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Estrutura narrativa em animações Disney – Morfologia do Conto Maravilhoso, de Vladimir Propp

Link para assistir no Youtube.

Alguns complementos (originalmente postados nos comentários):

1. Para quem quiser se aprofundar no tema
Como eu disse em 06:20, os estudos do Propp foram pouco considerados pelo mundo ocidental. Por isso, a fonte maior continua sendo o próprio livro dele, Morfologia Do Conto Maravilhoso, que está disponível em português nesse pdf. Penso que o prefácio dessa edição brasileiro seja incompreensível para qualquer pessoa que não tenha conhecimentos prévios dos assuntos abordados, em qualquer caso ele pode ser pulado sem problemas. O texto do Propp em si é extremamente didático; facílimo de ser compreendido.

Eis algumas outras recomendações:
Sobre a importância da estrutura narrativa em Harry Potter e uma análise dos livros usando as teorias do Propp (inglês)
Análise de ET – O Extraterrestre usando as teorias do Propp
Sobre o uso das funções propostas pelo Propp para geração de histórias (inglês)
Análise de O Hobbit (livro) usando as teorias do Propp
Análise de The Walking Dead (quadrinhos) usando as teorias do propp (inglês)
Breve aplicação das teorias do propp em trechos de Aladdin, Cinderela e O Rei Leão (inglês)
Análise de Grande Sertão: Veredas usando as teorias do Propp
“Gerador” de contos maravilhosos usando as funções propostas pelo Propp (inglês
Análises formalistas das princesas da Disney partindo dos pensamentos do Propp (inglês – um dos blogs mais legais da internet, diga-se de passagem)

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2. Atualizando as funções
É possível perceber que no fim do vídeo eu deixei uma “ponta solta”. Acontece que eu havia começado a escrever uma quarta parte, intitulada “atualizando as funções”, na qual eu tentaria propor uma série de novas funções que fossem capazes de descrever mais acertadamente os filmes da Disney. Como o vídeo já estava muito longo, resolvi cortar essa parte e sequer terminei de escrevê-la; em qualquer caso, vou deixar aqui o que fiz:

“Parte 4: Atualizando as funções
Foram quase 150 contos analisados pelo Vladimir Propp. Ele quebrou todos eles nas funções (ou ações) executadas pelos personagens e percebeu que a variedade entre elas era na verdade muito baixa, e que os personagens dos diferentes contos faziam sempre as mesmas coisas. Agora, essas 31 funções que nós acabamos de ver se mostraram suficientes para descrever os contos populares russos analisados pelo Propp? Sim. Essas 31 funções se mostram suficientes para descrever os contos da Disney? Não.

A maneira do Propp de analisar as histórias é extremamente preocupada com ‘a forma’ dos contos – e bastante despreocupada com ‘o conteúdo’ deles. Ou seja, quando ele define um personagem como um “mentor”, por exemplo, o que ele leva em conta é a forma de mentor e não o conteúdo de mentor: a Vovó Willow de Pocahontas é uma mentora porque ela executa as funções que os mentores executam, e não porque ela é sábia, ou calma, ou boa em analisar situações e em dar conselhos – e aqui nós encontramos um conflito muito grande entre a Disney e o Propp.

É verdade que nos contos populares russos os personagens são um tanto “vazios”: eles fazem o que eles fazem porque aquela é a função deles dentro das histórias. O herói, por exemplo, salva a princesa nos contos russos puramente porque heróis salvam princesas. Mas nos contos da Disney… a Moana começa a sua aventura porque deseja restaurar o espírito explorador do seu povo. Mulan faz o que faz para poupar o seu pai de ir à guerra. Ariel troca sua voz por pernas porque ela tem o desejo de conhecer o mundo fora das águas. Em outras palavras, os personagens da Disney fazem o que eles fazem porque eles são quem eles são. Se eles possuíssem traços de caráter ou personalidades ligeiramente diferentes, eles fariam outras coisas. Por isso, eu quero sugerir algumas novas funções que podem facilitar a compreensão dos contos da Disney da mesma forma que o Propp compreendeu os contos russos.
Função sugerida 1: Descobrimento: o herói descobre que ele precisa passar por uma mudança interna
Função sugerida 2: Conselho: o mentor diz ao herói como ele pode alcançar seu objetivo pessoal
Função sugerida 3: Frustração: o herói consegue o que ele quer apenas para perceber que não é o que ele precisa”

