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Eu e minha ilha

Um dia um garotinho chegou numa tartaruga na minha ilha. Eu fiquei incrível, porque ele era muito limpinho; vestia umas roupinhas assim bem novinhas. É que todos os outros garotos tinham chegado vestindo uns trapos muito feios… então eu já não sei de mais nada. Sempre achei que a viagem devia de ser realmente muito complicada. Mas aí chegou esse garoto limpinho. Eu não sei mesmo. Fui correndo para a praia quando vi ele chegando lá de longe. Gritei que nem um louco e ele até olhou pra mim, mas não me gritou nada em resposta. Só colocou as mãos na cintura (pra não perder o equilíbrio em cima da tartaruga dele, eu acho; ou pra fazer pose) e continuou vindo pra minha ilha; aí quando ele chegou eu fui logo pra cima dele perguntar das roupas. Falei assim: “garoto, me conta! E essas roupas tão limpinhas?”

Pois aí eu já não sei dizer se ele fez que não me ouviu ou se ele realmente não me ouviu, mas ele me respondeu assim: “cadê os elefantes, oh meu senhor?” Ah! Então aquele pestinha tinha era se perdido. Ele estava atrás dos elefantes. Mas e as roupinhas? Eu cheguei com a cara bem perto dele pra ver se ele se intimidava, abri uns olhões pra ele saber que eu estava falando muito sério e perguntei de novo, “e essas roupinhas aí, cara?” Ele bateu com o pé no chão, deu uns saltos emburrados e começou a chorar de tão nervoso que ficou. Fez uma pirraça das grandes. Das grandes mesmo. Aí assim de um segundo pro outro ele montou na tartaruga dele e foi embora. Fiquei olhando e coçando a cabeça. Mas bem, e daí? Pensei, “deixa pra lá, então”. Eu tinha um montão de coisas pra fazer e não podia ficar ali parado…

Mas no outro dia ele voltou com umas cem gaivotas voando por cima dele. Elas malemal batiam as asas, só planavam em círculos. Fui correndo para a praia e fiquei admirando aquilo, achei muito bonitinhas aquelas gaivotas todas ordenadas. E o garotinho das roupas limpas em cima da tartaruga, parado que nem uma estátua com aquelas mãozinhas na cintura. Devia estar se achando muito elegante. Como eu já tinha conhecido ele um pouco, pensei “nossa, olha só que mau caráter, imagina que orgulho e que ego ele não deve ter, aquele danado”. Ele foi chegando mais perto e justo quando estava para atracar na praia a tartaruga fez uma curva nas águas. Eles foram pro outro lado e ficaram dando umas voltas na frente da minha ilha. Ah não. Gritei pra ele, “vem pra cá seu pestinha! E essas roupas limpinhas aí? Como que você fez?” E ele nada, só de pé, do mesmo jeito; e as gaivotas também, tudo lá voando. Fiquei nervoso e fui fazer minhas coisas. Umas duas ou três horas depois, quando eu já estava quase esquecendo da coisa toda, olhei pra cima e as gaivotas ainda estavam lá. No mesmo instante elas se foram. Acho que elas estavam só esperando eu olhar pra poder ir embora. Não tenho dúvida que foi ordem daquele garotinho.

Aí teve um último dia em que ele apareceu, que foi o dia seguinte. De novo naquela tartaruga, de novo com os braços na cintura, de novo com as gaivotas. Umas cem delas, de novo. Fui correndo pra praia e fiquei olhando pras gaivotas enquanto se aproximavam, aí quando olhei pro garotinho reparei que tinham umas outras cinquenta tartarugas atrás dele, cada uma com um coelho em cima. O garotinho, ah ele quando estava para chegar na minha ilha novamente fez a curva e ficou dando voltas na minha frente; mas as tartarugas com os coelhos vieram direto pra minha prainha. Os coelhos sairam pulando e desapareceram atrás de mim, aí as tartarugas foram embora e o garotinho ficou lá circulando embaixo das gaivotas. Praguejei ele demais. Gritei pra ele mandar aqueles coelhos embora porque eu não gostava de coelhos. Eu não sei o que passava na mente dele, mas de certo que era pura maldade. Era um diabinho aquele garoto. Xinguei ele de todos os nomes que consegui me lembrar, nomes que eu não ouvia desde que eu tinha a idade dele e fazia umas coisas parecidas. Aí ele gritou, aquele peste, gritou pra eu calar a boca; e veio com a tartaruga dele pra minha praia. Desceu sem nem tirar os braços da cintura e ficou me encarando. Aí eu fiquei encarando ele também. Eu já não aguentava mais. Olhei pra ele com uma cara de que ele não era bem vindo, que era pra ele ir embora porque ele estava me fazendo passar muita raiva. Mas ô menino determinado! Do jeito que parou quando desceu da tartaruga, ficou. E ficamos lá nos encarando até o céu ficar laranja e depois escuro. E passamos a noite inteira nos encarando; quer dizer, eu acho. Tudo tão preto que eu nem via ele mais, mas eu sabia que ele estava lá e ele sabia que eu estava também. E também as gaivotas o tempo todo soltando aqueles sons horríveis. Quando o sol começou a nascer de novo eu percebi que não era coisa da minha cabeça e que de fato nós estávamos nos encarando desde a tarde anterior. E ele com aquelas roupas ainda limpinhas. Eu não sei como. Bem. Fiquei de saco cheio da coisa toda. Eu realmente tinha muitas coisas para fazer (e já tinha perdido uma noite e não sei quantas horas naquela molecagem), então desisti. Peguei e falei pra ele me acompanhar porque eu iria mostrar para ele onde eu guardava os elefantes.

