O Reino de Fogo

Implicações do Cinema de Fantasia

Texto originalmente escrito para a disciplina Cinema e Estética, referente ao quarto período do curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal Fluminense.

 

Eu quero propor uma questão: quando se conta uma história, o que é que ela efetivamente transmite? Talvez seja mais fácil executar essa reflexão se a pergunta for feita de maneira mais específica: quando a história é contada por palavras, por exemplo, o que é que as palavras fazem chegar na mente daquele que as recebem? Sob uma ótica aristotélica a resposta é evidente: são os atos. Da mesma forma que a música é uma arte capaz de representar os sons, e consequentemente de colocá-los em uma forma (a música em si) de tal maneira que os ouvintes possam contemplá-la e através dela possam transferir os sons do campo mundano para o campo da consciência e dos conhecimentos que a consciência possui; da mesma forma que a música faz isso, também o faz as histórias com os atos. Através do contato com uma história o indivíduo passa a conhecer os atos nela representados.

Isso, entretanto, supõe a existência dos atos – uma vez que não se pode representar qualquer coisa inexistente. Qualquer história que represente uma pessoa se levantando de um sofá, que seja, está afirmando tanto a existência da pessoa, quanto do sofá, quanto da própria possibilidade de que a dita pessoa execute a ação de se levantar do dito sofá. Uma falha na existência de qualquer dessas categorias caracterizaria as ações como impossíveis, e por consequência a história como inexistente, o que é incompatível com a ótima representacionalista que proponho. Mas esse exemplo é banal. É muito fácil identificar a possibilidade da atualização de um ato como se levantar de um sofá, e de fato nenhum conhecimento de cunho acadêmico ou cientificista precisa ser evocado para justificar a veracidade de uma história que conte algo assim. O que não se sabe a princípio é até onde vai a capacidade humana de definir quais atos são ou não passíveis de representação; o problema, evidentemente, é que todos os atos podem ser imaginados (poderia se imaginar, por exemplo, um sofá sentado em uma pessoa e se levantando dela), mas nem todos os atos imaginados podem ser atualizados.

Esses questionamentos são feitos posteriormente à existência da história. Para nós histórias são contadas, e por ela afirmações sobre a existência disso ou daquilo são feitas; a nós cabe examinar a natureza dos atos representados e compará-los com nosso conhecimento da realidade, mesmo por meio da ciência. Disso decorrem dois problemas: o de lidar com os atos cuja possibilidade de atualização no mundo em que vivemos é desconhecida por nós, e os que são sabidamente impossíveis de serem atualizados por conta da física do próprio cosmos. Como exemplo do primeiro pode-se imaginar a representação de uma pessoa atravessando um buraco de minhoca e por conta disso viajando no tempo, pois nós não temos conhecimentos suficientes para verificar a veracidade da possibilidade de viajar do tempo como resultante do ato de atravessar um buraco de minhoca. Como exemplo do segundo, pode-se imaginar uma pessoa saltando de um avião e planando no ar ao invés de sendo empurrada para o chão pela força gravitacional exercida pelo planeta.

A própria representação de algum desses atos feita por uma dada história é em si mesma a afirmação da sua possibilidade de existência, sendo o primeiro caso uma afirmação desconhecida e no outro uma mentira, ou ao menos assim eles se apresentam na análise mais simplista. É possível analisar a veracidade da afirmação levando em conta mais do que a própria representação. A natureza dos atos sugere isso. Considere, por exemplo, a relação de causalidade e o determinismo. Nessa ótica os atos são apenas aqueles que poderiam ser, isto é, o ato de uma bola depois de chutada rolar por dois metros, e não por dois metros e dez centímetros, e não por sete metros, só poderia ser mesmo o ato de rolar por dois metros, pois a única resultante possível de uma força de valor x exercida sobre um corpo de dimensões y e peso z é que ele execute aquele movimento específico. Inclusive nosso conhecimento científico é tal que nós podemos prever muitos dos atos antes deles acontecerem, justamente pela certeza de que, dadas as condições tais e tais, eles não poderiam ser de outra forma. A partir do momento em que se identifica na organização do universo qualquer tipo de padrão organizacional, torna-se possível fazer uso do conhecimento adequado para determinar o seu estado em um momento posterior; sabe-se da força do chute, sabe-se da distância rolada pela bola.