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3. Sobre o “Mentor”
Eu passei todo o vídeo falando sobre os mentores… e aí em 45:10, quando começo a falar sobre os sete personagens essenciais propostos pelo Propp, o “mentor” não aparece. Então, fiz a opção pelo termo porque ele já é conhecido por qualquer pessoa que seja minimamente familiarizada com estruturas narrativas (principalmente porque Joseph Campbell usou “mentor” na Jornada do Herói etc e tal); foi, portanto, uma opção didática.

Dentro da visão do Propp, vez ou outra o que tradicionalmente se entende por “mentor” aparece como o chamado “Mandante”, mas na maioria esmagadora dos casos eles são equivalentes ao que ele sugeriu como “Doadores”. Portanto, por “personagem que executa as funções de mentor” entenda “personagem que executa as funções de doador” que tá tudo certo.

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4. Sobre manuais de roteiros
Em 01:22 eu faço uma pequena crítica aos ditos “manuais de roteiros”. Peço desculpas por ter jogado isso assim, a esmo, sem justificar a opinião apropriadamente e tudo mais; em qualquer caso, eu os acho todos insuficientes e estúpidos.

Para falar dalguns nomes citados no vídeo: Joseph Campbell e Vladimir Propp vs Robert Mckee e Syd Field. As ideias de todos eles certamente podem ser colocadas dentro do guarda-chuva das “Teorias Narrativas”: mas há diferenças cruciais. Na minha maneira de enxergar as coisas, o Campbell e o Propp dizem como as histórias são; o Mckee e o Field dizem como as histórias devem ser. O esforço dos dois primeiros é, além de louvável, passível de ser suficiente para aquilo que se propõe: como cada história é fechada num arco narrativo único, o trabalho de descrevê-las ou destrinchá-las soa útil e alcançável. Mas, por outro lado, o que há de alcançável em tentar dizer como as histórias devem ser? E, mais, o que há de útil nisso? Eu non queria ser o brega que cita Oscar Wilde, mas me sinto obrigado a fazê-lo: “definir é limitar”.

Tentar impor qualquer tipo de limite, ou, melhor, tentar estabelecer qualquer framework no qual um artista (no caso, um contador de histórias) deveria executar os seus trabalhos é algo que incomoda qualquer pessoa minimamente familiarizada com a História da Arte; dizer o contrário seria negar a Arte ela mesma. À mim, particularmente, essa tentativa de limitação perturba bastante por ir contra dois princípios dos quais estou profundamente convencido: primeiro, um herdado do pensamento grego: o de que o mundo está sempre em constante mudança – assim como nós, humanos, também o estamos; depois, o princípio científico de não propor como certeza absoluta afirmações prescritivas. No fim das contas, ambos se unem numa constatação só: a de que cada encontro que nossos meios perceptivos e sensoriais têm com o mundo é único, porque tanto nós quanto o mundo em si somos diferentes a cada encontro; há ainda a questão cética de até que ponto as informações que adquirimos são confiáveis etc e tal. Então como caralhos alguém ousa dizer pra um artista, “faz o seu trabalho assim e assado que os resultados serão tais e tais”? Enfim… tanto o Syd Field quanto o Robert Mckee afirmam que o que eles fazem não é propor nenhum tipo de fórmula para gerar bons roteiros (na verdade o título do vídeo do Mckee que contém o fragmento citado em 01:22 é “a destrutividade da escrita formulaica de roteiros” hahhahah), mas, bem, na prática, quando você lê as obras deles o que eles fazem é precisamente sugerir fórmulas, então… ¯\_(ツ)_/¯

