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Corpos e Almas no Porto do Comércio

Atualização 12/04: Duas semanas depois desse texto ter sido publicado eu escrevi outro explorando o início dessa mesma história. Leia “O Porto do Comércio” clicando aqui.


Daniel estava no corpo, e descia com uma garotinha pelos caminhos que cortavam o mercado enquanto a alma que antes havia habitado aquela carne agora vagava livremente pelo mundo. À venda nas prateleiras, o cheiro das incontáveis espécies locais de peixes se misturava com o de todo tipo de produto vindo dos quatro cantos do mundo, impregnava o ar e fazia queimar o nariz. Era impossível que Daniel não fosse visto por algum membro da Alma Perdida ali, em um lugar tão movimentado.

Ele estava preocupadíssimo que o pessoal da Alma Perdida certamente o veria, e que aquele seria um lugar horrível para enfrenta-los, e que era de partir o coração ter que se apoderar do corpo do pai daquela garotinha. Ela devia ter uns seis ou sete anos, e portava um rosto com feições ingênuas, com olhos grandes e de muita inocência. Quando a viu pessoalmente, Daniel quase não acreditou que uma garota tão cativante era tão importante e, de certa forma, perigosa.

Mas ela era; em fato, a garotinha, cujo nome atual era Alice, era muito poderosa – mais poderosa que Daniel. Nas entranhas da sua aparência habitava uma alma que vagava de corpo em corpo há milênios, e que havia se apoderado do da garota enquanto ela ainda era um bebê de alma fraca.

Ninguém sabia – nem que a tal alma poderosa estava no corpo da garota, nem do que a ela era capaz, pois durante todo esse tempo de existência ela pouco havia feito além de viver vidas perfeitamente normais e inexpressivas. Ninguém exceto o pessoal da Alma Perdida e o pessoal que estava pagando Daniel pelo serviço. Por alguma razão, a alma estava usando o corpo de Alice de forma disfarçada há uns seis ou sete anos, e sabe-se lá por quanto tempo mais continuaria sob esse disfarce, fingindo.

Daniel nunca recebia muitas informações, e o contato com seus patrões era mínimo. Eles sempre passavam as missões da maneira mais direta e sucinta possível, diziam o que ele deveria fazer e ficava por isso mesmo; dessa vez, sua tarefa era dominar o corpo do pai biológico da garotinha sem que ela percebesse a nova alma ao seu lado, e guia-la até a cabine de um navio ancorado. Depois que conseguisse colocar a garota para dentro, poderia sair do corpo, ir embora e deixar o restante com outro agente qualquer que não lhe informaram. Falaram apenas isso, e que a alma da garota era a alma, cuja história Daniel e todos os outros já haviam ouvido.

Metade da missão estava completa e a garota o seguia em direção às embarcações ancoradas. Era isso. Isso e chegar ao navio sem ser notado por alguém da Alma Perdida, e consequentemente muito menos por Alice.

*****

Era uma sensação esquisitíssima a de estar no corpo do pai de Alice. Daniel ficou imaginando as coisas horríveis que as pessoas não fazem com o próprio corpo, e que elas seriam mais atenciosas se tivessem que de repente transferir a própria alma pra um corpo mal cuidado. A garota olhava fixamente para ele, e ele a encarava de volta como se a alma controlando o corpo ainda fosse a do pai.

Por isso Daniel era tão bom: ele conseguia pensar em outras coisas e continuar agindo como a alma original. Normalmente, alguém que salta de um corpo para outro precisa manter um foco tremendo pra conseguir imitar o modo de agir do dono anterior, sem contar o trabalho de pesquisa e observação necessário de se fazer antes da transferência.

Não Daniel, ele ficava ali, pensando num belo carneiro assado, ou em ficar bêbado até esquecer seu verdadeiro nome, e ao mesmo tempo conseguia replicar os comportamentos que fossem precisos replicar. Por isso ele havia sido o contratado para este caso.

O pessoal da Alma Perdida andava pra lá e pra cá, tentando identificar Alice no meio da multidão; eles não viam a alma de Daniel, mas Daniel via as almas deles. Já havia percebido algumas dúzias vagando aleatoriamente pelas ruelas da cidade, e sempre precisava desviar com a garota para evitar qualquer aproximação – eles só poderiam reconhecê-la se estivessem próximos o suficiente para sentir a presença da alma dela.

O pessoal da Alma Perdida era pútrido. Almas que abandonaram os corpos originais há muito, muito tempo, que resignaram do direito de ter um corpo fixo em troca da imortalidade; almas que sacrificaram suas presenças no mundo material pela existência da Alma Perdida, e assim a organização existia sabe-se lá há quantos milênios.

Eles estavam atrás de Daniel desde que ele deixou a organização. Passaram 40 anos tentando encontra-lo no Condado Condor, a maior metrópole já feita pelo homem, tão grande e agitada que até um elefante conseguiria se esconder por meses sem ser notado – a menos que o elefante e sua alma estivessem sendo procurados pelo pessoal da Alma Perdida, nesse caso, nem que levasse todo o tempo do mundo, encontrariam até a alma de uma formiga.

Depois disso, encontraram-no numa vilazinha no meio de um deserto no Sudoeste, uma vilazinha tão isolada e esquecida pelo restante dos homens que nem nome tinha. Ainda assim, encontraram Daniel, e de lá o seguiram para os mares. De fato seguiram os rastros deixados por qualquer que fosse o navio no qual Daniel se escondia, mas não o alcançavam, exceto quando ele eventualmente era obrigado a parar em alguma cidade para algum serviço.

Assim, ali estavam todos em Equília, ou, como a costumavam chamar, Porto do Comércio. Tratava-se de um grande mercado flutuante no centro do oceano – realmente grande, imenso, com hospedarias, três portos, tavernas, até casas, e tudo o mais – e posicionava-se à mesma distância de todos os quatro continentes, sendo o local ideal para todo tipo de venda e troca de produtos. De forma geral, não funcionava de maneira diferente de uma cidade tinha até ruas e líderes políticos.

O navio de Daniel estava ancorado na borda oeste do Porto do Comércio, ao lado de outras muitas dúzias de navios de comerciantes; especificamente, seu navio estava ancorado ao lado de um navio muito extrovertido, com grandes velas listradas de laranja e roxo e dois leões esculpidos em ouro presos à proa, de modo que era fácil para Daniel encontrar seu navio em meio aos outros todos. Esse tipo de embarcação costuma ser alvo de piadas de várias pessoas respeitáveis, de modo que era provavelmente propriedade de algum rei ou qualquer outro poderoso, do qual ninguém ousava tirar sarro.

Apesar de não ser tão chamativo, o navio de Daniel também era muito grande – na verdade, o navio não era propriamente seu, e ele apenas havia possuído a alma de algum dos cozinheiros, um chefe. Era um navio pirata, e tão logo Daniel possuiu a alma do homem os piratas passaram a comer dos pratos mais terríveis, de uma hora pra outra, pois nem Daniel tinha capacidade de preparar algo bom, nem os piratas ousavam quebrar seus códigos de ética e reclamar do cozinheiro.

A essa altura a alma do cozinheiro já deveria ter voltado para seu corpo que jazia em um canto escondido do Porto do Comércio, no qual Daniel trocou para o corpo do Pai de Alice. Estavam os dois caminhando com o oceano na direita, o ex-navio pirata de Daniel ancorado a algumas centenas de metros, e ele procurando pelo navio de seus patrões, no qual deveria entregar Alice.