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Yan na Ponta da Agulha

A aventura de Yan começou há muitos anos, quando ele partiu de sua casa no Oeste levando apenas roupas e comida em uma bolsa que era maior que ele. Os motivos da sua partida não fazem parte dessa história, e é suficiente dizer que no momento em que ela começa ele se encontrava parado diante de gigantescas muralhas, e que levava duas espadas leves e pequenas guardadas nas bainhas de couro na cintura; usava um capuz jogado para trás do pescoço por cima de um colete de couro, que por sua vez escondia uma cota de malha velhíssima que usava como proteção desde sempre; ao seu lado estava Famber, o cavalo que recebeu como pagamento por alguns serviços feitos em Lugos, e ele fazia o trabalho de carregar bolsas com todos os bens que Yan coletava pelas terras que passava. Era um cavalo preto, forte e jovem, e Yan tinha tanto amor por ele quanto pelos bens que ele levava, mas as costas de Famber já eram pesadas demais com a bagagem, portanto ele era obrigado a caminhar. Tinha esperanças de conseguir mais cavalo para dividir os pesos, e havia grande esperança de fazer isso na cidade que se erguia diante de si.

Apesar disso, não foi esse o motivo principal que o levou a visitar Cidaces. Por muitos anos e em muitos lugares ele ouviu falar de uma taverna chamada Ponta da Agulha. Diziam ser uma taverna muito grande, feita de pedra esculpida imitando um pequeno castelo, e que ocupava o espaço de três casas no centro de Cidaces. O lugar era famoso porque seu dono, o taverneiro Denomo, tinha acordos com criaturas de todos os reinos, e conseguia reunir em sua taverna frutas vindas de terras muito distantes; ele as triturava e as misturava e produzia bebidas muito apreciadas. Yan estava fazendo alguns trabalhos há apenas alguns dias da cidade, e resolveu aproveitar a oportunidade para visitar a Ponta da Agulha.

Ele gostava de beber e comer as especialidades dos lugares que visitava, e nunca tinha estado em Cidaces antes. Quando parou diante das muralhas e viu a lua já surgir atrás delas enquanto o sol se punha, puxou as rédeas que guiavam Famber o cavalo e seguiu ansioso para tomar as vitaminas. Os portões de madeira estavam aberto e ele achou isso esquisitíssimo, pois era bem conhecido por todos que qualquer um podia entrar em Cidaces, mas era preciso ser revistado pelos guardas antes.

Quando colocou os pés sob o portão, Yan viu muitas coisas esquisitas e uma cidade mergulhada em caos. Haviam pessoas gritando e correndo para todas as direções, abanando os braços em desespero e pedindo socorro; as casas de madeira pegavam fogo, e também os carros de bois e cavalos, e todo o feno que alimentava os animais, que também galopavam desesperados pelas ruas. Aquilo tudo lhe pareceu muito estranho e errado, mas até onde ele podia imaginar não era problema dele, então seguiu seu caminho para o centro de Cidaces, para a Ponta da Agulha.

Ele pôde caminhar pelas ruas sem ser diretamente perturbado. O que quer que estivesse perturbando os moradores o deixou em paz. Ele fez seu caminho até que a frente da taverna apareceu em sua vista, e ela pareceu ser ainda mais magnífica do que diziam: mais alta, mais larga, feitas de pedras mais bem esculpidas e polidas, e detalhada nos cantos com madeiras mais brilhantes e resistentes. Ela era de fato muito parecida com um pequeno castelo, pois era retangular e tinha pequenas torres nos cantos, e as portas eram de metais, com as bordas arredondadas e uma faixa de metal no centro, e com argolas de aço penduradas para abrir e fechar. O coração de Yan rapidamente se encheu de esperança de que as famosas bebidas também seriam melhores do que os rumores apontavam, mas sua ansiedade foi desafiada quando percebeu que as portas estavam fechadas.

Yan se aproximou pensando que não poderia deixar a cidade sem provar alguma das bebidas, e parado diante das grandes portas fechadas ele gritou:

“Eu quero beber!”

Houve silêncio, e por alguns instantes nenhuma resposta veio e as portas permaneceram sem dar sinais de que seriam abertas, então ele repetiu o grito enquanto dava pancadas fortes com a mão na madeira:

“Eu quero beber!” Ele disse. “Abram as portas!”

Dentro da taverna as pessoas começaram a murmurar, e Yan ouviu e bateu ainda mais forte nas portas.

“Vá embora, não temos nada aqui!” Disse uma voz vinda de dentro. “Não arrebente minhas portas!”

“Ah, então tem gente aí dentro,” disse Yan, “Você é Denomo o taverneiro? Quero provar as bebidas, abra, abra!”

“Deixe minhas portas em paz,” disse a voz, “vai embora!”

