The Church at Auvers Van Gogh

O tempo passa

eu sou deusa, eu sei de tudo, e vejo tudo e conheço todas as coisas. e sou triste. preciso dizer, eu sou triste. sou triste por ele e por ela; as coisas não acontecem jamais e eles vivem dias compridos. e eles sentem o tempo passando por cima deles. parece que dói.

olho e vejo diante dele uma estrada. Ele espera. Um dia prometeu que cruzariam seus caminhos, e nunca essa oportunidade foi concedida; abstenho, eles não tiveram a sorte. vem alguém de bicicleta. vem alguém correndo. alguém, vem alguém. sempre alguém. e enquanto continua assim, a estrada cresce e cresce, e vai dar cada vez mais funda no céu. pra ir embora fica mais difícil. o caminho é maior, ele não tem essa força toda pra chegar no fim. não tem jeito; eu diria, não tem jeito pra ele. vai ter que ficar parado. esperando e esperando. sozinho.

longe de lá ela passeia pelas florestas. duas, três, mil florestas ela visita. em cada floresta conhece as árvores, e a cada árvore faz uma nova promessa. e agora ela prometeu ao mundo todo e não pode mais escapar disso. deve para sempre visitar as florestas e cumprir sua palavra, ou então vai deixar as árvores chateadas. não se pode chatear as árvores; elas nunca esquecem e contam umas às outras, e suas raízes vão fundo embaixo das pedras e guardam lá muito bem o nome de todos que gostam e odeiam. e elas passam a odiar muito facilmente quem as chateia. e ela, eu tenho pena dela. sua primeira promessa foi a ele. agora ela não pode respeitar mais o seu primeiro amor. ela não pode respeitar o seu primeiro amor. parece que dói.

ele espera. a estrada cresce. os rios fazem nascer mais árvores; a chuva vem também para ele. ele diz, eu não ligo!, e espera e espera. faz desenhos na areia e puxa do bolso uma sacola; estica e assobia. só os passarinhos escutam. ele acha os passarinhos bonitos, mas não se importa que eles escutem. ela não escuta. está longe, não vem. a estrada cresceu demais. ela ainda cumpre as promessas às árvores; sabe das consequências, não consegue escapar disso. ela faz, não perde jamais as forças. busca honrar as palavras dadas para a natureza. mas ele. ele. ele não tem mais sobre o que pensar. está cansado. sozinho em sua mente. companhias no mundo não o satisfazem mais. não tem para onde ir. o horizonte acabou. pensa, não tem jeito. … parece que não tem mesmo. estou triste. triste por ele. desiste. desiste, rapaz. algum dia vai morrer aí mesmo. e ela que não sabe da sua situação vai continuar cumprindo promessas. a primeira só pode ser a última, se for. vai demorar, no mínimo vai demorar. não adianta esperar. você vai esperar pra sempre e vai morrer. e ela vai ficar cansada de tentar. desiste que eu falo pra ela parar. desiste que eu falo pra ela ir fazer outras coisas. ser feliz. divertir-se. desiste. … é uma pena que ele não me escuta. … a estrada cresce. as árvores nascem e complicam o mundo. ela continua. ele continua. eu repito: o tempo passa pra eles. parece que dói.

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A Senhorita que veio do mar

Os vento sopravam as velas do navio, e parada na proa a Senhorita Vivian observava as árvores se erguendo atrás da praia. Qualquer homem ao seu lado não teria visto senão um borrão no horizonte atrapalhando a mistura da águas com o céu – mas ah, vejam vocês! Hoje em dia eles contam que as águas eram a sua mãe, e o céu o seu pai! E a Senhorita Vivian olhava e via o que homem nenhum teria visto, e no seu coração ela desejava o que homem nenhum teria desejado, pois ninguém estava no navio além dela, e na sua solidão o navio se movia pela pura vontade do mar.

E então os homens se juntaram na praia e subiram nas árvores, e eles olharam e eles viram, mas não mais que apenas o navio eles enxergaram; quando este deixou de ser um ponto inalcançável nas distâncias e se tornou uma parede de madeira cobrindo toda a visão, só então eles perceberam a Senhorita Vivian. E eles contemplaram! E contemplavam! Os cabelos escuros como as águas durante a noite, o manto branco como as nuvens no céu durante o dia! E no seu esplendor, os olhos que refletiam a pureza do coração! E os homens olhavam, e eles suspiravam – mas eles não conheciam o desejo, não! Eles desceram das árvores, e em seus modos mais primitivos eles se ajoelharam e reverenciaram a Senhorita enviada pelas águas.

Com as cabeças apontadas para o chão, eles fecharam os seus olhos. Nos seus pensamentos mais profundos, os homens tiveram a certeza de que não deveriam olhar para aquela que havia vindo do mar, e, naquele momento, eles enxergaram a Senhorita Vivian apenas com o coração – mas ela! Com os olhos bem abertos, ela viu a essência por trás dos homens. Não árvores, e não animais, e não nada os seus olhos enxergaram além da essência dos homens! Os homens vendo o preto por trás das pálpebras sentiram um olhar caindo sobre eles, e era o olhar da Senhorita Vivian.

Os ventos desceram a Senhorita Vivian do navio, e os homens se levantaram. E o navio – ele se foi! Carregado pelas águas para longe, e depois engolido para as profundezas: ele se foi. Quando os homens sentiram os pés da Senhorita Vivian pisando na terra em que eles viviam, eles abriram os olhos, e mais uma vez eles contemplaram, e então ela sorriu para eles e eles sorriram para ela, e dentro deles a tristeza pela alegria foi iluminada. Eles sorriram para ela, sim; mas groceiro, o sorriso dos homens! Groceiro! Eles ainda não sabiam sorrir. Hoje em dia eles contam que aprenderam com ela, pois naquele momento os seus lábios finos puxaram delicadamente o canto da boca e revelaram não mais que um delicado arco branco. Eles olharam para o sorriso dela, e se envergonharam – nos seus corações o desejo mais profundo nasceu: eles queriam sorrir como a Senhorita Vivian. Eles não queriam sorrir para ela como groceiros! As bochechas dos homens se avermelharam. Eles sentiram vergonha.

E ela, vejam vocês! Ela se sentiu grata, e ela quis agradecer, e ela agradeceu: no fim da sua solidão, a Senhorita Vivian cantou para os homens. Ela cantou a sua gratidão com muitas palavras, mas eles não compreenderam nenhuma delas – eles ainda não sabiam compreender as palavras. Eles apenas ouviram a melodia, e os seus ouvidos se deliciaram com a voz doce ecoando por entre as árvores para dentro da floresta – mas ela! Ela cantou para os homens, e para as águas, e para o céu! E para a floresta ela também cantou! Ela cantou para que os homens não esquecessem, e para que os pássaros imitassem a sua música – e assim foi! Pela primeira vez os pássaros e os homens cantaram a mesma música que a Senhorita Vivian.


Conto escrito para um mini-concurso feito em um grupo de escritores no Whatsapp.