Ninguém havia lhe informado como era esse tal navio, se era como os de sempre ou se era algo disfarçado e menos chamativo que o habitual. Seus olhos saltavam extremamente confusos de um para o outro, tentando adivinhar em qual haveria alguém o esperando com a garota. Isto é, alguém que não fizesse parte do pessoal da Alma Perdida, pois se eles descobrissem o navio antes de Daniel, certamente o duplicariam para enganá-lo ou outra coisa do tipo – os meios para esse tipo de artimanha eles possuíam.

Mas naquele momento Daniel teve que se preocupar com alguém que não era membro da Alma Perdida: Alice. A garota, que não parava de olhá-lo fixamente desde que começaram a caminhar em direção aos navios ancorados, ainda no centro do Porto do Comércio, finalmente falou.

– Quem é você? – Ela disse, com a expressão mais inocente lançada, fixamente, na direção de Daniel.

Daniel, que estava pensando em algum lugar do Porto do Comércio que servisse carne de porco, se virou de repente, as rugas nas testas e os olhos muito assustados.

– O quê? – Ele disse.

– Quem é você? – Repetiu Alice, ainda de maneira calma e doce.

– Seu pai, ora, garota! – Disse Daniel, que continuava imitando os mais detalhados trejeitos da pobre alma que algum dia havia habitado aquele corpo, e puxou-a pela mão.

– Vamos, vem!

–Perguntarei o contrário, então. – Ela respondeu com o pé firme no chão, se recusando a sair do lugar. – Você sabe quem eu sou?

E Daniel respondeu que ele era seu pai e ela era sua filha, e que ela deveria parar de falar daquela maneira porque estava assustando-o e ele não estava entendendo. Entretanto, nas profundezas da sua alma, enfiada nos cantos daquele corpo deplorável, ele estava desesperado tentando pensar em como escapar daquela situação.

Ali estava ele, sequestrando Alice, de alma tão conhecida e poderosa, e pronto para entregá-la para quem o contratou para o serviço – mas agora ela sabia. “Agora ela sabe!”, pensou ele, num desespero tremendo, “e agora, e agora?”.

Continuou pensando, “o que ela vai fazer? O que ela pode fazer?”, e conforme a emoção do choque foi passando, entre uma engasgada e outra que já não era mais capaz de impedir, seu bom senso voltou, e pensou “como ela descobriu? Quando ela descobriu? Quando foi que eu deixei transparecer?”.

– Eu sou mais forte que você. – Ela disse. – Vim de tempos muito mais antigos, e sei muito mais. Ninguém pode se disfarçar perto de mim, eu sinto você, e sinto todos os outros ao redor de nós. O que vocês querem comigo?

Ele ainda pensava no momento em que as coisas tinham dado errado, no qual ele se revelou, então refletiu que contra uma alma como a de Alice não haveria outra maneira senão contar a verdade, de fato nem mesmo ele era capaz de engana-la.

– Certo, garota, se me permite te chamar chamar assim… – O estrondo de alguma arma sendo disparada preencheu o ar e sobrepôs o barulho que fazia os inúmeros navios chacoalhando sobre as águas. Era o pessoal da Alma Perdida. – Desvia!

Alice ouviu com clareza, mas não se moveu um centímetro para os lados; apenas inclinou a cabeça para continuar com os olhos apavorantes fixados em Daniel, que se jogou ao chão imediatamente quando se deu conta do tiro.

Um homem e uma mulher que faziam parte da Alma Perdida surgiram virando por uma das esquinas do Porto do Comércio. O primeiro usava as duas mãos para segurar um grande rifle, muito lustroso e estranhamente prateado, e a segunda levava um revólver em cada mão. Esse era o plano deles: matar Daniel enquanto ele não estivesse perto de nenhuma alma vulnerável, de modo que não pudesse se transferir de última hora e se safar – as pessoas se amontoavam em todas as partes do Porto do Comércio, exceto onde ancoravam os navios, lá só iam de passagem e o local era quase deserto a maior parte do tempo.

Na verdade, esse era o único meio de matar Daniel ou qualquer outro membro ou ex-membro da Alma Perdida. Ser morto sem ter uma alma vulnerável por perto: disso nem mesmo Alice e sua poderosa e antiquíssima alma (sua existência precedia a própria Alma Perdida) poderiam escapar. Assim, naquele momento estavam os dois, Daniel e Alice, correndo sérios riscos de serem, finalmente, mortos.

Entretanto, apenas Daniel demonstrava se preocupar com isso. A dupla da Alma Perdida deu vários disparos, e estavam ainda muito longe, mas se aproximavam a passos largos. Daniel se jogava desesperado de um lado para o outro, na tentativa de desviar, a cada som de tiro que ouvia. Alice, despreocupada, ainda o fitava.

– Quê você está fazendo? – Ele gritou para ela, então a puxou pelo braço, gritou “Vem” e saiu arrastando-a na maior velocidade que pôde na direção contrária da qual vinha o pessoal da Alma Perdida (mais duas mulheres haviam aparecido em outra esquina, e também carregavam rifles).

A garota se deixou levar, e seguiram os dois pela extensa costa do Porto do Comércio. Ela com a expressão séria, sem arrepiar um pelo do corpo sequer. Ele com uma das mãos segurando a dela e a outra segurando a própria cabeça, que naquele momento encontrava-se cheíssima de preocupação. Daniel estava próximo de se tornar o terceiro ex-membro da Alma Perdida a conseguir viver 350 anos depois de abandonar a organização – os membros ativos eram muito, muito mais velhos, mas os que resignavam raramente conseguiam fugir por mais de 70 – e realmente queria, e sempre achou que conseguiria, ir além, quebrar todas as marcas e tudo o mais.

O pessoal da Alma Perdida era como ratos num navio, e surgiam de todos os cantos do Porto do Comércio. Tiros atravessavam as ruas vindo de todas as direções, várias pessoas ficaram confusas, a polícia começou a procurar os atiradores, e a essa altura eles já puxavam os gatilhos sem saber pra onde apontar – ou seja, se estabeleceu uma confusão geral. Daniel e Alice continuaram correndo pelo meio de toda a bagunça, que acontecia mesmo ali, próximo aos navios ancorados.

Correram até encontrarem vários containers, alguns com peixes e outros com camarão, e quando pareceram estar seguros Daniel se ajoelhou e apoiou as mãos nos dois ombros da garota.

– Eu preciso te levar. – Ele disse.

– Por quê? – O rosto de Alice permaneceu inexpressível.

– Eu não sei especificamente, na verdade. – Daniel tirou as mãos dos ombros dela e encolheu os próprios; deu de ombros. – É meu trabalho. – Ele ouviu disparos que pareciam estar verdadeiramente próximos, então se assustou e deu um solavanco com o corpo, depois continuou. – Como você me descobriu? O que foi que eu fiz?

– Nada. Você foi muito bem. – Alice respondeu com os olhos fixos nele. – Mas eu sou melhor.

Os dois foram interrompidos por um rosto que surgiu no canto do container, logo atrás de Alice. Daniel viu e imediatamente empurrou a garota para trás. Ela caiu de costas no chão e sentiu bastante dor, mas o empurrão a fez desviar de um tiro: era o pessoal da Alma Perdida, haviam encontrado Daniel e Alice de novo.

Daniel começou a se jogar de um lado para o outro, num completo desespero e com bastante agilidade. A arma, apontada, o seguia de lá para cá, mas os tiros não o acertavam, pois era grande a habilidade que Daniel tinha de escapar de seja lá o que for. Na fração em que o inimigo se pôs a recarregar a pistola, Daniel puxou Alice com a maior força e logo estavam os dois caídos na água.

