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A Bruxa e o Saco de Penas

Havia um vilarejo entre um riacho, de onde os moradores tiravam do que beber, e uma floresta, de onde conseguiam os animais que criavam para comer. A harmonia reinava, e tudo e todos tinham sua função muito bem definida: Neves era o padre do vilarejo, Ernando era o plantador de cenouras, Bento era o contador de histórias, e havia até uma Bruxa, Fátima, responsável por fazer uma maldade aqui e ali para que os moradores pudessem reconhecer o bem.

Todas as manhas, a Bruxa, bem como todos os outros, era acordada por Romeu, o garoto que saía da cama antes do sol nascer e tinha a tarefa de acordar toda a comunidade no horário que fosse adequado para cada um. Ele havia herdado essa função do pai, que lhe ensinara a usar o sol e a lua como relógios, e a própria força de vontade como despertador. Assim, ele sempre acordava quando queria e nunca errava a hora de atrapalhar os sonhos de alguém.

Certo dia Romeu corria pelas vielas indo acordar a Bruxa, o que seria seu último trabalho naquela manhã, quando num momento de distração o garoto pisou em um buraco e acabou torcendo o pé, se jogando ao chão e se contorcendo. Se estivesse um pouco mais perto, a Bruxa com certeza teria acordado com seu grito de dor.

Romeu se levantou rapidamente, desafiando bravamente as consequências da ferida ferida, pois sabia que de todos os moradores a Bruxa era aquele com o qual não podia falhar. Pensou “ai de mim se não acordá-la!”, e fez o que pôde para cumprir o horário: não podia correr, então caminhou arrastando o pé o mais rápido que pôde.

O pobre rapaz caminhava à passo de tartaruga, e cada vez que olhava para o sol seu atraso ficava mais e mais visível. Até apanhou um galho no chão e o usou como muleta, mas não adiantou e acabou acordando a Bruxa um tanto fora do horário.

– Fátima, Fátima! Acorda! – Gritou Romeu batendo na janela. – Me atrasei, acorda!

De repente, Romeu foi assustado pela porta que se abriu a sua direita. Olhando lá pra dentro não enxergava paredes, cadeiras, janelas, bules, nada, nem mesmo a própria Bruxa. Ninguém fazia ideia do que havia lá porque ela nunca abria aquela porta, mas Romeu agora via que seria impossível dizer a diferença entre o que havia do lado de dentro e a completa inexistência de qualquer coisa.

Entendendo que a porta havia sido aberta especialmente para ele, Romeu estremeceu-se, mas teve coragem pra entrar. Em meio a escuridão, um chapéu, um par de olhos e uma larga boca tornaram-se visíveis.

– Veja bem, Romeu… – Disse a Bruxa. – Me diga o que seu pai lhe ensinou a fazer.

– Acordar os moradores d– E foi interrompido.

– Claro, claro, e me diga, tem mais alguém aqui com essa função?

– Não… É qu– E foi interrompido de novo.

– Então, Romeu, você entende que se não me acordar às oito ninguém mais vai, não é?

– Sim, mas– Uma terceira vez.

– SILÊNCIO! – Fátima voz ecoou pelo vazio da sala. – Entende por quê eu preciso te punir, Romeu? Assim você nunca mais vai se atrasar.

– Mas eu acabei me machucando…

– Eu sei. Por isso seu castigo é ir até a casa do velho Niceno e me trazer as penas de galinha que eu mesma já teria buscado, não fosse por você.

Niceno era o senhor que cumpria a função de viver sozinho e nunca sair de casa, permitindo que os outros moradores criassem as mais terríveis histórias sobre ele. Nem as crianças ou os adultos tinham coragem de perturbá-lo, e apenas a Bruxa ousava visitá-lo e não permitir que o homem perecesse na mais completa solidão.

Quando Romeu respondeu que a punição seria injusta, não só porque teria que lidar com o tenebroso Niceno mas também porque seria doloroso fazer a caminhada com aquele pé, a Bruxa se impôs produzindo um som semelhante ao de trovões. Romeu imediatamente saiu arrastando o pé e se apoiando no galho-muleta.

Apesar do grande incômodo que era andar com aquela ferida, o pior que Romeu enfrentou durante a caminhada foi o crescente medo que o acompanhou. Cada arrastada de pé que o colocava mais perto da casa de Niceno também o trazia um novo pensamento sobre o velho e as lendas que o cercavam. “Será que ele vai tentar me prender?” “Será que ele vai estar usando óculos para disfarçar seus olhos-vazios?” “Será que a Bruxa já havia lhe tirado a maldição que o fazia ter pernas-de-formiga?”

