O Reino de Fogo

Implicações do Cinema de Fantasia

Texto originalmente escrito para a disciplina Cinema e Estética, referente ao quarto período do curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal Fluminense.

 

Eu quero propor uma questão: quando se conta uma história, o que é que ela efetivamente transmite? Talvez seja mais fácil executar essa reflexão se a pergunta for feita de maneira mais específica: quando a história é contada por palavras, por exemplo, o que é que as palavras fazem chegar na mente daquele que as recebem? Sob uma ótica aristotélica a resposta é evidente: são os atos. Da mesma forma que a música é uma arte capaz de representar os sons, e consequentemente de colocá-los em uma forma (a música em si) de tal maneira que os ouvintes possam contemplá-la e através dela possam transferir os sons do campo mundano para o campo da consciência e dos conhecimentos que a consciência possui; da mesma forma que a música faz isso, também o faz as histórias com os atos. Através do contato com uma história o indivíduo passa a conhecer os atos nela representados.

Isso, entretanto, supõe a existência dos atos – uma vez que não se pode representar qualquer coisa inexistente. Qualquer história que represente uma pessoa se levantando de um sofá, que seja, está afirmando tanto a existência da pessoa, quanto do sofá, quanto da própria possibilidade de que a dita pessoa execute a ação de se levantar do dito sofá. Uma falha na existência de qualquer dessas categorias caracterizaria as ações como impossíveis, e por consequência a história como inexistente, o que é incompatível com a ótima representacionalista que proponho. Mas esse exemplo é banal. É muito fácil identificar a possibilidade da atualização de um ato como se levantar de um sofá, e de fato nenhum conhecimento de cunho acadêmico ou cientificista precisa ser evocado para justificar a veracidade de uma história que conte algo assim. O que não se sabe a princípio é até onde vai a capacidade humana de definir quais atos são ou não passíveis de representação; o problema, evidentemente, é que todos os atos podem ser imaginados (poderia se imaginar, por exemplo, um sofá sentado em uma pessoa e se levantando dela), mas nem todos os atos imaginados podem ser atualizados.

Esses questionamentos são feitos posteriormente à existência da história. Para nós histórias são contadas, e por ela afirmações sobre a existência disso ou daquilo são feitas; a nós cabe examinar a natureza dos atos representados e compará-los com nosso conhecimento da realidade, mesmo por meio da ciência. Disso decorrem dois problemas: o de lidar com os atos cuja possibilidade de atualização no mundo em que vivemos é desconhecida por nós, e os que são sabidamente impossíveis de serem atualizados por conta da física do próprio cosmos. Como exemplo do primeiro pode-se imaginar a representação de uma pessoa atravessando um buraco de minhoca e por conta disso viajando no tempo, pois nós não temos conhecimentos suficientes para verificar a veracidade da possibilidade de viajar do tempo como resultante do ato de atravessar um buraco de minhoca. Como exemplo do segundo, pode-se imaginar uma pessoa saltando de um avião e planando no ar ao invés de sendo empurrada para o chão pela força gravitacional exercida pelo planeta.

A própria representação de algum desses atos feita por uma dada história é em si mesma a afirmação da sua possibilidade de existência, sendo o primeiro caso uma afirmação desconhecida e no outro uma mentira, ou ao menos assim eles se apresentam na análise mais simplista. É possível analisar a veracidade da afirmação levando em conta mais do que a própria representação. A natureza dos atos sugere isso. Considere, por exemplo, a relação de causalidade e o determinismo. Nessa ótica os atos são apenas aqueles que poderiam ser, isto é, o ato de uma bola depois de chutada rolar por dois metros, e não por dois metros e dez centímetros, e não por sete metros, só poderia ser mesmo o ato de rolar por dois metros, pois a única resultante possível de uma força de valor x exercida sobre um corpo de dimensões y e peso z é que ele execute aquele movimento específico. Inclusive nosso conhecimento científico é tal que nós podemos prever muitos dos atos antes deles acontecerem, justamente pela certeza de que, dadas as condições tais e tais, eles não poderiam ser de outra forma. A partir do momento em que se identifica na organização do universo qualquer tipo de padrão organizacional, torna-se possível fazer uso do conhecimento adequado para determinar o seu estado em um momento posterior; sabe-se da força do chute, sabe-se da distância rolada pela bola.