“Taverneiro, eu estou em uma viagem muito longa.” Disse Yan depois de parar de bater. “Minha aventura é grande, e minha sede por suas bebidas vem de muitas milhas que caminhei ao lado de Famber o cavalo, meu companheiro.” E então ele voltou a dar pancadas na madeira, “então abra, abra!”

“Ah!, ó!, seria uma alegria lhe servir minhas bebidas em outros tempos,” respondeu o taverneiro, “mas no momento eu me importo mais com minhas portas que com suas aventuras e sua sede”.

“Eu não vou sair sem beber, taverneiro.” Disse Yan, e as madeiras ainda fazendo um pesado tum-tum que ecoavam dentro da taverna.

“Eu não sei como você chegou vivo no centro da cidade, não viu eles aí fora?” Gritou Denomo, com a voz trêmula. “Não posso abrir as portas enquanto eles estiverem atacando a cidade. Então vá, vá embora!”

“Eu não vou sair.”

Yan decidiu que arrombaria as portas e entraria à força, depois pediria desculpa e pagaria pelas portas ou qualquer outro problema que causasse. Então deu passos para trás e o silêncio deixou todos ansiosos dentro da taverna. Yan correu com o ombro inclinado para frente e bateu em cheio na madeira. Houve um grande estrondo e as estruturas chacoalharam, e o cadeado que trancava as portas pelas argolas do lado de dentro quase se partiu.

“Ah! Ah, ouça, ouça!” Gritou o taverneiro, muito preocupado com as portas. “Ouça, você não ouviu? Eu ficaria alegre em te servir, mas não posso abrir as portas com eles aí fora.”

“Então você pode abrir, pois aqui fora só vejo os moradores correndo em desespero, e nada mais.” Respondeu Yan.

“Claro! E por quê você acha que eles estão correndo, imbecil?” Disse Denomo.

“Eu não sei, mas eu sou Yan, e essas portas podem ser abertas sem problemas enquanto eu estiver com uma espada e disposição para brandi-la, e no momento eu tenho duas, pois uma conquistei de inimigo morto e outra foi presente.”

O taverneiro fez silêncio e pensou por alguns instantes.

“Muito bem, Yan o aventureiro!” Ele disse finalmente. “Muito bem, me diga de onde você vem e para onde você vai.”

“Eu venho de Mabus, e antes disso de Mabais, e Vetus, e porquê deixei minhas terras no Oeste não posso contar, mas pelo que passei para chegar até aqui é uma história que ficarei feliz de compartilhar.” Gritou Yan para as portas. “E para onde vou, ora, eu acabei de chegar onde estava indo, e já disse que há muito tempo caminho para provar suas bebidas, e minha sede é grande. Abra!”

Novamente o taverneiro fez silêncio enquanto pensava.

“Eu fiz meu julgamento,” ele disse finalmente, “e quero ouvir sua história, mas isso será perigoso para minha taverna.”

“Perigoso de fato, e eu entendo o apreço pela taverna. Magnífica ela me parece!” Disse Yan. “Me sirva do lado de fora, então.”

“Meu conselho para você, Yan o aventureiro,” disse Denomo, “é que você vá embora e volte quando eles tiverem deixado a cidade. Você vai morrer aí fora.”

“Não,” disse Yan, “eu tenho minhas armas e meu cavalo, me sirva aqui.”

“Muito bem, muito bem, que assim seja! Então use suas armas para manter essas portas vazias,” gritou o taverneiro, com seu julgamento final, “eu vou abri-las por alguns instantes e lhe darei algo para beber.” E então ele sorriu, pois gostava muito de preparar as bebidas para os forasteiros que nunca as tinham provado, mas Yan não pôde ver do lado de fora. “Você gosta de maçãs?, e bananas?”

“Maçãs e bananas são de meu gosto.” Disse Yan, satisfeito com a situação.

Então Denomo começou a fazer seus negócios, e preparou uma bebida com maçã e banana. Isso levou cerca de dez minutos, pelo que Yan pôde perceber, e foi um tempo no qual ele passou por muita ansiedade.

“Estou enviando um garoto com sua bebida,” gritou finalmente o taverneiro, “ele vai abrir as portas, te entregar, voltar e fecharemos de novo no mesmo instante. Como está o lado de fora? Vazio, não vai entrar nada?”

“Não, aqui está limpo,” disse Yan, “envie o garoto.”

Uma pequena fresta se abriu no meio das portas, e através dela surgiu um garoto de nome Dumos e que era um dos filhos do taverneiro, e seus olhos apareceram checando a situação de Cidaces ao redor da Ponta da Agulha. Ele viu apenas Yan segurando uma espada manchada de sangue e Famber o cavalo com todos os trambolhos que carregava; e não vendo mais nada saiu cuidadoso como um coelho saindo da toca.

“Olá, senhor,” disse Dumos, estendendo para Yan uma bandeja com um grande copo, “esteja servido!”

Yan guardou a espada na bainha e segurou o copo com as duas mãos, pois era um copo de vidro muito alto e largo, e sem alça. O garoto deu uma bela olhada no estado da cidade ao redor, depois se curvou e cumprimentou Yan, e voltou para dentro da taverna. Então Yan provou a bebida, e ela matou sua sede e agradou seu paladar, pois ele já havia comido muitos pratos feitos com bananas em terras distantes, e muitos outros feitos com maçãs em outras ainda mais além, mas as duas em um copo era algo novo. Ele se deliciou e gritou um agradecimento ao taverneiro.

