The Church at Auvers Van Gogh

O tempo passa

eu sou deusa, eu sei de tudo, e vejo tudo e conheço todas as coisas. e sou triste. preciso dizer, eu sou triste. sou triste por ele e por ela; as coisas não acontecem jamais e eles vivem dias compridos. e eles sentem o tempo passando por cima deles. parece que dói.

olho e vejo diante dele uma estrada. Ele espera. Um dia prometeu que cruzariam seus caminhos, e nunca essa oportunidade foi concedida; abstenho, eles não tiveram a sorte. vem alguém de bicicleta. vem alguém correndo. alguém, vem alguém. sempre alguém. e enquanto continua assim, a estrada cresce e cresce, e vai dar cada vez mais funda no céu. pra ir embora fica mais difícil. o caminho é maior, ele não tem essa força toda pra chegar no fim. não tem jeito; eu diria, não tem jeito pra ele. vai ter que ficar parado. esperando e esperando. sozinho.

longe de lá ela passeia pelas florestas. duas, três, mil florestas ela visita. em cada floresta conhece as árvores, e a cada árvore faz uma nova promessa. e agora ela prometeu ao mundo todo e não pode mais escapar disso. deve para sempre visitar as florestas e cumprir sua palavra, ou então vai deixar as árvores chateadas. não se pode chatear as árvores; elas nunca esquecem e contam umas às outras, e suas raízes vão fundo embaixo das pedras e guardam lá muito bem o nome de todos que gostam e odeiam. e elas passam a odiar muito facilmente quem as chateia. e ela, eu tenho pena dela. sua primeira promessa foi a ele. agora ela não pode respeitar mais o seu primeiro amor. ela não pode respeitar o seu primeiro amor. parece que dói.

ele espera. a estrada cresce. os rios fazem nascer mais árvores; a chuva vem também para ele. ele diz, eu não ligo!, e espera e espera. faz desenhos na areia e puxa do bolso uma sacola; estica e assobia. só os passarinhos escutam. ele acha os passarinhos bonitos, mas não se importa que eles escutem. ela não escuta. está longe, não vem. a estrada cresceu demais. ela ainda cumpre as promessas às árvores; sabe das consequências, não consegue escapar disso. ela faz, não perde jamais as forças. busca honrar as palavras dadas para a natureza. mas ele. ele. ele não tem mais sobre o que pensar. está cansado. sozinho em sua mente. companhias no mundo não o satisfazem mais. não tem para onde ir. o horizonte acabou. pensa, não tem jeito. … parece que não tem mesmo. estou triste. triste por ele. desiste. desiste, rapaz. algum dia vai morrer aí mesmo. e ela que não sabe da sua situação vai continuar cumprindo promessas. a primeira só pode ser a última, se for. vai demorar, no mínimo vai demorar. não adianta esperar. você vai esperar pra sempre e vai morrer. e ela vai ficar cansada de tentar. desiste que eu falo pra ela parar. desiste que eu falo pra ela ir fazer outras coisas. ser feliz. divertir-se. desiste. … é uma pena que ele não me escuta. … a estrada cresce. as árvores nascem e complicam o mundo. ela continua. ele continua. eu repito: o tempo passa pra eles. parece que dói.

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Promessa antiga

Pela floresta ia andando docemente uma moça; e ao redor seis anjinhos cantavam assim:

                    Oh que flores mais lindas!

                    Essas cores nós nunca vimos, e ó!

                    Que cheiros que nunca sentimos!

                    Ara ara, aiaiai mas que lindeza!

E eles dançavam no ar e batiam as palminhas das mãos em seus pandeiros; e estes faziam tí-qui-tch! tí-qui-tch! e todo mundo gostava – até as lagartas que não gostavam de nada (nada no mundo!) nem ninguém; até elas achavam bom; e sorriam e falavam umas para as outras: “Mas que companhia mais bonita!” ou então “donde vem aqueles lá que cantam daquele jeito!”, e aí as outras concordavam, “não é, donde mesmo!” e ficavam todas bestas: oh todo mundo gostava!

E feliz da vida vinha atrás um asno; um asno que não sabia agir conforme queria, mas que sabia querer todas as coisas e era satisfeito com isso – e ele puxava uma carroça velha que fazia inhé! inhé! das rodas enferrujadas. E todo mundo gostava!

E gostaram mais quando chegaram todos num mar de cerejeiras, rosinhas de viver feliz. E nessa altura a floresta toda já acompanhava a moça e cantava e dançava com os anjinhos – e gostava muito não é! – todo mundo embaixo das cerejeiras sentindo o cheiro rosa. Cheirava rosa! E parecia rosa! E sentia rosa! Era tudo rosa naquelas terras das cerejeiras! Porque elas gostavam assim e queriam assim.

E uma delas falou para a moça dos passos doces: “Oh oi você! Pois eu te conheço, é?”

E a moça deu risadinhas até ficar com as bochechas rosadas e pensarem que ela era cerejeira também; e respondeu “ai, sim! Você me encontrou quando–”

“Quando quê!” interrompeu a cerejeira, ora muitíssima surpreendida. “Se eu nunca saí daqui!”

E a moça bateu palmas e os anjinhos foram sentar nos galhos da cerejeira; e ela disse, “é que você era semente ainda.”

“Ah-ha-ha!” riu a cerejeira até chacoalhar os anjinhos de volta pro céu, com desdém de pessoa séria. “Então você mente! Porque eu nem lembro de ser semente.”

“Lembra de mim, você!” respondeu a moça doce, “porque me amava.”

“Porque quê!” respondeu a cerejeira.

“Faz mal não!” disse alegremente a moça. “Posso te cortar?”

“Não! Vai embora, que seus papos são esquisitos e eu não gosto,” disse a cerejeira, e a moça não ligava para nada e tinha mais diversão para conseguir em outros lugares; então foi mesmo embora. Ah trá lá lá! Até os anjinhos voltaram e cantaram e dançaram junto com todo mundo…

Mas na outra semana a moça voltou com a chuva, e aí não teve jeito. Chegou pra cerejeira e falou assim, “será que eu posso te cortar?” e as gotinhas da chuva atazanando a pobre da árvore. “Sua peste!” ela respondeu, “eu pensei muito sobre isso. Não pode não.”

E riu a moça, que era danada mesmo! “Mas é melhor eu poder,” ela disse, “porque eu vou te cortar de qualquer jeito. Ai eu te prometi, querida!”

“Mas! Eu não permito! Eu! Não! Permito!” respondeu a cerejeira com o coraçãozinho cheio de raiva.

“Ai mas muita coisa! Se eu te corto sem você deixar não vai ser bom!” disse a moça, e danou de chorar até todo mundo ficar com dó. Até a chuva choveu mais um pouco de tristeza por causa dela; até as lagartas, que nunca choravam por nada (nada no mundo!) nem ninguém, choraram pela moça doce; oh tadinha! Falavam assim, as lagartas: “coitada dela, que coisa feia!” e também “quem é que faz mal pra uma coisinha assim!” e aí elas mesmas respondiam, “não é, quem faz! Que maldade!”

“Eu não acredito!” respondeu a cerejeira, “então pode me cortar! Mas vou deixar claro, é permissão mas não é vontade não viu! Vou deixar, mas sob protesto!”

E a moça sorriu! E comemorou como se tivesse ganhado o mundo de presente; e gritou, “ai, ai!” e “sim! Sim! Então vem pra cá meu asno!” e aí o asno obedeceu, porque ele fazia assim. E ele trouxe a carroça, e a moça foi delicadamente e pegou lá de cima um machado feito todinho de saudade, bem brilhante e afiado; e levantou ele pro alto bem forte, e – chomp! E chomp!, chomp!, chomp! fez o machado, e ai ai ai! Os anjinhos cantaram a música deles, e todo mundo dançou feliz – e a moça trabalhou duro enquanto isso, e olhem só vocês! Trouxe abaixo aquela cerejeira, que fez tchhhh-bum! E disse com bastante rancor, “ai!”