O Porto do Comércio se rodeava do mar aberto, com águas muito tranquilas, salvo tempestades. Haviam histórias de grandes e velhas criaturas que viviam nas profundezas da região, mas poucas pessoas levavam isso a sério – Daniel e Alice estavam seguros na água, que os protegia dos tiros. Ele olhou para trás e viu o pessoal da Alma perdida se jogando para persegui-lo, mas quando olhou para frente ele viu, finalmente: o navio dos seus patrões!, para onde deveria levar Alice.

O navio tinha dezenas de círculos vermelhas pintados numa linha horizontal que cobria toda a carapaça, mais círculos vermelhos (estes colossais) pintados nas velas, e outro grande círculo vermelho pintado numa bandeira branca presa à proa. Esse era o visual padrão de todos os navios do Império Sagrado, na verdade, e eram todos assim pois os Sacerdotes gostavam de coisas extravagantes que deixassem claro quem eles eram – e eles eram, ou pelo menos diziam ser, os únicos e verdadeiros servos de Deus, e apesar de pouca gente acreditar nisso, eles tinham grande fortuna e poder político.

Daniel chegou com Alice às escadas de corda que pendiam da lateral. Ela não fez esforço nenhum para subir, e Daniel precisou segurá-la pelo braço e se agarrar com o outro à escada enquanto os Sacerdotes puxavam ambos lá pra cima. O pessoal da Alma Perdida parou na água e ficou olhando pro navio, resmungando e desconcertados, até finalmente darem as costas e nadarem de volta para o Porto do Comércio.

Os Sacerdotes tinham um grande problema com o pessoal da Alma Perdida, e também com Alice, Daniel e todos os outros humanos com almas poderosas. Eles afirmavam que atos como passar a alma de um corpo para outro desagradava Deus, e portanto faziam tudo para impedir esse tipo de coisa – inclusive abrir exceções e contratar um ou outro, como Daniel. Eles pensavam que era melhor pagar um para prender vários, que deixar escapar todos.

Por hora, Daniel estava seguro. Os Sacerdotes não o deixariam ficar muito tempo no navio agora que Alice estava lá, de modo que e o serviço fora completo. Era pegar o pagamento e sair para encontrar um novo corpo e um meio de deixar o Porto do Comércio, pois o pessoal da Alma Perdida agora reconheceria o corpo do pai de Alice que estava utilizando.

Os Sacerdotes começaram se aproximaram e algemaram Alice. Começaram a conduzir a garota, mas Daniel ainda estava perturbado e pediu que esperassem. Perguntou novamente à Alice como foi que ela descobriu que era ele, e o que ele havia feito de errado que o entregara, mas a garota mais uma vez apenas respondeu que ela era mais velha e mais sábia, e que apesar disso ele havia se saído muito bem. Então ela se foi, levada pelos Sacerdotes, e Daniel saiu do navio para encontrar um novo corpo no Porto do Comércio.


Atualização 12/04: Duas semanas depois desse texto ter sido publicado eu escrevi outro explorando o início dessa mesma história. Leia “O Porto do Comércio” clicando aqui.

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DOIS problemas com backup em UMA semana. Dois últimos textos perdidos. Ó vida cruel!

Blah.

Não é a primeira vez, e antes fosse a segunda, mas santa estupidez! Quão problemáticos  os backups podem ser?

No começo da semana fui entrar no site, esse blog cheiroso no qual escrevo, e me deparei com alguns posts faltando. Eis que, investigando um pouco mais, percebi que todos os posts feitos depois do penúltimo backup foram perdidos.

Claro que não faço a menor ideia de como diabos isso foi acontecer, mas por alguns motivos absolutamente satânicos esse penúltimo backup (feito no início de janeiro/2017) foi restaurado ao site. “Não temas, Keven Fongaro!” pensei eu quando me lembrei que tinha um backup do dia 08/02/2017 guardado no computador.

Fui lá eu, tranquilo, recuperar meu backup mais recente e corrigir o que quer que houvesse acontecido ao blog, e PLAU. Dios mio. O último backup estava idêntico ao penúltimo.

E é isso aí. Por mais que eu passe meu tempo tentando recuperar o backup novo, só aparece no site os posts salvo da penúltima vez. Pelo que me lembro, perdi dois textos que havia postado aqui, “O Vinho Dos Trols” e “Os Reis no Jardim da Senhorita Vivian”.

Agora, a perda desses dois textos me é muito, muito, mas muito sofrida. Passei os últimos meses estudando e refletindo sobre estrutura narrativa e tudo o mais sobre como contar histórias da melhor forma possível, de modo que entre um texto e outro existe uma diferença gritante. Isto é, não só eu considerava esses dois textos perdidos muito melhores que os textos que continuam no site, mas ao perdê-los também perdi o registro; não tem mais como, em algum momento do futuro, eu lê-los pra poder perceber o quanto minhas capacidades mudaram.

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Ah, mas não é só isso, ah, antes fosse! Também tive que formatar o computador três vezes nos último três dias. Ó, dor, foram dois dias tristíssimos. Por vários momentos pareceu que eu havia perdido tudo o que estava no computador, e como uso o mesmo HD desde meados de 2011, a perda seria absurdamente grande.

O ponto é: hoje consegui resolver o problema do computador sem perder nenhum arquivo, então tô finalmente respirando aliviado quanto a isso. Mas os dois textos do blog se foram, escafederam-se para sempre. Uma grande perda, inestimável; para mim, um luto, na verdade. Ô, vida.

Meu mais novo método para lidar com esses backups malditos:

  1. Fazer a cópia.
  2. Checar se a cópia foi feita com sucesso.
  3. Checar se o novo backup não é idêntico a algum antigo. [Novo™]
  4. Fazer cópia das cópias em vários dispositivos diferentes.
  5. Fazer upload em algum site, no momento uso Dropbox pra isso.
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A Quase-Criatura

Beeroi puxou as portas traseiras da van da Companhia Antipragas Intergalática, se colocou para fora e deu uma bela olhada nos céus daquela cidadezinha.

– Mas que diabos, Fischer? – Ele disse para o motorista. – Não tem dragão nenhum aqui.

– Pelo visto não tem mesmo, não. – Respondeu Fischer, colocando a cabeça pela janela.

– Planeta três do setor vinte e sete. Você parou no lugar certo?

– Sim.

– Subtrópico um, rua vinte e três, casa dois. É isso?

– É.

– Talvez você tenha se perdido de novo. – Beeroi guardou a arma nas costas, frustrado com a falta de dragões sobrevoando o local.

– Não, Beeroi, depois da última vez falei com meu médico e instalei um GPS. – Fischer indicou com o dedo o lóbulo da orelha esquerda. – Melhor ir perguntar ao morador. Paramos em frente a casa certa. Chamada alegando “praga de dragões”, é aqui.

– Fique aí, e deixe a van ligada. – Disse Beeroi, e caminhou para o portão da Casa Dois. – Esses idiotas, sempre nos fazendo perder tempo que poderíamos gastar lidando com dragões de verdade.

Fischer recolheu os propulsores da van, apertou o lóbulo esquerdo e sintonizou nas rádios do planeta para apreciar a música local.

*****

O chamado havia sido feito por um homem velho e pobre, notadamente pelos trapos que usava como roupa, peças que não eram mais produzidas pela Companhia  Intergalática de Tecelagem desde o fim do século XXIII.

– Ah, eles estão no meu porão, senhor.

– O que?! Isso é impossível!

– Não, eles estão lá mesmo, senhor.

– Eles são grandes demais pra caber no seu porão.

– Esses são bem pequenos, senhor.

– Eu trabalho na Divisão que cuida dos dragões desde que ela foi criada. Não existem dragões pequenos. E não precisa me chamar de senhor.

– Desculpe. Mas existem sim, senhor. No meu porão.