“Então, é bom?” respondeu Denomo.

“Bastante,” disse Yan, “essa é a melhor bebida que tomarei nessas terras, e muitas milhas viajarei antes de beber algo assim novamente. Disso não tenho dúvidas.”

“Muitas milhas, é verdade!” Respondeu o taverneiro, “pois se quiser beber algo assim novamente terá que voltar aqui. A menos que meus concorrentes também tenham feito negócios para conseguir as frutas, mas disso eu tenho muitas dúvidas.”

Yan deu os últimos goles e esvaziou o copo, e logo o taverneiro voltou a gritar.

“Mais um copo seria de bom grado, meu senhor, Yan?”, ele disse.

“Quantos mais seus modos permitirem me dar.” Yan respondeu.

“Nesse caso espero que goste de mamões.” Gritou o taverneiro, e depois de uma breve pausa acrescentou: “então! Meu garoto, Dumos, disse que viu as cabeças deles jogadas aí fora, aos seus pés.”

“Sim, há cabeças próximas aos meus pés. E há agora mais do que havia quando ele veio.”

“Eh, eh! Obrigado, então!” Disse Denomo, “venha! Você manteve as portas limpas, entre e vou lhe servir de modos adequados.”

Então Yan amarrou Famber o cavalo em um dos postes-para-cavalos que ficavam do lado esquerdo da Ponta da Agulha, as portas se abriram e ele entrou na taverna. Com um pano tirado da cintura ele limpou o sangue da espada e guardou-a na bainha de couro, e então entregou ao taverneiro o grande copo vazio que segurava na outra mão. Ele pôde ver que a taverna era por dentro ainda mais magnífica do que diziam as descrições, pois ela era muito grande e cheia de mesas redondas de madeira, cada uma com quatro cadeiras baixas; haviam velas espalhadas que iluminavam o local, pois as janelas estavam fechadas e de outra maneira estaria muito escuro; havia uma grande lareira esculpida por mãos hábeis, mas ela ela para os tempos de frio e estava apagada; do seu lado direito o balcão onde Denomo preparava as bebidas, e em sua extensão haviam bancos com algumas pessoas sentadas, e haviam outras em pés e nas mesas. Yan tomou muitas bebidas que o taverneiro ofereceu, e eles contaram muitas histórias e passaram bons bocados durante toda a tarde.

“Há nessa cidade algum lugar onde eu possa conseguir um cavalo e um carro para ser puxado por dois animais? Pois um eu já tenho, Famber o cavalo. Mas ele carrega todos os meus bens, e sem outro tão forte quanto Famber e um carro eu sou obrigado a caminhar.” disse Yan pouco antes de ir embora, quando o sol já estava se pondo e a lua tomava seu lugar no céu.

O taverneiro contou sobre dois estábulos que ficavam em cantos opostos da cidade, um no nordeste e outro no sudoeste, e recomendou que Yan visitasse o do nordeste. Ele disse que a menos que os cavalos tivessem fugido ou morrido durante o ataque daquela manhã, ele conseguiria lá animais grandes e graciosos, e também carros muito firmes e adequados para longas viagens.

Yan se despediu, e o taverneiro havia gostado tanto das suas histórias e da sua companhia que lhe presenteou com muitas bebidas engarrafadas, algumas com misturas que Yan não havia tido tempo de provar naquela tarde. Ele carregou as costas de Famber com os novos pertences e os dois seguiram para o estábulo no nordeste de Cidaces.

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A Bruxa e o Saco de Penas

Havia um vilarejo entre um riacho, de onde os moradores tiravam do que beber, e uma floresta, de onde conseguiam os animais que criavam para comer. A harmonia reinava, e tudo e todos tinham sua função muito bem definida: Neves era o padre do vilarejo, Ernando era o plantador de cenouras, Bento era o contador de histórias, e havia até uma Bruxa, Fátima, responsável por fazer uma maldade aqui e ali para que os moradores pudessem reconhecer o bem.

Todas as manhas, a Bruxa, bem como todos os outros, era acordada por Romeu, o garoto que saía da cama antes do sol nascer e tinha a tarefa de acordar toda a comunidade no horário que fosse adequado para cada um. Ele havia herdado essa função do pai, que lhe ensinara a usar o sol e a lua como relógios, e a própria força de vontade como despertador. Assim, ele sempre acordava quando queria e nunca errava a hora de atrapalhar os sonhos de alguém.

Certo dia Romeu corria pelas vielas indo acordar a Bruxa, o que seria seu último trabalho naquela manhã, quando num momento de distração o garoto pisou em um buraco e acabou torcendo o pé, se jogando ao chão e se contorcendo. Se estivesse um pouco mais perto, a Bruxa com certeza teria acordado com seu grito de dor.

Romeu se levantou rapidamente, desafiando bravamente as consequências da ferida ferida, pois sabia que de todos os moradores a Bruxa era aquele com o qual não podia falhar. Pensou “ai de mim se não acordá-la!”, e fez o que pôde para cumprir o horário: não podia correr, então caminhou arrastando o pé o mais rápido que pôde.

