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Sozinha nas nuvens

Com saltos leves ela passava de um degrau para o outro, e de pouco em pouco ela vinha descendo – de lá! De lá de cima: do céu! Pois sobre as nuvens ela caminhava, e assim fazia com pés delicados tais que sequer tocavam qualquer coisa, mas – ela descia! E olhando para as árvores na floresta; alaranjadas côs raios do sol nascente tocando suas folhas – ela descia! Ó ela descia: cantando num murmúrio suave de notas melancólicas – daquelas! Possíveis de serem produzidos senão por um coração afundado em tristezas; mas no reunir do seu ímpeto de esperança – ela…! Ela descia!

Mas, ah! Ela não desceu de fato. Porque do último degrau ela saltou, ainda muito alta acima das gramas no chão – e de lá os pássaros a pegaram; e eles, abençoados de força e bonitos das asas – e com as compaixões saindo pelas gargantas: eles também cantaram melancolias. E imparáveis nas suas bondades, eles prenderam-se no vestido dela, e ela – ah! Ela não desceu! Não! Levada planando por sobre o solo, ela foi; e deixada pelas aves na frente dum carvalho, ela também foi.

E os pássaros, eles soltaram ela; e ela, caiu de joelhos na grama: e se ralou, e doeu, e sangrou – mas! Ela fechou os olhos e se curvou, e na sua reverência um assovio desceu do alto da árvore diante dela. E ela! Se levantou. E olhou para cima; mas viu apenas folhas. E ela gritou: três vezes, ela gritou. “Ó mãe!” ela gritou – “ó mãe minha!” também – “ó tu que conténs em ti uma parte de mim! Ó mãe de mim!” ainda, ela gritou! Mas de mais alturas na sua voz – ah, sim! De alturas que fizeram o grito parar longe; nos fundos da floresta não houve uma criatura que não o ouviu; ah, dos coelhos aos bois – dos animais poucos aos animais muitos, em todos os ouvidos aquele grito foi parar: e não diferente nos da Mãe ela mesma. Ah!

Porque a Mãe, ela ouviu também. E lá do alto da árvore ela pulou como quem pula com vontade de um abismo sem fim, e no chão ela caiu com o peso de infinitos trotes de cavalos – e a força! De infinitos trotes de cavalos. E a terra, ela tremeu! – e as árvores: tremeram! E as criaturas: chacoalharam e caíram! E a Mãe parou de pé, tal fosse ela em sua forma física uma árvore das mais altas, se erguendo para muitos metros! De aparência imovível, ela ficou de pé! E ela, a Mãe, disse: “Minha querida filha, ó minha pequena! De mim podes pedir tudo, que na verdade tu já tens, só não sabe ainda; porque tu tens o que eu tenho. E eu tenho tudo, eu ó a Mãe de todas as criaturas que te cercam! Eu ó a plantadora de todas as árvores! Eu ó a iluminadora do sol de todas as manhãs! Pedes, filha, que eu te darei.”

“Ó mãe minha”, respondeu a delicada moça. “Só, eu estou! Minha alma dói na vastidão da floresta! Eu caminho por entre as nuvens, e os pássaros me carregam. E eles cantam, e eu canto. Mas, Mãe! Nossos cantos são diferentes. Eles não me compreendem. Minhas solidões, elas todas dentro de mim. Elas se enfurecem e me batem por dentro! Onde eu não consigo alcançá-las, Mãe! Ó Mãe! Me dê um braço que se estique até onde as minhas feridas precisam de curativos!” Ela falou assim cá cabeça baixa, côs olhos apertados, cás lágrimas inundando os olhos e escorrendo para a terra, e regando as gramas e a raíz do carvalho atrás da Mãe; e chorando dessa maneira, com seu coração doendo de pensar e de sentir. Tão verdadeiro foi seu choro, que de pé diante dela, também a Mãe se comoveu. E choraram ambas por muito tempo, até as lágrimas secarem e a fonte da tristeza gritar de dentro do peito uma promessa de que produziria novas no futuro.

“Filha minha!” Disse a mãe. “Tu terás esse braço que tanto desejas! E ele vai tratar de todas as tuas feridas. E ele vai abraçar o teu conforto, e tu se sentirás bem. Porque, ó minha filha, mais que um braço, será feito! Verdadeiramente eu te digo: uma muleta! Minha querida, sim! Essa muleta que tu precisas para apoiar as tuas manquices será feita também do material que há em mim! E bela, ela será, e forte, e firme! E ela te proverás por onde andar sem cair! E um apoio tal ela será que, ó, se tu alguma vez andares torta será pelo peso excessivo da alegria no lado que se encontra o teu coração.” E com essa última palavra, ela, a Mãe, saiu correndo e desapareceu no meio das árvores.