Levando em conta esse fator de causalidade, a primeira pergunta para se analisar a veracidade de um ato representado é: ele é apenas aquele que poderia ser? Quando uma pessoa salta de um avião e flutua pelo ar ao invés de ser puxada ao chão, essa é a única coisa que poderia acontecer por decorrência dos atos anteriores? Se sim, a afirmação da veracidade ganha corroboração, e de fato as histórias que se caracterizam pelos atos assim podem ser agrupadas em uma categoria ampla chamada Fantasia.

“Pois Fantasia criativa é fundamentada no duro reconhecimento de que as coisas no mundo são como parecem ser debaixo do sol; um reconhecimento dos fatos, mas não uma escravidão a eles. Então sobre lógica foi fundamentado a falta de sentido que se mostra nos contos e versos de Lewis Carrol. Se homens realmente não pudessem diferenciar entre sapos e homens, contos de fadas sobre reis-sapos não teriam surgido.”¹ (TOLKIEN, 1964, p. 56.)

A caracterização da Fantasia como “um reconhecimento dos fatos, mas não uma escravidão a eles” dada por Tolkien simplifica o ponto levantado: para que uma história de Fantasia seja considerada em primeiro lugar uma história ela precisa representar atos possíveis, e para que ela seja considerada uma Fantasia ela precisa representar atos impossíveis no mundo em que nós, os apreciadores das histórias, existimos. Logo, ao reconhecer a impossibilidade, digamos, da existência de fadas e duendes, as histórias de Fantasia corajosamente afirmam a sua existência junto com a de um plano existencial no qual tais criaturas podem existir. É preciso pois endereçar como as diferentes ferramentas próprias a cada forma de arte são utilizadas para propor a veracidade do plano existencial no qual se dá a história de Fantasia de uma maneira convincente.

Representar um mundo propriamente dito, em sua totalidade e complexidade, em seus níveis mais macroscópicos e da mesma forma em seus níveis mais microscópicos, é um tanto impraticável para as histórias de Fantasia e de fato seria demasiado sublime para a compreensão humana, e consequentemente inútil para fins de convencimento. O que se pode fazer é representar fragmentos. Mas, como dito pela raposa ao principezinho, “só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos.” (SAINT-EXUPÈRY, 1981, p. 72). Isto é, quando olhos humanos caem sobre fragmentos de um mundo, não são os fragmentos em si que se juntam e formam uma totalidade; ao invés, é a consciência que o faz. Isso se torna mais visível na literatura, como bem explica Tolkien:

“Se uma história conta ‘ele subiu o monte e viu um rio no vale abaixo’, o ilustrador pode capturar, ou quase capturar, a sua própria visão de tal cena; mas cada ouvinte de tais palavras irá ter a sua própria imagem, e ela será feita de todos os montes e de todos os rios e vales que ele já viu, mas especialmente d’O Monte, d’O rio, d’O Vale, que foi para ele o primeiro encorpamento da palavra.”³ (TOLKIEN, 1964, p. 76.)

Há na literatura portanto a possibilidade de mostrar apenas os pontos essenciais, os próprios alicerces que sustentam as bases mais fundamentais do mundo da história; a natureza humana trata de não só ligar os pontos como de também preencher as linhas com os caminhos mais lógicos e coerentes possíveis, de maneira a guiar um processo de autoconvencimento em relação à veracidade da história. O Cinema por outro lado enfrenta o problema de ter que mostrar também as linhas que ligam os pontos. Apontar a câmera de forma alguma inibe a ação da imaginação do homem, mas restringe-a apenas às partes que são invisíveis aos olhos. Cabe ao contador da história, o diretor que seja, utilizar as técnicas disponíveis de tal maneira a mostrar um mundo que seja convincente ao espectador.

Poderia-se falar dos dragões em O Reino de Fogo ou O Dragão e o Feiticeiro, por exemplo. Quando a câmera os captura por completo e de modo claro, a audiência já está suposta a acreditar neles há muito tempo. Nas primeiras aparições nos filmes os dragões mal são visíveis: são mostrados escondidos nas sombras, ou a câmera foca apenas em uma garra, ao apenas no fogo cortando os ares, ou apenas se ouve o som das asas batendo enquanto a audiência vê os personagens olhando para os céus. Trata-se do terceiro significado também famosamente definido pelo Efeito Kuleshov: diante da dificuldade de apontar a câmera para um dragão no campo em que ele próprio existia, o diretor apontou a câmera para uma pessoa olhando para os céus, e essa imagem junto com um som específico causa na imaginação da audiência a representação mais lógica e coerente possível de um dragão.

