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Narração em O Fabuloso Destino de Amélie Poulain

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Link para o roteiro do vídeo.

Alguma pessoa importante que eu realmente não me lembro quem disse que um artista passa a vida inteira tentando pintar a mesma árvore. Cá estou eu a postar o primeiríssimo vídeo do canal, que data de entre 2016 e 2017, agora refeito. Malgrado minha opinião ter mudado de lá pra cá, tentei preservar o máximo possível do roteiro original. :)

1. Sobre o conceito de narrador: referências e recomendações
O conceito de narrador provém da teoria da literatura (ver http://bit.ly/2DaqKtA “O ato de narrar e as teorias do ponto de vista”, de Gilda Neves da Silva Bittencourt) e da contação oral (ver http://bit.ly/2RNnpUu “O Narrador”, de Walter Benjamin), e não é muito comum aplicá-lo ao cinema. A culpa é de Aristóteles, que há uns dois mil e tantos anos separou as artes narrativas das artes dramáticas – e dos teóricos de cinema que dão valor a essa separação e identificam o cinema como arte dramática (ver http://bit.ly/2DgLSxy “David Bordwell: sobre a narrativa cinematográfica”, de Francisco das C. F. Santiago Júnior). Apesar disso, desde os anos 1970 vem estabelecendo-se a Narratologia, campo de estudo que teoriza as narrativas propriamente ditas. De lá pra cá, vários autores inseriram o texto cinematográfico, vulgo “filme”, como portador de narratividade, isto é, como sendo alguma coisa possuidora de história, narração, narrador, e outras coisitas a mais (ver http://bit.ly/2PVsrRG “A problemática do narrador: da literatura ao cinema”,de Luís Miguel Cardoso – tenho muitas discordâncias com as interpretações desse autor, mas como introdutório é bom). A narratologista Mieke Bal, citada no vídeo em 06:14, formula uma teoria de narrativa e a aplica ao cinema e outras artes visuais (ver http://bit.ly/2OEYX5N “Narratology: Introduction to the Theory of Narrative”, da Mieke Bal). Arlindo Machado e David Bordwell pensam o conceito de narrador no cinema e a partir do cinema, sem a universalização característica do estruturalismo narratológico. Abri mão de explicar tudo isso no vídeo e de manter um viés mais fenomenológico, de falar mais da experiência, da relação entre aquele que vê e o objeto visto. De forma geral, o que interessa ao pensar o narrador de um texto é a questão “quem fala?”, cuja resposta, novamente, de forma geral, se resume a catar resquícios dessa figura a partir dos signos/significantes dispostos pelo texto (filme, no Cinema).

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2. Sobre câmera subjetiva e focalização
O debate sobre do conceito de focalização no Cinema é uma bagunça danada. Quando eu digo que tudo é visto pelos olhos da Amélie, estou dando uma barateada tremenda: ver pelos olhos de alguém seria o caso da chamada “câmera subjetiva”, que é quando a câmera mostra exatamente o que o personagem vê. Focalização não trata bem disso. Não é bem sobre mostrar o que a personagem EM TAL LUGAR vê – é sobre mostrar o que A PERSONAGEM em tal lugar vê. O que interessa é QUEM vê, não de ONDE se vê. E mais: a Amélie enquanto focalizadora não se confunde com a Amélie enquanto personagem. São instâncias diferentes. As duas são separadas temporalmente. Assim como, por exemplo, o personagem que diz “eu fui ao mercado” não é o mesmo que foi de fato ao mercado: um está no passado, outro no presente. A minha concepção de focalização no Cinema, a que espero conseguir defender com sucesso ao fim do meu TCC (que, tcharã, tem como tema o narrador cinematográfico), é a de que quem vê é, em última instância, sempre o narrador – que, por sua vez, é uma figura que sempre se refere aos eventos da narrativa como estando estes no passado. O narrador conta os eventos, e o narrador vê. Mas o narrador assume um conjunto de limitações: ele só conta determinadas coisas e ele só vê determinadas coisas. Estas limitações eu chamo de focalização. Assim, o narrador, figura do futuro e omnisciente, escolhe um ponto de vista, um “focalizador”, e atribui-se a si mesmo algumas regras, como “eu só vou ouvir o que essa personagem vê”, “eu vou ver tudo como essa personagem vê”, etc. Por último, cabe notar algo que a já citada Mieke Bal destaca bem: é virtualmente impossível que um texto mantenha ao seu longo uma única focalização. Naturalmente, mesmo aqui em O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, há sempre cenas, momentos, trechos, planos, sons, etc, que são focalizados a partir de outros pontos que não a própria Amélie.

requiem

A Estrutura Narrativa de Réquiem Para um Sonho: Análise segundo Gustav Freytag e Aristóteles

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1. Referências e recomendações
Sobre Aristóteles
– (pt) http://bit.ly/2Czf4je “A Poética de Aristóteles sob a abordagem de Lígia Militz da Costa”, artigo da Maria Cláudia Araujo
– (pt) http://bit.ly/2Pcjtzk “Poética”, de Aristóteles, em tradução de Ana Maria Valente

Sobre a Pirâmide de Freytag:
(en) Livro “Freytag’s Technique of the Drama” numa tradução antiquíssima pro inglês
(en) Capítulo do livro supracitado em que o próprio Freytag descreve a Pirâmide

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2. Autovergonha
Por volta de 15:15 eu pronuncio “queinote” [keynote] ao invés de “quinote”. Peço desculpas ao mundo. Daria um trabalho infernal regravar aquilo. :P

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3. Sobre aplicabilidade dos conceitos aristotélicos
Quando cito a Poética de Aristóteles, digo que ele formulou uma teoria partindo da Tragédia, mas que alguns conceitos eram universais. Depois, noutro momento, faço uma crítica passageira aos analistas que aplicam teorias concebidas para um tipo de história em outro tipo de história, e às próprias pessoas que conceberam essas teorias com esse referencial teórico. Só para esclarecer que não são posições contraditórias: o próprio Aristóteles, antecipando o enraizado estruturalismo da Narratologia, propõe que, partindo da Tragédia, chegou a leis universais. Ele diz: “No que respeita às partes constitutivas, umas são comuns, outras são específicas da tragédia; por isso, quem distingue uma boa de uma má tragédia sabe também fazê-lo nas epopeias. Os elementos que a epopeia contém encontram-se todos na tragédia, mas os elementos da tragédia não figuram todos na epopeia.” A tragédia seria, portanto, uma espécie de paradigma superior que carregaria toda a potência das artes narrativas. Falar de comédia, de epopéia etc, em termos aristotélicos, acontece à medida em que estas artes constituem manifestações em menor escala de tudo que uma Tragédia contém. De minha parte, acho a posição estruturalista sem fundamentos e me abstenho de identificar estruturas universais.

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4. Sobre peripécia e ponto de virada
No vídeo eu apresentei os dois conceitos sob o mesmo status, “o momento em que o rumo da narrativa muda”, mas, na verdade, Aristóteles é um pouco mais específico do que isso. Ele diz que o rumo da história pode mudar por duas razões: por “peripécia”, ou por “reconhecimento”. Uma peripécia seria um evento inesperado – um reconhecimento seria uma mudança interna do personagem, o ato de tomar consciência de alguma coisa.

montagem

Montagem Cinematográfica: Sobre o Conceito de Plano | Colagem e Planificação (Decupagem)

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Algumas notas (originalmente postadas nos comentários):

Link para o roteiro do vídeo.