O pobre rapaz caminhava à passo de tartaruga, e cada vez que olhava para o sol seu atraso ficava mais e mais visível. Até apanhou um galho no chão e o usou como muleta, mas não adiantou e acabou acordando a Bruxa um tanto fora do horário.

– Fátima, Fátima! Acorda! – Gritou Romeu batendo na janela. – Me atrasei, acorda!

De repente, Romeu foi assustado pela porta que se abriu a sua direita. Olhando lá pra dentro não enxergava paredes, cadeiras, janelas, bules, nada, nem mesmo a própria Bruxa. Ninguém fazia ideia do que havia lá porque ela nunca abria aquela porta, mas Romeu agora via que seria impossível dizer a diferença entre o que havia do lado de dentro e a completa inexistência de qualquer coisa.

Entendendo que a porta havia sido aberta especialmente para ele, Romeu estremeceu-se, mas teve coragem pra entrar. Em meio a escuridão, um chapéu, um par de olhos e uma larga boca tornaram-se visíveis.

– Veja bem, Romeu… – Disse a Bruxa. – Me diga o que seu pai lhe ensinou a fazer.

– Acordar os moradores d– E foi interrompido.

– Claro, claro, e me diga, tem mais alguém aqui com essa função?

– Não… É qu– E foi interrompido de novo.

– Então, Romeu, você entende que se não me acordar às oito ninguém mais vai, não é?

– Sim, mas– Uma terceira vez.

– SILÊNCIO! – Fátima voz ecoou pelo vazio da sala. – Entende por quê eu preciso te punir, Romeu? Assim você nunca mais vai se atrasar.

– Mas eu acabei me machucando…

– Eu sei. Por isso seu castigo é ir até a casa do velho Niceno e me trazer as penas de galinha que eu mesma já teria buscado, não fosse por você.

Niceno era o senhor que cumpria a função de viver sozinho e nunca sair de casa, permitindo que os outros moradores criassem as mais terríveis histórias sobre ele. Nem as crianças ou os adultos tinham coragem de perturbá-lo, e apenas a Bruxa ousava visitá-lo e não permitir que o homem perecesse na mais completa solidão.

Quando Romeu respondeu que a punição seria injusta, não só porque teria que lidar com o tenebroso Niceno mas também porque seria doloroso fazer a caminhada com aquele pé, a Bruxa se impôs produzindo um som semelhante ao de trovões. Romeu imediatamente saiu arrastando o pé e se apoiando no galho-muleta.

Apesar do grande incômodo que era andar com aquela ferida, o pior que Romeu enfrentou durante a caminhada foi o crescente medo que o acompanhou. Cada arrastada de pé que o colocava mais perto da casa de Niceno também o trazia um novo pensamento sobre o velho e as lendas que o cercavam. “Será que ele vai tentar me prender?” “Será que ele vai estar usando óculos para disfarçar seus olhos-vazios?” “Será que a Bruxa já havia lhe tirado a maldição que o fazia ter pernas-de-formiga?”

Depois de passar todo o caminho imaginando o mais monstruoso Niceno que pôde, Romeu se viu obrigado a bater na porta e a gritar o nome do velho. Usou o galho-muleta pois a essa altura já estava com medo de encostar na casa e ser contaminado por alguma das maldições da Bruxa. Fátima porta se abriu e revelou um mundo com muito laranja.

Romeu esticou o pescoço e viu uma cortina laranja e um tapete laranja, mas não viu o velho Niceno.

– Entra, entra. Por que a demora? – Uma rouca e cansada voz ecoou lá de dentro e obrigou Romeu a estufar o peito com coragem antes de colocar o pé bom na porta. – Suas penas estão ali ao lado da lareira.

As coisas pareciam ainda mais alaranjadas vistas daquele lado da porta. Havia até uma poltrona laranja de costas para Romeu, que parecia ser de onde vinha a voz do velho. Contornando-a, Niceno finalmente se fez ver por alguém que não fosse a Bruxa e se colocou de pé num instante. Romeu se jogou para trás, ao chão.

– O quê?! Quem diabos é você? Cadê Fátima?

Romeu olhou de baixo para cima e admirou toda a figura do velho que se encontrava de pé diante de si. Ficou boquiaberto com o que viu, foi a visão mais surpreendente que não poderia imaginar.

– Eu sou… Eu… Eu vim pegar as penas… – Disse ele entre gaguejos e respiradas ofegantes.

O velho franziu as sobrancelhas e pareceu extremamente confuso. Ajeitou os óculos e se aproximou do garoto até que seus rostos ficassem a um palmo de distância.

– Como assim, rapaz?

Romeu desmaiou. Quando seus olhos voltaram a abrir, a primeira coisa que viu foi o velho na poltrona diante de si, o observando. Analisou os arredores e percebeu que estava ele mesmo sentado em uma almofada ao lado da lareira e do saco com penas de galinha.

– É melhor esperar, quanto mais esforço fizer mais vai demorar para sarar. – Disse Niceno apontando para a tala que havia feito no pé do garoto. – Agora, está tudo bem com Fátima? Por que não veio ela própria?

