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Escrevendo sobre o que não é o foco do livro

Texto escrito ano passado em resposta a um post no Clube de Autores de Fantasia que pedia dicas “sobre como desenvolver o romance entre dois personagens durante a história quando o romance não é o foco do livro”:


Acho que em primeiro lugar é preciso se voltar à questão do foco.

Você diz que o romance não é o foco do livro, e isso me faz pensar que, bem, então quer dizer que o livro *tem* um foco. Nesse caso vale a pena pensar sobre o que o foco quer dizer para a narração da história. Uma definição de “história” que eu acho linda foi dada pelo Aristóteles e coloca que elas são uma sequência de acontecimentos, e que cada um dos acontecimentos pode ser de início (quando não é precedido por nenhum outro), de fim (quando não é sucedido por nenhum outro) e de meio (quando é sucedido e precedido por outros). Absolutamente brilhante. Se o que você está contando se encaixa nisso, e provavelmente sim, você está narrando uma mudança, digo, no *início* as coisas estão de um jeito e conforme elas vão acontecendo no *fim* elas vão estar de um outro jeito. Eu suponho que você esteja falando de “foco” como sendo a coisa que sofrerá essa mudança (por exemplo, sei lá, quem exerce o poder em um determinado lugar).

Agora, escrever o livro tendo em mente uma definição tão pura de “foco” traria resultados problemáticos porque o seu livro contaria apenas os acontecimentos-de-meio essenciais para que a grande mudança acontecesse – nesse caso ou o livro teria duas páginas ou então ele seria preenchido com coisas que não tem a menor relação com o que está sendo contado, vulgo “encheção de linguiça”. Então, bem, considere que naturalmente que muitos dos acontecimentos que compõem a sua história não são nem de início e nem de fim mas não necessariamente são os responsáveis por fazer a mudança entre um e outro, eles são simplesmente acontecimentos-de-meio que são não-essenciais. Um exemplo: “fulano acordou com sede, se espreguiçou e foi até a cozinha beber um copo de água”, o acontecimento “se espreguiçou” não foi o responsável por fazer “acordou com sede” se transformar em “beber um copo de água”, mas se ele não estivesse ali e essa história fosse um pouco mais complexa ela se tornaria insuportável (imagine estender o “foi até a cozinha”, que é o acontecimento-de-meio essencial para a mudança, por 200 páginas. Ugh. [a não ser, é claro, que você escreva como escreveu Bukowski ou Graciliano Ramos pra fazer as 200 páginas serem interessantíssimas, mas aí é outra questão completamente diferente]) Meio que a tendência das obras de Fantasia é a de enxer o livro com acontecimentos-de-meio que são não-essenciais, ou pelo menos isso é o que acontece nos livros que a maioria das pessoas costuma considerar bem escritos. Nesse caso o “foco” não é a especificidade da mudança (o foco não é “matar a sede”, não é “derrotar o inimigo”, não é “reconquistar a cidade” etc), nesses casos o “foco” é narrar os acontecimentos que se passaram entre o começo e o fim de forma geral. Harry Potter é um exemplo pessoalmente favorito, mas a maior parte dos livros de Fantasia são tão longos porque a maioria das frases que compõem eles são “eles olharam ao redor e…”, “ele cruzou os braços e…”, “ele caminhou até…”, “ele olhou para o…” que são as coisas que fazem a história suportável e que não são transformam o começo da história no fim dela.

Eu acho que sob essa luz é possível inserir o romance sem medo. No fim das contas o começo (“eles não estão juntos”) e o final (“eles estão juntos”) das nossas relações na vida real são ligados por muitos acontecimentos-de-meio que nós só podemos perceber que são acontecimentos-de-meio depois que a coisa toda aconteceu. Esses dias eu voltava da faculdade com uma garota e comentava com ela sobre a dificuldade de uma prova, e eu certamente teria feito isso com qualquer outra pessoa, mas o ponto é que se algum dia surgir uma relação entre nós eu vou olhar para trás e entender esse acontecimento como sendo um acontecimento-de-meio essencial para a mudança início-fim na história da nossa relação, enquanto que agora ele é apenas um acontecimento-de-meio não-essencial de outra história (a história em que no início eu estava na faculdade e no fim eu cheguei em casa e descansei).