1. Referências e Recomendações
(pt) Estética da Montagem, do Vincent Amiel. Conceitos de planificação e colagem são apresentados na Introdução. No capítulo 1 ele traça uma breve evolução dos planos, bem parecida com a que eu fiz no vídeo; vale a pena a leitura de ambos. Livro bastante didático, me parece bom para quem nunca teve contato.
(pt) David Bordwell: sobre a narrativa cinematográfica, artigo do Francisco das C. F. Santiago Júnior passando rapidamente em alguns conceitos do David Bordwell. Importante porque Bordwell propõe o conceito de “narrativa clássica hollywoodiana”, que explora justamente a questão de como diabos os filmes falam de um jeito que tanta gente consegue entender. Acho uma explicação satisfatória, a do Bordwell. O artigo eu acho pesado, mas caralhudo.
(pt) Técnicas de Edição para Cinema e Vídeo: História, Teoria e Prática, um livrão de quase 500 páginas do Ken Dancyger com título auto-explicativo.
(en) The History of The Discovery of Cinematography, site com textos cronológicos explorando a história das imagens em movimento. Se propõe a cobrir desde tempos pré-históricos até a primeira exibição pública do cinematógrafo.
(pt) A Estética do Filme, livro (clássicão dos cursos de cinema) do Jacques Aumont.
(pt) Historiografia Clássica do Cinema Brasileiro, de Jean Claude Bernadette
(pt) A Construção do Campo Cinematográfico: O Nascimento de um Meio de Comunicação Social, de João Batista Chaves da Cunha
(en) Os 45 episódios (10 mins cada) da série “Film: History, Production and Criticism” do CrashCoursh
Documentário da BBC “Paul Merton’s Weird and Wonderful World of Early Cinema” 
(en) Os videos do canal FilmMakerIQ, especialmente os intitulados “the history of…”
(en) Do canal acima, o vídeo “the history of cutting” toca muito no que eu falei
As 23 aulas do curso de História do Cinema oferecida pelo professor David Thorburn no MIT – realmente magníficas

E 2 filmes que exploram o conceito de colagem e fogem do cinema narrativo:
Samsara, do diretor Ron Fricke. Filme de 2011: não confundir com o Samsara de 2001.
Koyaanisqatsi: Uma Vida Fora de Equilíbrio, do diretor Godfrey Reggio. 1983.

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2. Sobre os conceitos de “planificação” e “colagem”
Eu tentei no vídeo abrir mão do texto como instrumento didático e expressivo, e usar a montagem para dizer o que eu tinha para dizer. Por isso, é possível que alguns conceitos tenham ficado meio perdidos. Segue-se as definições dadas pelo Vincent Amiel de planificação e colagem, e um posterior comentário sobre elas:
Planificação: “Existe num roteiro uma ordem de apresentação das ações que é de essência literária, quer dizer, comparável ao ordenamento escolhido pelo narrador, ou romancista, quando tem de apresentar uma narrativa. Mas, mais especificamente ligada às características do Cinema, (…) uma forma, não de descrever a ação, mas de delinear o seu curso através de uma escolha de pontos de vista. Um grande plano aqui, em seguida um movimento de câmera a acompanhar o gesto, um contracampo num quarto vazio etc. Estas já são escolhas cinematográficas. Através destas escolhas, que só podem ser compreendidas em relação a uma continuidade, esboça-se uma verdadeira escrita fílmica, pela qual o espectador é apanhado, conduzido, como o seria pela sintaxe de uma frase. Esta forma de composição das sequências, que toda a gente qualifica como ‘montagem’, é convencional designá-la por ‘planificação’ [ou decupagem]. (…) A planificação pressupõe que o autor e o espectador têm em mente a mesma representação de mundo, o mesmo background sobre o qual ‘fragmentos de ações’ se tornam compreensíveis, e ajudam a situar. Para que com algumas indicações e alusões cada um compreenda a ação, as reações das personagens e o contexto, é preciso que essas representações sejam partilhadas por todos, que pertençam a uma visão comum.”

Colagem: “Ora, quando se fala de um cinema de montagem, quando fazemos referência a grandes cineastas-montadores, é em algo completamente diferente que pensamos. Eisenstein, Welles, Resnais ou Godard utilizam de fato a montagem numa ótica muito mais radical. Nas grandes sequências de O Encouraçado Potemkin (1925), Outubro (1927) ou Alexander Nevsky (1938), as imagens entrechocam-se, colidem, respondem-se, sem propor o trajeto límpido de um olhar que unifica. Na sua sucessão, os planos não elaboram uma continuidade, mas antes uma série de sobressaltos que, longe de ajudar a conduzir o olhar, o deixam algo interrogativo. (…) São planos cuja sucessão não é de ordem realista, mas demonstrativa. É a ‘estrutura’ do acontecimento que é mostrada, mais do que o próprio acontecimento. (…) A montagem associa nesses momentos planos cuja coerência temporal ou a lógica da ação não são manifestas. (…) Já não se trata de respeitar uma ordem, lógica ou cronológica, na qual o espectador reconheceria facilmente. Poderia-se mesmo dizer que ela está à medida da criatividade do montador. Este não é movido por nenhuma necessidade, seja qual for, imposta por um sistema de referências exterior à imagem.”

Bem. Amiel tem um interesse notável de abordar a montagem pelo viés narrativo. Ele chega a propor três “tipos de montagem”: montagem narrativa (busca “contar uma história”), montagem discursiva (busca “estabelecer relações de sentido”) e montagem de correspondência (busca “fazer nascer emoções”) – o livro linkado acima possui um capítulo se aprofundando em cada um.

Colagem e planificação são “procedimentos estéticos” que podem ou não ser utilizados dentro de cada um dos três tipos citados anteriormente, apesar que há uma dominância da planificação na montagem narrativa e da colagem na montagem por correspondência. Digo isso porque ele chega a destacar a existência de momentos de “colagem” no meio de filmes altamente “planificados” (por exemplo, no meio do filme o protagonista fica doidão e uma colagem é utilizada para transmitir isso cinematograficamente). Isso significa que colagem não é necessariamente não-narrativa. Você também pode usar colagem para contar histórias. Você pode usar a colagem para “transmitir alguma coisa”, como eu disse no vídeo; é só que, abdicando da linguagem comum aos vários membros da audiência, não se pode esperar que todos entendam coisas semelhantes (como acontece, por exemplo, quando nós cortamos de um plano do personagem olhando pela janela para um plano da paisagem).

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3. Sobre a opção de usar “planificação” ao invés de “decupagem”
Eu tive acesso ao livro em português de portugal. Lá se usa o termo “planificação” para traduzir o francês “découpage”, aqui nós traduzimos como “decupagem”. “Decupagem” significa cortar, segmentar, fragmentar, quebrar pedaços menores. Geralmente, no Cinema, quando falamos em decupagem estamos falando ou de um processo que busca analisar um filme, ou de um processo que busca conceber/planejar um filme. Ou seja, para uma análise eu posso destrinchar (decupar) o filme nas suas cenas, nas suas sequências, nos seus planos, nas suas linhas de roteiro etc etc etc; da mesma seria feito, classicamente, com um roteiro antes da filmagem (basta pensar nos roteiros dos blockbusters hollywoodianos e no quanto o filme deve ser planejado tintim por tintim antes das filmagens começarem). Por isso, eu decidi usar no vídeo a tradução em pt-pt, “planificação”, e não “decupagem”. Porque nós já usamos o termo decupagem no Cinema, e o Amiel propõe algo que vai além desse uso convencional. Por exemplo, nós diríamos que Eisenstein decupava muito os seus filmes (ele desenhava storyboards, planejava a duração dos planos, o posicionamento dos elementos na tela, as cartelas de texto etc etc) – mas, dentro da teoria do Amiel, isso não é decupagem. Isso colagem. Então há um conflito entre o uso que ele faz do termo e o uso que nós fazemos de maneira corrente – por isso a decisão de diferenciar a decupagem para Amiel, e chamá-la de “planificação”, da decupagem convencionalmente entendida.