É importante notar que não se trata de um ato sugestivo. A ação das pessoas olharem para cima, e a ação do som emanar são ambas decorrências necessárias da própria existência do dragão, bem como o são os atos seguintes executados pelos personagens. Pode-se dizer que a própria história trata como verdadeiros os elementos fantasiosos por ela sugeridos, e isso é fundamental para que se possa separar as fantasias verdadeiras, ou seja, as que de fato propõem um campo existencial no qual seus elementos podem se dar, das fantasias que são apenas produtos da imaginação e dos enganos dos sentidos; nesse segundo caso pode-se falar de Alice no País das Maravilhas, que tem em sua cena final a protagonista Alice acordando de um sonho – aí a história trata a si mesma como mentira, aí a história conta que um gato que flutua e desaparece é de fato algo que não existe no mundo real, mas fica por isso mesmo. É um reconhecimento dos fatos, e uma escravidão a eles.

O caso de Indomável Sonhadora é curioso por ir contra essa corrente. Quase todos os atos representados no filme poderiam ser representações do mundo-real. Há apenas no fim uma pequena aparição de criaturas fantásticas, mas é tão ínfima que ela afeta muito pouco a caracterização da história como sendo Fantasia ou não. Mesmo desconsiderando essa tal criatura e sua aparição ínfima, ainda fica claro para a audiência que todos os acontecimentos se dão em um plano por completo diferente. Ainda que o céu da história seja como o céu conhecido pela audiência, e ainda que as águas sejam as mesmas, e que as pessoas tenham os mesmos rostos e as mesmas capacidades, ainda assim fica claro que o mundo representado na história não é o mundo da audiência. Aqui nós devemos voltar para a examinação dos atos não como unidades individuais mas como uma sequência causal. Os atos individualmente podem ser vistos como representação do real, de fato, mas como sequência causal eles não podem ser senão fantasiosos. As águas sobre as quais a protagonista navega com sua família não são apenas as águas de um rio, mas as águas que inundaram todo o planeta. A grande barragem não é apenas uma forma de se bloquear a água, mas uma forma de se manter as pessoas marginalizadas afastadas. A casa flutuante é o único meio que as pessoas marginalizadas daquele mundo têm para sobreviver longe da sociedade cercada pela barragem. Como se vê, há a proposição de uma outra realidade onde objetos familiares à audiência desempenham funções significativas. É a afirmação mais ampla de que a história se passa em outro mundo que faz os atos ordinários serem ressignificados.

Nessa ótica o contador de histórias cinematográficas é um trazedor de verdades por nós desconhecidas através das técnicas empregadas nos filmes. O produto final do seu empenho é uma peça de representação, isto é, uma peça através da qual a percepção humana pode captar outra coisa que não a própria peça. Quando se fala de Histórias de Fantasia ou de Cinema de Fantasia, se fala então da representação de atos que se dão em outra realidade; nós poderíamos inclusive classificar essa outra realidade e analisar a sua natureza em cada um dos casos propostos, e de fato muitos teóricos fizeram isso, mas de maneira superficial é suficiente dizer que suas configurações podem ser tão diferentes que ela própria se apresenta como esquisita e chocante para a audiência, ou ela pode ser tão parecida que não fossem os elementos fantasiosos a diferença sequer seria notada. Em ambos os casos, de qualquer maneira, há a proposição.

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A Quase-Criatura

Beeroi puxou as portas traseiras da van da Companhia Antipragas Intergalática, se colocou para fora e deu uma bela olhada nos céus daquela cidadezinha.

– Mas que diabos, Fischer? – Ele disse para o motorista. – Não tem dragão nenhum aqui.

– Pelo visto não tem mesmo, não. – Respondeu Fischer, colocando a cabeça pela janela.

– Planeta três do setor vinte e sete. Você parou no lugar certo?

– Sim.

– Subtrópico um, rua vinte e três, casa dois. É isso?

– É.

– Talvez você tenha se perdido de novo. – Beeroi guardou a arma nas costas, frustrado com a falta de dragões sobrevoando o local.

– Não, Beeroi, depois da última vez falei com meu médico e instalei um GPS. – Fischer indicou com o dedo o lóbulo da orelha esquerda. – Melhor ir perguntar ao morador. Paramos em frente a casa certa. Chamada alegando “praga de dragões”, é aqui.

– Fique aí, e deixe a van ligada. – Disse Beeroi, e caminhou para o portão da Casa Dois. – Esses idiotas, sempre nos fazendo perder tempo que poderíamos gastar lidando com dragões de verdade.