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O macaco, a pedra e o sofá

Atualização 31/05/2018: Eu escrevi uma análise na qual eu tento identificar os problemas com esse texto e consequentemente suas causas e possíveis soluções. Aqui está: O problema da presença do narrador, mimesis e diegesis.


Um dia Ana chegou em casa e encontrou um macaco sentado em seu sofá. Ele não a percebeu de imediato pois estava entretido olhando para o teto, mas os seus pelos estavam visivelmente imundos e isso havia sujado todo o sofá. As manchas de terra incomodaram muito Ana, e ela deu três batidas na porta que fizeram o macaco olhar para ela.

“Com licença, Sr. Macaco. O que você está fazendo aqui?” Ana disse.

“Ora, eu decidi me mudar para cá. Quem é você?” Respondeu o macaco, coçando a cabeça e analisando Ana de cima para baixo.

Ana colocou sua cesta de frutas no chão, tirou os sapatos sujos de lama e se apressou até o macaco. “Mas Sr. Macaco, essa casa é minha! Esse sofá também é meu. Se você estiver querendo comprá-lo, essa é outra questão que nós podemos discutir com prazer –”

“Não, não”, interrompeu o macaco. “Veja bem, a floresta agora me pertence. A sua casa está na floresta e por isso também me pertence, naturalmente.”

“Mas Sr. Macaco!”

O macaco se levantou devagar e levantou um dos dedos, e quando Ana ficou em silêncio ele a entregou uma pequena pedra colorida. “Viu só? A floresta é minha, eu lutei pela pedra e venci.”

“Oh.”

Ana olhou frustrada para a pedra em suas mãos: a floresta era realmente do macaco e quanto a isso ela não poderia fazer nada, mas ela gostava muito da sua casa e estava disposta a tentar mantê-la.

“Tudo bem, eu entendo, mas tenha pena de mim! Eu não tenho para onde ir. Essa casa é tudo o que eu possuo, se você for ficar com ela… O que será de mim?” Ana disse.

“Eu acho que isso não é muito problema meu.” O macaco respondeu.

Ana bateu um pé forte no chão e olhou espantada para o macaco. “Isso é um absurdo, Sr. Macaco! Se é desse jeito que você pretende cuidar da floresta, ela não vai ficar nas suas mãos por muito tempo. Disso eu tenho certeza!” Ela disse.

“Isso sim é problema meu, senhorita,” disse o macaco, e então ele pegou a pedra das mãos de Ana e voltou a se sentar e a encarar o teto. “Mas apenas meu. Se algum dia essa pedra passar para as mãos de outra pessoa talvez você possa voltar para esta casa. Até lá, queira por gentileza se retirar.”

“Eu não me irei me retirar, Sr. Macaco!” Ana disse, e ela se sentou no sofá ao lado do macaco com os braços cruzados. “Na verdade, eu só vou me levantar daqui quando você for embora.”

O macaco estava tão decidido a continuar com a casa que também resolveu que só iria se levantar quando Ana fosse embora, e por isso os dois ficaram sentados se sentindo irritados até a noite cair. Entretanto, pouco depois de escurecer muitos amigos do macaco entraram pela porta sem fazer perguntas. Todos estavam gritando e pareciam prontos para dar uma festa para comemorar a nova casa do macaco, e Ana não conseguiu ficar parada diante disso. Ela se levantou para mandá-los embora e depois voltou a se sentar.

“Ah, seus sujos, meus tapetes! Ah, xô, xô!” Ela disse para eles, e eles foram embora confusos já que olharam para o macaco e ele apenas se manteve inexpressível no sofá.

Os dois passaram a noite dormindo no sofá, e quando a manhã chegou o macaco acordou e encontrou Ana ainda ao seu lado com os olhos fechados. Ele pegou a sua pedra colorida e a encarou por alguns minutos enquanto refletia. Ele pensou nas coisas que teria para fazer mais tarde, e pensou também que por causa delas não poderia ficar sentado ali para sempre, então ele acordou Ana com a intenção de resolver a coisa toda finalmente.

“Você é muito teimosa”, disse o macaco.

“Você não me deixa outra opção!” Ana respondeu.

O macaco caminhou até a janela e olhou para as árvores. “Muito bem, eu tenho uma proposta.” Ele disse, e Ana ficou de pé e escutou-o com atenção. “Você pode ficar com a casa, mas eu quero o sofá. E também quero que você cate meus piolhos duas vezes por semana.”

“Oh, eu não acho que farei isso. Digo, o sofá é muito importante para mim. Ele está aqui desde que eu me mudei para cá… Ah, não, não! Não dá para eu me desfazer dele desse jeito, Sr. Macaco!” Disse Ana.

O macaco deu um suspiro profundo e disse finalmente “Ora, então você vai ficar sem o sofá e sem a casa, porque de qualquer maneira eu tenho a pedra… Você quer lutar por ela?”

“Lutar pela pedra? Francamente! Se nós lutássemos você deixaria minhas roupas imundas como fez com meu sofá.”

“Se você não quiser lutar por ele, o sofá é meu e eu diria que ele não está nem um pouco imundo.”

“Ah, Sr. Macaco, vocês do norte da floresta são criaturas terríveis! Você sabe muito bem que só poderia me vencer em uma barbaridade como uma luta. Nós aqui do sul não resolvemos nossos problemas com essas coisas estúpidas e sem sentido, nós resolvemos com educação.”

O macaco pareceu se sentir insultado, mas logo ele se calou e sentou no sofá ao lado de Ana.

“Muito bem, então, muito bem! O que você propõe?” Ele disse.

“Em primeiro lugar eu proponho que você vá embora,” Ana respondeu. “Mas eu acho que você irá recusar essa proposta muito antes de levar ela em consideração, então, bem, eu tenho uma que você vai aceitar sem precisar pensar duas vezes… Eu proponho que você me dê a pedra e fique com a casa.”

“Garota tola, garota tola, eu não serei enganado assim tão fácil… Nesse caso eu te entregaria a pedra e você usaria ela para pegar a casa de volta. Não, não mesmo.”

“Hummmm… Então eu proponho uma partida de xadrez.”

O macaco achou a proposta muito justa, e logo Ana colocou um tabuleiro entre os dois no sofá. O macaco jogou com as peças escuras e começou movendo um dos peões que ficam em frente aos cavalos. Esse movimento rende posições que com certeza são muito agradáveis para pessoas que sabem jogá-las, mas o macaco não sabia. Por outro lado, Ana sabia, e ela se aproveitou do deslize do macaco para aplicá-lo um mate-pastor, que é uma das formas mais humilhantes de se vencer um adversário no xadrez pois a vitória ocorre depois de quatro movimentos. O macaco se sentiu de fato humilhado, mas Ana queria apenas resolver o problema e não tirou sarro dele.

“Agora você pode me dar a pedra e sair da minha casa, por gentileza.” Ana disse.

O macaco olhou para as paredes um tanto frustrado. “A pedra?” Ele disse. “Eu achei que a partida tivesse sido só pela casa.”