Se o status do relacionamento dos personagens não é *a* grande mudança que está sendo narrada no seu livro, só jogue esses pequenos acontecimentos-de-meio essenciais para a relação como se eles não fossem nada que fica tudo certo. De grão em grão a galinha enche o papo. Não precisa de uma cena desenhada especificamente para retratar um acontecimento causador do romance, e não precisa também fazer nenhuma cena de introspecção em que o personagem pensa sobre como tal pessoa é interessante ou o que quer que seja – nesses casos provavelmente o leitor ficaria com a sensação de estar lendo um acontecimento-de-meio que é essencial para uma história que tem início e fim que são diferente dos que você está contando no livro.

O Reino de Fogo

Implicações do Cinema de Fantasia

Texto originalmente escrito para a disciplina Cinema e Estética, referente ao quarto período do curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal Fluminense.

 

Eu quero propor uma questão: quando se conta uma história, o que é que ela efetivamente transmite? Talvez seja mais fácil executar essa reflexão se a pergunta for feita de maneira mais específica: quando a história é contada por palavras, por exemplo, o que é que as palavras fazem chegar na mente daquele que as recebem? Sob uma ótica aristotélica a resposta é evidente: são os atos. Da mesma forma que a música é uma arte capaz de representar os sons, e consequentemente de colocá-los em uma forma (a música em si) de tal maneira que os ouvintes possam contemplá-la e através dela possam transferir os sons do campo mundano para o campo da consciência e dos conhecimentos que a consciência possui; da mesma forma que a música faz isso, também o faz as histórias com os atos. Através do contato com uma história o indivíduo passa a conhecer os atos nela representados.

Isso, entretanto, supõe a existência dos atos – uma vez que não se pode representar qualquer coisa inexistente. Qualquer história que represente uma pessoa se levantando de um sofá, que seja, está afirmando tanto a existência da pessoa, quanto do sofá, quanto da própria possibilidade de que a dita pessoa execute a ação de se levantar do dito sofá. Uma falha na existência de qualquer dessas categorias caracterizaria as ações como impossíveis, e por consequência a história como inexistente, o que é incompatível com a ótima representacionalista que proponho. Mas esse exemplo é banal. É muito fácil identificar a possibilidade da atualização de um ato como se levantar de um sofá, e de fato nenhum conhecimento de cunho acadêmico ou cientificista precisa ser evocado para justificar a veracidade de uma história que conte algo assim. O que não se sabe a princípio é até onde vai a capacidade humana de definir quais atos são ou não passíveis de representação; o problema, evidentemente, é que todos os atos podem ser imaginados (poderia se imaginar, por exemplo, um sofá sentado em uma pessoa e se levantando dela), mas nem todos os atos imaginados podem ser atualizados.

Esses questionamentos são feitos posteriormente à existência da história. Para nós histórias são contadas, e por ela afirmações sobre a existência disso ou daquilo são feitas; a nós cabe examinar a natureza dos atos representados e compará-los com nosso conhecimento da realidade, mesmo por meio da ciência. Disso decorrem dois problemas: o de lidar com os atos cuja possibilidade de atualização no mundo em que vivemos é desconhecida por nós, e os que são sabidamente impossíveis de serem atualizados por conta da física do próprio cosmos. Como exemplo do primeiro pode-se imaginar a representação de uma pessoa atravessando um buraco de minhoca e por conta disso viajando no tempo, pois nós não temos conhecimentos suficientes para verificar a veracidade da possibilidade de viajar do tempo como resultante do ato de atravessar um buraco de minhoca. Como exemplo do segundo, pode-se imaginar uma pessoa saltando de um avião e planando no ar ao invés de sendo empurrada para o chão pela força gravitacional exercida pelo planeta.

A própria representação de algum desses atos feita por uma dada história é em si mesma a afirmação da sua possibilidade de existência, sendo o primeiro caso uma afirmação desconhecida e no outro uma mentira, ou ao menos assim eles se apresentam na análise mais simplista. É possível analisar a veracidade da afirmação levando em conta mais do que a própria representação. A natureza dos atos sugere isso. Considere, por exemplo, a relação de causalidade e o determinismo. Nessa ótica os atos são apenas aqueles que poderiam ser, isto é, o ato de uma bola depois de chutada rolar por dois metros, e não por dois metros e dez centímetros, e não por sete metros, só poderia ser mesmo o ato de rolar por dois metros, pois a única resultante possível de uma força de valor x exercida sobre um corpo de dimensões y e peso z é que ele execute aquele movimento específico. Inclusive nosso conhecimento científico é tal que nós podemos prever muitos dos atos antes deles acontecerem, justamente pela certeza de que, dadas as condições tais e tais, eles não poderiam ser de outra forma. A partir do momento em que se identifica na organização do universo qualquer tipo de padrão organizacional, torna-se possível fazer uso do conhecimento adequado para determinar o seu estado em um momento posterior; sabe-se da força do chute, sabe-se da distância rolada pela bola.