Fischer recolheu os propulsores da van, apertou o lóbulo esquerdo e sintonizou nas rádios do planeta para apreciar a música local.

*****

O chamado havia sido feito por um homem velho e pobre, notadamente pelos trapos que usava como roupa, peças que não eram mais produzidas pela Companhia  Intergalática de Tecelagem desde o fim do século XXIII.

– Ah, eles estão no meu porão, senhor.

– O que?! Isso é impossível!

– Não, eles estão lá mesmo, senhor.

– Eles são grandes demais pra caber no seu porão.

– Esses são bem pequenos, senhor.

– Eu trabalho na Divisão que cuida dos dragões desde que ela foi criada. Não existem dragões pequenos. E não precisa me chamar de senhor.

– Desculpe. Mas existem sim, senhor. No meu porão.

Desceram ao porão.

Da entrada, os olhos de Beeroi mapearam o local, surpresos com as criaturas que observavam.

– Eu te falei, senhor, dragões.

– Isso não são dragões, definitivamente. Não precisa mesmo me chamar de senhor.

– Bem, senhor, – O velho não podia evitar, aparentemente. – eu sei que são uns dragões bem esquisitos…

– Não são dragões! Tudo bem, eles tem asas de dragão, focinho de dragão e cauda de dragão. Mas quanto eles tem de altura? Cinco, sete centímetros? – Beeroi tentou puxar algo da memória por alguns segundos. – Até hoje só catalogamos dragões de uma espécie, e eles são bem grandes. Isso aí… Não sei o que são, mas não são dragões.

Haviam inúmeras das pequenas criaturas. Ocupavam todo o porão, e não moviam sequer um centímetro, como se estivessem paralisadas. Beeroi perguntou se os seres estavam mortos e o velho respondeu que não, porque haviam mais agora que antes. De alguma forma estavam se reproduzindo. Beeroi sacou das costas algo que parecia uma luneta, apontou-o para uma criatura e pulverizou-a imediatamente.

– Interessante… Seja lá o que forem essas coisas, consigo matá-las. – Apertou um botão no lado da arma e ela fez um rápido e crescente som agudo, num esforço para concentrar energia para um próximo tiro. – Fui enviado pela Companhia Antipragas Intergalática porque reportaram um surto de dragões. Não tem dragão nenhum aqui. Mas farei o favor de limpar o porão para você.

– Obrigado, senhor…

– Poderia ir lá fora e chamar meu motorista? – Beeroi podia apertar o lóbulo, mas era melhor tirar o velho do porão. – Peça para ele o equipamento de captura, vamos precisar levar um desses pra análise.

Beeroi abriu um sorriso e começou a matança enquanto assoviava uma cantiga qualquer e esperava por Fischer e o equipamento de captura.

*****

No laboratório que havia nos fundos de sua casa, Beeroi observava o comportamento da criatura no ambiente controlado, uma gaiola de vidro reforçado e cheia de furos minúsculos, ainda menores que o tal ser, para permitir a passagem de ar. O pequeno dragão, ou qualquer coisa que se parecia muito com um, ainda não havia movido um músculo.

Dragões eram a especialidade de Beeroi, e ele nunca havia visto nada assim. Era pequeno demais. Era como um… Quase que perfeitamente, mas não completamente. Tinha a pele escamada, tinha as duas protuberâncias na cabeça que pareciam chifres, e tinha o pescoço curvado em forma de S, exatamente como dragão. Mas não era um dragão. Era pequena demais.

Beeroi apertou o lóbulo da orelha esquerda e fez uma ligação.

– Estou começando a achar que isso é realmente um dragão, Fischer.

– Isso mudaria algumas definições, não?

– Mudaria, mas não tenho outras opções.

– Bem, e as comparações?

– Cem porcento. Fisiologicamente, os dados batem cem porcento em todos os aspectos testados. – Apertou o lóbulo e do outro lado da linha Fischer absorveu uma série de informações sobre dragões e a tal criatura que se parecia com um. – Confere você.

– Fascinante. Ele tem até a proporção entre o tamanho da cauda e o comprimento do pescoço.

– Tem. As esporas, as quinas das asas, a lingua bifurcada, tudo. Fischer, é espantosamente idêntico. – Beeroi deu com os ombros e continuou. – Não fosse o tamanho, biologicamente, quer dizer, em termos de fisionomia, não haveria dúvidas…

A criatura se apoiou nas patas traseiras e deu passos para frente, algo que Beeroi, em toda sua experiência, nunca havia visto dragão algum fazer. Seus olhos se apertaram, extremamente confusos.