E danou a reclamar, a cerejeira! Estendida no chão, e bla-bla-bla! pra cá! E blá-blá-blá! pra lá! E continuou a moça com seu machado de saudade, chomp!, chomp!, chom! até a cerejeira perder todos os galhinhos e as flores rosas; e depois chomp!, chomp!, chomp! mais um pouco, e bla! bla! bla! daquele tronco reclamando sem parar! Mas ah! Se enfim! Ora enfim, por fim, no final! Não é que ela fez o que queria, aquela moça doce!

Saiu correndo pra beirada do rio e jogou aquele machado lá embaixo; todo feio e murcho, e podre e enferrujado! E gritou, “ai tchau!” e o machado nem respondeu – foi embora casado com as águas; e voltou pulando para sua cerejeira – e agora eu vou contar de verdade o que aconteceu! Pois não é! Não é que a cerejeira de tanto levar machadadas tomou outra forma! Ganhou uns bracinhos bem delicados e um cabelo rosa muito bonito, e os anjinhos trouxeram um vestido de seda que caiu assim, realmente muito bem! Ah enfim! Por fim, foi assim! Ah não, ah é! Não tinha mais nada para reclamar, a cerejeira; oh-há-há! Parou com os blá-blá-blás e danou a falar coisas bonitas de agradecimento e de alívio pra moça doce; e se abraçaram e se amaram que nem tinham feito antes, muito antes. Nossa, olha ali! Uma borboleta na janela! Será que ela quer entrar ou sair?

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O conceito de Eucatástrofe em J. R. R. Tolkien | Final Feliz e Contos de Fadas

Link para assistir no Youtube.

Link para o roteiro do vídeo.

1. Referências e recomendações

Sobre a Pirâmide de Freytag:
(en) Livro “Freytag’s Technique of the Drama” numa tradução antiquíssima pro inglês
(en) Capítulo do livro supracitado em que o próprio Freytag descreve a Pirâmide

Infelizmente não há muito conteúdo acadêmico sobre a teoria narrativa do Freytag. Cheguei a encontrar alguns artigos que citam os pensamentos dele de um jeito muito passageiro, uns posts em uns blogs esquisitos e uns vídeos espalhados pelo youtube – achei todos bobos e sem fundamentos. Para quem quiser se aprofundar, minha recomendação é que leia diretamente o que ele escreveu.

Sobre Tolkien e Contos de Fadas:
(pt) Livro “Árvore e Folha”, que contém o ensaio “Sobre Conto de Fadas”
(en) Ensaio “On Fairy Stories” em inglês
(pt) Ensaio “Três Maneiras de Escrever para Crianças”, do CS Lewis
(en) “The Qualities of a Tolkenian Fairy-Story,” de Clyde B. Northrup. O melhor artigo que li sobre a teoria de Fantasia do Tolkien. Muito didático
(en) “Between eucatastrophe and grace,” de David Sandner, para uma análise mais aprofundada do conceito de Eucatástrofe
(en) “Tolkien and Eucatastrophe,” para outra explicação aprofundada do conceito. Recomendo a leitura a partir do tópico “Magic, Fairy Tale Endings, and Eschatology”. Texto riquíssimo do John J. Davenport

Sobre Aristóteles:
(en) Artigo da IEP explicando a Poética aristotélica
(pt) “A Poética de Aristóteles sob a abordagem de Lígia Militz da Costa,” artigo da Maria Cláudia Araujo
(pt) “Sobre a teoria dos gêneros dramáticos, segundo Diderot, e sua aproximação da Poética de Aristóteles,” artigo da Jussara Gomes da Silva de Freitas
(pt) “Sobre o conceito de Catarse na Poética de Aristóteles,” artigo do Álvaro Queiroz
(pt) “Alguns conceitos presentes na poética,” parte da dissertação de mestrado da Elaine Valente Ferreira

A passagem citada no pós-créditos é uma tradução livre (minha) do conto escocês O Touro Negro de Norroway (Black Bull of Norroway), que eu conheci através da versão do Andrew Lang registrada n’O Fabuloso Livro Azul. Dá pra ler em inglês aqui. [bonitinho demais!]

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2. Sobre eucatástrofe e cristianismo
Quem já conhece o conceito de Eucatástrofe, certamente percebeu que eu deixei de fora do vídeo uma parte muito importante dele: a relação com o cristianismo. Resumindo, Tolkien faz uma leitura da história humana como um grande conto de fadas, e indica a suposta ressurreição de Jesus de Nazaré como a maior eucatástrofe de todas. Além disso, quando Tolkien fala do “estado de espírito” em que nós nos encontramos depois de presenciarmos uma eucatástrofe bem feita, ele atribui esse efeito ao fato da eucatástrofe ser um pequeno “vislumbre da Verdade”. Os textos recomendados acima se aprofundam nesse aspecto de uma forma que eu não tenho sequer capacidade, e menos ainda interesse, de fazer.

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A Bela e a Fera através dos tempos – Origem e Versões de Cinema

Parte 1: Origem da história – Antecedentes e primeiras versões

Link para assistir no Youtube.

Parte 2: Três Filmes

Link para assistir no Youtube.

Link para o roteiro dos vídeos.
(As fontes, referências e complementos abaixo compreendem os dois vídeos da série; também estão disponíveis no fim do roteiro do link acima.)

1. Referências e Recomendações
(pt) Livro que inclui as duas versões de A Bela e a Fera citadas no vídeo e uma introdução sobre as duas autoras que serviu como principal base à contextualização que eu fiz.
(pt) Artigo da Aída Carla Rangel comentando o livro acima e comparando alguns pontos das duas versões; e inclusive levantando dúvidas em relação à biografia das autoras (por ex, Madame de Villeneuve teria se casado com 11 anos).
(en) Maioria dos contos de fadas similares à Bela e A Fera citados.
(en) Outros contos de fadas, similares à Leste do Sol e Oeste da Lua.
– (pt) Conto “A Leste do Sol e Oeste da Lua”.
(en) Índice ATU, que classifica contos populares ao redor do mundo de acordo com “motivos”. (Contos similares à Bela e A Fera encontram-se sob o tipo 425, “busca pelo marido perdido”)
– (pt) O site acima também é um banco de dados maravilhoso de contos populares. Há contos de vários lugares e em várias línguas. Basta acessar este link e selecionar “português” em “language” ou “language of origin” e desfrutar.
(en) Ensaio “On Fairy Stories”, do Tolkien, que permanence a melhor coisa que eu já li sobre contos de fadas.
(pt) Ensaio “Sobre Contos de Fadas”, do Tolkien.
“The Uses of Enchantment” (“A Psicanálise dos Contos de Fadas), do Bruno Bettelheim: não tenho o pdfzão da massa, mas fica a recomendação. A primeira parte do livro, e especialmente a introdução, são maravilhosas e exploram bastante algumas características dessas histórias.
(en) Sobre o problema do narrador, recomendo “Defining Media from the Perspective of Narratology”, da Marie-Laure Ryan, que eu usei como base para formular a explicação do vídeo.
(pt) Entrevista sobre Charles Perrault cheia de reflexões interessantes com Eliane Bueno Ribeiro, tradutora do autor.
(pt) Entrevista com a rainha Karin Volobuef sobre Hans Christian Andersen, também cheia de reflexões interessantes.
(pt) Sobre os protagonistas em contos de fadas serem figuras passivas, recomendo meu vídeo sobre Vladimir Propp e sua “Morfologia dos Contos de Fadas”, em que eu abordo as teorias dele por meio de uma análise de estrutura de enredo.
(pt) Sobre como estabelecer a fantasia do filme, meu vergonhoso porém bem-intencionado vídeo “Como filmes de fantasia contam que não se passam no mundo real?”.
(pt) Sobre o que é o “caráter” do personagem, meu vídeo “Vilões Empáticos, Severino de O Auto da Compadecida e Caráter/Caracterização”.
Album no imgur com as pinturas que aparecem no primeiro vídeo e seus autores.
Album no imgur com as ilustrações que aparecem no primeiro vídeo e seus autores.