“Ah, não, Sr. Macaco. Você disse que nós deveríamos lutar pela pedra e eu propus um jogo de xadrez, sim?”

O macaco era uma criatura que mantinha suas palavras, no fim das contas. Então ele se levantou do sofá, entregou a pedra para Ana e saiu pela porta cabisbaixo e resmungando consigo mesmo. Ana viu pela janela ele desaparecer na floresta, caminhando por cima das folhas no chão. O pobre animal sequer teve forças para subir em uma árvore e ir pulando para sua antiga casa, mas Ana não sentiu pena nenhuma dele. Ao contrário, seu sofá estava imundo e ela precisava lavá-lo com a maior urgência possível, e como ela havia sentado no sofá ela também precisava se lavar. Depois Ana pensou na possibilidade de ter se contaminado com os piolhos do macaco, e isso a deixou muito preocupada. A sua preocupação foi tão grande que ela passou o resto da manhã limpando a casa, e durante toda a tarde ela esteve em baixo do chuveiro, mas depois que todo o serviço havia sido feito ela estava se sentindo muito bem em casa de novo.


Atualização 31/05/2018: Eu escrevi uma análise na qual eu tento identificar os problemas com esse texto e consequentemente suas causas e possíveis soluções. Aqui está: O problema da presença do narrador, mimesis e diegesis.

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O Reconhecimento da Superfície Verde

A nave se materializou um pouco longe do Planeta 1 do Setor 7, e por isso os tripulantes não o viram imediatamente. Fred só foi acordar quando as ondulações no espaço terminaram de se dissipar, e imediatamente ele ouviu um gemido vindo da sua direita. Ele tirou os pés que estavam estendidos sobre o painel e se sentou olhando para o lado.

“Minha nossa, garoto!” Ele disse, enquanto Sam vomitava nos próprios pés. “Eu já te disse, uma hora você se acostuma.”

“Sim, sim…” Sam disse murmurando, quase como se tivesse feito algo de errado. “Diz para a nave limpar isso, por gentileza.”

Fred alcançou alguns botões no painel e logo um pequeno robô multi-tarefas se soltou de um compartimento ao lado da porta principal e começou a limpar o chão. O robô tinha uma inteligência artificial de mais baixo nível, e nos seus pobres julgamentos decidiu que seria uma boa ideia limpar não só o chão como também as pernas de Sam até a altura do joelho.

Fred se levantou para pegar uma xícara de café do outro lado da sala e ver se ela o faria acordar por completo e se livrar daquela sensação de que o tempo não passava. O interior da nave estava sempre quieto demais para ele. “Quer café?” Ele perguntou. Sam estava ocupado se sentindo aborrecido com o mal estar do vômito e com o braço do pequeno robô aspirando sua perna, mas respondeu que sim, claro, e que café é sempre ótimo.

Sam resolveu se colocar de pé, esticar todo o corpo e fazer estralar as pontas dos pés e o pescoço pois ele sentia como se todos os ossos tivessem sido ligeiramente deslocados para mais perto uns dos outros. Mas quando ele olhou para a grande tela diante de si um pequeno detalhe quase fez seu coração sair pela boca: um pontinho verde. Muito, muito longe em algum lugar estava um pontinho verde; e ele rapidamente verificou que era para lá que a nave estava indo. Depois de um breve murmúrio de susto, ele apontou para o pontinho e arregalou os olhos.

“Verde!” Ele disse, e depois ficou reto como uma vara e apertou as sobrancelhas. “Verde…?”

Ouvindo isso, Fred se virou de uma vez e também ficou fascinado. Sua mente se desconectou tanto do seu corpo que enquanto imagens de mil memórias passavam dentro da sua cabeça os seus músculos pararam de indicar qualquer sinal de atividade. Os seus dedos se relaxaram e ele deixou as duas xícaras de café caírem e sujarem o chão, e imediatamente o robô multi-tarefas julgou essencial limpar suas pernas e começou a agir.

Depois de alguns segundos que Fred e Sam passaram olhando em silêncio para o Planeta 1 do Setor 7 na tela, Fred se livrou do robô, pegou mais duas xícaras de café e parou ao lado de Sam. Os dois com os olhos maravilhados apontados para o círculo verde que ia ficando cada vez maior na tela, pois a nave estava se aproximando muito rápido do planeta. Fred entregou uma das xícaras para Sam, que deu um gole profundo, mas os dois estavam tão encantados que o único som foi o do robô multi-tarefas se acoplando novamente ao compartimento ao lado da porta.

“Quem diria, hein?” Disse Fred finalmente. “Eu não esperava que o Planeta 1 fosse verde…”

Sam assentiu com a cabeça. “É…” mas tanto ele quanto Fred estavam com os olhos fixados no planeta crescendo na tela. Os dois sabiam que só havia uma coisa que poderia estar sobre a superfície fazendo o planeta ser verde: árvores. Eles estavam preparados para lidar com árvores e até com florestas, mas o planeta inteiro os pegou desprevenidos. “É muito parecido com o Planeta Natal–” e então ele percebeu o lado escuro do planeta e novamente ficou em silêncio admirando. Havia um número incontável de pequenos pontos brilhantes naquele lado que ficava cada vez menos escuro conforme eles se aproximavam, e entre essa metade escura e a outra metade verde do planeta havia uma faixa de vermelho. Não era o vermelho causado por um efeito da falta de luz sobre a superfície verde, mas sim um vermelho vivo, quase rosa.

“Então… vida inteligente?” Disse Sam percebendo que enquanto o planeta girava e a noite caía sobre sua parte verde, novos pontos de luz surgiam em todos os lugares, mas a faixa vermelha continuava intacta. “Devemos reportar isso? Porque nesse caso nosso procedimento seria completamente diferente… Quer dizer, nós deveríamos voltar e eles mandariam alguém pra negociar, não?”

“Vamos esperar a nave analisar a superfície antes de fazer qualquer coisa. Vida inteligente avançada o suficiente pra produzir tanta luz? Pode ser.” Fred se sentou e voltou a beber o café. “Vida inteligente vivendo em um planeta que é pura floresta? Duvido muito.”

Sam concordou e foi fazer os preparativos para a ativação do programa de instalação da colônia. Ele estava de pé diante de um painel lateral inserindo algumas informações necessárias, mas continuava dando olhadelas para a tela principal da sala de comando da nave. O Planeta 1 do Setor 7 continuava se comportando de maneira muito curiosa: agora a parte verde parecia se mover suavemente, como se um terremoto estivesse acontecendo lá; a parte escura continuava piscando e a faixa vermelha que separava os dois lados permanecia inabalada.

Eles estavam preparados para lidar com superfícies esquisitas e formas de vida peculiares, mas a mistura dessas duas coisas com o verde continuava impressionando Fred. Ele continuava sentado olhando para a tela, concentrado e com a mente mergulhada em pensamentos profundos. “Muito bem”, ele disse quando voltou para si e olhou para as pequenas telas no painel. “A nave está pronta para entrar na atmosfera. Ativou o programa de instalação?” Sam respondeu que sim, e então eles se prenderam nas cadeiras e se prepararam para eventuais turbulências.