Desceram ao porão.

Da entrada, os olhos de Beeroi mapearam o local, surpresos com as criaturas que observavam.

– Eu te falei, senhor, dragões.

– Isso não são dragões, definitivamente. Não precisa mesmo me chamar de senhor.

– Bem, senhor, – O velho não podia evitar, aparentemente. – eu sei que são uns dragões bem esquisitos…

– Não são dragões! Tudo bem, eles tem asas de dragão, focinho de dragão e cauda de dragão. Mas quanto eles tem de altura? Cinco, sete centímetros? – Beeroi tentou puxar algo da memória por alguns segundos. – Até hoje só catalogamos dragões de uma espécie, e eles são bem grandes. Isso aí… Não sei o que são, mas não são dragões.

Haviam inúmeras das pequenas criaturas. Ocupavam todo o porão, e não moviam sequer um centímetro, como se estivessem paralisadas. Beeroi perguntou se os seres estavam mortos e o velho respondeu que não, porque haviam mais agora que antes. De alguma forma estavam se reproduzindo. Beeroi sacou das costas algo que parecia uma luneta, apontou-o para uma criatura e pulverizou-a imediatamente.

– Interessante… Seja lá o que forem essas coisas, consigo matá-las. – Apertou um botão no lado da arma e ela fez um rápido e crescente som agudo, num esforço para concentrar energia para um próximo tiro. – Fui enviado pela Companhia Antipragas Intergalática porque reportaram um surto de dragões. Não tem dragão nenhum aqui. Mas farei o favor de limpar o porão para você.

– Obrigado, senhor…

– Poderia ir lá fora e chamar meu motorista? – Beeroi podia apertar o lóbulo, mas era melhor tirar o velho do porão. – Peça para ele o equipamento de captura, vamos precisar levar um desses pra análise.

Beeroi abriu um sorriso e começou a matança enquanto assoviava uma cantiga qualquer e esperava por Fischer e o equipamento de captura.

*****

No laboratório que havia nos fundos de sua casa, Beeroi observava o comportamento da criatura no ambiente controlado, uma gaiola de vidro reforçado e cheia de furos minúsculos, ainda menores que o tal ser, para permitir a passagem de ar. O pequeno dragão, ou qualquer coisa que se parecia muito com um, ainda não havia movido um músculo.

Dragões eram a especialidade de Beeroi, e ele nunca havia visto nada assim. Era pequeno demais. Era como um… Quase que perfeitamente, mas não completamente. Tinha a pele escamada, tinha as duas protuberâncias na cabeça que pareciam chifres, e tinha o pescoço curvado em forma de S, exatamente como dragão. Mas não era um dragão. Era pequena demais.

Beeroi apertou o lóbulo da orelha esquerda e fez uma ligação.

– Estou começando a achar que isso é realmente um dragão, Fischer.

– Isso mudaria algumas definições, não?

– Mudaria, mas não tenho outras opções.

– Bem, e as comparações?

– Cem porcento. Fisiologicamente, os dados batem cem porcento em todos os aspectos testados. – Apertou o lóbulo e do outro lado da linha Fischer absorveu uma série de informações sobre dragões e a tal criatura que se parecia com um. – Confere você.

– Fascinante. Ele tem até a proporção entre o tamanho da cauda e o comprimento do pescoço.

– Tem. As esporas, as quinas das asas, a lingua bifurcada, tudo. Fischer, é espantosamente idêntico. – Beeroi deu com os ombros e continuou. – Não fosse o tamanho, biologicamente, quer dizer, em termos de fisionomia, não haveria dúvidas…

A criatura se apoiou nas patas traseiras e deu passos para frente, algo que Beeroi, em toda sua experiência, nunca havia visto dragão algum fazer. Seus olhos se apertaram, extremamente confusos.

– Entretanto, – ele prosseguiu, se aproximando e batendo com a mão contra o vidro. Mais nenhum movimento, a criatura estava paralisada novamente. – O comportamento é bastante curioso. Completamente esquisito.

– Ah.

– O comportamento é certamente de algo que não é um dragão.

– E como é?

– Acabei de o ver se mexer pela primeira vez, na verdade. Parado demais pra ser um dragão.

– Realmente intrigante, Beeroi. – Fischer parou pra pensar por alguns segundos. – E aí?

– Temo que vai morrer. Não comeu nem bebeu nada.

– Quê?

– Pedaços de ratos, maçãs, cobras, frangos, laranjas, coelhos. Leite, álcool, água. Não se interessou por nada, e não sei mais com o que testar. Nem uma mordida, lambida, cheirada, nada mesmo.

– Ah, que pena. A Companhia Antipragas Intergalática não tem uma divisão pra lidar com espécies desconhecidas? Repassa pra eles.

– Virou pessoal, Fischer. – Respondeu se jogando numa cadeira. – De qualquer forma, se for um dragão, é responsabilidade minha, se não for um dragão, é algo que se parece muito com um, e também é responsabilidade minha. – Suspirou. – Descobrirei. Amanhã a noite devo conseguir algo.

*****

De manhã, Fischer chegou com a van da Companhia Antipragas Intergalática à casa de Beeroi para começar o expediente.

– Deixei os computadores rodando umas análises. Quando voltarmos saberemos mais detalhes.

– Ah, não quer me deixar entrar e dar uma olhada?

– Claro. – Disse Beeroi.

Fischer desligou a Van.

Quando entraram, o quase dragão estava com uma coxa de galinha na boca.

– Caramba, Fischer, tá comendo!

– Não, só tá com a coxa encaixada na boca. Ainda tá inteira.

O quase-dragão cerrou o maxilar e cravou as presas na coxa de galinha. Penetraram a carne e certamente atravessariam se fossem maiores. A criatura começou a se transformar, e suas pequenas patas tornaram-se pequenas pernas, ao passo que seu pequeno focinho tornou-se um pequeno bico e seu pequeno par de chifres tornou-se uma pequena crista, já a pequena cauda deu lugar a pequenas penas.

O pequeno dragão passou por uma transformação completa, e agora lá estava uma pequena galinha. Quer dizer, era idêntica a uma galinha: tinha pescoço de galinha, peitoral musculoso de galinha, asas de galinha. Era quase uma galinha por completo. Mas não era uma galinha genuína, e não poderia ser. Era pequena demais.

– Ah.

– Ah…

*****

Beeroi e Fischer admiravam o pequeno cachorro na gaiola de vidro no laboratório. Se parecia com o cão que vivia no quintal de Beeroi: tinha as mesmas patas, os mesmos dentes, e até as mesmas manchas pretas no pelo majoritariamente branco. Apesar disso, não poderia ser um cachorro. Era pequeno demais.

– Pelo menos agora sabemos como funciona. É só levar à boca que…

– É, mas não faz o menor sentido. – Disse Beeroi andando pra lá e pra cá, apertando o lóbulo da orelha e fazendo mais pesquisas que gostaria. – Não acho nenhuma informação sobre nada do tipo em galáxia nenhuma. Não faz sentido mesmo.

– Não. Quer testar com algumas criaturas mais esquisitas?

Beeroi deu de ombros.

– Claro.

Entraram na van e foram buscar algumas criaturas mais esquisitas.

*****

A van estacionou e fez sua identificação na base do Planeta Um, do Setor Cento e Quatro, usado pela Companhia Antipragas Intergalática para armazenar exemplares das mais diversas criaturas que funcionários como Beeroi e Fischer coletavam.

– Vamos aproveitar pra dar uma olhada nos dragões? – Perguntou Fischer.