Levando em conta esse fator de causalidade, a primeira pergunta para se analisar a veracidade de um ato representado é: ele é apenas aquele que poderia ser? Quando uma pessoa salta de um avião e flutua pelo ar ao invés de ser puxada ao chão, essa é a única coisa que poderia acontecer por decorrência dos atos anteriores? Se sim, a afirmação da veracidade ganha corroboração, e de fato as histórias que se caracterizam pelos atos assim podem ser agrupadas em uma categoria ampla chamada Fantasia.

“Pois Fantasia criativa é fundamentada no duro reconhecimento de que as coisas no mundo são como parecem ser debaixo do sol; um reconhecimento dos fatos, mas não uma escravidão a eles. Então sobre lógica foi fundamentado a falta de sentido que se mostra nos contos e versos de Lewis Carrol. Se homens realmente não pudessem diferenciar entre sapos e homens, contos de fadas sobre reis-sapos não teriam surgido.”¹ (TOLKIEN, 1964, p. 56.)

A caracterização da Fantasia como “um reconhecimento dos fatos, mas não uma escravidão a eles” dada por Tolkien simplifica o ponto levantado: para que uma história de Fantasia seja considerada em primeiro lugar uma história ela precisa representar atos possíveis, e para que ela seja considerada uma Fantasia ela precisa representar atos impossíveis no mundo em que nós, os apreciadores das histórias, existimos. Logo, ao reconhecer a impossibilidade, digamos, da existência de fadas e duendes, as histórias de Fantasia corajosamente afirmam a sua existência junto com a de um plano existencial no qual tais criaturas podem existir. É preciso pois endereçar como as diferentes ferramentas próprias a cada forma de arte são utilizadas para propor a veracidade do plano existencial no qual se dá a história de Fantasia de uma maneira convincente.

Representar um mundo propriamente dito, em sua totalidade e complexidade, em seus níveis mais macroscópicos e da mesma forma em seus níveis mais microscópicos, é um tanto impraticável para as histórias de Fantasia e de fato seria demasiado sublime para a compreensão humana, e consequentemente inútil para fins de convencimento. O que se pode fazer é representar fragmentos. Mas, como dito pela raposa ao principezinho, “só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos.” (SAINT-EXUPÈRY, 1981, p. 72). Isto é, quando olhos humanos caem sobre fragmentos de um mundo, não são os fragmentos em si que se juntam e formam uma totalidade; ao invés, é a consciência que o faz. Isso se torna mais visível na literatura, como bem explica Tolkien:

“Se uma história conta ‘ele subiu o monte e viu um rio no vale abaixo’, o ilustrador pode capturar, ou quase capturar, a sua própria visão de tal cena; mas cada ouvinte de tais palavras irá ter a sua própria imagem, e ela será feita de todos os montes e de todos os rios e vales que ele já viu, mas especialmente d’O Monte, d’O rio, d’O Vale, que foi para ele o primeiro encorpamento da palavra.”³ (TOLKIEN, 1964, p. 76.)

Há na literatura portanto a possibilidade de mostrar apenas os pontos essenciais, os próprios alicerces que sustentam as bases mais fundamentais do mundo da história; a natureza humana trata de não só ligar os pontos como de também preencher as linhas com os caminhos mais lógicos e coerentes possíveis, de maneira a guiar um processo de autoconvencimento em relação à veracidade da história. O Cinema por outro lado enfrenta o problema de ter que mostrar também as linhas que ligam os pontos. Apontar a câmera de forma alguma inibe a ação da imaginação do homem, mas restringe-a apenas às partes que são invisíveis aos olhos. Cabe ao contador da história, o diretor que seja, utilizar as técnicas disponíveis de tal maneira a mostrar um mundo que seja convincente ao espectador.