Levando em conta esse fator de causalidade, a primeira pergunta para se analisar a veracidade de um ato representado é: ele é apenas aquele que poderia ser? Quando uma pessoa salta de um avião e flutua pelo ar ao invés de ser puxada ao chão, essa é a única coisa que poderia acontecer por decorrência dos atos anteriores? Se sim, a afirmação da veracidade ganha corroboração, e de fato as histórias que se caracterizam pelos atos assim podem ser agrupadas em uma categoria ampla chamada Fantasia.

“Pois Fantasia criativa é fundamentada no duro reconhecimento de que as coisas no mundo são como parecem ser debaixo do sol; um reconhecimento dos fatos, mas não uma escravidão a eles. Então sobre lógica foi fundamentado a falta de sentido que se mostra nos contos e versos de Lewis Carrol. Se homens realmente não pudessem diferenciar entre sapos e homens, contos de fadas sobre reis-sapos não teriam surgido.”¹ (TOLKIEN, 1964, p. 56.)

A caracterização da Fantasia como “um reconhecimento dos fatos, mas não uma escravidão a eles” dada por Tolkien simplifica o ponto levantado: para que uma história de Fantasia seja considerada em primeiro lugar uma história ela precisa representar atos possíveis, e para que ela seja considerada uma Fantasia ela precisa representar atos impossíveis no mundo em que nós, os apreciadores das histórias, existimos. Logo, ao reconhecer a impossibilidade, digamos, da existência de fadas e duendes, as histórias de Fantasia corajosamente afirmam a sua existência junto com a de um plano existencial no qual tais criaturas podem existir. É preciso pois endereçar como as diferentes ferramentas próprias a cada forma de arte são utilizadas para propor a veracidade do plano existencial no qual se dá a história de Fantasia de uma maneira convincente.

Representar um mundo propriamente dito, em sua totalidade e complexidade, em seus níveis mais macroscópicos e da mesma forma em seus níveis mais microscópicos, é um tanto impraticável para as histórias de Fantasia e de fato seria demasiado sublime para a compreensão humana, e consequentemente inútil para fins de convencimento. O que se pode fazer é representar fragmentos. Mas, como dito pela raposa ao principezinho, “só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos.” (SAINT-EXUPÈRY, 1981, p. 72). Isto é, quando olhos humanos caem sobre fragmentos de um mundo, não são os fragmentos em si que se juntam e formam uma totalidade; ao invés, é a consciência que o faz. Isso se torna mais visível na literatura, como bem explica Tolkien:

“Se uma história conta ‘ele subiu o monte e viu um rio no vale abaixo’, o ilustrador pode capturar, ou quase capturar, a sua própria visão de tal cena; mas cada ouvinte de tais palavras irá ter a sua própria imagem, e ela será feita de todos os montes e de todos os rios e vales que ele já viu, mas especialmente d’O Monte, d’O rio, d’O Vale, que foi para ele o primeiro encorpamento da palavra.”³ (TOLKIEN, 1964, p. 76.)

Há na literatura portanto a possibilidade de mostrar apenas os pontos essenciais, os próprios alicerces que sustentam as bases mais fundamentais do mundo da história; a natureza humana trata de não só ligar os pontos como de também preencher as linhas com os caminhos mais lógicos e coerentes possíveis, de maneira a guiar um processo de autoconvencimento em relação à veracidade da história. O Cinema por outro lado enfrenta o problema de ter que mostrar também as linhas que ligam os pontos. Apontar a câmera de forma alguma inibe a ação da imaginação do homem, mas restringe-a apenas às partes que são invisíveis aos olhos. Cabe ao contador da história, o diretor que seja, utilizar as técnicas disponíveis de tal maneira a mostrar um mundo que seja convincente ao espectador.