– Nah, aquele setor não é atualizado há séculos. – Respondeu Beeroi. – Da última vez que capturaram uma espécie nova eu nem… Eu nem… Ah, na verdade só capturaram uma espécie nova uma única vez, e foi quando ainda não havia nenhuma por aqui.

– Triste pra você, imagino.

Beeroi apertou a orelha.

– Dizem que o pessoal da Divisão Três descobre algo novo em cada chamada que atendem. Vamos ver o que eles têm colocado lá.

*****

A Divisão Três da Companhia Antipragas Intergalática realmente tinha sua parte no planeta-armazém lotada de criaturas esquisitas.

Eles eram responsáveis por atender aos chamados com criaturas não identificadas. Vez ou outra alguém ligava para a Companhia, e a conversa dava num ponto assim:

– Qual o problema, senhor? – Dizia a atendente da Companhia.

– Não sei. – Dizia o cliente.

E lá ia o pessoal da Divisão Três. Cuidavam de qualquer chamada em que o cliente não soubesse dizer com qual praga teriam que lidar. Quase sempre chegavam e davam de cara com algo tão comum e clichê em outro ponto da galáxia que se entediavam de ter que realizar o trabalho, mas se alguma Divisão realmente tinha chances de encontrar algo novo, era a Divisão Três. A divisão de Beeroi nunca encontrava algo novo.

*****

A galáxia era muito vasta, e Beeroi e Fischer comprovavam isso admirando as incontáveis criaturas nas gaiolas do pessoal da Divisão Três. O pequeno ser que haviam capturado numa chamada que alegava “praga de dragões” deveria estar ali, mas esperava no laboratório de Beeroi.

Aquelas não parecem com nada. Nojento. – Disse Fischer apontando pra uma gaiola à esquerda.

– Não, não parecem. Não parecem cachorros, pelo menos. Nojento de fato. – Respondeu Beeroi; os olhos admirados com a visão confusa.

– Elas não parecem enguias também, cara. Nem duendes. Nem bestas de hidrogênio. Nem águas-vivas.

– Nem gatos.

– Nem gatos-da-água, nem aqueles gatos-voadores que nos empurraram por engano no outro dia.

– Não. Olha aquelas… Patas?

– É. Elas parecem escorrer. Estão mais pra tentáculos, eu acho.

– Focinho esquisito. Vamos levar e testar no quase-dragão.

– Atualmente, quase-cachorro. Quase-seu-cachorro.

– É. Ainda estou frustrado por não ser um dragão.

Voltaram para a Van com um clone da criatura esquisita numa gaiola.

*****

Jogaram o ser bizarro na gaiola do quase-cachorro, que sequer se moveu quando a criatura contorceu seus tentáculos e se arrastou enquanto cheirava tudo. Quando se aproximou do quase-cachorro, foi abocanhada de repente: as presas afundaram e uma transformação aconteceu.

A criatura capturada por Beeroi agora era duplamente mais esquisita do que jamais fora: tinha tentáculos, um focinho desproporcional e saltado do corpo, duas cavidades no topo da cabeça e algo que parecia uma língua que ficava pra fora. Parecia muito ser da mesma espécie da criatura que pegaram do pessoal da Divisão Três, mas não era. Era muito pequena pra ser da mesma espécie.

E pequena o suficiente pra conseguir deslizar seu corpo flácido por entre os buracos para passagem de ar da gaiola. Pela segunda vez, demonstrou algum comportamento que não consistia em enfiar os dentes e se transformar na criatura mordida. Escapou da gaiola.

*****

O pequeno ser esquisito caiu no chão como uma fruta podre, e usou seus tentáculos para deslizar com uma agilidade surpreendente pelo laboratório.

Beeroi e Fischer cambalearam para trás, porque suas pernas foram pegas de surpresa e não sabiam se corriam até uma porta ou o quê. Tropeçaram aqui e ali, soltaram uns palavrões e olharam desesperados ao redor, procurando alguma arma.

Fischer caiu e bateu a cabeça de maneira completamente patética.

Beeroi havia deixado uma arma numa mesinha de canto, e logo que pôde raciocinar se pôs a caminhar até ela. Deu dois passos e no mesmo tempo a criatura escorreu pelo chão até suas pernas, em alta velocidade.

Beeroi chutou com toda a força que pôde.

A criatura cravou os dentes com toda a força que pôde.

E lá estava.

Agora tinha um par de pernas com joelhos flexionados, cabelos castanhos que cobriam a testa, polegar opositor e um nariz desproporcional. Parecia muito com Beeroi, um humano. Mas não era um humano, não podia ser.

Era pequena demais pra ser um humano.


Penso que esse texto foi indiretamente inspirado parte pelo Sandkings, do George R. R. Martin, parte pelo I Hate Dragons, do Brandon Sanderson. Dois textos de mais alto grau de sensacionalidade, recomendo ambos demais. :)

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A flauta de Romeu

Atualização 19/06/2017: Eu escrevi uma análise na qual eu tento identificar os problemas com esse texto e consequentemente suas causas e possíveis soluções. Aqui está: Analisando a vergonha que sinto de velhos textos: A Flauta de Romeu.


Havia uma vila na qual todos os jovens precisavam passar por um ritual para que pudessem se tornar magos. O ritual consistia em visitar o velho Babel, fazer o que quer que fosse que ele te ordenasse, e receber como prêmio um flauta que ele especialmente te fabricaria enquanto cumpriste tua tarefa. Nunca jovem algum havia deixado a casa de Babel sem carregar consigo a própria flauta, e Romeu, que estava em dia de enfrentar o ritual, não queria ser o primeiro a não ter o instrumento que lhe daria a Magia.

Ele chamou do lado de fora e logo o velho Babel abriu a porta e o convidou para sentar-se à mesa. Haveriam de apreciar um chá de hortelã com canela enquanto Babel decidiria a tarefa que Romeu deveria cumprir, e para tomar a mais sábia decisão, certificou-se de aprender os defeitos de Romeu através da conversação. O vai e vem das frases se arrastou mais que o esperado, e só depois de algumas horas Babel se deu conta de algo que presenciava pela primeira vez: a fraqueza do jovem estava no diálogo em si. Ele demonstrava excessivo interesse, e fazia muitas perguntas sobre a Magia, sobre as flautas e como elas funcionavam. O jovem Romeu não consegue utilizar a Magia porque tem ganância e desejo de conhecê-la, pensou o velho Babel.

Dali não levou muito a elaborar a tarefa, e pediu que Romeu o acompanhasse. Abriu uma porta e mandou que Romeu entrasse, dava num quarto vazio e com paredes de madeira e brancas. Uma imensa massa de calor se deslocou por eles e saiu para fora do quarto, como que se a porta fechada prendesse do lado de dentro muito mais ar do que havia do lado de fora. Romeu balançou para os lados e para trás, fez força nos pés e não caiu, mas suas sobrancelhas se mostraram impressionadas e espantadas com aquela força que fluiu por todo seu corpo; Babel apenas caminhou até o centro do quarto como se nada houvesse ali capaz de lhe abalar as estruturas. Com os dois sós, o velho disse assim:

– Romeu, passarás aqui três dias e três noites. Não te preocupes com comida e bebida, mas apenas em manter o silêncio. Veja as paredes brancas, aqui reina a Magia, eu garanto, e o quarto é vazio: nada há para perturbar sua Magia a não ser tu mesmo. Três dias, Romeu, e isso não irás fazer.

A porta se fechou e Romeu passou três dias em silêncio. Não disse nada, e tratou de ficar parado para que o corpo também se calasse. O mais difícil, porém, aconteceu depois: o velho Babel não voltara após os três dias. A luz começava a entrar por baixo da porta indicando uma quarta manhã, e nada do velho. Romeu esperava que aparecesse após os três dias, mas não veio, e resolveu que esperaria até o fim do quarto.

