunca errava a hora de atrapalhar os sonhos de alguém.

Certo dia Romeu corria pelas vielas indo acordar a Bruxa, o que seria seu último trabalho naquela manhã, quando num momento de distração o garoto pisou em um buraco e acabou torcendo o pé, se jogando ao chão e se contorcendo. Se estivesse um pouco mais perto, a Bruxa com certeza teria acordado com seu grito de dor.

Romeu se levantou rapidamente, desafiando bravamente as consequências da ferida ferida, pois sabia que de todos os moradores a Bruxa era aquele com o qual não podia falhar. Pensou “ai de mim se não acordá-la!”, e fez o que pôde para cumprir o horário: não podia correr, então caminhou arrastando o pé o mais rápido que pôde.

O pobre rapaz caminhava à passo de tartaruga, e cada vez que olhava para o sol seu atraso ficava mais e mais visível. Até apanhou um galho no chão e o usou como muleta, mas não adiantou e acabou acordando a Bruxa um tanto fora do horário.

– Fátima, Fátima! Acorda! – Gritou Romeu batendo na janela. – Me atrasei, acorda!

De repente, Romeu foi assustado pela porta que se abriu a sua direita. Olhando lá pra dentro não enxergava paredes, cadeiras, janelas, bules, nada, nem mesmo a própria Bruxa. Ninguém fazia ideia do que havia lá porque ela nunca abria aquela porta, mas Romeu agora via que seria impossível dizer a diferença entre o que havia do lado de dentro e a completa inexistência de qualquer coisa.

Entendendo que a porta havia sido aberta especialmente para ele, Romeu estremeceu-se, mas teve coragem pra entrar. Em meio a escuridão, um chapéu, um par de olhos e uma larga boca tornaram-se visíveis.

– Veja bem, Romeu… – Disse a Bruxa. – Me diga o que seu pai lhe ensinou a fazer.

– Acordar os moradores d– E foi interrompido.

– Claro, claro, e me diga, tem mais alguém aqui com essa função?

– Não… É qu– E foi interrompido de novo.

– Então, Romeu, você entende que se não me acordar às oito ninguém mais vai, não é?

– Sim, mas– Uma terceira vez.

– SILÊNCIO! – Fátima voz ecoou pelo vazio da sala. – Entende por quê eu preciso te punir, Romeu? Assim você nunca mais vai se atrasar.

– Mas eu acabei me machucando…

– Eu sei. Por isso seu castigo é ir até a casa do velho Niceno e me trazer as penas de galinha que eu mesma já teria buscado, não fosse por você.

Niceno era o senhor que cumpria a função de viver sozinho e nunca sair de casa, permitindo que os outros moradores criassem as mais terríveis histórias sobre ele. Nem as crianças ou os adultos tinham coragem de perturbá-lo, e apenas a Bruxa ousava visitá-lo e não permitir que o homem perecesse na mais completa solidão.

Quando Romeu respondeu que a punição seria injusta, não só porque teria que lidar com o tenebroso Niceno mas também porque seria doloroso fazer a caminhada com aquele pé, a Bruxa se impôs produzindo um som semelhante ao de trovões. Romeu imediatamente saiu arrastando o pé e se apoiando no galho-muleta.

Apesar do grande incômodo que era andar com aquela ferida, o pior que Romeu enfrentou durante a caminhada foi o crescente medo que o acompanhou. Cada arrastada de pé que o colocava mais perto da casa de Niceno também o trazia um novo pensamento sobre o velho e as lendas que o cercavam. “Será que ele vai tentar me prender?” “Será que ele vai estar usando óculos para disfarçar seus olhos-vazios?” “Será que a Bruxa já havia lhe tirado a maldição que o fazia ter pernas-de-formiga?”

Depois de passar todo o caminho imaginando o mais monstruoso Niceno que pôde, Romeu se viu obrigado a bater na porta e a gritar o nome do velho. Usou o galho-muleta pois a essa altura já estava com medo de encostar na casa e ser contaminado por alguma das maldições da Bruxa. Fátima porta se abriu e revelou um mundo com muito laranja.