Nota: Essa não é, evidentemente, a história toda. Eu escrevi essa parte e ela ficou por muito tempo acumulando poeira nos confins do painel administrativo desse blog, e uolô! Aparentemente há poucas esperanças de que irei escrever o restante dela em algum tempo próximo. A camada de poeira estava se tornando tão grossa que não sei se eu seria capaz de retirar ela no futuro. Portanto resolvi postar mesmo apenas o fragmento, e mover adiante para contar outras histórias. Vou-me já!

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Yan na Ponta da Agulha

A aventura de Yan começou há muitos anos, quando ele partiu de sua casa no Oeste levando apenas roupas e comida em uma bolsa que era maior que ele. Os motivos da sua partida não fazem parte dessa história, e é suficiente dizer que no momento em que ela começa ele se encontrava parado diante de gigantescas muralhas, e que levava duas espadas leves e pequenas guardadas nas bainhas de couro na cintura; usava um capuz jogado para trás do pescoço por cima de um colete de couro, que por sua vez escondia uma cota de malha velhíssima que usava como proteção desde sempre; ao seu lado estava Famber, o cavalo que recebeu como pagamento por alguns serviços feitos em Lugos, e ele fazia o trabalho de carregar bolsas com todos os bens que Yan coletava pelas terras que passava. Era um cavalo preto, forte e jovem, e Yan tinha tanto amor por ele quanto pelos bens que ele levava, mas as costas de Famber já eram pesadas demais com a bagagem, portanto ele era obrigado a caminhar. Tinha esperanças de conseguir mais cavalo para dividir os pesos, e havia grande esperança de fazer isso na cidade que se erguia diante de si.

Apesar disso, não foi esse o motivo principal que o levou a visitar Cidaces. Por muitos anos e em muitos lugares ele ouviu falar de uma taverna chamada Ponta da Agulha. Diziam ser uma taverna muito grande, feita de pedra esculpida imitando um pequeno castelo, e que ocupava o espaço de três casas no centro de Cidaces. O lugar era famoso porque seu dono, o taverneiro Denomo, tinha acordos com criaturas de todos os reinos, e conseguia reunir em sua taverna frutas vindas de terras muito distantes; ele as triturava e as misturava e produzia bebidas muito apreciadas. Yan estava fazendo alguns trabalhos há apenas alguns dias da cidade, e resolveu aproveitar a oportunidade para visitar a Ponta da Agulha.

Ele gostava de beber e comer as especialidades dos lugares que visitava, e nunca tinha estado em Cidaces antes. Quando parou diante das muralhas e viu a lua já surgir atrás delas enquanto o sol se punha, puxou as rédeas que guiavam Famber o cavalo e seguiu ansioso para tomar as vitaminas. Os portões de madeira estavam aberto e ele achou isso esquisitíssimo, pois era bem conhecido por todos que qualquer um podia entrar em Cidaces, mas era preciso ser revistado pelos guardas antes.

Quando colocou os pés sob o portão, Yan viu muitas coisas esquisitas e uma cidade mergulhada em caos. Haviam pessoas gritando e correndo para todas as direções, abanando os braços em desespero e pedindo socorro; as casas de madeira pegavam fogo, e também os carros de bois e cavalos, e todo o feno que alimentava os animais, que também galopavam desesperados pelas ruas. Aquilo tudo lhe pareceu muito estranho e errado, mas até onde ele podia imaginar não era problema dele, então seguiu seu caminho para o centro de Cidaces, para a Ponta da Agulha.

Ele pôde caminhar pelas ruas sem ser diretamente perturbado. O que quer que estivesse perturbando os moradores o deixou em paz. Ele fez seu caminho até que a frente da taverna apareceu em sua vista, e ela pareceu ser ainda mais magnífica do que diziam: mais alta, mais larga, feitas de pedras mais bem esculpidas e polidas, e detalhada nos cantos com madeiras mais brilhantes e resistentes. Ela era de fato muito parecida com um pequeno castelo, pois era retangular e tinha pequenas torres nos cantos, e as portas eram de metais, com as bordas arredondadas e uma faixa de metal no centro, e com argolas de aço penduradas para abrir e fechar. O coração de Yan rapidamente se encheu de esperança de que as famosas bebidas também seriam melhores do que os rumores apontavam, mas sua ansiedade foi desafiada quando percebeu que as portas estavam fechadas.

Yan se aproximou pensando que não poderia deixar a cidade sem provar alguma das bebidas, e parado diante das grandes portas fechadas ele gritou:

“Eu quero beber!”

Houve silêncio, e por alguns instantes nenhuma resposta veio e as portas permaneceram sem dar sinais de que seriam abertas, então ele repetiu o grito enquanto dava pancadas fortes com a mão na madeira:

“Eu quero beber!” Ele disse. “Abram as portas!”

Dentro da taverna as pessoas começaram a murmurar, e Yan ouviu e bateu ainda mais forte nas portas.

“Vá embora, não temos nada aqui!” Disse uma voz vinda de dentro. “Não arrebente minhas portas!”

“Ah, então tem gente aí dentro,” disse Yan, “Você é Denomo o taverneiro? Quero provar as bebidas, abra, abra!”

“Deixe minhas portas em paz,” disse a voz, “vai embora!”

“Taverneiro, eu estou em uma viagem muito longa.” Disse Yan depois de parar de bater. “Minha aventura é grande, e minha sede por suas bebidas vem de muitas milhas que caminhei ao lado de Famber o cavalo, meu companheiro.” E então ele voltou a dar pancadas na madeira, “então abra, abra!”

“Ah!, ó!, seria uma alegria lhe servir minhas bebidas em outros tempos,” respondeu o taverneiro, “mas no momento eu me importo mais com minhas portas que com suas aventuras e sua sede”.

“Eu não vou sair sem beber, taverneiro.” Disse Yan, e as madeiras ainda fazendo um pesado tum-tum que ecoavam dentro da taverna.

“Eu não sei como você chegou vivo no centro da cidade, não viu eles aí fora?” Gritou Denomo, com a voz trêmula. “Não posso abrir as portas enquanto eles estiverem atacando a cidade. Então vá, vá embora!”

“Eu não vou sair.”

Yan decidiu que arrombaria as portas e entraria à força, depois pediria desculpa e pagaria pelas portas ou qualquer outro problema que causasse. Então deu passos para trás e o silêncio deixou todos ansiosos dentro da taverna. Yan correu com o ombro inclinado para frente e bateu em cheio na madeira. Houve um grande estrondo e as estruturas chacoalharam, e o cadeado que trancava as portas pelas argolas do lado de dentro quase se partiu.

“Ah! Ah, ouça, ouça!” Gritou o taverneiro, muito preocupado com as portas. “Ouça, você não ouviu? Eu ficaria alegre em te servir, mas não posso abrir as portas com eles aí fora.”