Poderia-se falar dos dragões em O Reino de Fogo ou O Dragão e o Feiticeiro, por exemplo. Quando a câmera os captura por completo e de modo claro, a audiência já está suposta a acreditar neles há muito tempo. Nas primeiras aparições nos filmes os dragões mal são visíveis: são mostrados escondidos nas sombras, ou a câmera foca apenas em uma garra, ao apenas no fogo cortando os ares, ou apenas se ouve o som das asas batendo enquanto a audiência vê os personagens olhando para os céus. Trata-se do terceiro significado também famosamente definido pelo Efeito Kuleshov: diante da dificuldade de apontar a câmera para um dragão no campo em que ele próprio existia, o diretor apontou a câmera para uma pessoa olhando para os céus, e essa imagem junto com um som específico causa na imaginação da audiência a representação mais lógica e coerente possível de um dragão.

É importante notar que não se trata de um ato sugestivo. A ação das pessoas olharem para cima, e a ação do som emanar são ambas decorrências necessárias da própria existência do dragão, bem como o são os atos seguintes executados pelos personagens. Pode-se dizer que a própria história trata como verdadeiros os elementos fantasiosos por ela sugeridos, e isso é fundamental para que se possa separar as fantasias verdadeiras, ou seja, as que de fato propõem um campo existencial no qual seus elementos podem se dar, das fantasias que são apenas produtos da imaginação e dos enganos dos sentidos; nesse segundo caso pode-se falar de Alice no País das Maravilhas, que tem em sua cena final a protagonista Alice acordando de um sonho – aí a história trata a si mesma como mentira, aí a história conta que um gato que flutua e desaparece é de fato algo que não existe no mundo real, mas fica por isso mesmo. É um reconhecimento dos fatos, e uma escravidão a eles.

O caso de Indomável Sonhadora é curioso por ir contra essa corrente. Quase todos os atos representados no filme poderiam ser representações do mundo-real. Há apenas no fim uma pequena aparição de criaturas fantásticas, mas é tão ínfima que ela afeta muito pouco a caracterização da história como sendo Fantasia ou não. Mesmo desconsiderando essa tal criatura e sua aparição ínfima, ainda fica claro para a audiência que todos os acontecimentos se dão em um plano por completo diferente. Ainda que o céu da história seja como o céu conhecido pela audiência, e ainda que as águas sejam as mesmas, e que as pessoas tenham os mesmos rostos e as mesmas capacidades, ainda assim fica claro que o mundo representado na história não é o mundo da audiência. Aqui nós devemos voltar para a examinação dos atos não como unidades individuais mas como uma sequência causal. Os atos individualmente podem ser vistos como representação do real, de fato, mas como sequência causal eles não podem ser senão fantasiosos. As águas sobre as quais a protagonista navega com sua família não são apenas as águas de um rio, mas as águas que inundaram todo o planeta. A grande barragem não é apenas uma forma de se bloquear a água, mas uma forma de se manter as pessoas marginalizadas afastadas. A casa flutuante é o único meio que as pessoas marginalizadas daquele mundo têm para sobreviver longe da sociedade cercada pela barragem. Como se vê, há a proposição de uma outra realidade onde objetos familiares à audiência desempenham funções significativas. É a afirmação mais ampla de que a história se passa em outro mundo que faz os atos ordinários serem ressignificados.

Nessa ótica o contador de histórias cinematográficas é um trazedor de verdades por nós desconhecidas através das técnicas empregadas nos filmes. O produto final do seu empenho é uma peça de representação, isto é, uma peça através da qual a percepção humana pode captar outra coisa que não a própria peça. Quando se fala de Histórias de Fantasia ou de Cinema de Fantasia, se fala então da representação de atos que se dão em outra realidade; nós poderíamos inclusive classificar essa outra realidade e analisar a sua natureza em cada um dos casos propostos, e de fato muitos teóricos fizeram isso, mas de maneira superficial é suficiente dizer que suas configurações podem ser tão diferentes que ela própria se apresenta como esquisita e chocante para a audiência, ou ela pode ser tão parecida que não fossem os elementos fantasiosos a diferença sequer seria notada. Em ambos os casos, de qualquer maneira, há a proposição.

Schiller

Na Função da Estética na Educação, e Qualia

Texto originalmente escrito para a disciplina Cinema e Estética, referente ao quarto período do curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal Fluminense.

 

Considere Educação como uma referência a ação de adquirir conhecimento de um indivíduo, e falo apenas do conhecimento das coisas. Isso possui muitas consequências complicadas, pois implica na necessidade de descrever de maneira mais precisa o que é um indivíduo, o que é o conhecimento das coisas, e como é que a natureza do primeiro é tal que ele pode executar a ação de adquirir o segundo.