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2. “Toda uma ideia equívocada de que contos de fadas se resumem a princesas, principes encantados, e ao amor salvando tudo”
Por razões diversas, quando as pessoas pensam em “contos de fadas” vem-se logo à mente a imagem da princesa no topo do castelo aguardando o príncipe encantado – como se Rapunzel fosse a síntese máxima dessas narrativas folclóricas. Pelos meus entendimentos, a Disney realmente enraizou esses três elementos de maneira muito profunda no imaginário popular. Bem. É verdade que muitos contos de fadas, talvez a maioria dos mais conhecidos, possuem protagonistas que são príncipes ou princesas, ou então possuem um protagonista zé-ninguém que termina a história se tornando herdeiro de um grande reino – mas eu devo dizer, é muito raro esses elementos assumirem status central no enredo.

No caso dos contos com protagonistas que são príncipes ou princesas e que tratam disso como algo relevante, penso que os maiores representantes são os contos sobre casamentos arranjados entre realezas e os contos sobre príncipes se mostrando dignos de herdar o reino. Digamos, A Pastorinha de Gansos (dos Grimm), que é sobre uma princesa entregue para um príncipe de um reino vizinho e que acaba sendo substituída por uma impostora; ou então As Três Penas, sobre um rei decidindo qual dos filhos herdará seu cargo. Nesses casos, o título das personagens tem relevância em termos de enredo.

Depois, no caso dos contos que terminam com o personagem se tornando príncipe ou rei (como, digamos, Irmãozinho e Irmãzinha (dos Grimm), sobre irmãos se aventurando pelo mundo numa fuga de uma madrasta malvada; ou João-Ouriço (dos Grimm), sobre um garoto-ouriço tentando se virar sozinho no mundo), o fato dos protagonistas ganharem um reino no fim da história me parece muito mais funcionar como uma recompensa por feitos incríveis, ou então como um símbolo das transformações pelas quais o personagem passou.
Em ambos, seria um erro dizer que são histórias “sobre” príncipes/princesas.

Já em relação aos príncipes encantados, oras bolas, há uma caralhada de contos de fadas sobre príncipes encantados – mas aí são príncipes que foram afetados por algum encantamento. Todos os contos citados no vídeo são exemplos disso; o índice ATU tem 60 “tipos” de contos classificados como “marido, esposa ou outro parente supernatural ou encantado” (http://www.mftd.org/index.php?action=atu&act=range&id=400-459).

E sobre o amor salvando tudo… oh boy. Coisa da Disney. Acho que eu nunca li um conto de fadas que tratasse diretamente do amor da maneira que nós concebemos na sociedade brasileira contemporânea. Me lembro de O Rei Sapo ou Henrique de Ferro (dos Grimm), em que, se a tradução que eu li estiver correta, o sapo promete ajudar uma garota contanto que ela “o ame”, seja amigo dele, jante com ele etc. Fora isso, hum… pra não dizer “nada”: conheço muitos contos que tratam sobre sexo, ou desejo sexual (geralmente é assim que eu defino os casos de “amor à primeira vista”), e muitos que tratam sobre casamento (os contos citados no vídeo, por exemplo; especialmente A Bela e a Fera). No fim da história, o que salva a Fera não é a bela dizendo “eu te amo” – é a bela dizendo “eu aceito casar com você”. Em outras histórias, é “eu aceito me deitar com você”, por aí vai. O ponto é: nós estamos em 2018, e um personagem aceitar se casar com o outro (especialmente em casos de casamentos arranjados, sequestros, encantamentos etc), ou um personagem aceitar fazer sexo com o outro, não são mais sinônimo de “eu te amo”. Então não, além dos filmes da Disney e dos contos surgidos a partir deles, contos de fadas tradicionais, ao meu ver, não tem absolutamente nada a ver com “o amor salvando tudo”.

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3. Sobre contos de fadas serem ou não para crianças
Se é para falar deste tópico, eu prefiro usar as minhas palavras para traduzir as do Tolkien:
“Na verdade, a associação entre crianças e contos de fadas é um acidente da nossa história doméstica. (…) Não é a escolha das crianças que decide isto. Crianças, como uma classe – exceto numa falta de experiência comum, elas não são uma – nem gostam mais de contos de fadas, nem entendem eles melhor do que os adultos; e não gostam mais deles do que gostam de muitas outras coisas. Eles são jovens e estão em fase de crescimento, e normalmente possuem apetites aguçados, então contos de fadas, via de regra, descem bem o suficiente. Mas, na verdade, apenas algumas crianças, e alguns adultos, possuem um paladar mais receptivo a eles, e, quando este é o caso, ele não é exclusivo, sequer necessariamente dominante.”

O grosso do que nós conhecemos como “contos de fadas” não foi exatamente “feito” – e apenas por isso já é muito absurdo dizer que um conto de fadas em específico “foi feito para crianças”. Uma tecla que o Bruno Bettelheim bate várias vezes no livro “A Psicanálise dos contos de fadas” é a tecla de que contos de fadas foram feitos, na verdade, pelas crianças, e não para as crianças. Isto é, não é que em algum momento um escritor sentou e pensou quais coisas aconteceriam em Chapeuzinho Vermelho; nem ninguém teve que conceber o enredo de A Bela Adormecida. Quando estas histórias foram escritas da forma que nós as conhecemos hoje, versões antigas delas já vinham sendo contadas oralmente havia séculos e séculos. Cada vez que uma mãe contava uma história para uma criança, ela contava uma história que já conhecia, e fazia os ajustes necessários para aquela tal criança. E de geração em geração, de ajuste em ajuste, de pequena retorção em pequena retorção buscando agradar um ouvinte, as histórias chegaram até nós. Então, de certa forma, ao longo de muitos séculos várias crianças foram responsáveis por fazer os contos de fadas se tornarem o que eles são hoje (crianças e os adultos-contadores capazes de perceber as reações do ouvinte e fazer as alterações com base nelas).

Quando se escreve uma história, se perde essa interação com o ouvinte. Digamos, quando você conta uma história para uma criança e ela pergunta “mas e o ogro?”, e aí você tem que voltar alguns passos e incluir algum desfecho satisfatório para o ogro. Na escrita dos contos de fadas, geralmente se projeta o leitor, e se toma uma série de escolhas importantes com base nisso. Charles Perrault, por exemplo, escrevia seus contos para as moças da corte do Rei Luís XIV, então quando ele foi recontar “Tália, Sol e Lua” (do Basille), ele substituiu o rei que estuprava a princesa e se casava com ela quando acordava por uma fada malvada e um principe apaixonado, e escreveu A Bela Adormecida. Os grimm tomaram outras decisões, partindo de outras bases. A Beaumont e a Villeneuve, como explicado no vídeo, também tomaram outras decisões pensando em outros tipos de leitores.

Mas nós também temos contos de fadas criados artificialmente. Contos que foram, de fato, inventados por um escritor que sentou a bunda na cadeira e pensou no enredo, ou algo do tipo. Tipo Stardust ou A Princesa Prometida, ouso dizer. E nós temos também recontagens de contos clássicos: existem infinitas e infinitas versões estúpidas de Cinderela, O Patinho Feio, A Branca de Neve etc etc. Versões que vendem muito – novamente, não porque as crianças decidiram que é o tipo de história que eles querem ler, mas porque os pais vão à livraria e julgam ser as histórias que eles devem levar para os filhos. De forma geral, eu pessoalmente creio que trata-se de versões escritas pensando em uma criança que não existe – graças a esse “acidente da nossa história doméstica”, as pessoas acham que a maneira adequada de se escrever um conto de fadas é tentando adivinhar do que as crianças gostam e colocar tudo isso em um texto. Os resultados são ruins porque geralmente adultos idealizam as crianças como burras, possuídoras de mal-gosto e capazes de aceitar todo tipo de baboseira narrativa, e essas coisas não são verdades nem aqui nem na lua. Seria muito melhor abordar a criação de um conto de fadas da maneira que se aborda a criação de qualquer outra arte de alta estima cultural, e também seria interessante se nós, como sociedade, nos dispuséssemos a fazer mais uso das histórias construídas pelas crianças, e deixásse-mos que elas continuassem a fazê-lo.