“Então você pode abrir, pois aqui fora só vejo os moradores correndo em desespero, e nada mais.” Respondeu Yan.

“Claro! E por quê você acha que eles estão correndo, imbecil?” Disse Denomo.

“Eu não sei, mas eu sou Yan, e essas portas podem ser abertas sem problemas enquanto eu estiver com uma espada e disposição para brandi-la, e no momento eu tenho duas, pois uma conquistei de inimigo morto e outra foi presente.”

O taverneiro fez silêncio e pensou por alguns instantes.

“Muito bem, Yan o aventureiro!” Ele disse finalmente. “Muito bem, me diga de onde você vem e para onde você vai.”

“Eu venho de Mabus, e antes disso de Mabais, e Vetus, e porquê deixei minhas terras no Oeste não posso contar, mas pelo que passei para chegar até aqui é uma história que ficarei feliz de compartilhar.” Gritou Yan para as portas. “E para onde vou, ora, eu acabei de chegar onde estava indo, e já disse que há muito tempo caminho para provar suas bebidas, e minha sede é grande. Abra!”

Novamente o taverneiro fez silêncio enquanto pensava.

“Eu fiz meu julgamento,” ele disse finalmente, “e quero ouvir sua história, mas isso será perigoso para minha taverna.”

“Perigoso de fato, e eu entendo o apreço pela taverna. Magnífica ela me parece!” Disse Yan. “Me sirva do lado de fora, então.”

“Meu conselho para você, Yan o aventureiro,” disse Denomo, “é que você vá embora e volte quando eles tiverem deixado a cidade. Você vai morrer aí fora.”

“Não,” disse Yan, “eu tenho minhas armas e meu cavalo, me sirva aqui.”

“Muito bem, muito bem, que assim seja! Então use suas armas para manter essas portas vazias,” gritou o taverneiro, com seu julgamento final, “eu vou abri-las por alguns instantes e lhe darei algo para beber.” E então ele sorriu, pois gostava muito de preparar as bebidas para os forasteiros que nunca as tinham provado, mas Yan não pôde ver do lado de fora. “Você gosta de maçãs?, e bananas?”

“Maçãs e bananas são de meu gosto.” Disse Yan, satisfeito com a situação.

Então Denomo começou a fazer seus negócios, e preparou uma bebida com maçã e banana. Isso levou cerca de dez minutos, pelo que Yan pôde perceber, e foi um tempo no qual ele passou por muita ansiedade.

“Estou enviando um garoto com sua bebida,” gritou finalmente o taverneiro, “ele vai abrir as portas, te entregar, voltar e fecharemos de novo no mesmo instante. Como está o lado de fora? Vazio, não vai entrar nada?”

“Não, aqui está limpo,” disse Yan, “envie o garoto.”

Uma pequena fresta se abriu no meio das portas, e através dela surgiu um garoto de nome Dumos e que era um dos filhos do taverneiro, e seus olhos apareceram checando a situação de Cidaces ao redor da Ponta da Agulha. Ele viu apenas Yan segurando uma espada manchada de sangue e Famber o cavalo com todos os trambolhos que carregava; e não vendo mais nada saiu cuidadoso como um coelho saindo da toca.

“Olá, senhor,” disse Dumos, estendendo para Yan uma bandeja com um grande copo, “esteja servido!”

Yan guardou a espada na bainha e segurou o copo com as duas mãos, pois era um copo de vidro muito alto e largo, e sem alça. O garoto deu uma bela olhada no estado da cidade ao redor, depois se curvou e cumprimentou Yan, e voltou para dentro da taverna. Então Yan provou a bebida, e ela matou sua sede e agradou seu paladar, pois ele já havia comido muitos pratos feitos com bananas em terras distantes, e muitos outros feitos com maçãs em outras ainda mais além, mas as duas em um copo era algo novo. Ele se deliciou e gritou um agradecimento ao taverneiro.

“Então, é bom?” respondeu Denomo.

“Bastante,” disse Yan, “essa é a melhor bebida que tomarei nessas terras, e muitas milhas viajarei antes de beber algo assim novamente. Disso não tenho dúvidas.”

“Muitas milhas, é verdade!” Respondeu o taverneiro, “pois se quiser beber algo assim novamente terá que voltar aqui. A menos que meus concorrentes também tenham feito negócios para conseguir as frutas, mas disso eu tenho muitas dúvidas.”

Yan deu os últimos goles e esvaziou o copo, e logo o taverneiro voltou a gritar.

“Mais um copo seria de bom grado, meu senhor, Yan?”, ele disse.

“Quantos mais seus modos permitirem me dar.” Yan respondeu.

“Nesse caso espero que goste de mamões.” Gritou o taverneiro, e depois de uma breve pausa acrescentou: “então! Meu garoto, Dumos, disse que viu as cabeças deles jogadas aí fora, aos seus pés.”

“Sim, há cabeças próximas aos meus pés. E há agora mais do que havia quando ele veio.”

“Eh, eh! Obrigado, então!” Disse Denomo, “venha! Você manteve as portas limpas, entre e vou lhe servir de modos adequados.”

Então Yan amarrou Famber o cavalo em um dos postes-para-cavalos que ficavam do lado esquerdo da Ponta da Agulha, as portas se abriram e ele entrou na taverna. Com um pano tirado da cintura ele limpou o sangue da espada e guardou-a na bainha de couro, e então entregou ao taverneiro o grande copo vazio que segurava na outra mão. Ele pôde ver que a taverna era por dentro ainda mais magnífica do que diziam as descrições, pois ela era muito grande e cheia de mesas redondas de madeira, cada uma com quatro cadeiras baixas; haviam velas espalhadas que iluminavam o local, pois as janelas estavam fechadas e de outra maneira estaria muito escuro; havia uma grande lareira esculpida por mãos hábeis, mas ela ela para os tempos de frio e estava apagada; do seu lado direito o balcão onde Denomo preparava as bebidas, e em sua extensão haviam bancos com algumas pessoas sentadas, e haviam outras em pés e nas mesas. Yan tomou muitas bebidas que o taverneiro ofereceu, e eles contaram muitas histórias e passaram bons bocados durante toda a tarde.

“Há nessa cidade algum lugar onde eu possa conseguir um cavalo e um carro para ser puxado por dois animais? Pois um eu já tenho, Famber o cavalo. Mas ele carrega todos os meus bens, e sem outro tão forte quanto Famber e um carro eu sou obrigado a caminhar.” disse Yan pouco antes de ir embora, quando o sol já estava se pondo e a lua tomava seu lugar no céu.

O taverneiro contou sobre dois estábulos que ficavam em cantos opostos da cidade, um no nordeste e outro no sudoeste, e recomendou que Yan visitasse o do nordeste. Ele disse que a menos que os cavalos tivessem fugido ou morrido durante o ataque daquela manhã, ele conseguiria lá animais grandes e graciosos, e também carros muito firmes e adequados para longas viagens.