Romeu esticou o pescoço e viu uma cortina laranja e um tapete laranja, mas não viu o velho Niceno.

– Entra, entra. Por que a demora? – Uma rouca e cansada voz ecoou lá de dentro e obrigou Romeu a estufar o peito com coragem antes de colocar o pé bom na porta. – Suas penas estão ali ao lado da lareira.

As coisas pareciam ainda mais alaranjadas vistas daquele lado da porta. Havia até uma poltrona laranja de costas para Romeu, que parecia ser de onde vinha a voz do velho. Contornando-a, Niceno finalmente se fez ver por alguém que não fosse a Bruxa e se colocou de pé num instante. Romeu se jogou para trás, ao chão.

– O quê?! Quem diabos é você? Cadê Fátima?

Romeu olhou de baixo para cima e admirou toda a figura do velho que se encontrava de pé diante de si. Ficou boquiaberto com o que viu, foi a visão mais surpreendente que não poderia imaginar.

– Eu sou… Eu… Eu vim pegar as penas… – Disse ele entre gaguejos e respiradas ofegantes.

O velho franziu as sobrancelhas e pareceu extremamente confuso. Ajeitou os óculos e se aproximou do garoto até que seus rostos ficassem a um palmo de distância.

– Como assim, rapaz?

Romeu desmaiou. Quando seus olhos voltaram a abrir, a primeira coisa que viu foi o velho na poltrona diante de si, o observando. Analisou os arredores e percebeu que estava ele mesmo sentado em uma almofada ao lado da lareira e do saco com penas de galinha.

– É melhor esperar, quanto mais esforço fizer mais vai demorar para sarar. – Disse Niceno apontando para a tala que havia feito no pé do garoto. – Agora, está tudo bem com Fátima? Por que não veio ela própria?

– Ah, eh… Eu… Ela… – Romeu ainda estava assustado pela figura do velho. – Ela teria vindo se eu a tivesse acordado na hora certa… Me atrasei por causa do machucado…

– E você achou que seria uma boa ideia vir no lugar dela com um machucado desses?

– Não, ela… É um castigo, eu é que não ia desobedecer a Bruxa, sabe-se lá…

O velho enfiou a cabeça no pescoço e riu baixinho.

– Sei, a Bruxa, sim… – Niceno ponderou por alguns segundos antes de continuar. – Garoto, quando eu tinha sua idade também havia uma Bruxa no vilarejo, quer dizer, outra bruxa, que já morreu há muitos e muitos anos.

– Morreu?! Como ela morreu se era Bruxa?

– Não, não, – respondeu o velho entre risadinhas – acaba que as Bruxas não são assim tão poderosas, eu acho. Aposto que Fátima também não pode muito.

Romeu olhou para o velho sem acreditar que ele ousava falar aquilo da Bruxa.

– Já vi ela fazer feitiços terríveis… – Disse ele.

– Eu entendo. Fátima Bruxa dos meus tempos também fazia esses feitiços, mas nem tudo era mal. Na verdade, as coisas sempre acabavam bem. – O velho olhou para o teto num esforço para resgatar uma memória importante. – Sabia que fui eu quem trouxe galinhas para o vilarejo?

Romeu não disse nada, apenas fixou seus olhos, confusos e admirados, em Niceno.

– As galinhas viviam além da floresta, atrás das montanhas, – continuou ele – e ninguém nunca havia visto nenhuma. Fátima Bruxa me mandou buscar um pouco do trigo que crescia lá perto, como castigo, e acabei descobrindo as galinhas.

O velho Niceno contou tudo sobre as galinhas. Sobre como elas eram ariscas e como levou a tarde toda para conseguir capturar apenas duas, sobre como voltou com amigos para pegar mais, sobre como construiu o primeiro galinheiro e como sua mãe cozinhou a primeira galinha, e sobre como partilhou os animais com todo o vilarejo.

