APoetisaJoanMiro

Desencontro

Se,

se, diz-me o homem. quase sem fim é esta colocação; quase sem esperança; lugar que não será jamais alcançado. sofre o homem. chora, lamenta. ouvem seus gritos no pavilhão acima. cai no chão, rasteja; rasteja da cama à porta, e ao abismo, e salta.

Ela não tem tempo. ele dobra o céu pra dentro do bolso e senta diante dela. olha pra mim! ele diz, eu vou me apresentar pra você que não me conhece ainda. ela ignora, os ouvidos não servem pra ouvir aquelas palavras. ele não se incomoda. canta duas notas, e três, e tantas. mas … ela não tem tempo, precisa ir embora. a casa urge uma limpeza. o jardim precisa ser regado. a esperam no trabalho no outro dia de manhã. ainda precisa tomar um banho e descansar um pouco. ainda tem que ler. gostaria de assistir algo antes de dormir. mas, mas, ele ignora tudo isso, não sabe sequer o fato: ela não tem tempo. ele continua cantando. não entra pelos ouvidos.

Em casa, ele chora. desdobra o céu do bolso e chora em cima dele. todos lhe abraçam e dizem que não há problemas no mundo, que ele agora não precisa se importar mais com os quereres da vida. e ela, resolve não lavar o cabelo. deita na cama e pensa na família. não quer ninguém agora.

The Church at Auvers Van Gogh

O tempo passa

eu sou deusa, eu sei de tudo, e vejo tudo e conheço todas as coisas. e sou triste. preciso dizer, eu sou triste. sou triste por ele e por ela; as coisas não acontecem jamais e eles vivem dias compridos. e eles sentem o tempo passando por cima deles. parece que dói.

olho e vejo diante dele uma estrada. Ele espera. Um dia prometeu que cruzariam seus caminhos, e nunca essa oportunidade foi concedida; abstenho, eles não tiveram a sorte. vem alguém de bicicleta. vem alguém correndo. alguém, vem alguém. sempre alguém. e enquanto continua assim, a estrada cresce e cresce, e vai dar cada vez mais funda no céu. pra ir embora fica mais difícil. o caminho é maior, ele não tem essa força toda pra chegar no fim. não tem jeito; eu diria, não tem jeito pra ele. vai ter que ficar parado. esperando e esperando. sozinho.

longe de lá ela passeia pelas florestas. duas, três, mil florestas ela visita. em cada floresta conhece as árvores, e a cada árvore faz uma nova promessa. e agora ela prometeu ao mundo todo e não pode mais escapar disso. deve para sempre visitar as florestas e cumprir sua palavra, ou então vai deixar as árvores chateadas. não se pode chatear as árvores; elas nunca esquecem e contam umas às outras, e suas raízes vão fundo embaixo das pedras e guardam lá muito bem o nome de todos que gostam e odeiam. e elas passam a odiar muito facilmente quem as chateia. e ela, eu tenho pena dela. sua primeira promessa foi a ele. agora ela não pode respeitar mais o seu primeiro amor. ela não pode respeitar o seu primeiro amor. parece que dói.

ele espera. a estrada cresce. os rios fazem nascer mais árvores; a chuva vem também para ele. ele diz, eu não ligo!, e espera e espera. faz desenhos na areia e puxa do bolso uma sacola; estica e assobia. só os passarinhos escutam. ele acha os passarinhos bonitos, mas não se importa que eles escutem. ela não escuta. está longe, não vem. a estrada cresceu demais. ela ainda cumpre as promessas às árvores; sabe das consequências, não consegue escapar disso. ela faz, não perde jamais as forças. busca honrar as palavras dadas para a natureza. mas ele. ele. ele não tem mais sobre o que pensar. está cansado. sozinho em sua mente. companhias no mundo não o satisfazem mais. não tem para onde ir. o horizonte acabou. pensa, não tem jeito. … parece que não tem mesmo. estou triste. triste por ele. desiste. desiste, rapaz. algum dia vai morrer aí mesmo. e ela que não sabe da sua situação vai continuar cumprindo promessas. a primeira só pode ser a última, se for. vai demorar, no mínimo vai demorar. não adianta esperar. você vai esperar pra sempre e vai morrer. e ela vai ficar cansada de tentar. desiste que eu falo pra ela parar. desiste que eu falo pra ela ir fazer outras coisas. ser feliz. divertir-se. desiste. … é uma pena que ele não me escuta. … a estrada cresce. as árvores nascem e complicam o mundo. ela continua. ele continua. eu repito: o tempo passa pra eles. parece que dói.

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Promessa antiga

Pela floresta ia andando docemente uma moça; e ao redor seis anjinhos cantavam assim:

                    Oh que flores mais lindas!

                    Essas cores nós nunca vimos, e ó!

                    Que cheiros que nunca sentimos!

                    Ara ara, aiaiai mas que lindeza!

E eles dançavam no ar e batiam as palminhas das mãos em seus pandeiros; e estes faziam tí-qui-tch! tí-qui-tch! e todo mundo gostava – até as lagartas que não gostavam de nada (nada no mundo!) nem ninguém; até elas achavam bom; e sorriam e falavam umas para as outras: “Mas que companhia mais bonita!” ou então “donde vem aqueles lá que cantam daquele jeito!”, e aí as outras concordavam, “não é, donde mesmo!” e ficavam todas bestas: oh todo mundo gostava!