Yan se despediu, e o taverneiro havia gostado tanto das suas histórias e da sua companhia que lhe presenteou com muitas bebidas engarrafadas, algumas com misturas que Yan não havia tido tempo de provar naquela tarde. Ele carregou as costas de Famber com os novos pertences e os dois seguiram para o estábulo no nordeste de Cidaces.

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A Quase-Criatura

Beeroi puxou as portas traseiras da van da Companhia Antipragas Intergalática, se colocou para fora e deu uma bela olhada nos céus daquela cidadezinha.

– Mas que diabos, Fischer? – Ele disse para o motorista. – Não tem dragão nenhum aqui.

– Pelo visto não tem mesmo, não. – Respondeu Fischer, colocando a cabeça pela janela.

– Planeta três do setor vinte e sete. Você parou no lugar certo?

– Sim.

– Subtrópico um, rua vinte e três, casa dois. É isso?

– É.

– Talvez você tenha se perdido de novo. – Beeroi guardou a arma nas costas, frustrado com a falta de dragões sobrevoando o local.

– Não, Beeroi, depois da última vez falei com meu médico e instalei um GPS. – Fischer indicou com o dedo o lóbulo da orelha esquerda. – Melhor ir perguntar ao morador. Paramos em frente a casa certa. Chamada alegando “praga de dragões”, é aqui.

– Fique aí, e deixe a van ligada. – Disse Beeroi, e caminhou para o portão da Casa Dois. – Esses idiotas, sempre nos fazendo perder tempo que poderíamos gastar lidando com dragões de verdade.

Fischer recolheu os propulsores da van, apertou o lóbulo esquerdo e sintonizou nas rádios do planeta para apreciar a música local.

*****

O chamado havia sido feito por um homem velho e pobre, notadamente pelos trapos que usava como roupa, peças que não eram mais produzidas pela Companhia  Intergalática de Tecelagem desde o fim do século XXIII.

– Ah, eles estão no meu porão, senhor.

– O que?! Isso é impossível!

– Não, eles estão lá mesmo, senhor.

– Eles são grandes demais pra caber no seu porão.

– Esses são bem pequenos, senhor.

– Eu trabalho na Divisão que cuida dos dragões desde que ela foi criada. Não existem dragões pequenos. E não precisa me chamar de senhor.

– Desculpe. Mas existem sim, senhor. No meu porão.

Desceram ao porão.

Da entrada, os olhos de Beeroi mapearam o local, surpresos com as criaturas que observavam.

– Eu te falei, senhor, dragões.

– Isso não são dragões, definitivamente. Não precisa mesmo me chamar de senhor.

– Bem, senhor, – O velho não podia evitar, aparentemente. – eu sei que são uns dragões bem esquisitos…

– Não são dragões! Tudo bem, eles tem asas de dragão, focinho de dragão e cauda de dragão. Mas quanto eles tem de altura? Cinco, sete centímetros? – Beeroi tentou puxar algo da memória por alguns segundos. – Até hoje só catalogamos dragões de uma espécie, e eles são bem grandes. Isso aí… Não sei o que são, mas não são dragões.

Haviam inúmeras das pequenas criaturas. Ocupavam todo o porão, e não moviam sequer um centímetro, como se estivessem paralisadas. Beeroi perguntou se os seres estavam mortos e o velho respondeu que não, porque haviam mais agora que antes. De alguma forma estavam se reproduzindo. Beeroi sacou das costas algo que parecia uma luneta, apontou-o para uma criatura e pulverizou-a imediatamente.

– Interessante… Seja lá o que forem essas coisas, consigo matá-las. – Apertou um botão no lado da arma e ela fez um rápido e crescente som agudo, num esforço para concentrar energia para um próximo tiro. – Fui enviado pela Companhia Antipragas Intergalática porque reportaram um surto de dragões. Não tem dragão nenhum aqui. Mas farei o favor de limpar o porão para você.

– Obrigado, senhor…

– Poderia ir lá fora e chamar meu motorista? – Beeroi podia apertar o lóbulo, mas era melhor tirar o velho do porão. – Peça para ele o equipamento de captura, vamos precisar levar um desses pra análise.

Beeroi abriu um sorriso e começou a matança enquanto assoviava uma cantiga qualquer e esperava por Fischer e o equipamento de captura.

*****

No laboratório que havia nos fundos de sua casa, Beeroi observava o comportamento da criatura no ambiente controlado, uma gaiola de vidro reforçado e cheia de furos minúsculos, ainda menores que o tal ser, para permitir a passagem de ar. O pequeno dragão, ou qualquer coisa que se parecia muito com um, ainda não havia movido um músculo.

Dragões eram a especialidade de Beeroi, e ele nunca havia visto nada assim. Era pequeno demais. Era como um… Quase que perfeitamente, mas não completamente. Tinha a pele escamada, tinha as duas protuberâncias na cabeça que pareciam chifres, e tinha o pescoço curvado em forma de S, exatamente como dragão. Mas não era um dragão. Era pequena demais.

Beeroi apertou o lóbulo da orelha esquerda e fez uma ligação.

– Estou começando a achar que isso é realmente um dragão, Fischer.

– Isso mudaria algumas definições, não?

– Mudaria, mas não tenho outras opções.

– Bem, e as comparações?

– Cem porcento. Fisiologicamente, os dados batem cem porcento em todos os aspectos testados. – Apertou o lóbulo e do outro lado da linha Fischer absorveu uma série de informações sobre dragões e a tal criatura que se parecia com um. – Confere você.

– Fascinante. Ele tem até a proporção entre o tamanho da cauda e o comprimento do pescoço.

– Tem. As esporas, as quinas das asas, a lingua bifurcada, tudo. Fischer, é espantosamente idêntico. – Beeroi deu com os ombros e continuou. – Não fosse o tamanho, biologicamente, quer dizer, em termos de fisionomia, não haveria dúvidas…

A criatura se apoiou nas patas traseiras e deu passos para frente, algo que Beeroi, em toda sua experiência, nunca havia visto dragão algum fazer. Seus olhos se apertaram, extremamente confusos.

– Entretanto, – ele prosseguiu, se aproximando e batendo com a mão contra o vidro. Mais nenhum movimento, a criatura estava paralisada novamente. – O comportamento é bastante curioso. Completamente esquisito.

– Ah.

– O comportamento é certamente de algo que não é um dragão.

– E como é?

– Acabei de o ver se mexer pela primeira vez, na verdade. Parado demais pra ser um dragão.

– Realmente intrigante, Beeroi. – Fischer parou pra pensar por alguns segundos. – E aí?

– Temo que vai morrer. Não comeu nem bebeu nada.

– Quê?

– Pedaços de ratos, maçãs, cobras, frangos, laranjas, coelhos. Leite, álcool, água. Não se interessou por nada, e não sei mais com o que testar. Nem uma mordida, lambida, cheirada, nada mesmo.

– Ah, que pena. A Companhia Antipragas Intergalática não tem uma divisão pra lidar com espécies desconhecidas? Repassa pra eles.