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4. Possivel outra origem de A Bela e A Fera
Houve no século XVI um espanhol chamado Pedro González. Ele sofria de hipertricose, que é uma doença que causa crescimento excessivo de pêlos no corpo. O rapaz acabou sendo levado para a corte do Rei Henrique II da França com a finalidade de divertir a galera, e eventualmente adquiriu algum status de nobreza por lá. Se casou e teve filhos, e, inclusive, algumas das crianças supostamente chegaram a ser vendidas como atração para outras cortes. O nerdologia sobre contos de fadas aborda essa história (apesar que eu tenho várias discordâncias teóricas com o restante do que foi dito naquele vídeo).

Sobre a história de Pedro González ter ou não ter influenciado a Madame de Villeneuve, bem, sabe-se lá. Em qualquer caso, a história que ela escreveu possui a estrutura de um conto de fadas; e possui todas as outras coisas que os contos de fadas possuem. Presunção por presunção, a mais adequada me parece ser a de que um conto de fadas só vem de outros contos de fadas. Influências vêm de todos os lugares e se misturam de maneiras muito esquisitas para poder originar qualquer coisa – mas há, de maneira que eu diria ser inegável, derivações diretas de outros contos. Ela certamente era familiar a essa literatura, e por isso eu não atribuiria muita responsabilidade ao caso do Pedro González, não.

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5. Sobre o conceito de “personagem femina forte”
Eu pretendo fazer um vídeo sobre o assunto em breve, esperançosamente com a ajuda de alguma amiga, mas rapidamente gostaria de esclarecer algo que pode ter ficado mal-entendido pelo que eu disse no segundo vídeo: uma personagem feminina forte não é uma personagem com traços sociais tipicamente atribuídos aos homens. Digo, é claro que pode ser. Existem tonalidades infinitas de personagens femininas fortes, porque uma personagem feminina forte é, na verdade, uma personagem que tem a complexidade de possuir vários traços – o que, acreditem ou não, não acontece nas narrativas cinematográficas e literárias que dominam o mercado, visto que de geral personagens femininas são relegadas a papéis estereotipados, ou então são utilizadas como prêmio/obstáculo simbólico ao herói masculino e sua jornada, ou então são narrativamente movidas apenas pelos desejos de agradar aos homens etc e tudo mais. De cara, recomendo o texto “prazer visual e cinema narrativo”, da Laura Mulvey (em inglês / em português) e uma pesquisa simples sobre o Teste de Bechdel.

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Eu e minha ilha

Um dia um garotinho chegou numa tartaruga na minha ilha. Eu fiquei incrível, porque ele era muito limpinho; vestia umas roupinhas assim bem novinhas. É que todos os outros garotos tinham chegado vestindo uns trapos muito feios… então eu já não sei de mais nada. Sempre achei que a viagem devia de ser realmente muito complicada. Mas aí chegou esse garoto limpinho. Eu não sei mesmo. Fui correndo para a praia quando vi ele chegando lá de longe. Gritei que nem um louco e ele até olhou pra mim, mas não me gritou nada em resposta. Só colocou as mãos na cintura (pra não perder o equilíbrio em cima da tartaruga dele, eu acho; ou pra fazer pose) e continuou vindo pra minha ilha; aí quando ele chegou eu fui logo pra cima dele perguntar das roupas. Falei assim: “garoto, me conta! E essas roupas tão limpinhas?”

Pois aí eu já não sei dizer se ele fez que não me ouviu ou se ele realmente não me ouviu, mas ele me respondeu assim: “cadê os elefantes, oh meu senhor?” Ah! Então aquele pestinha tinha era se perdido. Ele estava atrás dos elefantes. Mas e as roupinhas? Eu cheguei com a cara bem perto dele pra ver se ele se intimidava, abri uns olhões pra ele saber que eu estava falando muito sério e perguntei de novo, “e essas roupinhas aí, cara?” Ele bateu com o pé no chão, deu uns saltos emburrados e começou a chorar de tão nervoso que ficou. Fez uma pirraça das grandes. Das grandes mesmo. Aí assim de um segundo pro outro ele montou na tartaruga dele e foi embora. Fiquei olhando e coçando a cabeça. Mas bem, e daí? Pensei, “deixa pra lá, então”. Eu tinha um montão de coisas pra fazer e não podia ficar ali parado…

Mas no outro dia ele voltou com umas cem gaivotas voando por cima dele. Elas malemal batiam as asas, só planavam em círculos. Fui correndo para a praia e fiquei admirando aquilo, achei muito bonitinhas aquelas gaivotas todas ordenadas. E o garotinho das roupas limpas em cima da tartaruga, parado que nem uma estátua com aquelas mãozinhas na cintura. Devia estar se achando muito elegante. Como eu já tinha conhecido ele um pouco, pensei “nossa, olha só que mau caráter, imagina que orgulho e que ego ele não deve ter, aquele danado”. Ele foi chegando mais perto e justo quando estava para atracar na praia a tartaruga fez uma curva nas águas. Eles foram pro outro lado e ficaram dando umas voltas na frente da minha ilha. Ah não. Gritei pra ele, “vem pra cá seu pestinha! E essas roupas limpinhas aí? Como que você fez?” E ele nada, só de pé, do mesmo jeito; e as gaivotas também, tudo lá voando. Fiquei nervoso e fui fazer minhas coisas. Umas duas ou três horas depois, quando eu já estava quase esquecendo da coisa toda, olhei pra cima e as gaivotas ainda estavam lá. No mesmo instante elas se foram. Acho que elas estavam só esperando eu olhar pra poder ir embora. Não tenho dúvida que foi ordem daquele garotinho.

Aí teve um último dia em que ele apareceu, que foi o dia seguinte. De novo naquela tartaruga, de novo com os braços na cintura, de novo com as gaivotas. Umas cem delas, de novo. Fui correndo pra praia e fiquei olhando pras gaivotas enquanto se aproximavam, aí quando olhei pro garotinho reparei que tinham umas outras cinquenta tartarugas atrás dele, cada uma com um coelho em cima. O garotinho, ah ele quando estava para chegar na minha ilha novamente fez a curva e ficou dando voltas na minha frente; mas as tartarugas com os coelhos vieram direto pra minha prainha. Os coelhos sairam pulando e desapareceram atrás de mim, aí as tartarugas foram embora e o garotinho ficou lá circulando embaixo das gaivotas. Praguejei ele demais. Gritei pra ele mandar aqueles coelhos embora porque eu não gostava de coelhos. Eu não sei o que passava na mente dele, mas de certo que era pura maldade. Era um diabinho aquele garoto. Xinguei ele de todos os nomes que consegui me lembrar, nomes que eu não ouvia desde que eu tinha a idade dele e fazia umas coisas parecidas. Aí ele gritou, aquele peste, gritou pra eu calar a boca; e veio com a tartaruga dele pra minha praia. Desceu sem nem tirar os braços da cintura e ficou me encarando. Aí eu fiquei encarando ele também. Eu já não aguentava mais. Olhei pra ele com uma cara de que ele não era bem vindo, que era pra ele ir embora porque ele estava me fazendo passar muita raiva. Mas ô menino determinado! Do jeito que parou quando desceu da tartaruga, ficou. E ficamos lá nos encarando até o céu ficar laranja e depois escuro. E passamos a noite inteira nos encarando; quer dizer, eu acho. Tudo tão preto que eu nem via ele mais, mas eu sabia que ele estava lá e ele sabia que eu estava também. E também as gaivotas o tempo todo soltando aqueles sons horríveis. Quando o sol começou a nascer de novo eu percebi que não era coisa da minha cabeça e que de fato nós estávamos nos encarando desde a tarde anterior. E ele com aquelas roupas ainda limpinhas. Eu não sei como. Bem. Fiquei de saco cheio da coisa toda. Eu realmente tinha muitas coisas para fazer (e já tinha perdido uma noite e não sei quantas horas naquela molecagem), então desisti. Peguei e falei pra ele me acompanhar porque eu iria mostrar para ele onde eu guardava os elefantes.

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O problema da presença do narrador, mimesis e diegesis

Aqui vai um experimento para exemplificar umas questões que abordarei nesse texto. Não precisa ler tudo, um parágrafo basta:

Com licença, Sr. Macaco. O que você está fazendo aqui? Ora, eu decidi me mudar para cá. Quem é você? Mas Sr. Macaco, essa casa é minha! Esse sofá também é meu. Se você estiver querendo comprá-lo, essa é outra questão que nós podemos discutir com prazer – Não, não! Veja bem, a floresta agora me pertence. A sua casa está na floresta e por isso também me pertence, naturalmente. Mas Sr. Macaco!