 

E a moça solitária! Por doze dias mais ela permaneceu lamentando a sua solidão nas nuvens. Doze! Por doze dias também sua Mãe não deu sinal nenhum: sequer no seu carvalho ela apareceu; sequer nas beiradas dos rios; sequer no topo das montanhas. Doze! Por doze dias a moça procurou pela Mãe, na angústia de ter seu pedido atendido; e por doze dias suas esperanças desvaneceram e se converteram num manto ainda maior de tristeza – mas! Mal sabia ela que a Mãe – a Mãe! Estava moldando; estava arrancando as coisas necessárias e colocando elas no formato adequado. Estava desenhando com linhas sensíveis nos pedaços para que o todo final pudesse ser capaz de ostentar um sopro de movimento!

Então, eis que a Mãe! Ó, por sua vez; num canto escondido da floresta, dentro duma caverna coberta pelas folhas das árvores: ela trabalhou por doze dias sem nenhum descontínuo: sem mesmo um para o sono! Sem mesmo um para a fome; menos ainda um para a sede; precisão nenhuma tinha ela daquelas coisas enquanto talhava; e…! E ela talhou: ela talhou do primeiro ao décimo segundo dia – mas nesse ela talhou pela última vez: porque ah! Nada mais ela tinha a retirar da forma grotesca que pela primeira vez havia se colocado diante dela: aquela forma que outrora havia precisado ser moldada jazia-se na frente dela ofertando apenas a possibilidade da adição – e a Mãe, ela adicionou. O que faltava no resultado do seu trabalho – ela adicionou!

Pois abrindo a boca ela deixou sair um ar de quentura tal que esfumaçou – mas! Esfumaçou… vejam vocês! Esfumaçou – colorido! Ah! E o ar quente saiu pela boca da caverna, e ele empurrou os galhos das árvores, e as folhas delas se abriram – e a luz! Do sol; a luz do sol! Ah! Ela entrou e iluminou mesmo a parede final lá de dentro; e a fumaça colorida! Se misturou na luz. E no meio daquilo, desapareceram: a Mãe e sua obra.

 

E na noite daquele dia: de fato, tarde – da noite, a Mãe saiu da sua caverna e deslizou por cima – e, ó! Para cima – das árvores até as nuvens. Nos ombros: carregava o presente para a moça triste; que recém havia dormido das suas insônias de tristeza. Ah! A situação era tal que a escuridão encontrava-se fora e dentro da coitada; e desacordada estava não no seu único momento possível de luz, mas no seu único momento – de nada! E se não era aquele o último consolo do seu coração até então desamparado.

Mas enquanto a Mãe se movia para os céus, sua velocidade tremenda cortava o ar – e fazia soar para todos os lados, como que! Ah! Como que trovões de mil tempestades! Acordaram: os animais; os que estavam no topo das árvores e os que estavam enfiados em raízes; e! Mesmo os que estavam debaixo d’água: acordaram – e a moça! Ó! Acordou também do seu refúgio noturno.

Ela se levantou com uma perturbação corporal imensa; com olhos de choros guardados. Enquanto coçava as pálpebras e olhava ao redor, ouviu mais uma vez o estrondo das tempestades… e, pobrezinha! Que susto ela tomou! E: que desespero, também! Ficou de pé num instante e saiu correndo pelas nuvens, buscando a origem do grande distúrbio – mas na escuridão sem fim que era aquela noite, ela pôde apenas correr sem rumo. Ouviu mais uma vez os trovões e viu um clarão surgindo num canto dos olhos: e correu na direção dele.

Quando chegou na borda das nuvens, sua Mãe surgiu de repente – e contemplem! Lá! Nos ombros da Mãe! Ela viu, ó! Ela viu: alguma coisa que brilhava! Algum ponto claro na negritude da noite! Tamanha foi a curiosidade que seu coração se apressou, e ela…! Respirou fundo e apertou os olhos numa tentativa de enxergar – mas!

“Minha filha! Eu senti pena dos teus sofrimentos, e na floresta que eles formavam eu decidi abrir um caminho que te permitirás escapar! Para essa coisa que tu precisavas eu atribuí tudo o que achei de bem – mas, minha filha! Algo ainda falta no teu presente! Algo que poderá ser atribuído por ti apenas, pois assim eu determino melhor – e esse algo, ó minha filha, chama-se: amor! Esta é tua tarefa, e enquanto ela não for cumprida teu presente permanecerá sendo senão uma luz no horizonte do teu olhar!” Assim disse a Mãe, que, depois de fazê-lo, retirou do ombro a coisa que brilhava, colocou-a nas nuvens diante da moça assustada e desapareceu.

 

Pois tal se encontrava a donzela: perplexa na borda das nuvens, encarando qualquer coisa emanando luz diante de si. No silêncio da noite, ela tentava decifrar as qualidades e formas do seu presente. “O que é isso?” Ela se perguntava, “qués que minha Mãe me deu? Oh, o que será?” Mas seus olhos doíam com a claridade contrastante. – Ela se afastava um pouco, se curvava e dava voltas: mas, nada; apenas o incômodo nas pupilas. E então, quando a frustração estava para invadir o seu coração – ela ouviu: “tu me entendes?”