Ambas as definições são contidas nos objetos. Primeiro se reconhece que há indivíduo e que há conhecimento, e depois se tenta descrevê-los da maneira mais precisa possível. Nós podemos partir do “penso, logo existo” e identificar a existência do indivíduo a partir da própria percepção: eu sou o indivíduo eu mesmo. Minha capacidade de me perceber como indivíduo e de me postular como indivíduo fazem-me assim, e mesmo o questionamento dessa afirmação é a própria afirmação. Em seus níveis mais fundamentais, todas as ações dos indivíduos resumem-se à percepção. Ou o indivíduo se percebe como indivíduo, ou percebe que o mundo é dessa maneira e não daquela, ou percebe que está alterando o seu meio, ou percebe que duvida – a capacidade do indivíduo é a de tomar consciência das coisas, e ao assim dizer entenda-se de se perceber expressando coisas que não estão presentes; pois quem conhece, conhece algo. Eis então um paralelo entre educação e imaginação, pois se a maneira de identificar o conhecimento em um indivíduo é através da sua própria percepção de estar manifestando-o na ausência do objeto conhecido, e se imaginação é a evocação da imagem dos objetos que não estão fisicamente presentes onde a própria imagem pode ser captada pelos olhos, trata-se da mesma coisa, logo conhecer é imaginar. Disso se pode inferir que qualquer objeto que pode ser percebido pode ser também conhecido, basta que o indivíduo o perceba, o identifique ou o professe de alguma forma em despeito da presença do próprio objeto, isto é, é preciso que a presença do objeto no alcance da percepção seja irrelevante para a identificação do mesmo, aí se dá o conhecimento.

A percepção portanto está relacionada ao próprio ser do indivíduo. Quando consideramos vários indivíduos, acabamos obtendo várias percepções. Até quando o objeto percebido é o mesmo, a experiência da percepção é única a um indivíduo. Há, portanto, a impossibilidade de fazer dois indivíduos possuírem a mesma percepção de um dado objeto, pois se o indivíduo A tenta fazer a comunicação B para o indivíduo C sobre o que foi que ele percebeu, o indivíduo B vai ter uma percepção D da comunicação B. Assim, quando se tenta transferir a percepção o próprio ato de outro indivíduo perceber a expressão de uma percepção caracteriza em si uma nova percepção. Porém, com essa relação estabelecida entre percepção e conhecimento torna-se necessário comunicar uma percepção para que o indivíduo adquira conhecimento.

Contemplar um objeto é portanto o ato de percebê-lo, de agregar ao indivíduo aquilo que faz do objeto o objeto. Esse ato é a experiência estética; ou melhor que ato, o estado do indivíduo no qual isso acontece. Numa hora o indivíduo está dessa maneira, noutra hora daquela, e noutra ainda ele está se percebendo agregando a si mesmo a essência de um objeto. Apesar da comunicação ser capaz de proporcionar ela própria uma experiência estética, é justamente pela experiência estética que ela se faz capaz de agregar conhecimento a um indivíduo. Com isso significo que pode haver a experiência estética sem a comunicação, com a contemplação de obras de arte por exemplo, e da mesma forma ela ainda se faz capaz de agregar conhecimento a um indivíduo.

Walter Benjamin

Na Obra de Arte Pós-Cinema

Texto originalmente escrito para a disciplina Cinema e Estética, referente ao quarto período do curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal Fluminense.

 

A maneira que nós temos para definir se um dado objeto é ou não uma obra de arte, ou mesmo qualquer outra coisa, é a sua capacidade de ser conhecido através da percepção. Efetivamente diferentes objetos são conhecidos de maneiras diferentes, e isso atribui uma certa unicidade a cada obra de arte. É certo que a percepção ao se olhar para um objeto é diferente da percepção ao se olhar para outro, mas o mesmo acontece ao se olhar para o mesmo objeto em diferentes momentos do tempo. Então a unicidade do objeto é na verdade uma unicidade da relação que se tem com o objeto.

Há o problema das cópias. É difícil conceber uma cópia de uma obra de arte tão idêntica ao ponto da substituição. Tão similar quanto a cópia possa parecer ao original diante dos olhos, permanece ainda algo não visto de diferente: o original continua sendo o original enquanto a cópia continua sendo a cópia. Isso predominou como verdade ao longo da história humana até a invenção do Cinema. A partir daí, a cópia não é a cópia, a cópia é o original – a cópia e o original fazem referência à mesma obra de arte.