Poderia-se falar dos dragões em O Reino de Fogo ou O Dragão e o Feiticeiro, por exemplo. Quando a câmera os captura por completo e de modo claro, a audiência já está suposta a acreditar neles há muito tempo. Nas primeiras aparições nos filmes os dragões mal são visíveis: são mostrados escondidos nas sombras, ou a câmera foca apenas em uma garra, ao apenas no fogo cortando os ares, ou apenas se ouve o som das asas batendo enquanto a audiência vê os personagens olhando para os céus. Trata-se do terceiro significado também famosamente definido pelo Efeito Kuleshov: diante da dificuldade de apontar a câmera para um dragão no campo em que ele próprio existia, o diretor apontou a câmera para uma pessoa olhando para os céus, e essa imagem junto com um som específico causa na imaginação da audiência a representação mais lógica e coerente possível de um dragão.

É importante notar que não se trata de um ato sugestivo. A ação das pessoas olharem para cima, e a ação do som emanar são ambas decorrências necessárias da própria existência do dragão, bem como o são os atos seguintes executados pelos personagens. Pode-se dizer que a própria história trata como verdadeiros os elementos fantasiosos por ela sugeridos, e isso é fundamental para que se possa separar as fantasias verdadeiras, ou seja, as que de fato propõem um campo existencial no qual seus elementos podem se dar, das fantasias que são apenas produtos da imaginação e dos enganos dos sentidos; nesse segundo caso pode-se falar de Alice no País das Maravilhas, que tem em sua cena final a protagonista Alice acordando de um sonho – aí a história trata a si mesma como mentira, aí a história conta que um gato que flutua e desaparece é de fato algo que não existe no mundo real, mas fica por isso mesmo. É um reconhecimento dos fatos, e uma escravidão a eles.

O caso de Indomável Sonhadora é curioso por ir contra essa corrente. Quase todos os atos representados no filme poderiam ser representações do mundo-real. Há apenas no fim uma pequena aparição de criaturas fantásticas, mas é tão ínfima que ela afeta muito pouco a caracterização da história como sendo Fantasia ou não. Mesmo desconsiderando essa tal criatura e sua aparição ínfima, ainda fica claro para a audiência que todos os acontecimentos se dão em um plano por completo diferente. Ainda que o céu da história seja como o céu conhecido pela audiência, e ainda que as águas sejam as mesmas, e que as pessoas tenham os mesmos rostos e as mesmas capacidades, ainda assim fica claro que o mundo representado na história não é o mundo da audiência. Aqui nós devemos voltar para a examinação dos atos não como unidades individuais mas como uma sequência causal. Os atos individualmente podem ser vistos como representação do real, de fato, mas como sequência causal eles não podem ser senão fantasiosos. As águas sobre as quais a protagonista navega com sua família não são apenas as águas de um rio, mas as águas que inundaram todo o planeta. A grande barragem não é apenas uma forma de se bloquear a água, mas uma forma de se manter as pessoas marginalizadas afastadas. A casa flutuante é o único meio que as pessoas marginalizadas daquele mundo têm para sobreviver longe da sociedade cercada pela barragem. Como se vê, há a proposição de uma outra realidade onde objetos familiares à audiência desempenham funções significativas. É a afirmação mais ampla de que a história se passa em outro mundo que faz os atos ordinários serem ressignificados.

Nessa ótica o contador de histórias cinematográficas é um trazedor de verdades por nós desconhecidas através das técnicas empregadas nos filmes. O produto final do seu empenho é uma peça de representação, isto é, uma peça através da qual a percepção humana pode captar outra coisa que não a própria peça. Quando se fala de Histórias de Fantasia ou de Cinema de Fantasia, se fala então da representação de atos que se dão em outra realidade; nós poderíamos inclusive classificar essa outra realidade e analisar a sua natureza em cada um dos casos propostos, e de fato muitos teóricos fizeram isso, mas de maneira superficial é suficiente dizer que suas configurações podem ser tão diferentes que ela própria se apresenta como esquisita e chocante para a audiência, ou ela pode ser tão parecida que não fossem os elementos fantasiosos a diferença sequer seria notada. Em ambos os casos, de qualquer maneira, há a proposição.

Schiller

Na Função da Estética na Educação, e Qualia

Texto originalmente escrito para a disciplina Cinema e Estética, referente ao quarto período do curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal Fluminense.

 

Considere Educação como uma referência a ação de adquirir conhecimento de um indivíduo, e falo apenas do conhecimento das coisas. Isso possui muitas consequências complicadas, pois implica na necessidade de descrever de maneira mais precisa o que é um indivíduo, o que é o conhecimento das coisas, e como é que a natureza do primeiro é tal que ele pode executar a ação de adquirir o segundo.