E feliz da vida vinha atrás um asno; um asno que não sabia agir conforme queria, mas que sabia querer todas as coisas e era satisfeito com isso – e ele puxava uma carroça velha que fazia inhé! inhé! das rodas enferrujadas. E todo mundo gostava!

E gostaram mais quando chegaram todos num mar de cerejeiras, rosinhas de viver feliz. E nessa altura a floresta toda já acompanhava a moça e cantava e dançava com os anjinhos – e gostava muito não é! – todo mundo embaixo das cerejeiras sentindo o cheiro rosa. Cheirava rosa! E parecia rosa! E sentia rosa! Era tudo rosa naquelas terras das cerejeiras! Porque elas gostavam assim e queriam assim.

E uma delas falou para a moça dos passos doces: “Oh oi você! Pois eu te conheço, é?”

E a moça deu risadinhas até ficar com as bochechas rosadas e pensarem que ela era cerejeira também; e respondeu “ai, sim! Você me encontrou quando–”

“Quando quê!” interrompeu a cerejeira, ora muitíssima surpreendida. “Se eu nunca saí daqui!”

E a moça bateu palmas e os anjinhos foram sentar nos galhos da cerejeira; e ela disse, “é que você era semente ainda.”

“Ah-ha-ha!” riu a cerejeira até chacoalhar os anjinhos de volta pro céu, com desdém de pessoa séria. “Então você mente! Porque eu nem lembro de ser semente.”

“Lembra de mim, você!” respondeu a moça doce, “porque me amava.”

“Porque quê!” respondeu a cerejeira.

“Faz mal não!” disse alegremente a moça. “Posso te cortar?”

“Não! Vai embora, que seus papos são esquisitos e eu não gosto,” disse a cerejeira, e a moça não ligava para nada e tinha mais diversão para conseguir em outros lugares; então foi mesmo embora. Ah trá lá lá! Até os anjinhos voltaram e cantaram e dançaram junto com todo mundo…

Mas na outra semana a moça voltou com a chuva, e aí não teve jeito. Chegou pra cerejeira e falou assim, “será que eu posso te cortar?” e as gotinhas da chuva atazanando a pobre da árvore. “Sua peste!” ela respondeu, “eu pensei muito sobre isso. Não pode não.”

E riu a moça, que era danada mesmo! “Mas é melhor eu poder,” ela disse, “porque eu vou te cortar de qualquer jeito. Ai eu te prometi, querida!”

“Mas! Eu não permito! Eu! Não! Permito!” respondeu a cerejeira com o coraçãozinho cheio de raiva.

“Ai mas muita coisa! Se eu te corto sem você deixar não vai ser bom!” disse a moça, e danou de chorar até todo mundo ficar com dó. Até a chuva choveu mais um pouco de tristeza por causa dela; até as lagartas, que nunca choravam por nada (nada no mundo!) nem ninguém, choraram pela moça doce; oh tadinha! Falavam assim, as lagartas: “coitada dela, que coisa feia!” e também “quem é que faz mal pra uma coisinha assim!” e aí elas mesmas respondiam, “não é, quem faz! Que maldade!”

“Eu não acredito!” respondeu a cerejeira, “então pode me cortar! Mas vou deixar claro, é permissão mas não é vontade não viu! Vou deixar, mas sob protesto!”

E a moça sorriu! E comemorou como se tivesse ganhado o mundo de presente; e gritou, “ai, ai!” e “sim! Sim! Então vem pra cá meu asno!” e aí o asno obedeceu, porque ele fazia assim. E ele trouxe a carroça, e a moça foi delicadamente e pegou lá de cima um machado feito todinho de saudade, bem brilhante e afiado; e levantou ele pro alto bem forte, e – chomp! E chomp!, chomp!, chomp! fez o machado, e ai ai ai! Os anjinhos cantaram a música deles, e todo mundo dançou feliz – e a moça trabalhou duro enquanto isso, e olhem só vocês! Trouxe abaixo aquela cerejeira, que fez tchhhh-bum! E disse com bastante rancor, “ai!”

E danou a reclamar, a cerejeira! Estendida no chão, e bla-bla-bla! pra cá! E blá-blá-blá! pra lá! E continuou a moça com seu machado de saudade, chomp!, chomp!, chom! até a cerejeira perder todos os galhinhos e as flores rosas; e depois chomp!, chomp!, chomp! mais um pouco, e bla! bla! bla! daquele tronco reclamando sem parar! Mas ah! Se enfim! Ora enfim, por fim, no final! Não é que ela fez o que queria, aquela moça doce!

Saiu correndo pra beirada do rio e jogou aquele machado lá embaixo; todo feio e murcho, e podre e enferrujado! E gritou, “ai tchau!” e o machado nem respondeu – foi embora casado com as águas; e voltou pulando para sua cerejeira – e agora eu vou contar de verdade o que aconteceu! Pois não é! Não é que a cerejeira de tanto levar machadadas tomou outra forma! Ganhou uns bracinhos bem delicados e um cabelo rosa muito bonito, e os anjinhos trouxeram um vestido de seda que caiu assim, realmente muito bem! Ah enfim! Por fim, foi assim! Ah não, ah é! Não tinha mais nada para reclamar, a cerejeira; oh-há-há! Parou com os blá-blá-blás e danou a falar coisas bonitas de agradecimento e de alívio pra moça doce; e se abraçaram e se amaram que nem tinham feito antes, muito antes. Nossa, olha ali! Uma borboleta na janela! Será que ela quer entrar ou sair?