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4. Sobre historiografia
Eu começo esse vídeo falando sobre as disputas que acontecem na historiografia do Cinema. Seguinte: muitas coisas aconteceram simultâneamente, e por causa disso é realmente muito problemático eleger um entre os vários nomes como marco de qualquer coisa. Colocar o Cinematógrafo como marco do início do Cinema, por exemplo, é um ato que desconsidera o Cinetoscópio do Thomas Edison, a treta envolvendo Léon Bouly, o Bioscópio dos irmãos Skladanowsky, e uma série de outros dispositivos ópticos, como o zootropo, taumatropo, fenaquistoscópio, fuzil fotográfico etc etc etc. Da mesma maneira, colocar D. W. Griffith como marco inicial do Cinema Narrativo desconsidera cineastas como os que compuseram a Escola de Brighton, que entre 1896 e 1910 contou com nomes como George Albert Smith, Cecil Hepworth e James Smith realizando diversas experiências cinematográficas em Brighton, na Inglaterra – muitas delas no sentido narrativo, inclusive. Portanto, é preciso ter muito cuidado ao falar desses assuntos. Para uma introdução ao problema da historiografia cinematográfica e uma breve discussão sobre a origem do cinema narrativo, recomendo o artigo “O Paradigma Não-Narrativo: Do Cinema de Atrações à Realidade Virtual”, do Marcio Carneiro dos Santos. É uma leitura muito gostosinha.

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A questão do movimento em O Duplo

Textinho que escrevi como resposta a uma prova da disciplina “Edição e Montagem”, optativa da Licenciatura em Cinema e Audiovisual da Universidade Federal Fluminense. O enunciado da questão pedia um comentário formal sobre o filme “O Duplo”, da Juliana Rojas, que você pode assistir aqui:

A questão do movimento em O Duplo

No momento da exibição de um determinado filme, o que se coloca diante da audiência não é uma “projeção 3D” do espaço em que as ações capturadas pela câmera aconteceram: é, na verdade, uma projeção em duas dimensões. A tela tem altura e largura, e só: um pássaro passando distante no horizonte e uma árvore muito mais perto se apresentam ao espectador ambos em uma imagem “plana”. Mesmo o cinema que se propõe a ser 3D o faz com a sobreposição de duas imagens de duas dimensões cada. Ao mesmo tempo, quando se assiste um filme é muito fácil se convencer que um personagem atravessando uma rua em um plano aberto está “se movimentando”: o difícil é conciliar essa maneira de compreender o que acontece na tela com a concepção popular (e justificada) de movimento, que o relaciona com qualquer coisa alterando sua posição no espaço. Ora, no Cinema: que espaço é esse? Há um espaço por onde alguma coisa pode se mover, afinal? E que coisa é essa? Porque, além do que já foi dito sobre a natureza bidimensional da tela, em última instância todas as coisas que nela aparecem são apenas conjuntos de pontos luminosos: os personagens, que nós tão profundamente acreditamos se mover, são pontos luminosos – e também o são os objetos parados que alteram suas posições quando a câmera “se move”. Em um segundo, os feixes de luz se dispõe de uma determinada maneira na tela – em outro, e em outro, e em outro, eles se alteram, e nós saímos por aí dizendo que alguma coisa se moveu.

Por essas e outras, os debates sobre a questão do movimento no Cinema são muito esquisitos e difíceis de se acompanhar. Para uma proposta elegante e enriquecedora de como lidar com o problema, alguns autores, como Sergei Eisenstein, propõem que, diante do cenário descrito acima, nós mantenhamos nossa maneira de compreender as coisas que acontecem na tela (“isso está se movendo, aquilo está se movendo”), e que alteremos unicamente nossa maneira de definir movimento :

“O fenômeno do movimento no cinema reside no fato de que duas imagens imóveis de um corpo em movimento, uma seguindo a outra, se fundem numa aparência de movimento se mostradas numa sequencialidade determinada.” (EISENSTEIN, 2002, p. 52)

Aqui Eisenstein faz uma regressão aos fotogramas e ao funcionamento dos aparelhos projetores. Isto é: cada segundo de captura da câmera corresponde a um agrupamento de fotograma (ou frames), em que em cada um encontra-se uma imagem “parada”; depois, contanto que esses fotogramas sejam exibidos sucessivamente em uma determinada velocidade e ordem, a audiência irá perceber os elementos da imagem como estando em movimento. Nessa concepção, portanto, o movimento não reside na imagem cinematográfica, mas na percepção daquele que a assiste . No Cinema, o movimento não se mede; se sente . E há, na verdade, uma série realmente grande de maneiras de se fazer as pessoas sentirem o movimento, além da óbvia (que é a de usar a câmera para capturar um corpo se movimentando pelo espaço e fazer a exibição adequada das imagens paradas) – dito isso, o propósito dos tópicos abaixo é o de discutir esses outros movimentos cinematográficos a partir do curta O Duplo. Mas, para manter a discussão em torno de Eisenstein: se, pensando nos fotogramas, pode-se dizer que “a ideia ou sensação de movimento nasce do processo da superposição, conservado na memória, da primeira posição do objeto, da recém visível posição posterior do mesmo objeto” (EISENSTEIN, 2002, p. 53) – logo, pode-se dizer o mesmo sobre os planos , que são unidades fílmicas compostas, no fim das contas, pelos mesmos fotogramas que se sobrepõem entre si. Então, da mesma maneira, planos se sobrepõem e a sobreposição de um plano pelo outro pode transmitir a ideia de movimento – e escolher qual plano “sobrepõe” qual é uma questão de montagem. Movimento, no Cinema, é uma questão de montagem.

Profundidade de campo e foco

Um tema que permeia O Duplo é o da profundidade de campo; a questão do que se mostra perto e do que se mostra longe da câmera, e dos impactos que isso causa na interpretação que se tem do filme. Por exemplo:

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A função narrativa desse plano é a de narrar a ação do garoto ao fundo, que o inicia sentado à carteira e escrevendo em seu caderno e se levanta quando percebe algo pela janela. Ainda assim, ele ocupa pouquíssimo espaço na bidimensionalidade da imagem: há muitas outras crianças fazendo anotações. Por quê? Um plano médio ou um close-up teriam servido um propósito muito mais efetivo no que diz respeito à narrativa – mas aí se perderia o movimento. Não do personagem, não da câmera, mas da percepção da audiência, ou, nesse caso, ainda mais especificamente, dos olhos dela.