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5. Sobre o formato do vídeo
Eu tentei, ó, eu tentei: à exaustão, eu tentei… fazer esse vídeo do mesmo jeito que fiz todos os outros. Eu tentei mesmo. Mas não rolou. Precisei alterar um pouco minha maneira de editar e tal. Levanto esse ponto porque quero registrar alguns dos canais que forneceram resoluções para alguns problemas que surgiram, e, que ao fazerem isso, colaboraram no processo de construção que resultou no formato utilizado nesse vídeo: Now You See It, Lindsay Ellis, Innuendo Studios e Sideways – todos em inglês; e também todos brilhantes e sensacionais. Estejam recomendados.

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A Senhorita que veio do mar

Os vento sopravam as velas do navio, e parada na proa a Senhorita Vivian observava as árvores se erguendo atrás da praia. Qualquer homem ao seu lado não teria visto senão um borrão no horizonte atrapalhando a mistura da águas com o céu – mas ah, vejam vocês! Hoje em dia eles contam que as águas eram a sua mãe, e o céu o seu pai! E a Senhorita Vivian olhava e via o que homem nenhum teria visto, e no seu coração ela desejava o que homem nenhum teria desejado, pois ninguém estava no navio além dela, e na sua solidão o navio se movia pela pura vontade do mar.

E então os homens se juntaram na praia e subiram nas árvores, e eles olharam e eles viram, mas não mais que apenas o navio eles enxergaram; quando este deixou de ser um ponto inalcançável nas distâncias e se tornou uma parede de madeira cobrindo toda a visão, só então eles perceberam a Senhorita Vivian. E eles contemplaram! E contemplavam! Os cabelos escuros como as águas durante a noite, o manto branco como as nuvens no céu durante o dia! E no seu esplendor, os olhos que refletiam a pureza do coração! E os homens olhavam, e eles suspiravam – mas eles não conheciam o desejo, não! Eles desceram das árvores, e em seus modos mais primitivos eles se ajoelharam e reverenciaram a Senhorita enviada pelas águas.

Com as cabeças apontadas para o chão, eles fecharam os seus olhos. Nos seus pensamentos mais profundos, os homens tiveram a certeza de que não deveriam olhar para aquela que havia vindo do mar, e, naquele momento, eles enxergaram a Senhorita Vivian apenas com o coração – mas ela! Com os olhos bem abertos, ela viu a essência por trás dos homens. Não árvores, e não animais, e não nada os seus olhos enxergaram além da essência dos homens! Os homens vendo o preto por trás das pálpebras sentiram um olhar caindo sobre eles, e era o olhar da Senhorita Vivian.

Os ventos desceram a Senhorita Vivian do navio, e os homens se levantaram. E o navio – ele se foi! Carregado pelas águas para longe, e depois engolido para as profundezas: ele se foi. Quando os homens sentiram os pés da Senhorita Vivian pisando na terra em que eles viviam, eles abriram os olhos, e mais uma vez eles contemplaram, e então ela sorriu para eles e eles sorriram para ela, e dentro deles a tristeza pela alegria foi iluminada. Eles sorriram para ela, sim; mas groceiro, o sorriso dos homens! Groceiro! Eles ainda não sabiam sorrir. Hoje em dia eles contam que aprenderam com ela, pois naquele momento os seus lábios finos puxaram delicadamente o canto da boca e revelaram não mais que um delicado arco branco. Eles olharam para o sorriso dela, e se envergonharam – nos seus corações o desejo mais profundo nasceu: eles queriam sorrir como a Senhorita Vivian. Eles não queriam sorrir para ela como groceiros! As bochechas dos homens se avermelharam. Eles sentiram vergonha.

E ela, vejam vocês! Ela se sentiu grata, e ela quis agradecer, e ela agradeceu: no fim da sua solidão, a Senhorita Vivian cantou para os homens. Ela cantou a sua gratidão com muitas palavras, mas eles não compreenderam nenhuma delas – eles ainda não sabiam compreender as palavras. Eles apenas ouviram a melodia, e os seus ouvidos se deliciaram com a voz doce ecoando por entre as árvores para dentro da floresta – mas ela! Ela cantou para os homens, e para as águas, e para o céu! E para a floresta ela também cantou! Ela cantou para que os homens não esquecessem, e para que os pássaros imitassem a sua música – e assim foi! Pela primeira vez os pássaros e os homens cantaram a mesma música que a Senhorita Vivian.