Chegada a quarta noite, o garoto se repetia as palavras de Babel: Romeu, passará aqui três dias e três noites. Ele o fez, e agora a pergunta que lhe intrigava era se deveria sair por conta própria. Ou haveria o próprio velho de abrir a porta? Pensou para concluir que, de um jeito ou de outro, a tarefa dada já estava cumprida, e era outra questão se importaria o que acontecesse depois dos três dias inicialmente demandados.

Mesmo com a certeza de ter realizado o dever, Romeu temeu cometer uma atitude desengonçada e arriscar perder sua flauta por causa dela. Ah, se quebrar o voto de silêncio no quinto dia e o velho resolver que isso seria uma boa razão para negar a flauta, pensou Romeu, ficaria sem a Magia… Passou o sexto e o sétimo ponderando da mesma maneira, mas no oitavo dia resolveu se levantar: não falou nada, e nem abriu a porta, mas caminhou pelo quarto enquanto pensava consigo a razão da demora.

– Como poderia estar ficando minha flauta? Deve ser mesmo muito trabalhoso fazer as flautas assim, com Magia e tudo…

Essas palavras foram suspiradas baixinhas por Romeu em algum momento da oitava tarde. Àquele mesmo tempo, o velho Babel colhia galhos para uma fogueira na floresta do lado de fora da casa, e as paredes brancas trataram de levar aquele pensamento alto até ele. O velho, sozinho, ouviu o sussurro dos ventos e respondeu com risos a pergunta que Romeu havia feito a si mesmo: decidira ainda no primeiro dia que não faria flauta nenhuma para o garoto.

A décima quarta noite foi para Romeu mais escura que todas as outras. Nela, decidiu que esperaria o dia seguinte, e se fosse o caso do velho não voltar iria ele mesmo abrir a porta e sair. Toda a monotonia o fez pensar se era assim tão importante sair de lá com a Magia, afinal ela reinava naquele quarto e suas paredes eram brancas, e não havia nada lá que não fosse ou sua própria presença ou meramente a ausência de algo do lado de fora da porta: realmente não precisou se preocupar com comer e beber porque sua fome e sede eram saciadas sem que precisasse abrir a boca, mas havia outras coisas pelas quais ainda sentia desejo.

Na manhã seguinte, Romeu acordou e tomou como primeiro ato um grito libertador. Não foi palavra porque não tinha nenhuma a dizer, apenas abriu a boca e deixou que o palato vibrasse com o que quer que fosse o som que estivesse com vontade de escapar. Girou tranquilamente a maçaneta da porta e não se espantou ao perceber o velho Babel sentado numa cadeira o encarando, como se o esperasse naquela mesma posição há dias.

O silêncio dominou tanto lá quanto dominara dentro do quarto, e os dois deixaram que os olhos se encarassem um pouco. Romeu não fez nenhuma pergunta; na verdade, os segundos se passaram e ele já se sentia constrangido. Ambos perceberam a Magia reinar no local e fluir de um ponto a outro por todos os lados. Romeu estava pronto pra continuar andando e deixar a casa quando o velho Babel se pôs de pé da cadeira. Ele levantou uma das mãos e disse as palavras que encerrariam aquele ritual:

– Romeu, eu não lhe fiz nenhuma flauta. Você não precisa de uma.

Romeu seguiu seu caminho, e entre um passo e outro apenas respondeu:

– Eu sei.


Atualização 19/06/2017: Eu escrevi uma análise na qual eu tento identificar os problemas com esse texto e consequentemente suas causas e possíveis soluções. Aqui está: Analisando a vergonha que sinto de velhos textos: A Flauta de Romeu.

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Por um autógrafo

O Aeroporto Interplanetário De Terceira Ordem estava lotado com os aventureiros mais desprezíveis do sistema, todos  se dirigindo para realizar mais uma limpeza étnica que o Governo faria. Em algum canto do Aeroporto havia um garoto que preferia estar em casa, mas se encontrava sentado ao lado do pai, se incomodando com uma multidão de criaturas grotescas que só o incomodaria mais se não estivesse com um Catálogo de Criaturas Desprezíveis do Sistema (Edição Especial Pós-Rebelião-Prisional) em mãos, tentando encontrar lá algum bastardo que estivesse ao seu redor. Achou quase todos.

Seus olhos entediados arregalaram-se no momento em que repararam no impossível-de-não-se-reparar capacete dourado flutuando sobre a multidão: era de Blarg, o ídolo das crianças de todas as espécies, considerado um dos aventureiros mais admiráveis da galáxia porque conseguia fazer seu trabalho sem entrar pro Catálogo de Criaturas Desprezíveis do Sistema – e ainda assim ali estava ele, dividindo o saguão do aeroporto com todos os outros. O garoto não pôde senão se colocar de pé, usar uma mão pra segurar a própria cabeça no lugar e a outra pra apontar enquanto gritava:

– Aah! Ma…Mab lá la… É! Aque… Ta!

Estava tão afetado que as palavras não conseguiram sair da sua boca de uma forma que fizessem sentido; ao menos não para ele, porque esses murmúrios fizeram um aventureiro alienígena no banco ao lado se emocionar ao ouvir versos tão famosos em sua língua serem pronunciados por uma criança. O garoto deu quatro passos desesperados em direção ao famoso Blarg e seu capacete dourado, mas freou ao perceber que estava quatro passos mais próximos da multidão de criaturas desprezíveis.

Uma breve pane cerebral o fez dar uma bela olhada nas bestas que teria que enfrentar pra chegar a Blarg. Um grupo de Minhocas D’Água se arrastava pelo chão (que evidentemente não tinha água nenhuma) com um esforço fantástico que deixava pra trás uma gosma amarela suposta a desaparecer no habitat. Três Cachorróides cheiravam a gosma enquanto dois homúnculos felpudos comentavam o fato. Um androide empurrava um carrinho cheio de peças sucateadas, talvez pedaços dele mesmo. Uma imensa bola de gordura contava piadas para uma Moscazona entediada. Um grupo de homens-com-braços-extras brigavam num círculo. Nenhum deles estava injustamente no Catálogo de Criaturas Desprezíveis que o garoto trazia consigo, mas o capacete dourado de Blarg já estava desaparecendo no fim do corredor, onde dava uma sala de embarque. Era se enfiar na multidão ou perder a oportunidade.

Seus pés realmente não queriam caminhar por entre aquela escória, então a primeira coisa que trataram de fazer quando o garoto começou a correr foi de se prenderem na gosma das Minhocas D’Água. Pisou com tanta força que o plasma esverdeado se impregnou nas ranhuras das solas dos sapatos. Isso o obrigou a, logo de cara, enfrentar uma fétida catinga que pairava naquele ponto, talvez vinda da cozinha do Restaurante Atômico No. 1, que servia pratos para criaturas fotossintetizantes que nunca pediam nada além de criatividade e ousadia nas refeições que jamais comiam, ou talvez o cheiro viesse das próprias criaturas fotossintetizantes enfiadas no chão do lado de fora, limpando suas armas.

A travessia seria longa com os sapatos insistindo em grudarem no chão a cada passo, e o fedor estava insuportável. Tirou alguns segundos para acenar a mão num gesto particularmente ofensivo às criaturas fotossintetizantes, e foi o momento em que viu que Blarg estava para entrar na sala de embarque e soltou um grito com seu nome com toda força que pôde, mas o aventureiro não ouviu. Observando a luta do garoto, um dos homens-com-braços-extras se sentiu tocado e resolveu fazer algo: levantou o garoto e começou a carregá-lo até Blarg. O momento do toque foi tão desgostoso  e nojento que o garoto se encolheu sobre si mesmo e se perguntou se valeria a pena passar por isso. Pensou que sim, porque viu uma Moscazona chamando a atenção de Blarg para ele.