– Ah, eh… Eu… Ela… – Romeu ainda estava assustado pela figura do velho. – Ela teria vindo se eu a tivesse acordado na hora certa… Me atrasei por causa do machucado…

– E você achou que seria uma boa ideia vir no lugar dela com um machucado desses?

– Não, ela… É um castigo, eu é que não ia desobedecer a Bruxa, sabe-se lá…

O velho enfiou a cabeça no pescoço e riu baixinho.

– Sei, a Bruxa, sim… – Niceno ponderou por alguns segundos antes de continuar. – Garoto, quando eu tinha sua idade também havia uma Bruxa no vilarejo, quer dizer, outra bruxa, que já morreu há muitos e muitos anos.

– Morreu?! Como ela morreu se era Bruxa?

– Não, não, – respondeu o velho entre risadinhas – acaba que as Bruxas não são assim tão poderosas, eu acho. Aposto que Fátima também não pode muito.

Romeu olhou para o velho sem acreditar que ele ousava falar aquilo da Bruxa.

– Já vi ela fazer feitiços terríveis… – Disse ele.

– Eu entendo. Fátima Bruxa dos meus tempos também fazia esses feitiços, mas nem tudo era mal. Na verdade, as coisas sempre acabavam bem. – O velho olhou para o teto num esforço para resgatar uma memória importante. – Sabia que fui eu quem trouxe galinhas para o vilarejo?

Romeu não disse nada, apenas fixou seus olhos, confusos e admirados, em Niceno.

– As galinhas viviam além da floresta, atrás das montanhas, – continuou ele – e ninguém nunca havia visto nenhuma. Fátima Bruxa me mandou buscar um pouco do trigo que crescia lá perto, como castigo, e acabei descobrindo as galinhas.

O velho Niceno contou tudo sobre as galinhas. Sobre como elas eram ariscas e como levou a tarde toda para conseguir capturar apenas duas, sobre como voltou com amigos para pegar mais, sobre como construiu o primeiro galinheiro e como sua mãe cozinhou a primeira galinha, e sobre como partilhou os animais com todo o vilarejo.

Romeu se admirou tanto com o caso das galinhas, e além do mais Niceno contava com tanto entusiasmo, que os dois passaram o dia todo dividindo histórias bondosas sobre Bruxas. Naquela tarde Romeu descobriu que o velho não era mais que uma antiga criança, e que daquele dia em diante sempre o visitaria para ouvir suas memórias. Saiu levando essa certeza junto com o saco de penas.

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Um pouco sobre minhas finadas criações de preás

Então, minha infância foi recheada de animais.

Comecei com Costelinha, um cachorro que minha tia achou na rua (ainda filhote) e me deu de presente. Ganhei o Costelinha quando tinha uns cinco ou seis anos, eu acho, e fiquei com ele até meados dos meus doze ou treze, quando de repente ele saiu de casa e voltou com a cabeça toda quebrada e pronto pra morrer. Nesse meio tempo aconteceram várias coisas:

1) Mudei o nome do Costelinha pra Costela, considerando seu envelhecimento;

2) Ganhei vários outros cachorros: Bob (fugiu), Max (era muito agressivo e resolvemos dar ele pra outra família), Luizinho (morreu doente), Farofa (morreu doente), Pitty (acabou sendo passada pra minha avó e posteriormente morreu doente) e Pirata (morreu doente);

3) Achei uma gata em frente a um templo de testemunhas de jeová, levei ela pra casa, chamei-a de Dudinha (evidente que mudei para apenas Duda depois, mesma lógica do Costela) e no fim do ano já tinha mais de dez gatos. Cheguei a ter mais de vinte gatos simultaneamente, e todos descendentes da Duda. Como não castrei nenhum, eventualmente eles simplesmente saiam pela vizinhança e não voltavam nunca mais;

4) Eu e um amigo resolvemos criar frango. Digo, um frango, como animal de estimação, sabe? Acontece que compramos frango de granja, o que nos levou a descobrir que esses frangos são geneticamente modificados ou sei lá o quê pra ficarem gordaços e serem comidos, ou seja, eles morrem naturalmente antes de virarem adultos. Depois, acabei desenvolvendo quase que uma fobia por galinhas;

5) Meu pai arranjou um papagaio, que acabou ficando comigo e minha avó depois que ele foi pra cadeia . Posteriormente, acabei tendo um papagaio imaginário;

6) Tive dois jabutis que foram criados soltos no quintal. Claro que acabaram fugindo, eventualmente.

Deu pra perceber que cada caso puxa um milhão de histórias que merecem posts próprios, mas, pra hoje, FOCA NO PREÁ:

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Antes de conseguir o Costelinha, eu queria muito (muito mesmo) ter um animal de estimação, especialmente um cachorro. Mas, bem, sabe como é, todas as complicações envolvidas em cuidar de um cão e tudo mais acabaram inviabilizando o negócio – pelo menos até o Costelinha me ser entregue magica e inesperadamente pela minha tia, como já disse.

Eis que meu pai, em toda sua sabedoria e experiência de vida, surgiu com a ideia de criarmos preás. Ele já havia feito isso antes, então já sabia como a coisa toda funcionava: alimentação, comodidades, reprodução, etc, meu pai era SÁBIO em relação aos preás.