Conto escrito para um mini-concurso feito em um grupo de escritores no Whatsapp.

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Um texto de J. R. R. Tolkien sobre Contos de Fadas

Penso que fiz uma das leituras mais úteis de toda minha vida. Sabe o J. R. R. Tolkien, aquele d’O Senhor dos Anéis? Então, ele tem um texto sobre conto de fadas!

Ah, se sebos ainda não são lugares sagrados. Dei de cara com um livrinho surrado que tinha “Tolkien” escrito na capa, esquecido no fundo de uma prateleira. Quando peguei, rapaz, era um livro com alguns textos antigos do sujeito que não eram mais publicados. Todos em inglês, e pasme, paguei três reais por essa maravilha.

Agora, o ponto é o seguinte: esse livro se chama Tree and Leaf, e o primeiro texto é um ensaio sobre contos de fadas chamado On Fairy Stories. Paradoxalmente desnecessário dizer que quando J. fucking R. R. Tolkien fala sobre contos de fadas, você escuta.

Ele começa respondendo à pergunta “O que são contos de fadas?”, contando, de maneira sensacional, qual a origem do termo e como ele era usado nos primórdios, pra depois falar sobre sua evolução e como é usado hoje em dia. A coisa vai pra outro nível de fantasticidade quando Tolkien resolve explicar quais as características desses textos que criam universos em que fadas são possíveis.

E aí é aula, meua migo. Pra quem gosta de escrever (qualquer tipo de texto), especialmente narrativas com universos fantasiosos, isso aqui é essencial – e pra quem simplesmente curte contos de fadas ou textos do Tolkien, também. No fim das contas minha recomendação é que você vá ler o On Fairy Stories por conta própria agora, até porque não tem nem trinta páginas, mas vale a pena deixar aqui alguns aforismos que extraí do texto:

“Mas, visto que o conto de fadas trata de “maravilhas”, ele não pode tolerar nenhum enquadramento ou mecanismo que dê a entender que toda a história em que ocorrem é uma ficção ou ilusão.”

“A mente que imaginou leve, pesado, cinzento, amarelo, imóvel, veloz também concebeu a magia que tornaria as coisas pesadas leves e capazes de voar, transformaria o chumbo cinzento em ouro amarelo e a rocha imóvel em água veloz. Se podia fazer uma coisa, podia fazer a outra; inevitavelmente fez ambas.”

“Mas os contos de fadas também oferecem, em grau ou modo peculiar, estas coisas: Fantasia, Recuperação, Escape, Consolo, coisas de que as crianças por via de regra precisam menos que os mais velhos.”

“A Fantasia é uma atividade humana natural. Certamente ela não destrói a Razão, muito menos insulta; e não abranda o apetite pela verdade científica nem obscurece a percepção dela. Ao contrário. Quanto mais arguta e clara a razão, melhor fantasia produzirá.”

“Se as pessoas realmente não conseguissem distinguir sapos de homens, não teriam surgido contos de fadas sobre reis sapos.”

“É claro que a Fantasia pode ser levada ao exagero. Pode ser malfeita. Pode servir a maus usos. Pode até iludir as mentes das quais surgiu. Mas, neste mundo caído, para que coisa humana isso não é verdade?”

“Por que desdenhar um homem se, estando na prisão, ele tenta sair e ir para casa? Ou se, quando não pode fazê-lo, pensa e fala sobre outros assuntos que não carcereiros e muros de prisão? O mundo exterior não se tornou menos real porque o prisioneiro não consegue vê-lo.”

PDF do texto “On Fairy Stories” em inglês

PDF do livro “Tree And Leaf” em português (texto “Sobre Contos de Fadas” na página 8)