Viu só? A floresta é minha, eu lutei pela pedra e venci. Oh. Tudo bem, eu entendo, mas tenha pena de mim! Eu não tenho para onde ir. Essa casa é tudo o que eu possuo, se você for ficar com ela… O que será de mim? Eu acho que isso não é muito problema meu. Isso é um absurdo, Sr. Macaco! Se é desse jeito que você pretende cuidar da floresta, ela não vai ficar nas suas mãos por muito tempo. Disso eu tenho certeza! Isso sim é problema meu, senhorita, mas apenas meu. Se algum dia essa pedra passar para as mãos de outra pessoa talvez você possa voltar para esta casa. Até lá, queira por gentileza se retirar. Eu não me irei me retirar, Sr. Macaco! Na verdade, eu só vou me levantar daqui quando você for embora.

Você é muito teimosa! Você não me deixa outra opção! Muito bem, eu tenho uma proposta: você pode ficar com a casa, mas eu quero o sofá. E também quero que você cate meus piolhos duas vezes por semana. Oh, eu não acho que farei isso. Digo, o sofá é muito importante para mim. Ele está aqui desde que eu me mudei para cá… Ah, não, não! Não dá para eu me desfazer dele desse jeito, Sr. Macaco! Ora, então você vai ficar sem o sofá e sem a casa, porque de qualquer maneira eu tenho a pedra…

Você quer lutar por ela? Lutar pela pedra? Francamente! Se nós lutássemos você deixaria minhas roupas imundas como fez com meu sofá. Se você não quer lutar, então o sofá é meu e eu digo que ele não está nem um pouco imundo. Ah, Sr. Macaco, vocês do norte da floresta são criaturas terríveis! Você sabe muito bem que só poderia me vencer em uma barbaridade como uma luta. Nós aqui do sul não resolvemos nossos problemas com essas coisas estúpidas e sem sentido, nós resolvemos com educação. Muito bem, então, muito bem! O que você propõe? Em primeiro lugar eu proponho que você vá embora, mas eu acho que você irá recusar essa proposta muito antes de levar ela em consideração, então, bem, eu tenho uma que você vai aceitar sem precisar pensar duas vezes… Eu proponho que você me dê a pedra e fique com a casa.

Garota tola, garota tola, eu não serei enganado assim tão fácil… Nesse caso eu te entregaria a pedra e você usaria ela para pegar a casa de volta. Não, não mesmo. Hummmm… Então eu proponho uma partida de xadrez. Agora você pode me dar a pedra e sair da minha casa, por gentileza. A pedra? Eu achei que a partida tivesse sido só pela casa. Ah, não, Sr. Macaco. Você disse que nós deveríamos lutar pela pedra e eu propus um jogo de xadrez, sim?

 

Em 2017 eu pensei na possibilidade de um conto de fadas que se segurasse apenas pela força dos diálogos e da própria interação dos personagens; acabei escrevendo “O macaco, a pedra e o sofá” para experimentar a ideia. Eu queria ver a coisa diante dos meus olhos, e eu de fato vi – daí já digo a primeira coisa que quero dizer aqui: façam todas as experimentações possíveis. Falando apenas de mim, tem um lado negativo que é o de ter meu passado manchado por esse textos ruins, textos contando histórias que tiveram dúvidas como ponto de partida, e não fantasias; é um demônio que me atormenta, e suspeito que ele mesmo também atormente muitas outras pessoas – esse demônio das histórias mal contadas. Me sinto muito mal quando olho pra trás e vejo os erros grosseiros que cometi na minha escrita, mas eu não poderia ter alegria maior que a de olhar para frente e perceber que sou capaz de enxergar novos horizontes. Agora a parte essencial:

A questão que deu início à coisa toda, reparem vocês, não foi “é possível a interação entre os personagens ser suficiente para manter uma história de pé?”: há uma certa ingenuidade contida aí que eu creio ser das primeiras que um escritor de narrativas deve vencer – é não só possível como, de maneira geral, necessário que as interações entre os personagens sejam interessantes ao ponto delas ganharem independência do restante dos elementos que compõem a narrativa. A questão era como executar isso dentro de um conto de fadas. É que eu sempre tive no topo da minha mente uma compreensão de que em contos de fadas a figura do contador da história (transcrita através do narrador) é a característica mais fundamental do texto. Eu não tinha, ora mas é claro, pensado nisso para além desse pouquinho que eu acabei de destacar. Agora, quase um ano depois de O macaco, a pedra e o sofá, eu me percebo alguém que diariamente busca ir mais fundo nas águas da narratologia. Apesar de ainda estar numa parte pateticamente muito rasa, eu já quero retornar brevemente com a cabeça para fora e deixar aqui para vocês algumas reflexões antes de continuar na minha aparente missão de vida de continuar indo para baixo – com toda as pretensões estúpidas que isso coloca sobre mim.

Gérard Genette aborda a questão partindo de Platão, e eu achei a apresentação dele muito boa. É que Platão identifica duas maneiras de um Poeta contar a história: ou ele conta o que aconteceu com suas próprias palavras, ou ele “finge ser outra pessoa” e conta usando as palavras dela. O primeiro caso Platão chama de “diegesis”; o segundo, “mimesis”. Eis exemplos, já atualizados à nossa realidade (Platão usa exemplos de Homero, Genette de Marcel Proust):

  • Diegesis: Ana pediu licença.
  • Mimesis: Ana disse: “Com licença.”

Acho que é mais fácil visualizar isso se você imaginar o narrador da história (o “Poeta”) como uma pessoa real parada na sua frente. Então imagine que há aí um cara sentado numa cadeira, aí você senta no chão e fica olhando pra ele. Ele diz: “Ana pediu licença”. Palavras dele, e apenas isso. A Ana não está de fato pedindo licença. O que há diante dos seus olhos, ou diante dos olhos da sua imaginação, é o narrador dizendo que a Ana pediu licença, não a Ana pedindo licença. Agora, segundo caso: pra contar aquele trecho, o narrador vai precisar “imitar” a Ana pedindo licença. Ele vai precisar fazer como ela fez; falar como ela falou. Na verdade o ideal seria que um ator assumisse o papel da Ana (daí o nome “mimesis”, imitação) e falasse as palavras que ela falou. Ou que a Ana ela mesma se materializasse e dissesse o que tá entre aspas. Afinal, Ana disse: “Com licença”. Ana. Não o narrador, não um ator. Ana.

Homero (em Ilíada e Odisséia) usava a segunda maneira, a mimesis. O poeta/narrador, Homero, não falava com suas palavras, mas falava assumindo o papel de outra pessoa (“Ulisses disse:”, “Ulisses gritou para os homens:” etc). Ou seja, Homero se dispunha a imitar Ulisses e outros personagens ao invés de contar as coisas, digamos, sem se passar por outra pessoa. E não para por aí: a narração de Homero era cheia de frases bonitas, umas coisas do tipo “a tempestade rangia como isso e aquilo”, ou “o mar continha a fúria de mil não sei o que” – e isso ainda é mimesis, segundo Platão. A princípio alguém diria que é diegesis porque são as palavras do poeta (isto é, não é algo dito por outro personagem), mas nesses casos o Poeta está falando como se estivesse no local da história; isto é, ele está imitando alguém que está no local da história. Platão meio que faz uma crítica por causa disso, inclusive. Platão meio que critica a mimesis e elogia a a diegesis. Ele chega ao ponto de reescrever trechos de Homero apenas para demonstrar como a coisa ficaria se o poeta contasse com suas próprias palavras. Aqui um trecho em que Platão explica isso através de um diálogo entre Sócrates e Adimanto:

Sócrates — Mas, quando ele [o poeta] faz um discurso como se se tratasse de outra pessoa, não dizemos que aproxima o máximo possível seu estilo àquele da pessoa que fala?

Adimanto — Sim, dizemos.

Sócrates — Aproximar-se de alguém na voz e na aparência não significa imitar aquela pessoa com quem queremos nos assemelhar?