E lá fomos nós, conseguimos uma gaiola estragada que tivemos que consertar e colocamos um casal que compramos numa petshop. Com o passar do tempo, acabei aprendendo o que meu pai sabia sobre preás simplesmente por lidar com eles diariamente. Uma das primeiras coisas que aprendi, inclusive, foi que preás se reproduzem muito rápido: três ou quatro filhotes a cada dois meses, se me lembro bem. “É parecido com coelho”, dizia meu pai.

Essa primeira leva de preás acabou não dando em nada porque nos livramos dela logo que conseguimos o Costelinha, simplesmente soltamos todos num bosque e pronto. Mas a segunda vez que eu e meu pai decidimos criar preás foi muito mais interessante: não tínhamos mais a gaiola, mas tínhamos uma caixa d’água velha que viramos de cabeça pra baixo e cercamos com madeira.

Na primeira vez, quem se preocupava em cuidar dos preás de fato era meu pai, mas na segunda a responsabilidade ficou quase toda pra mim, de modo que acabei me apegando aos bichos. Quer dizer, eu é quem todos os dias dava água e comida pra eles.

Meu pai, por outro lado, basicamente usava a casinha dos preás como esconderijo de drogas. Ele simplesmente colocava os malotes em baixo da tal caixa d’água e ficava por isso mesmo, a relação dele com os animais não ia muito além.

Isso teve dois resultados:

  1. Teve a vez em que meu pai foi pegar um bloco de maconha que tinha colocado lá, e quando ele percebeu o negócio estava todo corroído. Sim, os preás decidiram roer a maconha: ficaram a semana toda se comportando de maneira esquisita e acabaram morrendo uns dois ou três; meu pai deve ter deixado de ganhar uns cinquenta reais que faturaria com a venda.
  2. Certa feita estava lá eu mostrando os preás pra um amigo meu, todo feliz, quando de repente esse meu amigo resolveu que queria pegar os preás que estavam dentro da casinha (vulgo caixa d’água) pra poder segurar eles nas mãos. Pensei “rapaz, fodeu, o cara vai colocar a mão dentro da casinha e tirar altas maconhas lá de dentro”. Enfiei lá minha mão, tirei um dos preás, entreguei pro garoto, e enquanto ele brincava eu usei das minhas habilidades de caráter ninja pra tirar a maconha e esconder em outro lugar. Foi um movimento arriscado, mas funcionou.

Fato é que dessa vez a criação de preás se saiu muito bem. Eles se reproduziram tanto que vez ou outra acabávamos sendo obrigados a soltar alguns pra evitar superlotação da caixa d’água, sem contar que eu fiquei bastante apegado por cuidar deles diariamente – felicidade que se foi quando meu pai chegou em casa bebaço e resolveu PULAR em cima das madeiras que cercavam a caixa d’água, de modo que todos os preás fugiram. Por um lado fiquei chateado por perder tudo e sem saco de começar outra criação do zero, mas também fiquei aliviado por não ter mais que me preocupar em dar água e comida todo dia.

De qualquer forma, passei alguns anos sem me envolver com preás até minha última tentativa, lá pelos idos de 2011. Foi uma empreitada financeira: descobri que as petshops não só vendiam preás como também compravam, pensei “tá aí, eu manjo disso, posso levar pra frente esse negócio” e prossegui.

Fiz uma casinha, coloquei um casal, e quando os filhotes dos filhotes começaram a se reproduzir fui lá eu vender os mais novos e obter meu LUCRO. Aí veio a decepção, porque descobri que compravam cada um por DOIS REAIS, e isso não pagava nem o que eu gastava em ração por semana. Fiquei frustrado e acabei com toda a criação, evidentemente.

E pronto, nunca mais me envolvi. O resumo da ópera é que já passaram mais preás pelas minhas mãos do que notas de R$ 100. Vale dizer que meu último encontro com um foi relatado aqui, em 2014, quando meu gato apareceu em casa assim:

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Billy, o Papagaio

Uns meses atrás tentei dar um jeitinho de brasileiro na solidão da minha vida usando animais. Infelizmente minha infância foi marcada por uma série de decepções envolvendo cachorros, gatos e papagaios que acabavam morrendo, fugindo ou qualquer coisa do tipo em algum momento em que estávamos muito próximos. Acabei criando um certo trauma, eu acho, não quero mais ter animal doméstico porque eles morrem quando você mais gosta deles.

Mas de qualquer forma acabei decidindo que queria ter um animal que pudesse conversar, de modo que quando eu quisesse falar algo com alguém e esse alguém não existir, teria ele, o BISSINHO, por aqui. Por isso, optei por arranjar um papagaio.

Logicamente eu não quero que ele morra e tentei pensar em algumas alternativas, achei melhor arranjar um papagaio que não fosse de carne e osso. Tá aí o papagaio que eu tenho:

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Billy, o Papagaio, é a porra de um desenho feito em folha A4 grudado na parede do meu quarto com fita adesiva.

Diga-se de passagem, facilmente esse foi um dos piores erros que cometi na minha vida: colar o Billy na parede. Ele cumpre os requisitos de não morrer (x) conversar (x) me amar incondicionalmente pelo fato de ser um animal doméstico (x), mas falha miseravelmente em acompanhar minhas aventuras no sentido físico. Se eu precisar conversar com ele na cozinha, ele não consegue se mover até lá. Imagine então se eu precisar dele, sei lá, em uma praça. Se ele tentar sair da parede, é provável que SE CAGUE todo, fique cheio de marcas e talvez até com uns rasgos.