No início, os olhos são naturalmente guiados para o garoto à frente, pela sua posição frontal e centralizada e por todos os outros encontrarem-se fora de foco. Então, não notando nada não-ordinário nele, nós percebemos o que há no resto do quadro: e o foco altera-se, como que, consciente do nosso ato, buscasse nos ajudar. O garoto à frente torna-se desfocado e o fundo da sala torna-se o contrário, ou, em outras palavras, em um único plano nossos olhos são guiados de algo que se mostra perto da câmera para algo que se mostra longe da câmera – e que, aliás, se mostra longe ou perto por causa do seu tamanho na tela, das suas sombras, do foco que recai sobre aquela parte da imagem etc.

A representação na tela de um movimento feito originalmente em um espaço tridimensional se mantém, e da mesma forma o faz a qualidade de serem apenas pontos luminosos e não objetos de fato se movendo, além da sequência de imagens paradas: tudo se mantém. O movimento, como percebido e vivido nas naturalidades do dia-a-dia, não acontece além do nível de representação: mas o movimento é sentido , precisamente porque, voltando a Eisenstein, acontece a sobreposição de uma imagem pela outra. Um segundo exemplo:

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Aqui, a personagem da professora entra no quadro da esquerda para a direita. O foco da câmera altera-se: os alunos, ao fundo, tornam-se borrões. A audiência, que os olhava talvez imaginando o que eles estão vendo pela janela, passa a se perguntar o que a professora está enxergando. Outra maneira de executar esse momento do filme seria utilizar um segundo enquadramento e um corte seco dos alunos olhando pela janela para um plano da professora olhando: nesse caso, se perderia a gradualidade do movimento. Isso revela, inclusive, que no Cinema movimento tem muito mais a ver com alterações de um objeto através do tempo do que com alterações através do espaço, apesar de os dois estarem intimamente conectados. Para o movimento dentro de um mesmo plano que se dá pela mudança de foco e do uso da profundidade de campo, mantém-se isso: a unidade do objeto, que, se deslocando ou não no espaço, se desloca no tempo – é claro que no exemplo acima o objeto também altera sua posição no espaço, e é claro que isso é um tipo de movimento que ocorre no Cinema e que ele é igualmente importante no plano: mas, para além disso, e de modo muito mais interessante, há a alteração no tempo. Como um contra-exemplo:

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Nesse plano o deslocamento no espaço é quase que deixado de lado. Eis plano anterior:

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Ocorre, portanto, um campo-contra-campo clássico. No segundo plano, a aparição da personagem, que entra na tela da esquerda para a direita, não acrescenta nenhuma informação narrativa (já que o plano anterior deixa claro que se trata da visão subjetiva dela). Talvez seja por isso que seu ombro apareça desfocado. A audiência não é levada a perceber outra parte da imagem, ou a perceber diferentemente qualquer trecho outrora compreendido: o movimento que interessa aqui é o da personagem distante que desce pelas escadas, que é o simples movimento da maneira que a câmera o capturou.

Já no plano abaixo, a quantidade de informações acrescentada pela mudança de foco é gigantesca: de uma hora para a outra, toma-se ciência de um elemento que estava lá presente o tempo todo. E, mais, a personagem reage como se ela mesma também estivesse tomando tal ciência junto com a audiência, já que ela para e observa com ansiedade por alguns segundos, hesitando em se mover na direção do elemento percebido:

Tensão e “planos isolados”

Tensão é, na verdade, outro termo confuso e complicado na teoria cinematográfica. Consideremos aqui a raiz da palavra, que indica a qualidade daquilo que encontra-se esticado, estendido, alongado através de forças externas e que se mantém firme pelas forças contrárias internas – a partir daí torna-se possível analisar uma construção fílmica de tensão que entenda a audiência como a parte responsável por esticar algo até quase estourá-lo, e a montagem como a parte responsável por resistir a esse esticamento. Por isso mesmo, a quantidade de planos, por assim dizer, “isolados” em O Duplo é algo que chama muita atenção.

Denomino-os “isolados” por fazer essa reflexão partindo da questão da continuidade, do raccord, do “corte invisível”, isto é, de quando se corta para um plano para o outro e algum artifício é usado para que o corte não chame atenção para si mesmo e a coisa toda mantenha uma unidade de movimento. Por exemplo:

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Esse é um dos planos de longa duração do filme que se seguram por conta própria – de maneira muito próxima, inclusive, àquilo que o supracitado Eisenstein se referia como “plano independente”. No caso desse curta, são planos que, narrativamente, representam ações que não dependem dos planos anteriores e nem dos que se seguem para ser concluídas ou iniciadas. O problema da tensão encontra-se na linguagem cinematográfica: impressa nas pessoas da audiência, ela as faz criar determinadas expectativas sobre um plano ser uma continuação de outro. No exemplo acima, a personagem olha ansiosa com a cabeça baixa para o quadro e depois aponta seu olhar abruptamente para a direita. A convenção que aí se encaixa é a do plano-contra-plano: a audiência passa a esperar que o próximo plano seja uma visão subjetiva da personagem. Contrariamente, o que o filme faz é manter na tela por mais alguns segundos o plano da personagem observando, quase que recusando-se a entregar o que se deseja que ele entregue. Quando o corte acontece, se dá para esse plano, já citado:

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Não trata-se da visão subjetiva dela; trata-se de outro plano isolado. Aqui a personagem entra na tela da esquerda para a direita, olha pela janela e troca olhares com um garoto no fundo. É claro que há uma continuidade temporal: um plano certamente representa algo que aconteceu depois de algo mostrado no plano anterior, e isso não tem nada a ver com isolamento. O que os transforma ambos em isolados é a elipse; uma elipse que se constrói não pela omissão temporal, mas pela seleção do deslocamento real pelo espaço feita pela câmera. O tempo que a personagem leva para entrar no quadro no segundo plano pode ser, no fim das contas, o tempo real que ela leva para andar de onde estava, na lousa, até a janela: verdadeiramente, talvez nem um segundo tenha sido omitido com esse corte. Mas a câmera opta por não nos mostrar a personagem fazendo seu percurso, nem a visão subjetiva dela: ela se atém àquilo que é necessário para construir a independência e a tensão de cada plano. Eis um segundo exemplo para clarificar a questão: depois dessa cena da janela, um salto espacial e, dessa vez, também temporal ocorre, e um corte seco nos leva para esse plano:

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Aqui, um garoto entra no quadro pela porta no centro e sai pela direita. Os elementos na tela se dispõem como mostrados na imagem acima tanto antes da entrada do garoto quanto, mesmo que brevemente, depois: ele entra, ele sai, e, por um segundo, o plano permanece inalterado. A câmera não se move, o foco não se altera – digamos, “deslocamento zero”. Uma terceira personagem surge na porta e chama pela professora sentada, que se levanta: corte enquanto ela se apoia na cadeira. Cria-se, então, mais uma expectativa pela linguagem clássica hollywoodiana: esperamos que o corte na ação nos leve para uma continuação da ação. Somos, entretanto, levados a esse plano:

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O plano anterior permanece, dessa maneira, isolado. Como no exemplo anterior, ele mostra uma ação que se sustenta por conta própria (o garoto entrando e saindo do quadro) e termina criando uma expectativa que não é cumprida (e que, na verdade, não se propõe a ser cumprida em momento algum porque o filme não necessita que ela seja). O mesmo vale para esse plano seguinte, da professora sentada e conversando com a diretora do colégio: ao invés da conversa ser mostrada através de um bate-e-rebate de planos, a câmera nos mantém com apenas uma das partes, mesmo com as intervenções da outra. Apenas quando ela termina suas explicações nos é mostrada a segunda personagem, e a câmera se atém a ela ainda que a primeira diga uma coisa ou outra.

