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O deus do novo mundo

Em verdade eu lhes digo, ó como os ventos foram fortes, os que me atravessaram pelas paredes de água! Que elas subiam e subiam, todas as sete delas por cima do mar; e eu vinha com meu barco; as madeiras de minha casa e as velas que me fizeram nas montanhas – e o vento vinha pois de um sopro que me dizia, “venha à minha terra, venha ao meu lar”. Essa é minha lenda; tal a boa vinda me fez o deus seu pai.

Se lhes digo, quão mais vivo é seu vívido! Das florestas aos animais. E eu que fui das cavernas aos mares e ao submundo, e cruzei as pontes que atravessam as colinas e os picos de neve; e eu que cavei o poço donde toda a vila bebia a água; eu que criei as ovelhas e nosso fiel cavalo, eu, tinha jamais visto assim das belezas. Eis o novo mundo, disse o deus com o vento, e eu ouvi quando o barco mexeu e senti o eco até chegar acá.

Lhes digo com toda sinceridade, pois a mim vieram os presentes por ter sido fiel servo do senhor em toda vida. Lhes garanto das promessas da palavra; lhes falo, ora: o novo mundo é este, e o velho não conhecereis. Existe ainda para lá das muralhas do mar, existe com todos os vãos e de alma impura, e de coração sórdido e de vícios muitos; existe para eles, que não podem ficar sem um lar, ainda que desprezem tudo que deus (seu pai) deu.

Digo, oh lhes digo que aqueles que mudarem, lhes digo que fora-lhes preservado todo o belo do livre, e todas as terras de todas as emoções para se caminhar. Pode alguém ir às montanhas? Pode, eu fui. Pode alguém conversar com os animais? Pode, eu pude. Pode alguém respirar o ar que limpa? Pode, eu o fiz. Pode, perguntareis, pode – pode alguém abraçar os seus queridos e seus inimigos até entendê-los? Pode, eu abracei meus inimigos e eu os entendi. Pode alguém saber do bem e do mal, e julgar o bem e o mal como tal, e fazer aquilo que quiser? Pode, eu quero o bem e julgo o bem e faço o bem.

Ao fim lhes digo, com a ênfase do assobio, olhais aos pássaros que rumam aos riachos, são estes que sabem das fontes limpas. Falais aos rios e às árvores, e ficais em silêncio até compreender a resposta. Receberás o convite para ir à casa do sábio das duas túnicas que vive ao pé de uma montanha; serás lá carregado pelas raposas que lhe mostrarão os caminhos das florestas e dos vales; e atravessarás desertos e pântanos antes de encontrar o sábio. E ele dirá, ó tu que vens acá, falais agora com deus naquela fogueira. Te aproximarás da fogueira e queimarás suas mãos nas brasas, mas falarás com o deus teu pai, e ele lhe mandará destruir sua casa e te dirás onde encontrar as velas. Subirás no barco e farás como eu: atravessarás, eu lhes digo como verdade, a cada um de vocês um a um, atravessarás tudo que sobe nas águas. As paredes donde não vês adiante, donde cai a água escura; se houver vento, e haverá pois eu lhes prometo, pois lhes promete também deus seu pai, atravessarás e virás também ao novo mundo, donde verás das coisas que nunca viu, e das quais o sábio das duas túnicas não lhes falará nunca. Beijarás o chão e chorarás sozinho por sete anos, pensarás morrer de fome mas virão os animais dar de beber dum côco verde; comerás ainda a massa do côco e viverás para contar esta história pelas raízes dos capins, e as raízes dos capins cruzarão os mundos e levarão tua fala lá para o velho mundo, e todos terão esperança ao ouvi-la.

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Senhor!

Quando eles chegaram ela já táva morta. Mais uma. Eu táva cansado. Não aguentava mais. Ficava olhando pra eles passando e pensava, “vai a Lúcia, vai a Dona Maria, vai o Sebastião, mas não vai eu.” Será que algum dia ia eu? Isso aí eu ficava pensando. Quase sozinho já. Eu e mais uns vinte só, debaixo daquela barraca velha. E do outro lado eles iam passando. Cheios de roupa bonita. Com umas pedras que eles deviam ter trazido lá do outro lado da muralha; que aqueles escravos tristes deviam ter trazido, porque eles mesmos não saem. E eu pensando, “será que algum dia vai eu?”