Adimanto — Sem dúvida.

Sócrates — Portanto, tenho a impressão de que tanto este quanto os outros poetas realizam sua narrativa por intermédio da imitação.

Adimanto — Exatamente.

Sócrates — Contudo; se o poeta jamais se ocultasse, seus versos e suas narrativas seriam criados sem imitações. 

Nessa última linha ele usa “narrativa” no sentido de “discurso emitido pelo narrador”; atualmente o termo “narração” é mais usado pra isso. Então o que ele quer dizer aí é “uma narração sem imitações é aquela em que o Poeta/narrador não se esconde”. Eis o trecho da Ilíada reescrito por ele:

O sacerdote chegou e pediu aos deuses que permitissem aos gregos conquistar Tróia e regressar sãos e salvos, mas que libertassem sua filha mediante resgate, por temor aos deuses. Ouvindo estas palavras, os outros concordaram. Contudo, Agamenon, irado, ordenou-lhe que se retirasse e não voltasse […] Ao ouvir estas palavras, o ancião teve medo e se retirou do acampamento; em seguida dirigiu numerosas preces a Apolo, invocando os atributos do deus, conjurando-o a recordar-se e a recompensar o seu sacerdote […]

Diferentemente da versão original do Homero, na de Platão em nenhum momento os personagens se manifestam diretamente. Não há nenhuma imitação.  “Agamenon ordenou-lhe que se retirasse e não voltasse”, e não “Agamenon ordenou-lhe: ‘se retire, não volte!'”. Tudo acontece por intermédio do Poeta. Novamente, se o poeta estivesse diante de você contando essa história, ele ainda estaria sentado falando suas próprias palavras – ele não precisaria se levantar para “imitar” as palavras do Agamenon, não precisaria fingir ser outra pessoa. E aqui a crítica:

Sócrates — Agora, Adimanto, analise se os nossos guardiões devem ser imitadores ou não. Do que dissemos anteriormente, não resulta que cada um só pode exibir talento em uma profissão, não em várias, e que quem tentasse exercer muitas falharia em todas, a ponto de não se tomar famoso em nenhuma?

Adimanto — Não poderia ser diferente.

Sócrates — Então, este raciocínio não é válido também a respeito da imitação? É possível que um mesmo homem possa imitar várias coisas com perfeição?

Adimanto — Evidente que não.

Sócrates — Portanto, dificilmente exercerá ao mesmo tempo uma profissão importante e imitará muitas coisas e será imitador, uma vez que as mesmas pessoas não podem executar bem dois tipos de imitação que parecem próximos um do outro, como a tragédia e a comédia. Tu não dizias que eram ambas imitações?

[Nota: contemplem o nascimento dos gêneros. Platão propõe Comédia e Tragédia e diz que ambas são “imitações” (mimesis)]

Adimanto — Sim, e dizes a verdade: as mesmas pessoas não podem triunfar nos dois gêneros.

Sócrates — Nem é possível ser, simultaneamente, rapsodo e ator.

Adimanto — Estou de acordo.

Tudo disponível no Livro III de A República. Me parece que na prática um texto narrativo “sem imitações” seria composto de personagens executando ações e só. A quantidade de verbos seria irritante. “Ele verbo isso. Ela verbo aquilo. Ele verbo isso,” etc. Por exemplo:

Ele abriu a porta e foi até a calçada. O cachorro latiu, ele saiu correndo. Olhou para trás, o cachorro tinha sumido(…)

Um saco. É difícil conceber estratégias para criar ambientação, ou para tratar de conflitos internos dos personagens, ou de monólogos interiores etc etc. Trata-se de uma tentativa de contar apenas o enredo da história, isto é, a narrativa – e narrativa aqui significa “conjunto de acontecimentos que compõem a história”. Por isso que dentro das teorias do Genette a melhor maneira de traduzir “diegesis” é mesmo “narrativa pura”, como ele faz. E é por isso também que desde Homero até as grandes obras literárias contemporâneas, todas usam mimesis (“fulano disse: tal tal”) em diversos níveis sem dó nem piedade.

Mas, porras, é aí que tá o pulo do gato. Depois de apresentar a coisa dessa maneira, Genette traz um problema imenso pra questão: não há texto narrativo que não contenha mimesis. Pior: ao mesmo tempo, nenhuma mimesis é tão perfeita ao ponto de fazer o narrador desaparecer.

Falando do primeiro caso: você pode, é claro, diminuir a imitação dos personagens para um nível em que ela torna-se irrelevante ou imperceptível – digamos, uma ilusão de que não há mimesis (nosso primeiro exemplo de diegesis, “Ana pediu licença” – é o narrador dizendo, não é ele tentando imitar a Ana). Mas ainda assim a mimesis continua aí, diz o Genette. Continua porque não podemos contar uma história por escrito sem escolher as palavras, e escolher as palavras é fazer o narrador presente. Por que “ele abriu a porta” e não “a porta foi aberta por ele”? E se você teve os culhões de dizer “ele saiu correndo”, quais culhões lhe faltam pra dizer em qual direção ele foi? “Ele abriu a porta” é uma tentativa de apenas “contar” que o personagem abriu a porta, sem imitá-lo de fato a abrindo – mas, como diz o Genette, cada vez que o Poeta deixa de imitar um personagem, ele passa a imitar a si mesmo. É paradoxal pra caralho. O texto deixa de representar uma imitação de personagens e passa a representar uma imitação do próprio poeta/narrador. Em “Ana pediu licença”, a Ana desaparece, mas o Poeta aparece mais, e pior, aparece como alguém que não tem capacidade nenhuma de se colocar no lugar dos personagens (menos ainda de fazer os leitores se colocarem no lugar dos personagens), o que é algo fundamental para a contação de uma história. Ao tentar sumir, o poeta faz é se mostrar um bunda mole.

E aí tem a segunda questão, a das mimesis perfeitas serem impossíveis, que como vimos até foi destacada pelo Platão – mas o Genette problematiza a coisa toda num nível maravilhoso. Voltemos ao nosso primeiro exemplo de mimesis:

Ana disse: “Com licença.”

Bem. Platão usa o termo “relato”pra falar sobre isso. Suponhamos que verdadeiramente alguma Ana tenha dito esse “com licença”, e que nosso trabalho como contador de histórias seja o de relatar que ela disse isso fazendo uso de mimesis, não de diegesis. Nós não podemos fazer a Ana transcender sua existência e repetir o “com licença” para cada leitor, mas nós, como poetas/narradores, podemos “imitá-la” através desse Ana disse: “Com licença”, e isso, vejam vocês, é o melhor que nós podemos fazer (de um jeito que ainda seja agradável de se ler). Claro, nós podemos, por exemplo, usar um travessão para indicar o diálogo ao invés de aspas – mas aí uma coisa não é melhor que a outra, em termos de mimesis/imitação, estão ambas no mesmo nível. Agora:

Ana disse: “Com licença.”

Eu pergunto: que diabo é esse “Ana disse” se não uma manifestação do narrador? O narrador está dizendo que Ana disse. E essas aspas? Narrador, poeta. E se fosse travessão? Mesma coisa, ora: poeta, narrador. Por mais que o Com licença seja uma mimesis perfeita da personagem, as aspas, o “ana disse” etc continuam sendo o Poeta fazendo mimesis de si mesmo através do texto.

Aí nós voltamos para minha tentativa com o texto “O macaco, a pedra e o sofá“: eu queria “relatar” a interação dos personagens e só. Eu queria apenas a diegesis (a “narrativa pura”, como o Genette chama). Pensei: “vou dar uma importância maior aos diálogos e acho que vai rolar,” mas não é assim que funciona. O narrador continua presente fazendo suas escolhas de narração. Ele faz uns esforços imensos pra imitar os personagens (Ana e o Macaco) da maneira mais pura possível, mas é inútil porque é uma tarefa impossível. Cada aspas que o narrador/poeta coloca no texto é uma pausa na imitação. Cada aspas é um grito do poeta, um grito que diz assim ao leitor: “isso aqui não sou eu, o poeta, que estou dizendo. É a personagem, viu? A personagem!” E, reparem na minha tolice, eu não só tentei realizar essa proeza de narração como também fiz a tentativa dentro de um conto de fadas. É uma subversão sem tamanho, não é? Escrever um conto de fadas tentando fazer o narrador desaparecer completamente. É como tentar contar uma história de detetivas sem nenhum detetive ou investigação.