Ambas as definições são contidas nos objetos. Primeiro se reconhece que há indivíduo e que há conhecimento, e depois se tenta descrevê-los da maneira mais precisa possível. Nós podemos partir do “penso, logo existo” e identificar a existência do indivíduo a partir da própria percepção: eu sou o indivíduo eu mesmo. Minha capacidade de me perceber como indivíduo e de me postular como indivíduo fazem-me assim, e mesmo o questionamento dessa afirmação é a própria afirmação. Em seus níveis mais fundamentais, todas as ações dos indivíduos resumem-se à percepção. Ou o indivíduo se percebe como indivíduo, ou percebe que o mundo é dessa maneira e não daquela, ou percebe que está alterando o seu meio, ou percebe que duvida – a capacidade do indivíduo é a de tomar consciência das coisas, e ao assim dizer entenda-se de se perceber expressando coisas que não estão presentes; pois quem conhece, conhece algo. Eis então um paralelo entre educação e imaginação, pois se a maneira de identificar o conhecimento em um indivíduo é através da sua própria percepção de estar manifestando-o na ausência do objeto conhecido, e se imaginação é a evocação da imagem dos objetos que não estão fisicamente presentes onde a própria imagem pode ser captada pelos olhos, trata-se da mesma coisa, logo conhecer é imaginar. Disso se pode inferir que qualquer objeto que pode ser percebido pode ser também conhecido, basta que o indivíduo o perceba, o identifique ou o professe de alguma forma em despeito da presença do próprio objeto, isto é, é preciso que a presença do objeto no alcance da percepção seja irrelevante para a identificação do mesmo, aí se dá o conhecimento.

A percepção portanto está relacionada ao próprio ser do indivíduo. Quando consideramos vários indivíduos, acabamos obtendo várias percepções. Até quando o objeto percebido é o mesmo, a experiência da percepção é única a um indivíduo. Há, portanto, a impossibilidade de fazer dois indivíduos possuírem a mesma percepção de um dado objeto, pois se o indivíduo A tenta fazer a comunicação B para o indivíduo C sobre o que foi que ele percebeu, o indivíduo B vai ter uma percepção D da comunicação B. Assim, quando se tenta transferir a percepção o próprio ato de outro indivíduo perceber a expressão de uma percepção caracteriza em si uma nova percepção. Porém, com essa relação estabelecida entre percepção e conhecimento torna-se necessário comunicar uma percepção para que o indivíduo adquira conhecimento.

Contemplar um objeto é portanto o ato de percebê-lo, de agregar ao indivíduo aquilo que faz do objeto o objeto. Esse ato é a experiência estética; ou melhor que ato, o estado do indivíduo no qual isso acontece. Numa hora o indivíduo está dessa maneira, noutra hora daquela, e noutra ainda ele está se percebendo agregando a si mesmo a essência de um objeto. Apesar da comunicação ser capaz de proporcionar ela própria uma experiência estética, é justamente pela experiência estética que ela se faz capaz de agregar conhecimento a um indivíduo. Com isso significo que pode haver a experiência estética sem a comunicação, com a contemplação de obras de arte por exemplo, e da mesma forma ela ainda se faz capaz de agregar conhecimento a um indivíduo.

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Fui o pior mecânico de carrinhos da Hot Wheels do mundo

Já cheguei a contar aqui da vez em que troquei algumas cartas raras de Yu-Gi-Oh! que eu tinha por alguns carrinhos quebrados da Hot Wheels, e isso já explica o quanto eu gostava desses brinquedos.

Vale destacar que no alto dos meus nove ou dez anos existia toda uma cultura da Hot Wheels, toda uma apreciação em volta da marca. Lembro que eu e meus amigos sempre ficávamos desenhando os carros do desenho que passava na TV, todo mundo tinha um caderno da Hot Wheels, uma mochila da Hot Wheels, uma sandália da Hot Wheels… mas nada mais cultuado que os colecionáveis.

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Parte mais interessantes de uma loja de brinquedos. Ano: uns dez atrás.