O maior exemplo, entretanto, talvez seja esse:

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Antes desse plano, nós não vemos nenhuma menção da personagem ir tomar banho; depois, não vemos nenhuma dela saindo do banheiro. A ação se contém àquele plano, e os movimentos internos a ele sozinhos alteram as composições de seu começo e de seu fim. Durante todo ele, a audiência, condicionada que é pelas convenções do cinema narrativo, espera que qualquer coisa aconteça: o filme, entretanto, se recusa. Daí surge a tensão, ou, em termos de movimento: uma sobreposição daquilo que se espera com aquilo que se recebe da montagem.

Som

“Na imagem em movimento (cinema) temos, por assim dizer, uma síntese de dois contrapontos: o contraponto espacial da arte gráfica, e o contraponto temporal da música.” (EISENSTEIN, 2002, p. 56)

Se o movimento ocorre na percepção de uma coisa se alterando através do tempo, o som tem muito a contribuir nessa questão. Digamos:

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O filme abre com duas cartelas de texto, depois há um corte para a personagem da professora escrevendo no quadro. No momento da cartela, entretanto, nós já ouvimos o som ambiente da sala de aula – a adição feita após o corte é a do som da professora entrando no quadro e do giz riscando a lousa.

Apesar da já destacada qualidade “isolada” dos planos, o som se mantém até o momento em que um corte nos leva para longe da sala de aula. O movimento natural, picotado pelos cortes e tensionado pelo jogo expectativa vs montagem, é representado fielmente pela continuidade sonora. Outro exemplo:

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Aqui o som do elástico batendo na pasta permeia todos os planos que compõem a cena. Não importa que o som não represente algo indo do ponto a ao b, o que importa é que ele mantém sua unidade e se altera ao longo do tempo: ele aumenta de volume e de velocidade, e se torna cada vez mais importante na cena. E, para retornar ao assunto da tensão, justo quando o plano na tela é o do elástico batendo na pasta, e justo quando sua velocidade e seu volume se encontram tão altos que não podemos ouvir mais nada – nesse momento, quando a audiência mais deseja por algum rompimento nessa tensão, a montagem nos entrega um corte seco para um plano quase silencioso das personagens se despedindo. Pode-se dizer que a montagem sempre se recusa a aliviar as tensões que ela mesma cria.

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Nessa cena a personagem olha pela janela do carro e vê seu “duplo” na janela da escola. O que se mantém é o som de sua respiração, que é importante para fazer funcionar a ideia do campo-contra-campo e também para sugerir a continuidade temporal de um plano para o outro.

Eis o exemplo que talvez seja o mais emblemático:

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Aqui o corte não é seco: trata-se de uma fusão. O som das palmas da platéia presente no segundo plano já surge no primeiro antes mesmo da fusão começar. O ruído de fundo também se mantém, e podemos ouvir um som não-diegético de trovoadas, responsável por, trazendo um elemento externo aos dois planos que transparece em ambos, criar uma associação entre todas essas coisas e permitir que ela mude através do tempo: um movimento que vai além dos objetos indo pra lá e pra cá na tela. Ou, especificamente sobre o som do trovão:

“Apenas um uso polifônico do som com relação à peça de montagem visual proporcionará uma nova potencialidade no desenvolvimento e aperfeiçoamento da montagem.” (EISENSTEIN, PUDOVKIN e ALEXANDROV, 2002, p. 226)


Referências:

EISENSTEIN, S. M. Dramaturgia da forma do filme. Em: A forma do filme. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. Ed., 2002.
EISENSTEIN, S. M.; PUDOVKIN, V. I.; ALEXANDROV, G. V. Declaração sobre o futuro do cinema sonoro. Em: A forma do filme. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. Ed., 2002.

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O problema da presença do narrador, mimesis e diegesis

Aqui vai um experimento para exemplificar umas questões que abordarei nesse texto. Não precisa ler tudo, um parágrafo basta:

Com licença, Sr. Macaco. O que você está fazendo aqui? Ora, eu decidi me mudar para cá. Quem é você? Mas Sr. Macaco, essa casa é minha! Esse sofá também é meu. Se você estiver querendo comprá-lo, essa é outra questão que nós podemos discutir com prazer – Não, não! Veja bem, a floresta agora me pertence. A sua casa está na floresta e por isso também me pertence, naturalmente. Mas Sr. Macaco!

Viu só? A floresta é minha, eu lutei pela pedra e venci. Oh. Tudo bem, eu entendo, mas tenha pena de mim! Eu não tenho para onde ir. Essa casa é tudo o que eu possuo, se você for ficar com ela… O que será de mim? Eu acho que isso não é muito problema meu. Isso é um absurdo, Sr. Macaco! Se é desse jeito que você pretende cuidar da floresta, ela não vai ficar nas suas mãos por muito tempo. Disso eu tenho certeza! Isso sim é problema meu, senhorita, mas apenas meu. Se algum dia essa pedra passar para as mãos de outra pessoa talvez você possa voltar para esta casa. Até lá, queira por gentileza se retirar. Eu não me irei me retirar, Sr. Macaco! Na verdade, eu só vou me levantar daqui quando você for embora.

Você é muito teimosa! Você não me deixa outra opção! Muito bem, eu tenho uma proposta: você pode ficar com a casa, mas eu quero o sofá. E também quero que você cate meus piolhos duas vezes por semana. Oh, eu não acho que farei isso. Digo, o sofá é muito importante para mim. Ele está aqui desde que eu me mudei para cá… Ah, não, não! Não dá para eu me desfazer dele desse jeito, Sr. Macaco! Ora, então você vai ficar sem o sofá e sem a casa, porque de qualquer maneira eu tenho a pedra…

Você quer lutar por ela? Lutar pela pedra? Francamente! Se nós lutássemos você deixaria minhas roupas imundas como fez com meu sofá. Se você não quer lutar, então o sofá é meu e eu digo que ele não está nem um pouco imundo. Ah, Sr. Macaco, vocês do norte da floresta são criaturas terríveis! Você sabe muito bem que só poderia me vencer em uma barbaridade como uma luta. Nós aqui do sul não resolvemos nossos problemas com essas coisas estúpidas e sem sentido, nós resolvemos com educação. Muito bem, então, muito bem! O que você propõe? Em primeiro lugar eu proponho que você vá embora, mas eu acho que você irá recusar essa proposta muito antes de levar ela em consideração, então, bem, eu tenho uma que você vai aceitar sem precisar pensar duas vezes… Eu proponho que você me dê a pedra e fique com a casa.

Garota tola, garota tola, eu não serei enganado assim tão fácil… Nesse caso eu te entregaria a pedra e você usaria ela para pegar a casa de volta. Não, não mesmo. Hummmm… Então eu proponho uma partida de xadrez. Agora você pode me dar a pedra e sair da minha casa, por gentileza. A pedra? Eu achei que a partida tivesse sido só pela casa. Ah, não, Sr. Macaco. Você disse que nós deveríamos lutar pela pedra e eu propus um jogo de xadrez, sim?