Eu abri esse texto com um experimento. O que eu fiz ali foi remover todas as aspas e todas as indicações possíveis do narrador do texto. Transcrevi apenas as falas da maneira mais pura possível; apenas a narrativa. Diegesis. É o exemplo mais próximo do que seria um texto escrito através de diegesis que você vai ler hoje; para exemplos de diegesis menos fortes ou de mimesis abra qualquer outro livro narrativo que tu tiver ai ao seu alcance.  Retirei até as quebras de linha, já que elas também eram indicações de quem falava o quê – mas me senti na obrigação de dividir o texto final em alguns parágrafos, doutra forma nem eu conseguiria ler aquilo. Uma tentativa ainda mais poderosa de “relatar” apenas a “narrativa pura” sequer dividiria o texto em parágrafos.

Tá aí a razão pra eu ter dito que “Ana disse:” “é o melhor que nós podemos fazer (de um jeito que ainda seja agradável de se ler)”: na verdade você pode remover o “Ana disse”, os dois pontos e as aspas. Mas torna-se caótico. Eu diria que o Graciliano Ramos fez umas experiências com esse tipo de coisa em Memórias do Cárcere e em Vidas Secas, e pelo que ouvi falar o Saramago também fez em suas obras, que eu ainda não li (vergonha em mim), mas enfim: perigoso. É algo que foge muito da zona de conforto do leitor contemporâneo, afinal estamos desde tempos homéricos lendo, ouvindo e assistindo histórias contadas através de mimesis.

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Sozinha nas nuvens

Com saltos leves ela passava de um degrau para o outro, e de pouco em pouco ela vinha descendo – de lá! De lá de cima: do céu! Pois sobre as nuvens ela caminhava, e assim fazia com pés delicados tais que sequer tocavam qualquer coisa, mas – ela descia! E olhando para as árvores na floresta; alaranjadas côs raios do sol nascente tocando suas folhas – ela descia! Ó ela descia: cantando num murmúrio suave de notas melancólicas – daquelas! Possíveis de serem produzidos senão por um coração afundado em tristezas; mas no reunir do seu ímpeto de esperança – ela…! Ela descia!

Mas, ah! Ela não desceu de fato. Porque do último degrau ela saltou, ainda muito alta acima das gramas no chão – e de lá os pássaros a pegaram; e eles, abençoados de força e bonitos das asas – e com as compaixões saindo pelas gargantas: eles também cantaram melancolias. E imparáveis nas suas bondades, eles prenderam-se no vestido dela, e ela – ah! Ela não desceu! Não! Levada planando por sobre o solo, ela foi; e deixada pelas aves na frente dum carvalho, ela também foi.

E os pássaros, eles soltaram ela; e ela, caiu de joelhos na grama: e se ralou, e doeu, e sangrou – mas! Ela fechou os olhos e se curvou, e na sua reverência um assovio desceu do alto da árvore diante dela. E ela! Se levantou. E olhou para cima; mas viu apenas folhas. E ela gritou: três vezes, ela gritou. “Ó mãe!” ela gritou – “ó mãe minha!” também – “ó tu que conténs em ti uma parte de mim! Ó mãe de mim!” ainda, ela gritou! Mas de mais alturas na sua voz – ah, sim! De alturas que fizeram o grito parar longe; nos fundos da floresta não houve uma criatura que não o ouviu; ah, dos coelhos aos bois – dos animais poucos aos animais muitos, em todos os ouvidos aquele grito foi parar: e não diferente nos da Mãe ela mesma. Ah!

Porque a Mãe, ela ouviu também. E lá do alto da árvore ela pulou como quem pula com vontade de um abismo sem fim, e no chão ela caiu com o peso de infinitos trotes de cavalos – e a força! De infinitos trotes de cavalos. E a terra, ela tremeu! – e as árvores: tremeram! E as criaturas: chacoalharam e caíram! E a Mãe parou de pé, tal fosse ela em sua forma física uma árvore das mais altas, se erguendo para muitos metros! De aparência imovível, ela ficou de pé! E ela, a Mãe, disse: “Minha querida filha, ó minha pequena! De mim podes pedir tudo, que na verdade tu já tens, só não sabe ainda; porque tu tens o que eu tenho. E eu tenho tudo, eu ó a Mãe de todas as criaturas que te cercam! Eu ó a plantadora de todas as árvores! Eu ó a iluminadora do sol de todas as manhãs! Pedes, filha, que eu te darei.”

“Ó mãe minha”, respondeu a delicada moça. “Só, eu estou! Minha alma dói na vastidão da floresta! Eu caminho por entre as nuvens, e os pássaros me carregam. E eles cantam, e eu canto. Mas, Mãe! Nossos cantos são diferentes. Eles não me compreendem. Minhas solidões, elas todas dentro de mim. Elas se enfurecem e me batem por dentro! Onde eu não consigo alcançá-las, Mãe! Ó Mãe! Me dê um braço que se estique até onde as minhas feridas precisam de curativos!” Ela falou assim cá cabeça baixa, côs olhos apertados, cás lágrimas inundando os olhos e escorrendo para a terra, e regando as gramas e a raíz do carvalho atrás da Mãe; e chorando dessa maneira, com seu coração doendo de pensar e de sentir. Tão verdadeiro foi seu choro, que de pé diante dela, também a Mãe se comoveu. E choraram ambas por muito tempo, até as lágrimas secarem e a fonte da tristeza gritar de dentro do peito uma promessa de que produziria novas no futuro.

“Filha minha!” Disse a mãe. “Tu terás esse braço que tanto desejas! E ele vai tratar de todas as tuas feridas. E ele vai abraçar o teu conforto, e tu se sentirás bem. Porque, ó minha filha, mais que um braço, será feito! Verdadeiramente eu te digo: uma muleta! Minha querida, sim! Essa muleta que tu precisas para apoiar as tuas manquices será feita também do material que há em mim! E bela, ela será, e forte, e firme! E ela te proverás por onde andar sem cair! E um apoio tal ela será que, ó, se tu alguma vez andares torta será pelo peso excessivo da alegria no lado que se encontra o teu coração.” E com essa última palavra, ela, a Mãe, saiu correndo e desapareceu no meio das árvores.

 

E a moça solitária! Por doze dias mais ela permaneceu lamentando a sua solidão nas nuvens. Doze! Por doze dias também sua Mãe não deu sinal nenhum: sequer no seu carvalho ela apareceu; sequer nas beiradas dos rios; sequer no topo das montanhas. Doze! Por doze dias a moça procurou pela Mãe, na angústia de ter seu pedido atendido; e por doze dias suas esperanças desvaneceram e se converteram num manto ainda maior de tristeza – mas! Mal sabia ela que a Mãe – a Mãe! Estava moldando; estava arrancando as coisas necessárias e colocando elas no formato adequado. Estava desenhando com linhas sensíveis nos pedaços para que o todo final pudesse ser capaz de ostentar um sopro de movimento!

Então, eis que a Mãe! Ó, por sua vez; num canto escondido da floresta, dentro duma caverna coberta pelas folhas das árvores: ela trabalhou por doze dias sem nenhum descontínuo: sem mesmo um para o sono! Sem mesmo um para a fome; menos ainda um para a sede; precisão nenhuma tinha ela daquelas coisas enquanto talhava; e…! E ela talhou: ela talhou do primeiro ao décimo segundo dia – mas nesse ela talhou pela última vez: porque ah! Nada mais ela tinha a retirar da forma grotesca que pela primeira vez havia se colocado diante dela: aquela forma que outrora havia precisado ser moldada jazia-se na frente dela ofertando apenas a possibilidade da adição – e a Mãe, ela adicionou. O que faltava no resultado do seu trabalho – ela adicionou!