O garoto, suspenso por quatro dos braços extras que o homem possuía, olhava para Blarg enquanto este se virava para onde a Moscazona apontava com suas antenas. Houve uma mágica troca de olhares entre a criança e seu ídolo que fez seus olhos brilharem por reconhecerem a unicidade do momento. Impagavelmente, foi colocado no chão e ficou paralisado enquanto Blarg se aproximava.

Parado diante do aventureiro que tinha três ou quatro vezes seu tamanho, deixou o descrente queixo despencar. Blarg parou e tirou o capacete para que seus cabelos fossem chacoalhados pelo vento e eternizassem a memória do garoto, depois se ajoelhou e usou a mão esquerda para lhe acariciar o cabelo. Era a mão que usava para puxar algemas da cintura; a outra, naquele momento, serviu para deixar um autógrafo na camisa do pequeno fã.

Blarg e seu capacete dourado voltavam a entrar na sala de embarque enquanto o garoto esticava as barras da camisa para baixo com olhos esbugalhados de admiração. Era uma camisa de algum Time Interplanetário de Boliche Submarino, esporte que não praticava por não ser uma criatura submarina, e justamente por isso achava tão fascinante de assistir. Ia voltando para seu banco com um sorriso que ia de orelha a orelha, sinalizou um dedão levantado para o homem-com-braços-extras que o ajudara, e este respondeu com seis dedões – era um bom homem-com-braços-extras, os usava muito bem, afinal, não era tão desprezível quanto o catálogo representava.

A satisfação com o autógrafo era tamanha que passou pelo Restaurante Atômico sem sequer notar o cheiro que impregnava o ar, e não só desviou da gosma das Minhocas D’Água, como também fez carinho nos Cachorróides que fungavam aqui e ali. Com olhos alegres, se acomodou no banco e voltou a admirar o autógrafo na camisa. A multidão de criaturas desprezíveis parou por alguns segundos e voltou seus olhos ao garoto, cada qual refletindo a curiosa beleza que havia naquele ato ingenuo.

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Água, Grama e Vento

Quando terminou de ler a palavra “ostium“, incluiu por conta própria um “pronto, é isso?” e imediatamente seu corpo fora envolvido por águas que entraram pela janela. Ao mesmo tempo, o livro fora puxado para longe de suas mãos.

Os olhos do rapaz se esbugalharam ao ponto de parecerem estar decidindo se continuariam ali ou se fugiriam para descobrir o que havia além daquela verde planície interminável. Ele, como constatou ao girar a cabeça desesperadamente para todas as direções, estava cercado por uma grama baixa que se estendia para além do horizonte, e o que quer que houvesse lá estaria muito bem iluminado pelo sol-de-meio-dia que ali reinava.

Cobriu as orelhas com as palmas das mãos e deixou o queixo cair até onde as cartilagens fossem capazes de segurar. Fechou o queixo, apontou para frente. Olhou para trás e não havia ninguém para olhar para onde apontava, então apontou para lá também. Voltou as mãos às orelhas e começou a correr em círculos, se jogou no chão e admirou o céu – quase foi cegado pelo Sol, mas comprovou que o que havia acima de si era azul e não branco, como era o teto de seu quarto. Levantou.

– Funciona, funciona! Quem diria, aquele maldito livro! Inacreditável!

Correu na direção em que nariz apontava, encheu o pulmão de ar e gritou separada e longamente cada uma das seguintes sílabas:

– Ah, ah! I-na-cre-di-tá-vel!

E continuou assim por alguns segundos, exprimindo a surpresa de vivenciar suas expectativas sendo provadas incorretas. Já havia corrido por uns bons muitos metros e o horizonte continuava sendo apenas gramado em todas as direções; parou, tirou o sorriso do rosto e se pôs a analisar o que via. Olhou para a própria mão direita.

– Caramba… – Disse baixinho para si mesmo, suspirando. – O livro não veio comigo…

Voltou a correr. Correu até cansar, e quando caiu foi porque o corpo não tinha mais forças para se manter em pé. Suas pernas talvez estivessem se perguntando quanto mais teriam que correr até os olhos verem algo que não fosse grama.

– Como faço pra voltar? – Gritou com toda a força possível, e sequer ecos voltaram para si. – Como… Faço… Pra… Voltar?

Contemplou um pouco mais o que o cercava e se pôs a caminhar. Parou quando o céu passou de azul para laranja; a noite estava chegando e estava ali preso, sem o livro que o trouxera e sem mudanças no gramado. Sem respostas para seus gritos, também.

– Maldição… – Assim sussurrou, e depois gritou: – Maldição! Maldito! Maldito livro! Magia, tola!

Sentou e continuou a blasfemar, mas se tornara inaudível por causa das poderosas rajadas que se apoderaram do ambiente. O ar corria pelo interminável gramado com a velocidade de um leão, e o peso de um elefante. O rapaz não pôde fazer nada além de se encolher sobre o próprio corpo, contra aquilo não haveria como lutar.

Os minutos se passavam, mas a ventania também era sem fim, como o agora saudoso verde. Se antes queria voltar para casa, agora gritava que queria voltar à calmaria  que encontrara quando chegara ali, mas não adiantava, quanto mais gritava pedindo ao vento que o deixasse em paz com a grama, mais o ar lhe cortava as costas.

Em baixo de si as folhas estavam deitadas para frente, trêmulas. Fixou os olhos naqueles pequenos movimentos e ficou em silêncio. Viu que algumas das folhas eram arrancadas pelas rajadas, e seus olhos se fecharam por conta própria porque não queriam mais ver aquilo.

Começou a abrir a boca para suspirar algo, mas gotas de água surgiram da grama até se reunirem em quantidade suficiente para envolverem seu corpo. Percebendo isso, abriu os olhos para mais uma vez reconhecer a grande mudança que acontecera ao redor de si. A ventania parou, e a grama não estava mais lá; o livro, entretanto, caído no chão e aberto na primeira página.

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A Bruxa e o Saco de Penas

Havia um vilarejo entre um riacho, de onde os moradores tiravam do que beber, e uma floresta, de onde conseguiam os animais que criavam para comer. A harmonia reinava, e tudo e todos tinham sua função muito bem definida: Neves era o padre do vilarejo, Ernando era o plantador de cenouras, Bento era o contador de histórias, e havia até uma Bruxa, Fátima, responsável por fazer uma maldade aqui e ali para que os moradores pudessem reconhecer o bem.

Todas as manhas, a Bruxa, bem como todos os outros, era acordada por Romeu, o garoto que saía da cama antes do sol nascer e tinha a tarefa de acordar toda a comunidade no horário que fosse adequado para cada um. Ele havia herdado essa função do pai, que lhe ensinara a usar o sol e a lua como relógios, e a própria força de vontade como despertador. Assim, ele sempre acordava quando queria e nunca errava a hora de atrapalhar os sonhos de alguém.

Certo dia Romeu corria pelas vielas indo acordar a Bruxa, o que seria seu último trabalho naquela manhã, quando num momento de distração o garoto pisou em um buraco e acabou torcendo o pé, se jogando ao chão e se contorcendo. Se estivesse um pouco mais perto, a Bruxa com certeza teria acordado com seu grito de dor.

Romeu se levantou rapidamente, desafiando bravamente as consequências da ferida ferida, pois sabia que de todos os moradores a Bruxa era aquele com o qual não podia falhar. Pensou “ai de mim se não acordá-la!”, e fez o que pôde para cumprir o horário: não podia correr, então caminhou arrastando o pé o mais rápido que pôde.