 

Em 2017 eu pensei na possibilidade de um conto de fadas que se segurasse apenas pela força dos diálogos e da própria interação dos personagens; acabei escrevendo “O macaco, a pedra e o sofá” para experimentar a ideia. Eu queria ver a coisa diante dos meus olhos, e eu de fato vi – daí já digo a primeira coisa que quero dizer aqui: façam todas as experimentações possíveis. Falando apenas de mim, tem um lado negativo que é o de ter meu passado manchado por esse textos ruins, textos contando histórias que tiveram dúvidas como ponto de partida, e não fantasias; é um demônio que me atormenta, e suspeito que ele mesmo também atormente muitas outras pessoas – esse demônio das histórias mal contadas. Me sinto muito mal quando olho pra trás e vejo os erros grosseiros que cometi na minha escrita, mas eu não poderia ter alegria maior que a de olhar para frente e perceber que sou capaz de enxergar novos horizontes. Agora a parte essencial:

A questão que deu início à coisa toda, reparem vocês, não foi “é possível a interação entre os personagens ser suficiente para manter uma história de pé?”: há uma certa ingenuidade contida aí que eu creio ser das primeiras que um escritor de narrativas deve vencer – é não só possível como, de maneira geral, necessário que as interações entre os personagens sejam interessantes ao ponto delas ganharem independência do restante dos elementos que compõem a narrativa. A questão era como executar isso dentro de um conto de fadas. É que eu sempre tive no topo da minha mente uma compreensão de que em contos de fadas a figura do contador da história (transcrita através do narrador) é a característica mais fundamental do texto. Eu não tinha, ora mas é claro, pensado nisso para além desse pouquinho que eu acabei de destacar. Agora, quase um ano depois de O macaco, a pedra e o sofá, eu me percebo alguém que diariamente busca ir mais fundo nas águas da narratologia. Apesar de ainda estar numa parte pateticamente muito rasa, eu já quero retornar brevemente com a cabeça para fora e deixar aqui para vocês algumas reflexões antes de continuar na minha aparente missão de vida de continuar indo para baixo – com toda as pretensões estúpidas que isso coloca sobre mim.

Gérard Genette aborda a questão partindo de Platão, e eu achei a apresentação dele muito boa. É que Platão identifica duas maneiras de um Poeta contar a história: ou ele conta o que aconteceu com suas próprias palavras, ou ele “finge ser outra pessoa” e conta usando as palavras dela. O primeiro caso Platão chama de “diegesis”; o segundo, “mimesis”. Eis exemplos, já atualizados à nossa realidade (Platão usa exemplos de Homero, Genette de Marcel Proust):

  • Diegesis: Ana pediu licença.
  • Mimesis: Ana disse: “Com licença.”

Acho que é mais fácil visualizar isso se você imaginar o narrador da história (o “Poeta”) como uma pessoa real parada na sua frente. Então imagine que há aí um cara sentado numa cadeira, aí você senta no chão e fica olhando pra ele. Ele diz: “Ana pediu licença”. Palavras dele, e apenas isso. A Ana não está de fato pedindo licença. O que há diante dos seus olhos, ou diante dos olhos da sua imaginação, é o narrador dizendo que a Ana pediu licença, não a Ana pedindo licença. Agora, segundo caso: pra contar aquele trecho, o narrador vai precisar “imitar” a Ana pedindo licença. Ele vai precisar fazer como ela fez; falar como ela falou. Na verdade o ideal seria que um ator assumisse o papel da Ana (daí o nome “mimesis”, imitação) e falasse as palavras que ela falou. Ou que a Ana ela mesma se materializasse e dissesse o que tá entre aspas. Afinal, Ana disse: “Com licença”. Ana. Não o narrador, não um ator. Ana.

Homero (em Ilíada e Odisséia) usava a segunda maneira, a mimesis. O poeta/narrador, Homero, não falava com suas palavras, mas falava assumindo o papel de outra pessoa (“Ulisses disse:”, “Ulisses gritou para os homens:” etc). Ou seja, Homero se dispunha a imitar Ulisses e outros personagens ao invés de contar as coisas, digamos, sem se passar por outra pessoa. E não para por aí: a narração de Homero era cheia de frases bonitas, umas coisas do tipo “a tempestade rangia como isso e aquilo”, ou “o mar continha a fúria de mil não sei o que” – e isso ainda é mimesis, segundo Platão. A princípio alguém diria que é diegesis porque são as palavras do poeta (isto é, não é algo dito por outro personagem), mas nesses casos o Poeta está falando como se estivesse no local da história; isto é, ele está imitando alguém que está no local da história. Platão meio que faz uma crítica por causa disso, inclusive. Platão meio que critica a mimesis e elogia a a diegesis. Ele chega ao ponto de reescrever trechos de Homero apenas para demonstrar como a coisa ficaria se o poeta contasse com suas próprias palavras. Aqui um trecho em que Platão explica isso através de um diálogo entre Sócrates e Adimanto:

Sócrates — Mas, quando ele [o poeta] faz um discurso como se se tratasse de outra pessoa, não dizemos que aproxima o máximo possível seu estilo àquele da pessoa que fala?

Adimanto — Sim, dizemos.

Sócrates — Aproximar-se de alguém na voz e na aparência não significa imitar aquela pessoa com quem queremos nos assemelhar?

Adimanto — Sem dúvida.

Sócrates — Portanto, tenho a impressão de que tanto este quanto os outros poetas realizam sua narrativa por intermédio da imitação.

Adimanto — Exatamente.

Sócrates — Contudo; se o poeta jamais se ocultasse, seus versos e suas narrativas seriam criados sem imitações. 

Nessa última linha ele usa “narrativa” no sentido de “discurso emitido pelo narrador”; atualmente o termo “narração” é mais usado pra isso. Então o que ele quer dizer aí é “uma narração sem imitações é aquela em que o Poeta/narrador não se esconde”. Eis o trecho da Ilíada reescrito por ele:

O sacerdote chegou e pediu aos deuses que permitissem aos gregos conquistar Tróia e regressar sãos e salvos, mas que libertassem sua filha mediante resgate, por temor aos deuses. Ouvindo estas palavras, os outros concordaram. Contudo, Agamenon, irado, ordenou-lhe que se retirasse e não voltasse […] Ao ouvir estas palavras, o ancião teve medo e se retirou do acampamento; em seguida dirigiu numerosas preces a Apolo, invocando os atributos do deus, conjurando-o a recordar-se e a recompensar o seu sacerdote […]

Diferentemente da versão original do Homero, na de Platão em nenhum momento os personagens se manifestam diretamente. Não há nenhuma imitação.  “Agamenon ordenou-lhe que se retirasse e não voltasse”, e não “Agamenon ordenou-lhe: ‘se retire, não volte!'”. Tudo acontece por intermédio do Poeta. Novamente, se o poeta estivesse diante de você contando essa história, ele ainda estaria sentado falando suas próprias palavras – ele não precisaria se levantar para “imitar” as palavras do Agamenon, não precisaria fingir ser outra pessoa. E aqui a crítica:

Sócrates — Agora, Adimanto, analise se os nossos guardiões devem ser imitadores ou não. Do que dissemos anteriormente, não resulta que cada um só pode exibir talento em uma profissão, não em várias, e que quem tentasse exercer muitas falharia em todas, a ponto de não se tomar famoso em nenhuma?

Adimanto — Não poderia ser diferente.

Sócrates — Então, este raciocínio não é válido também a respeito da imitação? É possível que um mesmo homem possa imitar várias coisas com perfeição?

Adimanto — Evidente que não.

Sócrates — Portanto, dificilmente exercerá ao mesmo tempo uma profissão importante e imitará muitas coisas e será imitador, uma vez que as mesmas pessoas não podem executar bem dois tipos de imitação que parecem próximos um do outro, como a tragédia e a comédia. Tu não dizias que eram ambas imitações?