– Entretanto, – ele prosseguiu, se aproximando e batendo com a mão contra o vidro. Mais nenhum movimento, a criatura estava paralisada novamente. – O comportamento é bastante curioso. Completamente esquisito.

– Ah.

– O comportamento é certamente de algo que não é um dragão.

– E como é?

– Acabei de o ver se mexer pela primeira vez, na verdade. Parado demais pra ser um dragão.

– Realmente intrigante, Beeroi. – Fischer parou pra pensar por alguns segundos. – E aí?

– Temo que vai morrer. Não comeu nem bebeu nada.

– Quê?

– Pedaços de ratos, maçãs, cobras, frangos, laranjas, coelhos. Leite, álcool, água. Não se interessou por nada, e não sei mais com o que testar. Nem uma mordida, lambida, cheirada, nada mesmo.

– Ah, que pena. A Companhia Antipragas Intergalática não tem uma divisão pra lidar com espécies desconhecidas? Repassa pra eles.

– Virou pessoal, Fischer. – Respondeu se jogando numa cadeira. – De qualquer forma, se for um dragão, é responsabilidade minha, se não for um dragão, é algo que se parece muito com um, e também é responsabilidade minha. – Suspirou. – Descobrirei. Amanhã a noite devo conseguir algo.

*****

De manhã, Fischer chegou com a van da Companhia Antipragas Intergalática à casa de Beeroi para começar o expediente.

– Deixei os computadores rodando umas análises. Quando voltarmos saberemos mais detalhes.

– Ah, não quer me deixar entrar e dar uma olhada?

– Claro. – Disse Beeroi.

Fischer desligou a Van.

Quando entraram, o quase dragão estava com uma coxa de galinha na boca.

– Caramba, Fischer, tá comendo!

– Não, só tá com a coxa encaixada na boca. Ainda tá inteira.

O quase-dragão cerrou o maxilar e cravou as presas na coxa de galinha. Penetraram a carne e certamente atravessariam se fossem maiores. A criatura começou a se transformar, e suas pequenas patas tornaram-se pequenas pernas, ao passo que seu pequeno focinho tornou-se um pequeno bico e seu pequeno par de chifres tornou-se uma pequena crista, já a pequena cauda deu lugar a pequenas penas.

O pequeno dragão passou por uma transformação completa, e agora lá estava uma pequena galinha. Quer dizer, era idêntica a uma galinha: tinha pescoço de galinha, peitoral musculoso de galinha, asas de galinha. Era quase uma galinha por completo. Mas não era uma galinha genuína, e não poderia ser. Era pequena demais.

– Ah.

– Ah…

*****

Beeroi e Fischer admiravam o pequeno cachorro na gaiola de vidro no laboratório. Se parecia com o cão que vivia no quintal de Beeroi: tinha as mesmas patas, os mesmos dentes, e até as mesmas manchas pretas no pelo majoritariamente branco. Apesar disso, não poderia ser um cachorro. Era pequeno demais.

– Pelo menos agora sabemos como funciona. É só levar à boca que…

– É, mas não faz o menor sentido. – Disse Beeroi andando pra lá e pra cá, apertando o lóbulo da orelha e fazendo mais pesquisas que gostaria. – Não acho nenhuma informação sobre nada do tipo em galáxia nenhuma. Não faz sentido mesmo.

– Não. Quer testar com algumas criaturas mais esquisitas?

Beeroi deu de ombros.

– Claro.

Entraram na van e foram buscar algumas criaturas mais esquisitas.

*****

A van estacionou e fez sua identificação na base do Planeta Um, do Setor Cento e Quatro, usado pela Companhia Antipragas Intergalática para armazenar exemplares das mais diversas criaturas que funcionários como Beeroi e Fischer coletavam.

– Vamos aproveitar pra dar uma olhada nos dragões? – Perguntou Fischer.

– Nah, aquele setor não é atualizado há séculos. – Respondeu Beeroi. – Da última vez que capturaram uma espécie nova eu nem… Eu nem… Ah, na verdade só capturaram uma espécie nova uma única vez, e foi quando ainda não havia nenhuma por aqui.

– Triste pra você, imagino.

Beeroi apertou a orelha.

– Dizem que o pessoal da Divisão Três descobre algo novo em cada chamada que atendem. Vamos ver o que eles têm colocado lá.