Pois abrindo a boca ela deixou sair um ar de quentura tal que esfumaçou – mas! Esfumaçou… vejam vocês! Esfumaçou – colorido! Ah! E o ar quente saiu pela boca da caverna, e ele empurrou os galhos das árvores, e as folhas delas se abriram – e a luz! Do sol; a luz do sol! Ah! Ela entrou e iluminou mesmo a parede final lá de dentro; e a fumaça colorida! Se misturou na luz. E no meio daquilo, desapareceram: a Mãe e sua obra.

 

E na noite daquele dia: de fato, tarde – da noite, a Mãe saiu da sua caverna e deslizou por cima – e, ó! Para cima – das árvores até as nuvens. Nos ombros: carregava o presente para a moça triste; que recém havia dormido das suas insônias de tristeza. Ah! A situação era tal que a escuridão encontrava-se fora e dentro da coitada; e desacordada estava não no seu único momento possível de luz, mas no seu único momento – de nada! E se não era aquele o último consolo do seu coração até então desamparado.

Mas enquanto a Mãe se movia para os céus, sua velocidade tremenda cortava o ar – e fazia soar para todos os lados, como que! Ah! Como que trovões de mil tempestades! Acordaram: os animais; os que estavam no topo das árvores e os que estavam enfiados em raízes; e! Mesmo os que estavam debaixo d’água: acordaram – e a moça! Ó! Acordou também do seu refúgio noturno.

Ela se levantou com uma perturbação corporal imensa; com olhos de choros guardados. Enquanto coçava as pálpebras e olhava ao redor, ouviu mais uma vez o estrondo das tempestades… e, pobrezinha! Que susto ela tomou! E: que desespero, também! Ficou de pé num instante e saiu correndo pelas nuvens, buscando a origem do grande distúrbio – mas na escuridão sem fim que era aquela noite, ela pôde apenas correr sem rumo. Ouviu mais uma vez os trovões e viu um clarão surgindo num canto dos olhos: e correu na direção dele.

Quando chegou na borda das nuvens, sua Mãe surgiu de repente – e contemplem! Lá! Nos ombros da Mãe! Ela viu, ó! Ela viu: alguma coisa que brilhava! Algum ponto claro na negritude da noite! Tamanha foi a curiosidade que seu coração se apressou, e ela…! Respirou fundo e apertou os olhos numa tentativa de enxergar – mas!

“Minha filha! Eu senti pena dos teus sofrimentos, e na floresta que eles formavam eu decidi abrir um caminho que te permitirás escapar! Para essa coisa que tu precisavas eu atribuí tudo o que achei de bem – mas, minha filha! Algo ainda falta no teu presente! Algo que poderá ser atribuído por ti apenas, pois assim eu determino melhor – e esse algo, ó minha filha, chama-se: amor! Esta é tua tarefa, e enquanto ela não for cumprida teu presente permanecerá sendo senão uma luz no horizonte do teu olhar!” Assim disse a Mãe, que, depois de fazê-lo, retirou do ombro a coisa que brilhava, colocou-a nas nuvens diante da moça assustada e desapareceu.

 

Pois tal se encontrava a donzela: perplexa na borda das nuvens, encarando qualquer coisa emanando luz diante de si. No silêncio da noite, ela tentava decifrar as qualidades e formas do seu presente. “O que é isso?” Ela se perguntava, “qués que minha Mãe me deu? Oh, o que será?” Mas seus olhos doíam com a claridade contrastante. – Ela se afastava um pouco, se curvava e dava voltas: mas, nada; apenas o incômodo nas pupilas. E então, quando a frustração estava para invadir o seu coração – ela ouviu: “tu me entendes?”

Ó!

A moça deu um salto para trás. Ela ficou côs braços armados e as pernas abertas, como um animal aguardando o ataque dum inimigo.

Voltou a voz: “Ontem eu ouvi os pássaros, mas eu não os entendi. Eles são engraçados. Falaram e falaram, e eu quieta quieta tentando disfarçar que não estava conseguindo entendê-los…”

Ó! Pois, vejam vocês – qual foi a surpresa da moça! Se não era da coisa brilhante que a voz saía – e, além! Para uma surpresa ainda mais: como uma pena carregada pelo vento, ela chegava trazendo palavras sobre pássaros. Sobre pássaros!

“Ah! Eu te entendo sim! Então! É isso que tu fazes!” A moça disse, abaixando sua guarda.

“Eu não sei. Causa de quê que tu estavas me examinando daquela maneira?” Disse a dona da voz.

“Causa que eu não sei o quê tu fazes!” Respondeu a moça, e se calou. E, no silêncio, ela decidiu dar passos lentos e se aproximar – mas, a coitada! Fez isso olhando para os pés, porque à sua frente permanecia ainda a terrível claridade que machucava os olhos.

“Mas tu descobriste?” A dona da voz disse de repente.

A moça parou e se armou novamente, e respondeu: “Não! Não descobri o que tu fazes! Não muito bem, não!”

“Então tu olhaste tudo que tinha para ser olhado em mim e não compreendeste nada?” A dona da voz disse, e! E…! E riu! A moça se intrigou ainda mais, e voltou com seus passos vagarosos.

“Ah! Do qués que tu ris? Eu olhei, mas eu não vi. É que tu és tão clara que dóem minhas vistas e eu não enxergo nada.”

A dona da voz ignorou a primeira pergunta e se ateve à parte que julgou interessante: “Clara? Mas está tudo tão escuro aqui,” e riu novamente. “Qués que é isso em que eu estou pisando?”

“São as nuvens. Eu vivo aqui. Do qués que tu ris?”

“Aqui! Nas nuvens! Ora só!” E riu ainda uma vez mais. “Então o que eu estava admirando ainda ontem era o seu lar!”

“Tu estavas? Do qués que tu ris?”

Mas! A dona da voz, resoluta a satisfazer apenas suas próprias vontades – não respondeu. Apenas riu de maneira descontrolada; riu em gritinhos agudos que ecoaram pela noite. E então: a moça não aguentou mais. Ela! Aproveitou que já havia se aproximado um tanto, se encolheu um pouco, como uma onça… e! Num instante ínfimo! Se saltou na direção da coisa brilhante – e! Voou com os braços abertos, agarrou o que conseguiu, e, ah! E…! E caíram ambas lá de cima!

De olhos fechados, a moça não sentiu o vento cortando eles durante a queda – mas! Muitas outras coisas ela sentiu: ela apertou seu presente – e apalpou, e deslizou cás mãos no que não podia ser senão uma cintura: e “ah!” ela suspirou boquiaberta! E, ainda durante a queda! Ela levantou os dedos e enrolou neles fios que não podiam ser senão de cabelos: e “ah!” uma vez mais ela exclamou! E então, ó! Ela compreendeu tudo. E, em choque, ela acarinhou o presente da Mãe.

 

Enquanto a outra começava a rir com os toques da mocinha, como quem recebe gracejos inesperados – os pássaros! Pássaros da noite! Eles vieram e impediram-nas de cair; e eles pegaram as moças e levaram-nas abraçadas de volta para as nuvens.

“Do qués que tu ris?” Disse a moça quando pisou novamente e soltou a outra.

“É que tu és muito engraçadinha! Cheia de sustos!” E riu.

Foi dali, ó que coisa, que elas começaram uma conversa agradável. E elas falaram no decorrer da madrugada, e elas contaram piadas e compartilharam gostos, e pararam apenas quando o sol começou a nascer – para saltar pelas nuvens e cantar côs pássaros. Naquela manhã, juntas, elas fizeram uma canção que dizia assim:

            “Andando aqui, em cima das nuvens, e

                  saltando sobre elas, de mãos dadas.

            Correndo contigo, ao meu lado,

                  nós nos divertimos!

                        Oh oh!

            Voando, vêm os pássaros, e,

                  cantando, se afastam.

            Planando, perdem altura,

                  olhando-os, nós nos divertimos!

                        Oh oh!

            Ricos raios (de sol) atravessam

                  nossas nuvens pelos lados.

            Chegam como (se fossem) águas tônicas, e

                  nós nos divertimos!

                        Oh oh!

            Andando aqui, em cima das nuvens, e

                  saltando sobre elas, de mãos dadas.

            Correndo contigo, ao meu lado,

                  nós nos divertimos!

                        Oh oh!”