[Nota: contemplem o nascimento dos gêneros. Platão propõe Comédia e Tragédia e diz que ambas são “imitações” (mimesis)]

Adimanto — Sim, e dizes a verdade: as mesmas pessoas não podem triunfar nos dois gêneros.

Sócrates — Nem é possível ser, simultaneamente, rapsodo e ator.

Adimanto — Estou de acordo.

Tudo disponível no Livro III de A República. Me parece que na prática um texto narrativo “sem imitações” seria composto de personagens executando ações e só. A quantidade de verbos seria irritante. “Ele verbo isso. Ela verbo aquilo. Ele verbo isso,” etc. Por exemplo:

Ele abriu a porta e foi até a calçada. O cachorro latiu, ele saiu correndo. Olhou para trás, o cachorro tinha sumido(…)

Um saco. É difícil conceber estratégias para criar ambientação, ou para tratar de conflitos internos dos personagens, ou de monólogos interiores etc etc. Trata-se de uma tentativa de contar apenas o enredo da história, isto é, a narrativa – e narrativa aqui significa “conjunto de acontecimentos que compõem a história”. Por isso que dentro das teorias do Genette a melhor maneira de traduzir “diegesis” é mesmo “narrativa pura”, como ele faz. E é por isso também que desde Homero até as grandes obras literárias contemporâneas, todas usam mimesis (“fulano disse: tal tal”) em diversos níveis sem dó nem piedade.

Mas, porras, é aí que tá o pulo do gato. Depois de apresentar a coisa dessa maneira, Genette traz um problema imenso pra questão: não há texto narrativo que não contenha mimesis. Pior: ao mesmo tempo, nenhuma mimesis é tão perfeita ao ponto de fazer o narrador desaparecer.

Falando do primeiro caso: você pode, é claro, diminuir a imitação dos personagens para um nível em que ela torna-se irrelevante ou imperceptível – digamos, uma ilusão de que não há mimesis (nosso primeiro exemplo de diegesis, “Ana pediu licença” – é o narrador dizendo, não é ele tentando imitar a Ana). Mas ainda assim a mimesis continua aí, diz o Genette. Continua porque não podemos contar uma história por escrito sem escolher as palavras, e escolher as palavras é fazer o narrador presente. Por que “ele abriu a porta” e não “a porta foi aberta por ele”? E se você teve os culhões de dizer “ele saiu correndo”, quais culhões lhe faltam pra dizer em qual direção ele foi? “Ele abriu a porta” é uma tentativa de apenas “contar” que o personagem abriu a porta, sem imitá-lo de fato a abrindo – mas, como diz o Genette, cada vez que o Poeta deixa de imitar um personagem, ele passa a imitar a si mesmo. É paradoxal pra caralho. O texto deixa de representar uma imitação de personagens e passa a representar uma imitação do próprio poeta/narrador. Em “Ana pediu licença”, a Ana desaparece, mas o Poeta aparece mais, e pior, aparece como alguém que não tem capacidade nenhuma de se colocar no lugar dos personagens (menos ainda de fazer os leitores se colocarem no lugar dos personagens), o que é algo fundamental para a contação de uma história. Ao tentar sumir, o poeta faz é se mostrar um bunda mole.

E aí tem a segunda questão, a das mimesis perfeitas serem impossíveis, que como vimos até foi destacada pelo Platão – mas o Genette problematiza a coisa toda num nível maravilhoso. Voltemos ao nosso primeiro exemplo de mimesis:

Ana disse: “Com licença.”

Bem. Platão usa o termo “relato”pra falar sobre isso. Suponhamos que verdadeiramente alguma Ana tenha dito esse “com licença”, e que nosso trabalho como contador de histórias seja o de relatar que ela disse isso fazendo uso de mimesis, não de diegesis. Nós não podemos fazer a Ana transcender sua existência e repetir o “com licença” para cada leitor, mas nós, como poetas/narradores, podemos “imitá-la” através desse Ana disse: “Com licença”, e isso, vejam vocês, é o melhor que nós podemos fazer (de um jeito que ainda seja agradável de se ler). Claro, nós podemos, por exemplo, usar um travessão para indicar o diálogo ao invés de aspas – mas aí uma coisa não é melhor que a outra, em termos de mimesis/imitação, estão ambas no mesmo nível. Agora:

Ana disse: “Com licença.”

Eu pergunto: que diabo é esse “Ana disse” se não uma manifestação do narrador? O narrador está dizendo que Ana disse. E essas aspas? Narrador, poeta. E se fosse travessão? Mesma coisa, ora: poeta, narrador. Por mais que o Com licença seja uma mimesis perfeita da personagem, as aspas, o “ana disse” etc continuam sendo o Poeta fazendo mimesis de si mesmo através do texto.

Aí nós voltamos para minha tentativa com o texto “O macaco, a pedra e o sofá“: eu queria “relatar” a interação dos personagens e só. Eu queria apenas a diegesis (a “narrativa pura”, como o Genette chama). Pensei: “vou dar uma importância maior aos diálogos e acho que vai rolar,” mas não é assim que funciona. O narrador continua presente fazendo suas escolhas de narração. Ele faz uns esforços imensos pra imitar os personagens (Ana e o Macaco) da maneira mais pura possível, mas é inútil porque é uma tarefa impossível. Cada aspas que o narrador/poeta coloca no texto é uma pausa na imitação. Cada aspas é um grito do poeta, um grito que diz assim ao leitor: “isso aqui não sou eu, o poeta, que estou dizendo. É a personagem, viu? A personagem!” E, reparem na minha tolice, eu não só tentei realizar essa proeza de narração como também fiz a tentativa dentro de um conto de fadas. É uma subversão sem tamanho, não é? Escrever um conto de fadas tentando fazer o narrador desaparecer completamente. É como tentar contar uma história de detetivas sem nenhum detetive ou investigação.

Eu abri esse texto com um experimento. O que eu fiz ali foi remover todas as aspas e todas as indicações possíveis do narrador do texto. Transcrevi apenas as falas da maneira mais pura possível; apenas a narrativa. Diegesis. É o exemplo mais próximo do que seria um texto escrito através de diegesis que você vai ler hoje; para exemplos de diegesis menos fortes ou de mimesis abra qualquer outro livro narrativo que tu tiver ai ao seu alcance.  Retirei até as quebras de linha, já que elas também eram indicações de quem falava o quê – mas me senti na obrigação de dividir o texto final em alguns parágrafos, doutra forma nem eu conseguiria ler aquilo. Uma tentativa ainda mais poderosa de “relatar” apenas a “narrativa pura” sequer dividiria o texto em parágrafos.

Tá aí a razão pra eu ter dito que “Ana disse:” “é o melhor que nós podemos fazer (de um jeito que ainda seja agradável de se ler)”: na verdade você pode remover o “Ana disse”, os dois pontos e as aspas. Mas torna-se caótico. Eu diria que o Graciliano Ramos fez umas experiências com esse tipo de coisa em Memórias do Cárcere e em Vidas Secas, e pelo que ouvi falar o Saramago também fez em suas obras, que eu ainda não li (vergonha em mim), mas enfim: perigoso. É algo que foge muito da zona de conforto do leitor contemporâneo, afinal estamos desde tempos homéricos lendo, ouvindo e assistindo histórias contadas através de mimesis.

severino

Vilões empáticos, Severino (O Auto da Compadecida) e Caráter/Caracterização

Link para assistir no Youtube.