Com o Cinema aconteceu uma mudança na essência da obra de arte, especialmente no que diz respeito à sua fisicalidade, pois não mais a obra é um objeto a ser percebido: a obra está em um objeto a ser percebido. Quando se olha para uma cópia do filme, a obra está lá para ser percebida; quando se olha para outra cópia, a obra também está lá para ser percebida. Esse conceito de obra de arte como algo metafísico se disseminou com o mundo digital, os disquetes, os CDs, as fitas e a internet.

Isso não é, entretanto, para dizer que a obra de arte é inexistente ou que o Cinema matou a obra de arte como se conhecia. Obras como a Monalisa de Da Vinci continua exposta em museu, e nenhuma das fotos dela que circulam na internet é capaz de substituir a original, e da mesma forma não o são nenhuma das cópias parecidamente idênticas feitas por outros pintores. Obras assim continuam tendo a sua essência relacionada ao objeto que a postularam no mundo das coisas. Nós temos portanto a coexistência dessas duas coisas às quais nos referimos como obras de arte.

No modelo pós-cinema, a obra de arte é um padrão. Contanto que a cópia seja capaz de reproduzir esse padrão em exatidão, como acontecem com os bits nos CDs, ela tomará o lugar da original no momento da sua apreciação. O que a percepção do indivíduo capta é o padrão em si, logo para ele pouco interessa qual tipo de superfície, objeto ou o que quer que esteja reproduzindo o padrão, mas é de fato muito curioso que meramente um dado padrão seja capaz de evocar percepções tão mirabolantes.

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Na criação da obra de arte

Texto originalmente escrito para a disciplina Cinema e Estética, referente ao quarto período do curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal Fluminense.

 

O verbo “criar” e o substantivo “criação” são ordinariamente utilizados mal. Com eles as pessoas pensam estar se referindo a um novo objeto, de modo que um artista quando pinta um quadro o cria, mas isso evidentemente não caracteriza um ato de criação. Ao que se sabe a natureza do universo é tal que qualquer coisa física apontada como nova não passa de um rearranjo de coisas já existentes. É preciso salientar novamente que ao que se sabe da natureza do universo não há nada nela que permita ele próprio estabelecer uma diferença entre dois objetos. Enquanto eu, um indivíduo, olho para duas árvores uma ao lado da outra e reconheço que se tratam de fato de duas árvores, o próprio universo não dispõe de dispositivos que diferenciem os átomos que compõem uma árvore dos átomos que compõem o ar que cercam a árvore, e nem dos átomos que compõem o chão e menos ainda dos que compõem a segunda árvore. Isto é, toda a estrutura de átomos organizados uns aos lados dos outros é apenas uma só.

A percepção do indivíduo, entretanto, reconhece nessa estrutura de átomos determinados padrões. Não só reconhece os padrões como os associa a conceitos conhecidos, os nomeia e os assimila. E aí encontra-se a única criação possível: no além da fisicalidade das coisas, na própria relação delas com o indivíduo; especificamente, na apreensão única que o indivíduo tem das coisas e na atribuição de valores que ele as faz.

Utilizar o termo “criar” em “criar uma obra de arte” não é incorreto sob esse ponto de vista, é apenas algo mal conduzido. Uma nova poesia ou um novo filme de fato não adicionam nada novo à configuração do universo senão um novo padrão que passaria desconhecido como novo se não fosse pela percepção e atribuição de valores humanos. O que o artista faz é portanto colocar como objeto de apreciação um próprio padrão capaz de proporcionar apreensão e atribuição de valores.

O indivíduo parece ser capaz de apreender e atribuir a todas as coisas que percebe, mas esse é um terreno bastante desconhecido. A atividade apreensiva e atributiva aparenta se dar de maneira diferente quando o indivíduo percebe obras de arte em relação ao seu lidar diariamente com outros padrões, como os que estão em sapatos, em nuvens, em paredes e todas as outras coisas que compõem o ambiente que o cerca. Por isso há de haver uma diferenciação entre relações que podem ser definidas como experiências estéticas e as que não o são. Se uma parte do ato de criação é criar padrões tais que contenham em si a potência de serem experiências estéticas, de que maneira a relação com, digamos, um filme é diferente da relação com, digamos, uma camiseta? Primeiro, na experiência estética todas as atitudes perceptivas estão voltadas para o objeto apreciado, e segundo, depois da experiência estética resta o conhecimento.