– Virou pessoal, Fischer. – Respondeu se jogando numa cadeira. – De qualquer forma, se for um dragão, é responsabilidade minha, se não for um dragão, é algo que se parece muito com um, e também é responsabilidade minha. – Suspirou. – Descobrirei. Amanhã a noite devo conseguir algo.

*****

De manhã, Fischer chegou com a van da Companhia Antipragas Intergalática à casa de Beeroi para começar o expediente.

– Deixei os computadores rodando umas análises. Quando voltarmos saberemos mais detalhes.

– Ah, não quer me deixar entrar e dar uma olhada?

– Claro. – Disse Beeroi.

Fischer desligou a Van.

Quando entraram, o quase dragão estava com uma coxa de galinha na boca.

– Caramba, Fischer, tá comendo!

– Não, só tá com a coxa encaixada na boca. Ainda tá inteira.

O quase-dragão cerrou o maxilar e cravou as presas na coxa de galinha. Penetraram a carne e certamente atravessariam se fossem maiores. A criatura começou a se transformar, e suas pequenas patas tornaram-se pequenas pernas, ao passo que seu pequeno focinho tornou-se um pequeno bico e seu pequeno par de chifres tornou-se uma pequena crista, já a pequena cauda deu lugar a pequenas penas.

O pequeno dragão passou por uma transformação completa, e agora lá estava uma pequena galinha. Quer dizer, era idêntica a uma galinha: tinha pescoço de galinha, peitoral musculoso de galinha, asas de galinha. Era quase uma galinha por completo. Mas não era uma galinha genuína, e não poderia ser. Era pequena demais.

– Ah.

– Ah…

*****

Beeroi e Fischer admiravam o pequeno cachorro na gaiola de vidro no laboratório. Se parecia com o cão que vivia no quintal de Beeroi: tinha as mesmas patas, os mesmos dentes, e até as mesmas manchas pretas no pelo majoritariamente branco. Apesar disso, não poderia ser um cachorro. Era pequeno demais.

– Pelo menos agora sabemos como funciona. É só levar à boca que…

– É, mas não faz o menor sentido. – Disse Beeroi andando pra lá e pra cá, apertando o lóbulo da orelha e fazendo mais pesquisas que gostaria. – Não acho nenhuma informação sobre nada do tipo em galáxia nenhuma. Não faz sentido mesmo.

– Não. Quer testar com algumas criaturas mais esquisitas?

Beeroi deu de ombros.

– Claro.

Entraram na van e foram buscar algumas criaturas mais esquisitas.

*****

A van estacionou e fez sua identificação na base do Planeta Um, do Setor Cento e Quatro, usado pela Companhia Antipragas Intergalática para armazenar exemplares das mais diversas criaturas que funcionários como Beeroi e Fischer coletavam.

– Vamos aproveitar pra dar uma olhada nos dragões? – Perguntou Fischer.

– Nah, aquele setor não é atualizado há séculos. – Respondeu Beeroi. – Da última vez que capturaram uma espécie nova eu nem… Eu nem… Ah, na verdade só capturaram uma espécie nova uma única vez, e foi quando ainda não havia nenhuma por aqui.

– Triste pra você, imagino.

Beeroi apertou a orelha.

– Dizem que o pessoal da Divisão Três descobre algo novo em cada chamada que atendem. Vamos ver o que eles têm colocado lá.

*****

A Divisão Três da Companhia Antipragas Intergalática realmente tinha sua parte no planeta-armazém lotada de criaturas esquisitas.

Eles eram responsáveis por atender aos chamados com criaturas não identificadas. Vez ou outra alguém ligava para a Companhia, e a conversa dava num ponto assim:

– Qual o problema, senhor? – Dizia a atendente da Companhia.

– Não sei. – Dizia o cliente.

E lá ia o pessoal da Divisão Três. Cuidavam de qualquer chamada em que o cliente não soubesse dizer com qual praga teriam que lidar. Quase sempre chegavam e davam de cara com algo tão comum e clichê em outro ponto da galáxia que se entediavam de ter que realizar o trabalho, mas se alguma Divisão realmente tinha chances de encontrar algo novo, era a Divisão Três. A divisão de Beeroi nunca encontrava algo novo.

*****

A galáxia era muito vasta, e Beeroi e Fischer comprovavam isso admirando as incontáveis criaturas nas gaiolas do pessoal da Divisão Três. O pequeno ser que haviam capturado numa chamada que alegava “praga de dragões” deveria estar ali, mas esperava no laboratório de Beeroi.

Aquelas não parecem com nada. Nojento. – Disse Fischer apontando pra uma gaiola à esquerda.

– Não, não parecem. Não parecem cachorros, pelo menos. Nojento de fato. – Respondeu Beeroi; os olhos admirados com a visão confusa.

– Elas não parecem enguias também, cara. Nem duendes. Nem bestas de hidrogênio. Nem águas-vivas.

– Nem gatos.

– Nem gatos-da-água, nem aqueles gatos-voadores que nos empurraram por engano no outro dia.

– Não. Olha aquelas… Patas?

– É. Elas parecem escorrer. Estão mais pra tentáculos, eu acho.

– Focinho esquisito. Vamos levar e testar no quase-dragão.

– Atualmente, quase-cachorro. Quase-seu-cachorro.

– É. Ainda estou frustrado por não ser um dragão.

Voltaram para a Van com um clone da criatura esquisita numa gaiola.

*****

Jogaram o ser bizarro na gaiola do quase-cachorro, que sequer se moveu quando a criatura contorceu seus tentáculos e se arrastou enquanto cheirava tudo. Quando se aproximou do quase-cachorro, foi abocanhada de repente: as presas afundaram e uma transformação aconteceu.

A criatura capturada por Beeroi agora era duplamente mais esquisita do que jamais fora: tinha tentáculos, um focinho desproporcional e saltado do corpo, duas cavidades no topo da cabeça e algo que parecia uma língua que ficava pra fora. Parecia muito ser da mesma espécie da criatura que pegaram do pessoal da Divisão Três, mas não era. Era muito pequena pra ser da mesma espécie.

E pequena o suficiente pra conseguir deslizar seu corpo flácido por entre os buracos para passagem de ar da gaiola. Pela segunda vez, demonstrou algum comportamento que não consistia em enfiar os dentes e se transformar na criatura mordida. Escapou da gaiola.

*****

O pequeno ser esquisito caiu no chão como uma fruta podre, e usou seus tentáculos para deslizar com uma agilidade surpreendente pelo laboratório.

Beeroi e Fischer cambalearam para trás, porque suas pernas foram pegas de surpresa e não sabiam se corriam até uma porta ou o quê. Tropeçaram aqui e ali, soltaram uns palavrões e olharam desesperados ao redor, procurando alguma arma.

Fischer caiu e bateu a cabeça de maneira completamente patética.