*****

A Divisão Três da Companhia Antipragas Intergalática realmente tinha sua parte no planeta-armazém lotada de criaturas esquisitas.

Eles eram responsáveis por atender aos chamados com criaturas não identificadas. Vez ou outra alguém ligava para a Companhia, e a conversa dava num ponto assim:

– Qual o problema, senhor? – Dizia a atendente da Companhia.

– Não sei. – Dizia o cliente.

E lá ia o pessoal da Divisão Três. Cuidavam de qualquer chamada em que o cliente não soubesse dizer com qual praga teriam que lidar. Quase sempre chegavam e davam de cara com algo tão comum e clichê em outro ponto da galáxia que se entediavam de ter que realizar o trabalho, mas se alguma Divisão realmente tinha chances de encontrar algo novo, era a Divisão Três. A divisão de Beeroi nunca encontrava algo novo.

*****

A galáxia era muito vasta, e Beeroi e Fischer comprovavam isso admirando as incontáveis criaturas nas gaiolas do pessoal da Divisão Três. O pequeno ser que haviam capturado numa chamada que alegava “praga de dragões” deveria estar ali, mas esperava no laboratório de Beeroi.

Aquelas não parecem com nada. Nojento. – Disse Fischer apontando pra uma gaiola à esquerda.

– Não, não parecem. Não parecem cachorros, pelo menos. Nojento de fato. – Respondeu Beeroi; os olhos admirados com a visão confusa.

– Elas não parecem enguias também, cara. Nem duendes. Nem bestas de hidrogênio. Nem águas-vivas.

– Nem gatos.

– Nem gatos-da-água, nem aqueles gatos-voadores que nos empurraram por engano no outro dia.

– Não. Olha aquelas… Patas?

– É. Elas parecem escorrer. Estão mais pra tentáculos, eu acho.

– Focinho esquisito. Vamos levar e testar no quase-dragão.

– Atualmente, quase-cachorro. Quase-seu-cachorro.

– É. Ainda estou frustrado por não ser um dragão.

Voltaram para a Van com um clone da criatura esquisita numa gaiola.

*****

Jogaram o ser bizarro na gaiola do quase-cachorro, que sequer se moveu quando a criatura contorceu seus tentáculos e se arrastou enquanto cheirava tudo. Quando se aproximou do quase-cachorro, foi abocanhada de repente: as presas afundaram e uma transformação aconteceu.

A criatura capturada por Beeroi agora era duplamente mais esquisita do que jamais fora: tinha tentáculos, um focinho desproporcional e saltado do corpo, duas cavidades no topo da cabeça e algo que parecia uma língua que ficava pra fora. Parecia muito ser da mesma espécie da criatura que pegaram do pessoal da Divisão Três, mas não era. Era muito pequena pra ser da mesma espécie.

E pequena o suficiente pra conseguir deslizar seu corpo flácido por entre os buracos para passagem de ar da gaiola. Pela segunda vez, demonstrou algum comportamento que não consistia em enfiar os dentes e se transformar na criatura mordida. Escapou da gaiola.

*****

O pequeno ser esquisito caiu no chão como uma fruta podre, e usou seus tentáculos para deslizar com uma agilidade surpreendente pelo laboratório.

Beeroi e Fischer cambalearam para trás, porque suas pernas foram pegas de surpresa e não sabiam se corriam até uma porta ou o quê. Tropeçaram aqui e ali, soltaram uns palavrões e olharam desesperados ao redor, procurando alguma arma.

Fischer caiu e bateu a cabeça de maneira completamente patética.

Beeroi havia deixado uma arma numa mesinha de canto, e logo que pôde raciocinar se pôs a caminhar até ela. Deu dois passos e no mesmo tempo a criatura escorreu pelo chão até suas pernas, em alta velocidade.

Beeroi chutou com toda a força que pôde.

A criatura cravou os dentes com toda a força que pôde.

E lá estava.

Agora tinha um par de pernas com joelhos flexionados, cabelos castanhos que cobriam a testa, polegar opositor e um nariz desproporcional. Parecia muito com Beeroi, um humano. Mas não era um humano, não podia ser.

Era pequena demais pra ser um humano.


Penso que esse texto foi indiretamente inspirado parte pelo Sandkings, do George R. R. Martin, parte pelo I Hate Dragons, do Brandon Sanderson. Dois textos de mais alto grau de sensacionalidade, recomendo ambos demais. :)