Custavam R$ 4,99 cada, e comprei tantos que nem sei dizer exatamente quantos, mas definitivamente foram muitos. O ponto é que todo mundo comprava, então existia aquele momento de sair da aula com os amigos e ir lá comprar os carrinhos, ficar escolhendo entre trocentos modelos, admirando os com design mais louco possível e no fim das contas escolher os carrinhos que mais pareciam com carros de verdade.

E, bem, digamos que não dava pra fazer muita coisa com esses carrinhos. A coisa toda era meio sem sentido.

Sempre víamos na TV aquelas pistas e parques de brinquedos personalizados, mas como a gente não achava pra vender (e mesmo se achássemos, custaria os olhos da cara) não ficava outra opção a não ser comprar os carrinhos e não ter nada pra fazer com eles. Eu tinha alguns amigos que nem tiravam da embalagem, na verdade: só compravam e deixavam lá guardado, como colecionável mesmo.

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ESSAS PISTAS MALDITAS que a gente só via nos comerciais do SBT. Sem elas os carrinhos não tinham sentido.

Eu achava isso imbecil. “Por que diabos esses imbecis compram o negócio se não vão nem tirar da embalagem e só deixar guardado?”, pensava eu. Evidente que eu tirava da embalagem antes de deixar guardado como colecionável. Não faço ideia de quantos comprei e não usei pra nada, mas pelo menos eu tirava da caixinha, né, pelo amor de deus.

Um dia isso mudou, caras. Não lembro o porquê, mas de repente decidi fazer alguma coisa com meus carrinhos e resolvi me divertir com eles. Aí peguei um e PINTEI usando um esmalte que peguei da minha mãe.

E ficou uma merda.

Ruim, muito ruim. Ficou muito mal feito, todo borrado e esquisito. Mas achei algo tão legal de fazer (pensei “porra, é isso aí, finalmente tô usando o brinquedo pra brincar”) que decidi fazer com meus outros carrinhos também, então peguei vários e reformei usando esmalte e palito de dentes. Altas pinturas personalizadas.

Eis que no outro dia resolvo levar meus carrinhos recém-reformados pra aula e mostrar pros meus amigos. Faço isso, e pra minha completa surpresa, surge um clima de “wow, que daora, faz no meu também”. Vê? Criança não tem a menor noção das coisas: fiz um negócio ridiculamente mal feito, literalmente estraguei meus carrinhos, e o que aconteceu foi que os outros moleques queriam que eu estragasse os deles também.

Acabei levando alguns carrinhos pra casa e passando a noite trabalhando nas obras de arte. Ficaram todos muito ruins. Muito mesmo. Lembro que eu sempre tentava desenhar umas chamas nas laterais dos carrinhos pra eles ficarem mais ou menos assim:

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Mas a qualidade do trabalho era tão ruim que qualquer coisa que eu fazia ficava mais parecida com isso:

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Ou seja, horrível mesmo.

E, bem, sei lá quantos brinquedos dos meus amigos eu consegui estragar nessa onda de ser mecânico de carrinho da Hot Wheels, mas os caras achavam tão legal que me davam um real por cada. Sério.

O resumo da ópera é que cabeça de criança não funciona muito bem, que eu estraguei meus carrinhos e os carrinhos dos meus amigos de R$ 4,99 pra ganhar R$ 1,00 por cada e que achava isso sensacional.

Vale concluir que isso não durou muito, em pouco tempo eu me arrependi de ter feito aquilo com meus brinquedos e simplesmente voltei a comprar e guardar sem fazer mais nada, eventualmente parei de comprar. Não faço ideia do que aconteceu com todos aqueles que eu tinha, mas depois de tantos anos ainda sobraram oito que guardo (apesar do estado lamentável):

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Como está sendo, afinal, cursar Cinema

Sexta-feira passada (dia 05) aconteceram duas coisas importantíssimas no Rio de Janeiro: a abertura das Olímpiadas, e minhas férias que finalmente começaram. Isso significa que o primeiro semestre/período da faculdade de Cinema e Audiovisual que estou cursando na UFF acabou, e eu tenho algumas coisas pra relatar aqui.

Seguinte, acabei de sair do Ensino Médio e não fazia a menor ideia de como funcionava um curso universitário, então os pontos que vou levantar aqui são exatamente os que cansei de pesquisar antes de fazer minha inscrição e não encontrei: afinal, o que diabos acontece num curso de Cinema?