Beeroi havia deixado uma arma numa mesinha de canto, e logo que pôde raciocinar se pôs a caminhar até ela. Deu dois passos e no mesmo tempo a criatura escorreu pelo chão até suas pernas, em alta velocidade.

Beeroi chutou com toda a força que pôde.

A criatura cravou os dentes com toda a força que pôde.

E lá estava.

Agora tinha um par de pernas com joelhos flexionados, cabelos castanhos que cobriam a testa, polegar opositor e um nariz desproporcional. Parecia muito com Beeroi, um humano. Mas não era um humano, não podia ser.

Era pequena demais pra ser um humano.


Penso que esse texto foi indiretamente inspirado parte pelo Sandkings, do George R. R. Martin, parte pelo I Hate Dragons, do Brandon Sanderson. Dois textos de mais alto grau de sensacionalidade, recomendo ambos demais. :)

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Por um autógrafo

O Aeroporto Interplanetário De Terceira Ordem estava lotado com os aventureiros mais desprezíveis do sistema, todos  se dirigindo para realizar mais uma limpeza étnica que o Governo faria. Em algum canto do Aeroporto havia um garoto que preferia estar em casa, mas se encontrava sentado ao lado do pai, se incomodando com uma multidão de criaturas grotescas que só o incomodaria mais se não estivesse com um Catálogo de Criaturas Desprezíveis do Sistema (Edição Especial Pós-Rebelião-Prisional) em mãos, tentando encontrar lá algum bastardo que estivesse ao seu redor. Achou quase todos.

Seus olhos entediados arregalaram-se no momento em que repararam no impossível-de-não-se-reparar capacete dourado flutuando sobre a multidão: era de Blarg, o ídolo das crianças de todas as espécies, considerado um dos aventureiros mais admiráveis da galáxia porque conseguia fazer seu trabalho sem entrar pro Catálogo de Criaturas Desprezíveis do Sistema – e ainda assim ali estava ele, dividindo o saguão do aeroporto com todos os outros. O garoto não pôde senão se colocar de pé, usar uma mão pra segurar a própria cabeça no lugar e a outra pra apontar enquanto gritava:

– Aah! Ma…Mab lá la… É! Aque… Ta!

Estava tão afetado que as palavras não conseguiram sair da sua boca de uma forma que fizessem sentido; ao menos não para ele, porque esses murmúrios fizeram um aventureiro alienígena no banco ao lado se emocionar ao ouvir versos tão famosos em sua língua serem pronunciados por uma criança. O garoto deu quatro passos desesperados em direção ao famoso Blarg e seu capacete dourado, mas freou ao perceber que estava quatro passos mais próximos da multidão de criaturas desprezíveis.

Uma breve pane cerebral o fez dar uma bela olhada nas bestas que teria que enfrentar pra chegar a Blarg. Um grupo de Minhocas D’Água se arrastava pelo chão (que evidentemente não tinha água nenhuma) com um esforço fantástico que deixava pra trás uma gosma amarela suposta a desaparecer no habitat. Três Cachorróides cheiravam a gosma enquanto dois homúnculos felpudos comentavam o fato. Um androide empurrava um carrinho cheio de peças sucateadas, talvez pedaços dele mesmo. Uma imensa bola de gordura contava piadas para uma Moscazona entediada. Um grupo de homens-com-braços-extras brigavam num círculo. Nenhum deles estava injustamente no Catálogo de Criaturas Desprezíveis que o garoto trazia consigo, mas o capacete dourado de Blarg já estava desaparecendo no fim do corredor, onde dava uma sala de embarque. Era se enfiar na multidão ou perder a oportunidade.

Seus pés realmente não queriam caminhar por entre aquela escória, então a primeira coisa que trataram de fazer quando o garoto começou a correr foi de se prenderem na gosma das Minhocas D’Água. Pisou com tanta força que o plasma esverdeado se impregnou nas ranhuras das solas dos sapatos. Isso o obrigou a, logo de cara, enfrentar uma fétida catinga que pairava naquele ponto, talvez vinda da cozinha do Restaurante Atômico No. 1, que servia pratos para criaturas fotossintetizantes que nunca pediam nada além de criatividade e ousadia nas refeições que jamais comiam, ou talvez o cheiro viesse das próprias criaturas fotossintetizantes enfiadas no chão do lado de fora, limpando suas armas.

A travessia seria longa com os sapatos insistindo em grudarem no chão a cada passo, e o fedor estava insuportável. Tirou alguns segundos para acenar a mão num gesto particularmente ofensivo às criaturas fotossintetizantes, e foi o momento em que viu que Blarg estava para entrar na sala de embarque e soltou um grito com seu nome com toda força que pôde, mas o aventureiro não ouviu. Observando a luta do garoto, um dos homens-com-braços-extras se sentiu tocado e resolveu fazer algo: levantou o garoto e começou a carregá-lo até Blarg. O momento do toque foi tão desgostoso  e nojento que o garoto se encolheu sobre si mesmo e se perguntou se valeria a pena passar por isso. Pensou que sim, porque viu uma Moscazona chamando a atenção de Blarg para ele.

O garoto, suspenso por quatro dos braços extras que o homem possuía, olhava para Blarg enquanto este se virava para onde a Moscazona apontava com suas antenas. Houve uma mágica troca de olhares entre a criança e seu ídolo que fez seus olhos brilharem por reconhecerem a unicidade do momento. Impagavelmente, foi colocado no chão e ficou paralisado enquanto Blarg se aproximava.

Parado diante do aventureiro que tinha três ou quatro vezes seu tamanho, deixou o descrente queixo despencar. Blarg parou e tirou o capacete para que seus cabelos fossem chacoalhados pelo vento e eternizassem a memória do garoto, depois se ajoelhou e usou a mão esquerda para lhe acariciar o cabelo. Era a mão que usava para puxar algemas da cintura; a outra, naquele momento, serviu para deixar um autógrafo na camisa do pequeno fã.

Blarg e seu capacete dourado voltavam a entrar na sala de embarque enquanto o garoto esticava as barras da camisa para baixo com olhos esbugalhados de admiração. Era uma camisa de algum Time Interplanetário de Boliche Submarino, esporte que não praticava por não ser uma criatura submarina, e justamente por isso achava tão fascinante de assistir. Ia voltando para seu banco com um sorriso que ia de orelha a orelha, sinalizou um dedão levantado para o homem-com-braços-extras que o ajudara, e este respondeu com seis dedões – era um bom homem-com-braços-extras, os usava muito bem, afinal, não era tão desprezível quanto o catálogo representava.

A satisfação com o autógrafo era tamanha que passou pelo Restaurante Atômico sem sequer notar o cheiro que impregnava o ar, e não só desviou da gosma das Minhocas D’Água, como também fez carinho nos Cachorróides que fungavam aqui e ali. Com olhos alegres, se acomodou no banco e voltou a admirar o autógrafo na camisa. A multidão de criaturas desprezíveis parou por alguns segundos e voltou seus olhos ao garoto, cada qual refletindo a curiosa beleza que havia naquele ato ingenuo.