Algumas notas (originalmente postadas nos comentários):

1. Curiosidade
Esse vídeo não é “novo”.
Antes de postar o primeiro vídeo do canal (sobre Amélie Poulain, disponível em https://youtu.be/Dx03m5MoKx0), eu fiz outros três ou quatro vídeos experimentando alguns “formatos” diferentes para decidir qual linha gostaria de seguir. Agora, esses dias eu estava organizando meus arquivos e encontrei um desses vídeos, justamente esse sobre o Severino. Achei tão legal que resolvi reescrever umas partes do roteiro e regravar/remontar; mas tentei manter o máximo possível do vídeo original, especialmente o formato (ou, digamos, “estilo”). Então esse vídeo que você viu aí em cima é, no fim das contas, o segundo que eu fiz na vida.

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2. Referências e recomendações
As citações do Mckee vêm do livro “Story – Substancia, Estrutura, Estilo”.
A citação do Aristóteles vem de “Poética”, disponível em: https://goo.gl/cA3Jwi
As citações de Ben Bova e David Lubar vêm do texto “Villains”, da Darcy Pattinson, disponível em: https://goo.gl/wwBNvm
A citação do Marco Nanini vem de uma entrevista retirada do livro “Mediações na produção de TV: um estudo sobre O auto da compadecida”, de Maria Isabel Orofino.
A citação do Ariano Suassuna vem de uma entrevista que está disponível em: https://goo.gl/rgmLWD (nota: troquei “aquele olho cego” por “aquele olho furado” e só percebi agora, mas tá valendo)

Algumas recomendações:
Palestra do Ariano Suassuna: https://youtu.be/8ieVa2tVPac
Outra palestra do Ariano Suassuna: https://youtu.be/HuRc-UVxIbk
Análise de Severino do ponto de vista do Direito: https://goo.gl/9zRZJz
Outra análise de Severino do ponto de vista do Direito: https://goo.gl/yTVNiq
Uma análise muito boa da peça de teatro que deu origem ao filme: https://goo.gl/erdSRz
Entrevista do Marco Nanini cedida durante o período de filmagem: https://goo.gl/rrwpXX
Vídeo do Rant and Bollox muito interessante sobre o General Zod (de Homem de Aço) que toca muito nos pontos que levantei aqui: https://youtu.be/uf55WPJ5RO4
Vídeo do Lessons from the Screenplay analisando o Coringa do Heath Ledger e explicando alguns conceitos interessantes: https://youtu.be/pFUKeD3FJm8

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3. Sobre empatia em Severino
Eu optei por focar no ponto do caráter e da caracterização, mas há mais coisa envolvida no caso do Severino e sua relação com a empatia. Destaco duas outras coisas: ele não é mostrado fazendo maldades diretamente, isto é, ele não mata o padre e o bispo “de fato”, na verdade ele conduz os homens até o lado de fora da igreja e quem dá o tiro é o seu lacaio; e a outra coisa é que sempre que o Severino aparece fazendo algo errado, outro personagem tem um defeito apresentado, do tipo quando ele tenta roubar o padre e o padre tenta enganar ele para escapar. Isso acontece com todos os encontros com todos os personagens. Os traços do severino se tornam menos vilanescos quando comparados com os traços do restante dos personagens do mundo em que ele vive.

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4. Sobre caráter vs caracterização
Os conceitos não têm significados opostos. Grosso modo, caracterização engloba caráter. As maiores teorizações em cima disso que eu conheço foram feitas no cinema. O Robert Mckee, especialmente na obra supracitada, Story, toca exaustivamente nesse ponto e explica tanto um quanto outro uma infinitude de vezes; recomendo que pessoas interessadas comecem por aí.

requiem

Montagem cinematográfica: Colagem Vs Planificação e Breve História dos Planos

Link para assistir no Youtube.

Duas notas (originalmente postadas nos comentários):

1. Sobre historiografia e referências
Eu começo esse vídeo falando sobre as disputas que acontecem na historiografia do Cinema. Seguinte: muitas coisas aconteceram simultâneamente, e por causa disso é realmente muito problemático eleger um entre os vários nomes como marco de qualquer coisa. Colocar o Cinematógrafo como marco do início do Cinema, por exemplo, é um ato que desconsidera o Kinetoscópio do Thomas Edison, a treta envolvendo Léon Bouly, e até o Bioscópio dos irmãos Skladanowsky. Da mesma maneira, colocar D. W. Griffith como marco inicial do Cinema Narrativo desconsidera cineastas como os que compuseram a Escola de Brighton, que entre 1896 e 1910 contou com nomes como George Albert Smith, Cecil Hepworth e James Smith realizando diversas experiências cinematográficas em Brighton, na Inglaterra – muitas delas no sentido narrativo.
Não conheço nenhum grande texto que compile a história do Cinema e que esteja pontualmente atualizado. Minha maior recomendação, é, portanto, que qualquer pessoa interessada em estudar a origem do Cinema compreenda essas disputas e pesquise por alguns dos nomes que eu citei ali acima. Os termos “cinema dos primórdios”, “primeiro cinema” e “early cinema” traz artigos muito bons no scholar.google.com.br. Confesso que fiz a parte histórica desse vídeo “de cabeça”, sem usar nenhum texto específico como referência; usei, na verdade, as anotações que fiz das minhas aulas de História do Cinema. Indico alguns textos que lidei àquelas alturas e alguns filmes/vídeos:

Livro: A Estética do Filme, de Jacques Aumont (1º capítulo no link)
Livro: O olho interminável, de Jacques Aumont
Livro: The classical hollywood cinema: film style and mode of production to 1960, de David Bordwell
Livro: Historiografia Clássica do Cinema Brasileiro, de Jean Claude Bernadette
Artigo: A Construção do Campo Cinematográfico: O Nascimento de um Meio de Comunicação Social, de João Batista Chaves da Cunha

Os 45 episódios (10 mins cada) da série “Film: History, Production and Criticism” do CrashCoursh
Documentário da BBC “Paul Merton’s Weird and Wonderful World of Early Cinema”
Os videos do canal FilmMakerIQ, especialmente os intitulados “the history of…”o vídeo “the history of cutting” toca muito no que eu falei
As 23 aulas do curso de História do Cinema oferecida pelo professor David Thorburn no MIT (realmente magníficas)

E 2 filmes que exploram o conceito de colagem e fogem do cinema narrativo:
Samsara, do diretor Ron Fricke. Filme de 2011: não confundir com o Samsara de 2001.
Koyaanisqatsi: Uma Vida Fora de Equilíbrio, do diretor Godfrey Reggio. 1983.

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2. Sobre o termo “planificação”
Eu não apresentei os conceitos da mesma forma que Vincent Amiel os propôs no livro A Estética da Montagem, apesar que eu faço a mesma recapitulação histórica e busco as mesmas justificativas. Acho até que extrapolei um pouco as ideias dele, na verdade, mas enfim: o ponto é que o termo “planificação” eu peguei emprestado da tradução em português-portugal do livro. Na versão português-brasileiro, o termo utilizado é “decupagem”. Seria, então, decupagem vs colagem. O problema é que “decupagem” já é utilizado para outras coisas no âmbito da teoria cinematográfica, por isso minha opção de deixá-lo de lado e selecionar algo novo capaz de criar uma dissociação terminológica.