Não assistimos tantos filmes quanto achei que assistiríamos

Antes de entrar, minha ideia mais básica de como seria o curso era de que nós assistiríamos incontáveis filmes e os professores explicariam sobre os processos de produção. Pensava que o ponto da coisa toda era estudar como os filmes são feitos, e que não teria jeito melhor do que analisá-los.

Rapidamente percebi que isso não acontece, e o porquê acabou sendo bastante óbvio. Em primeiro lugar, o problema do tempo: a maioria dos longa-metragem tem entre 1:30h e 2h, o que significa que se nós assistíssemos a um por aula já não restaria tempo pro professor ensinar nada. Quer dizer, você pode ler um livro de 100 páginas em um dia ou em uma semana, mas um filme de duas horas sempre vai levar duas horas pra ser assistido.

Esse problema do tempo limita bastante o número de longas que vemos, porque ou usamos a aula pra ver filme ou usamos a aula pra ouvir o professor falar, sabe? O resultado é que não assistimos tantos longas quanto esperava, e no fim das contas acabamos vendo muitos (muitos mesmo) curta-metragens e fragmentos (a cena que importar para a aula) de longas.

Mas calma que isso se resolve de outro jeito: muitas recomendações e indicações

A parte boa de assistir trechos de longas ou curtas metragens é que em três minutos você descobre a existência de um filme excelente que era totalmente desconhecido. Sempre anoto de onde vem as cenas que vemos em sala para poder ver o filme completo em casa, com isso pude assistir filmes ótimos que não passam na TV e nem são recomendados por amigos.

Aliás…

Muita interação fora de sala

Nós temos muitos grupos no Whatsapp e no Facebook. Muitos mesmo: tem grupo pra cada matéria, tem grupo pra quem é calouro, tem grupo pra quem é do curso, tem grupo só pra quem cursa licenciatura… E é tudo bastante ativo.

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Imagino que em 2016 esse tipo de interação aconteça em todos os cursos, mas no de Cinema você tem o bônus de ser informado de inúmeros eventos que acontecem na cidade. Eu não fazia ideia que aconteciam tantas mostras culturais, exibições gratuitas e cineclubes por aí.

Percebe? Por um lado nós não assistimos muitos filmes em sala, mas fora dela só fica sem assistir filme quem quer (ou quem não tem tempo, evidentemente). Os próprios professores e os alunos divulgam essas coisas, e destaco que a quantidade é realmente surpreendente. Se eu que mal converso com as pessoas recebo tantos convites pra eventos no Facebook, imagino aqueles caras que são amigos de todo mundo.

Ah, e esse tipo de interação entre os alunos que acontece nas redes sociais vai além do consumo de filmes e entra também na produção. Sempre vejo nas timelines algum pedido/oportunidade de participar de alguma gravação: é muito comum que algum aluno esteja fazendo algum filme e precise de ajuda com alguma função, e é muito mais fácil simplesmente pedir ajuda de outros alunos que sair por aí procurando um profissional que cobre fortunas e tudo mais.

Incentivo e suporte à produção

Então, eu particularmente tô no curso pra aprender – minha intenção é muito mais colocar ideias na minha cabeça do que tirar elas de lá –, mas já deu pra notar que o pessoal afim de produzir tá num ótimo lugar.

Em primeiro lugar tem os dois pontos que já citei: a interação é tão grande que é muito fácil conseguir outros alunos interessados em ajudar na filmagem, e através deles você também vai ficar sabendo de muitas oportunidades de concursos publicos/privados que financiarão sua produção, mostras para inscrever seus filmes e tudo mais.

Em segundo lugar, há de se destacar que a própria universidade dá um incentivo bem bacana. A UFF tem equipamentos de filmagem que os alunos podem acessar gratuitamente, mas é claro que, como existem mais pessoas querendo usá-los do que equipamentos disponíveis, é preciso enfrentar certa burocracia pra isso, até porque os alunos usando os equipamentos pra atividades de sala de aula tem prioridade pra uso e tudo mais.