Romeu se admirou tanto com o caso das galinhas, e além do mais Niceno contava com tanto entusiasmo, que os dois passaram o dia todo dividindo histórias bondosas sobre Bruxas. Naquela tarde Romeu descobriu que o velho não era mais que uma antiga criança, e que daquele dia em diante sempre o visitaria para ouvir suas memórias. Saiu levando essa certeza junto com o saco de penas.

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“The Elements of Style”, em inglês, é o melhor substituto pra aulas de gramática que conheço

Oi.

Essa semana eu perambulava pelas ruelas do Reddit, o melhor site da internet, quando dei de cara com uma daquelas muralhas de texto em que um usuário corrige o outro. No fim do post, algo como “e se faça o favor de ler isso” seguido de um link.

Como as correções do cara me pareciam pertinentes, me dei ao trabalho de ver o que tinha no link, e, rapaz, fui surpreendido. Curioso como a gente topa com essas coisas importantes de um jeito tão aleatório e inesperado.

Negócio é o seguinte, um professor americano de Inglês chamado William Strnk resolveu escrever um livro com tudo o que ele achava que um escritor precisava fazer pra criar um “bom texto”. Ele organizou todas as dicas e conselhos em forma de regras, totalizando (apenas) 23 – o livro é de 1918, nos anos seguintes um de seus alunos fez atualizações e o número de regras subiu.

Desnecessário dizer que uma ou outra dessas normas só se aplica ao inglês, mas a vasta maioria lida mais com a maneira que resolvemos nos expressar do que com a estrutura da linguagem, então, porra, vale pra todo mundo.

Penso que a regra 17, “Omita palavras desnecessárias”, tem um parágrafo que resume muito bem o espirito da obra:

“Vigorous writing is concise. A sentence should contain no unnecessary words, a paragraph no unnecessary sentences, for the same reason that a drawing should have no unnecessary lines and a machine no unnecessary parts. This requires not that the writer make all sentences short, or avoid all detail and treat subjects only in outline, but that every word tell.”

Enfim, se você gosta de escrever eu diria que a leitura é indispensável. Não porque são regras que deveriam ser seguidas – seria estúpido tanto da parte de quem segue as regras quanto da parte de quem escreveu regras com a intenção delas serem seguidas -, mas porque as normas vão te fazer ter um pouco mais de autoconsciência, e ter consciência dos próprios textos é meio que fundamental pra qualquer avanço. Fica a recomendação:

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Mais 4 canais gringos pra quem curte Cinema e fala inglês

Continuando as recomendações que dei no outro post, aqui vão mais quatro canais que analisam filmes e te ajudam a entender seus significados ou a forma que foram feitos. Só coisa 10/10.

Minha alegria de sábado: uma análise por semana. Evidente que o tempo de produção não permite que o cara faça dissecções ultra complexas e tudo mais, mas os vídeos dele ajudam muito a entender o significado por trás dos filmes; são ótimos mesmo assim. O vídeo sobre Cisne Negro ou o sobre Eraserhead são bons exemplos. Acesse o canal.

 

O canal também é usado pra postar os filmes produzidos por esse tal Darren, mas minha recomendação fica por conta das análises instrutivas que ele faz, especialmente o vídeo sobre os personagens do Tarantino e o sobre cenas de reaçõesAcesse o canal.

 

Um daqueles canais gigantescos com quatro milhões de inscritos, provavelmente por causa das teorias do tipo como matar o Deadpool ou sobre a Dory fingir a perda de memória. Mas o cara tem uma série sensacional, Frame by Frame, que pega algumas obras e usa elas pra explicar técnicas cinematográficas: os cortes invisíveis em Birdman e as cenas de ação de Mad Max são sensacionais. Acesse o canal.

 

Mais uma recomendação por causa de uma série, What I Learned from watching…, em que ele escolhe algum filme e faz uma lista das coisas que podemos aprender com ele sobre fazer filmes. O vídeo sobre Vício Inerentee e o sobre Blade Runner são os que mais curti. Acesse o canal.

 

  • Playlist

Pra fechar, de novo montei uma playlist com os vídeos citados. Delicie-se.

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