Não sei de onde eu tirava essas coisas, mas eu tinha esperança. Eles passavam e beijavam a testa de alguém; mas nunca a minha. E um pouco depois sumiam no fim da rua. Quando chegavam lá no final, desapareciam de repente. Saíam cheios de pressa, que nem se tivessem outra coisa pra fazer. Mas eu nunca ia. Eles nunca beijavam minha testa; nunca… ah! Ah! Você tá entendendo então porque eu fiz aquilo? Nunca! Nunca, os desgraçados… Nunca me deixavam ir com eles. Não teve outro jeito, não. Ou eu fazia alguma coisa, ou eu ia… porque… porque se fosse depender só deles, eu ia…

– Senhor!

Eu não quero falar disso, não!

Eu quero falar deles.

Desgraçados, eles eram isso daí. A injustiça já nascia nos chifres deles. E naqueles cinturões que eles usavam. Ah, tivesse eu nascido com aquelas coisas… ah, eu ia! Eu ia beijar a testa de todo mundo. Eu ia beijar a testa do Seu Geraldo, e do Mauro, e da Margarida, especialmente da Margarida. Eu ia beijar a Margarida primeiro, porque a coitada táva pior que eu. Ela táva que não aguentava mais. Eu ficava morrendo de pena dela, mas eu ia fazer o quê? A gente táva na mesma situação. Mas eu aguentava mais um pouquinho, ela não. Quando eu saí de lá ela já não aguentava mais nada. Se não beijaram a testa dela naquele dia, ela… ela! Ela…

– Senhor!

Ela, eu não sei não. Coitada da Margarida. Tudo culpa deles! Deles e de quem mandava neles! …mas, não é… mas aí é só coisa que me contaram… Por que é que eles não ficavam mais um pouquinho na rua? Eles passavam tão rápido. A rua era tão pequenininha. Na barraca de onde a gente ficava dava pra ver o começo e o final. A gente sempre via quando eles chegavam e quando eles sumiam. Todo mundo ficava feliz quando eles beijavam a testa de alguém. Aí depois a gente ficava cansado porque não tinha sido a gente. Era ambíguo assim…

– Senhor!

Cê me desculpa. Cê tinha me perguntado da sua mãe. Eu não sei não, meu garoto. Quando eles chegaram ela já táva morta…

Universo

Trabalhadores na expansão do Universo

Lá ia Deus com seus ajudantes; lá…, lá – mas lá! Lá longe. E ali embaixo ficáva eu e meus camarada. Pois aquele mal caráter ia voando e não mexia uma mão pra fazer o serviço, tu acredita? Quem fazia o trabalho pesado era a gente. Aqueles blocões de oxigênio? Nós. Os blocões de hidrogênio? Nós também. Eu, coitado, cás costas doendo de tanto carregar peso; olhando pra cima e pensando nessas bobagens. Virei pro Luís e falei assim: “Ô Luís.”

O Luís, aí tu pensa num rapaz lento. Não pensava em coisa nenhuma. Ele só ia fazendo. Só chegava em casa porque levavam ele; e quando deitava dormia de uma vez. Esse Luís aí. Ele olhou pra mim e gritou assim: “Vai trabalhar, seu bosta!”

Aí eu pensei “Luís, homem ignorante,” mas não falei nada que eu sou educado. Mas que o Luís era um baita de um ignorante, ele era. Ô homem burro. Bosta era ele, aquele animal. Mas tá bom. Voltei pro meu serviço; que eu voltei, eu voltei, mas eu fiquei o dia todo pensando naquilo. Fiquei remoendo o pouco-caso não fazendo serviço nenhum lá de cima e a gente fazendo o universo crescer no lugar dele. Cada quilômetro que a gente ia fazendo, ah aí minha raiva só ia aumentando. Como que pode? Não dá nem pra acreditar. Mas fiz meu serviço; quem não faria, não é? Lá longe! Aquele folgado. Nem olhava, mas com certeza táva vendo a gente trabalhando de algum outro jeito. Ninguém nunca tinha deixado de trabalhar por muito tempo, mas de certo que se alguém deixasse o cara descia lá de cima pra dar pito na gente. Eu fico indignado. Fiquei, não é.

Pois fiquei ruminando aquilo até ele mandar a gente ir embora. Nem foi ele que mandou, foi um ajudante que desceu lá de cima e mandou no lugar dele. Ah! Aí eu não me aguentei. Precisei colocar pra fora. Soltei um gritão desse jeito: “Ô Deus!” e não é que o desgracento teve a coragem de responder sem nem olhar pra mim? Ele falou bem alto, “Vai trabalhar, seu bosta!”