Depois de passar todo o caminho imaginando o mais monstruoso Niceno que pôde, Romeu se viu obrigado a bater na porta e a gritar o nome do velho. Usou o galho-muleta pois a essa altura já estava com medo de encostar na casa e ser contaminado por alguma das maldições da Bruxa. Fátima porta se abriu e revelou um mundo com muito laranja.

Romeu esticou o pescoço e viu uma cortina laranja e um tapete laranja, mas não viu o velho Niceno.

– Entra, entra. Por que a demora? – Uma rouca e cansada voz ecoou lá de dentro e obrigou Romeu a estufar o peito com coragem antes de colocar o pé bom na porta. – Suas penas estão ali ao lado da lareira.

As coisas pareciam ainda mais alaranjadas vistas daquele lado da porta. Havia até uma poltrona laranja de costas para Romeu, que parecia ser de onde vinha a voz do velho. Contornando-a, Niceno finalmente se fez ver por alguém que não fosse a Bruxa e se colocou de pé num instante. Romeu se jogou para trás, ao chão.

– O quê?! Quem diabos é você? Cadê Fátima?

Romeu olhou de baixo para cima e admirou toda a figura do velho que se encontrava de pé diante de si. Ficou boquiaberto com o que viu, foi a visão mais surpreendente que não poderia imaginar.

– Eu sou… Eu… Eu vim pegar as penas… – Disse ele entre gaguejos e respiradas ofegantes.

O velho franziu as sobrancelhas e pareceu extremamente confuso. Ajeitou os óculos e se aproximou do garoto até que seus rostos ficassem a um palmo de distância.

– Como assim, rapaz?

Romeu desmaiou. Quando seus olhos voltaram a abrir, a primeira coisa que viu foi o velho na poltrona diante de si, o observando. Analisou os arredores e percebeu que estava ele mesmo sentado em uma almofada ao lado da lareira e do saco com penas de galinha.

– É melhor esperar, quanto mais esforço fizer mais vai demorar para sarar. – Disse Niceno apontando para a tala que havia feito no pé do garoto. – Agora, está tudo bem com Fátima? Por que não veio ela própria?

– Ah, eh… Eu… Ela… – Romeu ainda estava assustado pela figura do velho. – Ela teria vindo se eu a tivesse acordado na hora certa… Me atrasei por causa do machucado…

– E você achou que seria uma boa ideia vir no lugar dela com um machucado desses?

– Não, ela… É um castigo, eu é que não ia desobedecer a Bruxa, sabe-se lá…

O velho enfiou a cabeça no pescoço e riu baixinho.

– Sei, a Bruxa, sim… – Niceno ponderou por alguns segundos antes de continuar. – Garoto, quando eu tinha sua idade também havia uma Bruxa no vilarejo, quer dizer, outra bruxa, que já morreu há muitos e muitos anos.

– Morreu?! Como ela morreu se era Bruxa?

– Não, não, – respondeu o velho entre risadinhas – acaba que as Bruxas não são assim tão poderosas, eu acho. Aposto que Fátima também não pode muito.

Romeu olhou para o velho sem acreditar que ele ousava falar aquilo da Bruxa.

– Já vi ela fazer feitiços terríveis… – Disse ele.

– Eu entendo. Fátima Bruxa dos meus tempos também fazia esses feitiços, mas nem tudo era mal. Na verdade, as coisas sempre acabavam bem. – O velho olhou para o teto num esforço para resgatar uma memória importante. – Sabia que fui eu quem trouxe galinhas para o vilarejo?

Romeu não disse nada, apenas fixou seus olhos, confusos e admirados, em Niceno.

– As galinhas viviam além da floresta, atrás das montanhas, – continuou ele – e ninguém nunca havia visto nenhuma. Fátima Bruxa me mandou buscar um pouco do trigo que crescia lá perto, como castigo, e acabei descobrindo as galinhas.

O velho Niceno contou tudo sobre as galinhas. Sobre como elas eram ariscas e como levou a tarde toda para conseguir capturar apenas duas, sobre como voltou com amigos para pegar mais, sobre como construiu o primeiro galinheiro e como sua mãe cozinhou a primeira galinha, e sobre como partilhou os animais com todo o vilarejo.

Romeu se admirou tanto com o caso das galinhas, e além do mais Niceno contava com tanto entusiasmo, que os dois passaram o dia todo dividindo histórias bondosas sobre Bruxas. Naquela tarde Romeu descobriu que o velho não era mais que uma antiga criança, e que daquele dia em diante sempre o visitaria para ouvir suas memórias. Saiu levando essa certeza junto com o saco de penas.