Além das câmeras e microfones, eles também oferecem espaço pra exibir. Existem algumas salas com projetores que os alunos podem simplesmente agendar um horário e exibir seus próprios filmes. Inclusive, sempre vejo nos grupos de Facebook algum aluno convidando pra exibição de seu filme.

É curioso ver a quantidade de filmes produzidos por alunos da universidade que são exibidos na universidade, filmados na universidade e com equipamentos da universidade. É algo que acontece com tanta frequência que vez ou outra ouço alguma história de alguém que faz tudo pra não se formar, simplesmente porque fora da faculdade é mais difícil de produzir do que dentro dela.

A conclusão é que, apesar de não ser minha intenção, o curso de Cinema é definitivamente um bom lugar pra você estar se sua intenção for colocar a mão na massa e gravar algum filme.

A maior parte do conhecimento não vem do professor: debates, muitos debates

Depois de todos esses anos no Ensino Fundamental e Ensino Médio, a palavra “aula” traz à minha mente a imagem de um professor tentando transmitir algum de seus conhecimentos para os alunos. Agora estou espantado porque percebi que a faculdade funciona exatamente do jeito contrário.

De todo o tempo que passamos estudando algum assunto em sala de aula, só uma parte muito pequena consiste no professor dando explicações. Geralmente ele só escolhe um assunto, pede pra lermos alguns textos em casa e quando chega a hora da aula todo mundo discute.

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influência gritante desse cidadão: Paulo Freire.

E, assim, discussão mesmo, cara. Os alunos dão seus pontos de vista, argumentos, rebatem uns aos outros, e por aí vai. Nunca tinha visto esse tipo de coisa acontecer na escola, mas o fato é que a maior parte das coisas que aprendi na faculdade vieram de outros alunos e não do professor em si.

Dos professores que tive até agora, só um usa o método clássico de ensinar (parar na frente do quadro e dar explicações), mas mesmo assim é comum a aula dele ser interrompida por alguma troca de ideias com os alunos. Aliás, isso me faz pensar que não deve ser assim em todos os cursos: penso que deve ser algo com os cursos artísticos. Digo, não sei, Pintura, Cinema, Música, Poesia… Meio que não tem um jeito certo de fazer pro professor poder ensinar. Cada qual faz da sua maneira e o que dá pra fazer é promover uma troca de ideias, imagino.

De qualquer forma, por um lado dá pra dizer que definitivamente funciona, porque com esse método eu consegui aprender bastante sobre todos os assuntos levantados pelos professores. Mas por outro lado, percebo que perdemos bastante coisa porque nossos professores parecem todos muito capacitados. No meio das conversas dá pra notar que eles sabem bastante sobre Cinema, mas com esse esquema de debates eles só falam quando são perguntados ou quando o assunto surge. Dá a impressão que se as aulas fossem do jeito tradicional eles conseguiriam ensinar muito mais coisas.

Mas quer saber? Isso faz das aulas bem mais interessantes. Poucas vezes fico com vontade de dormir ou com os pensamentos em outros lugares. Em outras palavras, as aulas do curso de Cinema são bem mais legais que as aulas do Ensino Médio, não só por ser uma área que me interessa, mas principalmente pelo jeito que os professores fazem o trabalho deles.

Enfim, senhores… Por enquanto o que tenho pra relatar das aulas Cinema e Audiovisual é isso: não assisti muitos longas em sala, passei a conhecer alguns filmes excelentes através das infinitas recomendações, os alunos estão o tempo todo produzindo porque dentro da universidade isso é bem mais fácil do que fora, e as aulas são baseadas em trocar ideias.

Resumindo tudo, tá sendo bem legal. Se você caiu nesse post querendo saber se vale a pena ou não, minha impressão depois desse primeiro semestre é a de que curso é bastante, digamos, útil, tanto pra quem quer puramente aprender quanto pra quem quer botar a mão na massa e filmar algo – então pode ir sem medo de se arrepender, eu diria. No fim do próximo semestre eu volto aqui pra contar se algo mudou ou se reparei em coisas novas. :)

Conto: O Garoto e o Raio

O Garoto seguia, pouco antes do anoitecer, o mesmo caminho que seguia todos os dias do ano desde o início do período escolar. Se sentia seguro fazendo aquele percurso, afinal o conhecia como a palma da sua mão – preferencialmente o contrário: o Garoto conhecia a palma da sua mão como conhecia aqueles pedaços de rua entre a escola e sua casa.