Ó!

A moça deu um salto para trás. Ela ficou côs braços armados e as pernas abertas, como um animal aguardando o ataque dum inimigo.

Voltou a voz: “Ontem eu ouvi os pássaros, mas eu não os entendi. Eles são engraçados. Falaram e falaram, e eu quieta quieta tentando disfarçar que não estava conseguindo entendê-los…”

Ó! Pois, vejam vocês – qual foi a surpresa da moça! Se não era da coisa brilhante que a voz saía – e, além! Para uma surpresa ainda mais: como uma pena carregada pelo vento, ela chegava trazendo palavras sobre pássaros. Sobre pássaros!

“Ah! Eu te entendo sim! Então! É isso que tu fazes!” A moça disse, abaixando sua guarda.

“Eu não sei. Causa de quê que tu estavas me examinando daquela maneira?” Disse a dona da voz.

“Causa que eu não sei o quê tu fazes!” Respondeu a moça, e se calou. E, no silêncio, ela decidiu dar passos lentos e se aproximar – mas, a coitada! Fez isso olhando para os pés, porque à sua frente permanecia ainda a terrível claridade que machucava os olhos.

“Mas tu descobriste?” A dona da voz disse de repente.

A moça parou e se armou novamente, e respondeu: “Não! Não descobri o que tu fazes! Não muito bem, não!”

“Então tu olhaste tudo que tinha para ser olhado em mim e não compreendeste nada?” A dona da voz disse, e! E…! E riu! A moça se intrigou ainda mais, e voltou com seus passos vagarosos.

“Ah! Do qués que tu ris? Eu olhei, mas eu não vi. É que tu és tão clara que dóem minhas vistas e eu não enxergo nada.”

A dona da voz ignorou a primeira pergunta e se ateve à parte que julgou interessante: “Clara? Mas está tudo tão escuro aqui,” e riu novamente. “Qués que é isso em que eu estou pisando?”

“São as nuvens. Eu vivo aqui. Do qués que tu ris?”

“Aqui! Nas nuvens! Ora só!” E riu ainda uma vez mais. “Então o que eu estava admirando ainda ontem era o seu lar!”

“Tu estavas? Do qués que tu ris?”

Mas! A dona da voz, resoluta a satisfazer apenas suas próprias vontades – não respondeu. Apenas riu de maneira descontrolada; riu em gritinhos agudos que ecoaram pela noite. E então: a moça não aguentou mais. Ela! Aproveitou que já havia se aproximado um tanto, se encolheu um pouco, como uma onça… e! Num instante ínfimo! Se saltou na direção da coisa brilhante – e! Voou com os braços abertos, agarrou o que conseguiu, e, ah! E…! E caíram ambas lá de cima!

De olhos fechados, a moça não sentiu o vento cortando eles durante a queda – mas! Muitas outras coisas ela sentiu: ela apertou seu presente – e apalpou, e deslizou cás mãos no que não podia ser senão uma cintura: e “ah!” ela suspirou boquiaberta! E, ainda durante a queda! Ela levantou os dedos e enrolou neles fios que não podiam ser senão de cabelos: e “ah!” uma vez mais ela exclamou! E então, ó! Ela compreendeu tudo. E, em choque, ela acarinhou o presente da Mãe.

 

Enquanto a outra começava a rir com os toques da mocinha, como quem recebe gracejos inesperados – os pássaros! Pássaros da noite! Eles vieram e impediram-nas de cair; e eles pegaram as moças e levaram-nas abraçadas de volta para as nuvens.

“Do qués que tu ris?” Disse a moça quando pisou novamente e soltou a outra.

“É que tu és muito engraçadinha! Cheia de sustos!” E riu.

Foi dali, ó que coisa, que elas começaram uma conversa agradável. E elas falaram no decorrer da madrugada, e elas contaram piadas e compartilharam gostos, e pararam apenas quando o sol começou a nascer – para saltar pelas nuvens e cantar côs pássaros. Naquela manhã, juntas, elas fizeram uma canção que dizia assim:

            “Andando aqui, em cima das nuvens, e

                  saltando sobre elas, de mãos dadas.

            Correndo contigo, ao meu lado,

                  nós nos divertimos!

                        Oh oh!

            Voando, vêm os pássaros, e,

                  cantando, se afastam.

            Planando, perdem altura,

                  olhando-os, nós nos divertimos!

                        Oh oh!

            Ricos raios (de sol) atravessam

                  nossas nuvens pelos lados.

            Chegam como (se fossem) águas tônicas, e

                  nós nos divertimos!

                        Oh oh!

            Andando aqui, em cima das nuvens, e

                  saltando sobre elas, de mãos dadas.

            Correndo contigo, ao meu lado,

                  nós nos divertimos!

                        Oh oh!”