Mas dá pra ver a coisa toda por outro ponto de vista. Por exemplo, pelo fato de estar sempre no meu quarto, vendo e ouvindo tudo, ele já presenciou ALTAS PUTARIAS.

 

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Como o Billy fica quando alguma senhorita de mais alto garbo e elegância visita as comodidades de meu dormitório

Aliás, é bastante curioso observar o Billy me observando observar as confusões que rolam por aqui. Uma vez uma ex veio aqui pra terminar comigo, começou a chorar e a falar umas coisas sem sentido, pediu pra eu decidir entre uma coisa ou outra que não lembro o que era e eu respondi “fala com o Billy, ele que anda tomando decisões por mim”, ela respondeu que nunca sabia até que ponto isso era uma brincadeira minha ou se era realmente loucura. Lembro que eu fiquei olhando pro papagaio e ele não respondeu nada na hora, só ficou me olhando com esses olhos esbugalhados (provavelmente ele tem surtos psicóticos – esses olhos não me enganam, dá pra entender tudo com eles. Ele é psicopata, gente). Enfim, depois liguei pra ela e disse que “olha, conversei muito com o Billy e decidimos que…”, ela começou a chorar enquanto dava umas risadas, eu falava “porra, Billy, a mina tá chorando. Viu aí?”, foi bizarro.

Papagaio, se algum dia você ler isso, me desculpe por te desenhar grudado na minha parede. Eu sei que você sempre quis sair voando por aí e conhecer o resto do mundo, nem que com “mundo” eu esteja querendo dizer “outros cômodos da minha casa”. Um dia vou te tirar dessa parede e te levar pra outros lugares, bróder. Você tá sendo um cara legal comigo e eu vou ser um cara legal com você. Billy, você é do caralho!

Um pouco sobre meu pai

Num post aí eu havia dito isso:

Até teve uma época em que eu alternava, ficava um dia com meu pai e outro com minha mãe, mas foi um período curto porque depois disso meu pai foi preso e tá lá até hoje, vez em quando ele sai, faz uma cagada e volta a ver o sol nascer quadrado. Tenho um milhão de histórias FODAS com ele, mas por sinal vou ter que esperar ele morrer pra contar pros outros.

Então, decidi escrever um pouquinho sobre ele. Lendo a passagem fica subentendido que muitas histórias eu não posso contar, mas o cara é uma figura tão excêntrica que eu me sinto na obrigação de falar algo aqui, por menor que seja.

O interessante é contar a história de trás pra frente, quer ver? Mês passado ele táva em regime semi-aberto (pode sair pra trabalhar mas volta pra dormir na cadeia, coisas desse tipo), aí aproveitou pra FUGIR por causa de uns problemas aí. Ficou umas duas semanas fugido e já prenderam ele de novo, só que agora ele voltou pro regime fechado e vai demorar mais uns duzentos anos até chegar no semi-aberto de novo. É foda, viu.

 

casa_de_detencao_opo_29_05_2014_23_19(Casa de Detenção, vulgo CADEIA, aqui da cidade. Só os campeões)

Bom, ainda seguindo a ideia de contar a história de trás pra frente, o último momento interessante que lembro com ele foi quando ele tentou me levar num BORDEL no fim do ano retrasado pro começo do ano passado. Bordel, casa de prostituição, puteiro, como preferir chamar.

Lembro que ele também estava em regime semi-aberto (depois pegaram ele com umas maconhas aí e voltou pro regime fechado) e estava MUITO bêbado. A gente táva andando de moto por aí e de repente ele parou em um casebre de madeira todo destroçado, com um monte de mulher na frente, uma mais feia e escrota que a outra. Ele deu uns beijos numa vagabunda qualquer lá e a outra disse alguma coisa como “hmmm, então esse aí é seu filho, é?”, e meu pai respondeu algo do tipo de “aham, tô com ele aqui pra vocês darem um trato nele”. Foi foda porque na época eu namorava, e como sou um cara muito fiel e as putas eram tão estranhas quanto o estranho pode ser, eu respondi “não, pô, eu tenho namorada, não posso não”. Meu pai até insistiu, dizendo que “mas ela não precisa saber”, mas eu usei meu super poder de bom senso e responsabilidade pra negar aquela foda.

Putz, outra coisa que lembro é que a gente criava preás (porquinho-da-índia) e coelhos. Uma vez ele escondeu umas maconhas dentro da casinha dos porquinhos e eles roeram tudo. No outro dia, uns tinham morrido, outros só estavam agindo de um jeito MUITO suspeito… o problema é que uma noite ele chegou bêbado em casa e se jogou em cima da casinha até ela quebrar, aí como aqui em Rondônia tem mato pra tudo que é canto, os bichos fugiram pra um lugar qualquer. Saudades, preás.

Tenho mais um milhão de histórias e muito mais coisa pra falar sobre o cara, mas vou guardar o conteúdo pra outros posts. Por enquanto fiquem com essas pequenas passagens aí.

Obrigado.