Apesar disso, foi tomado de uma aflição incalculável quando viu cair do céu gotas grossas de uma Chuva de Novembro. Aliás, se parasse para pensar, e não parou, saberia que a aflição foi causada pela escuridão repentina do céu, pelo alto som dos trovões e pelos clarões rápidos que iluminavam seu caminho; os raios. No fim das contas, o Garoto apenas tinha medo dos raios.

Ele os conhecia. Ele teve aulas de física. Ele sabia o que era um Raio. Ele sabe. Ele sente o perigo se aproximar e não vê escapatória, sabendo da força de seus inimigos e não tendo um escudo para se defender de seus ataques, ele vê sua morada longe. Ele tenta alcançá-la, e faz isso numa velocidade tão alta que até mesmo um raio, um maldito raio, não poderia atingir o Garoto. Ele, nesse momento, encara a morte face-a-face, pois para aumentar sua habilidade de locomoção, abandona os movimentos de suas pernas e passa a fazer uso de sua bicicleta. A bicicleta, objeto metálico, objeto de desejo do Raio, objeto de alcance do Raio, objeto de fetiche do Raio. Sim, um maldito fetiche. Do Raio.

O que seria mais rápido, afinal? O Garoto, chamando seu inimigo para uma batalha, montou em sua bicicleta e pôs velocidade máxima em direção à sua casa. A bicicleta, objeto e objetivo comum tanto do Garoto como do Raio. Ou o Garoto usa a bicicleta para atingir sua residência, ou o Raio usa a bicicleta para atingir o Garoto.

POW!

Escapou do primeiro. Mais rápido que a bala, o Raio cai à direita do Garoto. Parece que… mas aquilo é… sim! O medo era metafísico. O Garoto percebeu que estava, estaria e estará são e salvo, pois, em sua direita encontrava-se, pasmem, um para-raios.

Numa epifania rápida, o Garoto voltou a se sentir como se sentia antes: seguro. O caminho que fazia diariamente entre a casa e a escola se mostrava amigável e digno de receber sua confiança, afinal havia acabado de salvar sua vida.

O Garoto, enfim, chega em casa.

No Pré II, caguei nas calças pra me vingar da professora

– Posso ir no banheiro, fêssora?

– Não. Aguenta aí.

Esse diálogo marcou o início de uma vingança extremamente fria e plena.

Ao decorrer da minha curta (porém cabulosa) vida, eu fui obrigado a planejar e executar inúmeras vinganças, mas essa em especial é uma das que mais sinto orgulho, principalmente pelo fato de eu ser apenas uma criança de, se me lembro bem, cinco anos, ou seja, extremamente incapaz e inocente.

No Pré II o aluno tem basicamente duas tarefas: dormir e desenhar. Eventualmente, entre uma e outra ele precisa se aliviar, seja fazendo número um ou número dois. Nesse dia eu estava MUITO apertado para fazer número um, popularmente conhecido como XIXI. Eis que durante a aula eu peço permissão à professora para ir tirar a água do joelho no banheiro e ela me nega tal privilégio. Ela só não contava com minha crueldade e meu sangue frio…

Esperei dar a hora do recreio, que é o momento em que eu estaria livre para cagar e mijar sem ter que pedir permissão. Bateu um pensamento rápido e de última hora tomei a decisão de ao invés de ir no banheiro me aliviar, fazer ali na sala mesmo, só pra professora entender que quando eu digo que preciso de algo é porque eu preciso realmente. O problema maior é que ao invés de fazer xixi nas calças, que é o que eu havia pedido, eu me caguei completamente. Tipo, me caguei mesmo. E me caguei na sala de aula. Fiquei lá, paradão na frente da professora antes mesmo dela sair da sala. E todo cagado.

Não contente, eu usei da minha condição de criança de cinco anos para me mostrar incapaz de me limpar sozinho. Na verdade eu era completamente capaz de me limpar por conta própria, mas só para efeitos vingativos eu fiquei completamente sem reação, OBRIGANDO A PROFESSORA A ME LIMPAR.

Resumo: a TIA não deixou eu ir no banheiro e teve que limpar o meu cocô.