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Água, Grama e Vento

Quando terminou de ler a palavra “ostium“, incluiu por conta própria um “pronto, é isso?” e imediatamente seu corpo fora envolvido por águas que entraram pela janela. Ao mesmo tempo, o livro fora puxado para longe de suas mãos.

Os olhos do rapaz se esbugalharam ao ponto de parecerem estar decidindo se continuariam ali ou se fugiriam para descobrir o que havia além daquela verde planície interminável. Ele, como constatou ao girar a cabeça desesperadamente para todas as direções, estava cercado por uma grama baixa que se estendia para além do horizonte, e o que quer que houvesse lá estaria muito bem iluminado pelo sol-de-meio-dia que ali reinava.

Cobriu as orelhas com as palmas das mãos e deixou o queixo cair até onde as cartilagens fossem capazes de segurar. Fechou o queixo, apontou para frente. Olhou para trás e não havia ninguém para olhar para onde apontava, então apontou para lá também. Voltou as mãos às orelhas e começou a correr em círculos, se jogou no chão e admirou o céu – quase foi cegado pelo Sol, mas comprovou que o que havia acima de si era azul e não branco, como era o teto de seu quarto. Levantou.

– Funciona, funciona! Quem diria, aquele maldito livro! Inacreditável!

Correu na direção em que nariz apontava, encheu o pulmão de ar e gritou separada e longamente cada uma das seguintes sílabas:

– Ah, ah! I-na-cre-di-tá-vel!

E continuou assim por alguns segundos, exprimindo a surpresa de vivenciar suas expectativas sendo provadas incorretas. Já havia corrido por uns bons muitos metros e o horizonte continuava sendo apenas gramado em todas as direções; parou, tirou o sorriso do rosto e se pôs a analisar o que via. Olhou para a própria mão direita.

– Caramba… – Disse baixinho para si mesmo, suspirando. – O livro não veio comigo…

Voltou a correr. Correu até cansar, e quando caiu foi porque o corpo não tinha mais forças para se manter em pé. Suas pernas talvez estivessem se perguntando quanto mais teriam que correr até os olhos verem algo que não fosse grama.

– Como faço pra voltar? – Gritou com toda a força possível, e sequer ecos voltaram para si. – Como… Faço… Pra… Voltar?

Contemplou um pouco mais o que o cercava e se pôs a caminhar. Parou quando o céu passou de azul para laranja; a noite estava chegando e estava ali preso, sem o livro que o trouxera e sem mudanças no gramado. Sem respostas para seus gritos, também.

– Maldição… – Assim sussurrou, e depois gritou: – Maldição! Maldito! Maldito livro! Magia, tola!

Sentou e continuou a blasfemar, mas se tornara inaudível por causa das poderosas rajadas que se apoderaram do ambiente. O ar corria pelo interminável gramado com a velocidade de um leão, e o peso de um elefante. O rapaz não pôde fazer nada além de se encolher sobre o próprio corpo, contra aquilo não haveria como lutar.

Os minutos se passavam, mas a ventania também era sem fim, como o agora saudoso verde. Se antes queria voltar para casa, agora gritava que queria voltar à calmaria  que encontrara quando chegara ali, mas não adiantava, quanto mais gritava pedindo ao vento que o deixasse em paz com a grama, mais o ar lhe cortava as costas.

Em baixo de si as folhas estavam deitadas para frente, trêmulas. Fixou os olhos naqueles pequenos movimentos e ficou em silêncio. Viu que algumas das folhas eram arrancadas pelas rajadas, e seus olhos se fecharam por conta própria porque não queriam mais ver aquilo.

Começou a abrir a boca para suspirar algo, mas gotas de água surgiram da grama até se reunirem em quantidade suficiente para envolverem seu corpo. Percebendo isso, abriu os olhos para mais uma vez reconhecer a grande mudança que acontecera ao redor de si. A ventania parou, e a grama não estava mais lá; o livro, entretanto, caído no chão e aberto na primeira página.

Conto: O Garoto e o Raio

O Garoto seguia, pouco antes do anoitecer, o mesmo caminho que seguia todos os dias do ano desde o início do período escolar. Se sentia seguro fazendo aquele percurso, afinal o conhecia como a palma da sua mão – preferencialmente o contrário: o Garoto conhecia a palma da sua mão como conhecia aqueles pedaços de rua entre a escola e sua casa.

Apesar disso, foi tomado de uma aflição incalculável quando viu cair do céu gotas grossas de uma Chuva de Novembro. Aliás, se parasse para pensar, e não parou, saberia que a aflição foi causada pela escuridão repentina do céu, pelo alto som dos trovões e pelos clarões rápidos que iluminavam seu caminho; os raios. No fim das contas, o Garoto apenas tinha medo dos raios.

Ele os conhecia. Ele teve aulas de física. Ele sabia o que era um Raio. Ele sabe. Ele sente o perigo se aproximar e não vê escapatória, sabendo da força de seus inimigos e não tendo um escudo para se defender de seus ataques, ele vê sua morada longe. Ele tenta alcançá-la, e faz isso numa velocidade tão alta que até mesmo um raio, um maldito raio, não poderia atingir o Garoto. Ele, nesse momento, encara a morte face-a-face, pois para aumentar sua habilidade de locomoção, abandona os movimentos de suas pernas e passa a fazer uso de sua bicicleta. A bicicleta, objeto metálico, objeto de desejo do Raio, objeto de alcance do Raio, objeto de fetiche do Raio. Sim, um maldito fetiche. Do Raio.

O que seria mais rápido, afinal? O Garoto, chamando seu inimigo para uma batalha, montou em sua bicicleta e pôs velocidade máxima em direção à sua casa. A bicicleta, objeto e objetivo comum tanto do Garoto como do Raio. Ou o Garoto usa a bicicleta para atingir sua residência, ou o Raio usa a bicicleta para atingir o Garoto.

POW!

Escapou do primeiro. Mais rápido que a bala, o Raio cai à direita do Garoto. Parece que… mas aquilo é… sim! O medo era metafísico. O Garoto percebeu que estava, estaria e estará são e salvo, pois, em sua direita encontrava-se, pasmem, um para-raios.

Numa epifania rápida, o Garoto voltou a se sentir como se sentia antes: seguro. O caminho que fazia diariamente entre a casa e a escola se mostrava amigável e digno de receber sua confiança, afinal havia acabado de salvar sua vida.

O Garoto, enfim, chega em casa.