O pobre rapaz caminhava à passo de tartaruga, e cada vez que olhava para o sol seu atraso ficava mais e mais visível. Até apanhou um galho no chão e o usou como muleta, mas não adiantou e acabou acordando a Bruxa um tanto fora do horário.

– Fátima, Fátima! Acorda! – Gritou Romeu batendo na janela. – Me atrasei, acorda!

De repente, Romeu foi assustado pela porta que se abriu a sua direita. Olhando lá pra dentro não enxergava paredes, cadeiras, janelas, bules, nada, nem mesmo a própria Bruxa. Ninguém fazia ideia do que havia lá porque ela nunca abria aquela porta, mas Romeu agora via que seria impossível dizer a diferença entre o que havia do lado de dentro e a completa inexistência de qualquer coisa.

Entendendo que a porta havia sido aberta especialmente para ele, Romeu estremeceu-se, mas teve coragem pra entrar. Em meio a escuridão, um chapéu, um par de olhos e uma larga boca tornaram-se visíveis.

– Veja bem, Romeu… – Disse a Bruxa. – Me diga o que seu pai lhe ensinou a fazer.

– Acordar os moradores d– E foi interrompido.

– Claro, claro, e me diga, tem mais alguém aqui com essa função?

– Não… É qu– E foi interrompido de novo.

– Então, Romeu, você entende que se não me acordar às oito ninguém mais vai, não é?

– Sim, mas– Uma terceira vez.

– SILÊNCIO! – Fátima voz ecoou pelo vazio da sala. – Entende por quê eu preciso te punir, Romeu? Assim você nunca mais vai se atrasar.

– Mas eu acabei me machucando…

– Eu sei. Por isso seu castigo é ir até a casa do velho Niceno e me trazer as penas de galinha que eu mesma já teria buscado, não fosse por você.

Niceno era o senhor que cumpria a função de viver sozinho e nunca sair de casa, permitindo que os outros moradores criassem as mais terríveis histórias sobre ele. Nem as crianças ou os adultos tinham coragem de perturbá-lo, e apenas a Bruxa ousava visitá-lo e não permitir que o homem perecesse na mais completa solidão.

Quando Romeu respondeu que a punição seria injusta, não só porque teria que lidar com o tenebroso Niceno mas também porque seria doloroso fazer a caminhada com aquele pé, a Bruxa se impôs produzindo um som semelhante ao de trovões. Romeu imediatamente saiu arrastando o pé e se apoiando no galho-muleta.

Apesar do grande incômodo que era andar com aquela ferida, o pior que Romeu enfrentou durante a caminhada foi o crescente medo que o acompanhou. Cada arrastada de pé que o colocava mais perto da casa de Niceno também o trazia um novo pensamento sobre o velho e as lendas que o cercavam. “Será que ele vai tentar me prender?” “Será que ele vai estar usando óculos para disfarçar seus olhos-vazios?” “Será que a Bruxa já havia lhe tirado a maldição que o fazia ter pernas-de-formiga?”

Depois de passar todo o caminho imaginando o mais monstruoso Niceno que pôde, Romeu se viu obrigado a bater na porta e a gritar o nome do velho. Usou o galho-muleta pois a essa altura já estava com medo de encostar na casa e ser contaminado por alguma das maldições da Bruxa. Fátima porta se abriu e revelou um mundo com muito laranja.

Romeu esticou o pescoço e viu uma cortina laranja e um tapete laranja, mas não viu o velho Niceno.

– Entra, entra. Por que a demora? – Uma rouca e cansada voz ecoou lá de dentro e obrigou Romeu a estufar o peito com coragem antes de colocar o pé bom na porta. – Suas penas estão ali ao lado da lareira.

As coisas pareciam ainda mais alaranjadas vistas daquele lado da porta. Havia até uma poltrona laranja de costas para Romeu, que parecia ser de onde vinha a voz do velho. Contornando-a, Niceno finalmente se fez ver por alguém que não fosse a Bruxa e se colocou de pé num instante. Romeu se jogou para trás, ao chão.

– O quê?! Quem diabos é você? Cadê Fátima?

Romeu olhou de baixo para cima e admirou toda a figura do velho que se encontrava de pé diante de si. Ficou boquiaberto com o que viu, foi a visão mais surpreendente que não poderia imaginar.

– Eu sou… Eu… Eu vim pegar as penas… – Disse ele entre gaguejos e respiradas ofegantes.

O velho franziu as sobrancelhas e pareceu extremamente confuso. Ajeitou os óculos e se aproximou do garoto até que seus rostos ficassem a um palmo de distância.

– Como assim, rapaz?

Romeu desmaiou. Quando seus olhos voltaram a abrir, a primeira coisa que viu foi o velho na poltrona diante de si, o observando. Analisou os arredores e percebeu que estava ele mesmo sentado em uma almofada ao lado da lareira e do saco com penas de galinha.

– É melhor esperar, quanto mais esforço fizer mais vai demorar para sarar. – Disse Niceno apontando para a tala que havia feito no pé do garoto. – Agora, está tudo bem com Fátima? Por que não veio ela própria?

– Ah, eh… Eu… Ela… – Romeu ainda estava assustado pela figura do velho. – Ela teria vindo se eu a tivesse acordado na hora certa… Me atrasei por causa do machucado…

– E você achou que seria uma boa ideia vir no lugar dela com um machucado desses?

– Não, ela… É um castigo, eu é que não ia desobedecer a Bruxa, sabe-se lá…

O velho enfiou a cabeça no pescoço e riu baixinho.

– Sei, a Bruxa, sim… – Niceno ponderou por alguns segundos antes de continuar. – Garoto, quando eu tinha sua idade também havia uma Bruxa no vilarejo, quer dizer, outra bruxa, que já morreu há muitos e muitos anos.

– Morreu?! Como ela morreu se era Bruxa?

– Não, não, – respondeu o velho entre risadinhas – acaba que as Bruxas não são assim tão poderosas, eu acho. Aposto que Fátima também não pode muito.

Romeu olhou para o velho sem acreditar que ele ousava falar aquilo da Bruxa.

– Já vi ela fazer feitiços terríveis… – Disse ele.

– Eu entendo. Fátima Bruxa dos meus tempos também fazia esses feitiços, mas nem tudo era mal. Na verdade, as coisas sempre acabavam bem. – O velho olhou para o teto num esforço para resgatar uma memória importante. – Sabia que fui eu quem trouxe galinhas para o vilarejo?

Romeu não disse nada, apenas fixou seus olhos, confusos e admirados, em Niceno.

– As galinhas viviam além da floresta, atrás das montanhas, – continuou ele – e ninguém nunca havia visto nenhuma. Fátima Bruxa me mandou buscar um pouco do trigo que crescia lá perto, como castigo, e acabei descobrindo as galinhas.

O velho Niceno contou tudo sobre as galinhas. Sobre como elas eram ariscas e como levou a tarde toda para conseguir capturar apenas duas, sobre como voltou com amigos para pegar mais, sobre como construiu o primeiro galinheiro e como sua mãe cozinhou a primeira galinha, e sobre como partilhou os animais com todo o vilarejo.

Romeu se admirou tanto com o caso das galinhas, e além do mais Niceno contava com tanto entusiasmo, que os dois passaram o dia todo dividindo histórias bondosas sobre Bruxas. Naquela tarde Romeu descobriu que o velho não era mais que uma antiga criança, e que daquele dia em diante sempre o visitaria para ouvir suas memórias. Saiu levando essa certeza junto com o saco de penas.

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