Walter Benjamin

Na Obra de Arte Pós-Cinema

Texto originalmente escrito para a disciplina Cinema e Estética, referente ao quarto período do curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal Fluminense.

 

A maneira que nós temos para definir se um dado objeto é ou não uma obra de arte, ou mesmo qualquer outra coisa, é a sua capacidade de ser conhecido através da percepção. Efetivamente diferentes objetos são conhecidos de maneiras diferentes, e isso atribui uma certa unicidade a cada obra de arte. É certo que a percepção ao se olhar para um objeto é diferente da percepção ao se olhar para outro, mas o mesmo acontece ao se olhar para o mesmo objeto em diferentes momentos do tempo. Então a unicidade do objeto é na verdade uma unicidade da relação que se tem com o objeto.

Há o problema das cópias. É difícil conceber uma cópia de uma obra de arte tão idêntica ao ponto da substituição. Tão similar quanto a cópia possa parecer ao original diante dos olhos, permanece ainda algo não visto de diferente: o original continua sendo o original enquanto a cópia continua sendo a cópia. Isso predominou como verdade ao longo da história humana até a invenção do Cinema. A partir daí, a cópia não é a cópia, a cópia é o original – a cópia e o original fazem referência à mesma obra de arte.

Com o Cinema aconteceu uma mudança na essência da obra de arte, especialmente no que diz respeito à sua fisicalidade, pois não mais a obra é um objeto a ser percebido: a obra está em um objeto a ser percebido. Quando se olha para uma cópia do filme, a obra está lá para ser percebida; quando se olha para outra cópia, a obra também está lá para ser percebida. Esse conceito de obra de arte como algo metafísico se disseminou com o mundo digital, os disquetes, os CDs, as fitas e a internet.

Isso não é, entretanto, para dizer que a obra de arte é inexistente ou que o Cinema matou a obra de arte como se conhecia. Obras como a Monalisa de Da Vinci continua exposta em museu, e nenhuma das fotos dela que circulam na internet é capaz de substituir a original, e da mesma forma não o são nenhuma das cópias parecidamente idênticas feitas por outros pintores. Obras assim continuam tendo a sua essência relacionada ao objeto que a postularam no mundo das coisas. Nós temos portanto a coexistência dessas duas coisas às quais nos referimos como obras de arte.

No modelo pós-cinema, a obra de arte é um padrão. Contanto que a cópia seja capaz de reproduzir esse padrão em exatidão, como acontecem com os bits nos CDs, ela tomará o lugar da original no momento da sua apreciação. O que a percepção do indivíduo capta é o padrão em si, logo para ele pouco interessa qual tipo de superfície, objeto ou o que quer que esteja reproduzindo o padrão, mas é de fato muito curioso que meramente um dado padrão seja capaz de evocar percepções tão mirabolantes.

Lipovetsky

Sobre Marvel e Sociedade Leve

Texto originalmente escrito para a disciplina Sociologia da Cultura, referente ao quarto período do curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal Fluminense.

 

Em resposta à pergunta: “Comente o texto de lipovetsky considerando as relações entre indivíduo e sociedade na contemporaneidade, ou seja, na ‘sociedade leve’: ‘a mobilidade que caracteriza o consumidor contemporâneo é filha do processo de desregulação, destradicionalização e individualização hipermoderna (…) agora é consumo mais intimista e hedonista que domina, largamente esvaziado das lógicas de desafio inter-humano, de rivalidade estatuária, de enfrentamento simbólico’.”

Eu quero fazer minhas reflexões sobre o assunto a partir dos filmes de super-heróis da Marvel Studios. O sucesso de público e de bilheteria que eles vêm fazendo é representativo da atuação dos indivíduos na sociedade leve, então ponha-se a questão: por que tantos indivíduos se dispõem a ir ao cinema assistir aqueles filmes, e porque os índices de aprovação da crítica especializada e da audiência geral são tão positivos? Digamos, os últimos três filmes e suas respectivas bilheterias de R$ 860 milhões, R$ 880 milhões e R$ 820 milhões.

Nessa altura os diretores e roteiristas dos novos filmes da Marvel seguem fórmulas extremamente rígidas, de modo que o público sabe de antemão o que esperar dos próximos lançamentos – aqui a produção apenas reflete a demanda: não se ousa, se entrega mais do mesmo porque esse mesmo é justamente o que o consumidor quer. Nesse sentido pode-se explorar duas implicações desse tema: primeiro que há uma vontade dos consumidores, segundo que há algo de satisfação de vontades nesses filmes.

A vontade dos consumidores, os seus desejos e as suas esperanças de com o ingresso do filme obter o prazer de ter um desejo satisfeito são forças que não se mostravam nas sociedades anteriores como capazes de guiar os pensamentos e as ações dos indivíduos. Nessas, não se fazia o que se fazia para satisfazer um desejo; ao contrário, muitas das coisas que se fazia, se fazia com a certeza de que prazer nenhum seria satisfeito ao fim da atividade. O indivíduo agia muito mais buscando uma satisfação futura do que qualquer outra coisa, ou então buscando a satisfação de desejos que não eram propriamente os seus.

Essas situações em que os desejos eram mais uma imposição ou uma construção coletiva do que de origem introspectiva se opõem ao que acontece com o espectador da Marvel contemporâneo. Os críticos mais ferrenhos às obras que colocam que elas não suportam nenhum tipo de escrutínio ou processo de pensamento ignoram que o espectador sequer quer ver o mesmo filme duas vezes. Ao longo de todo o filme estão piadas que perderiam a graça se ouvidas novamente, e estão planos tão rápidos que não servem nenhuma função senão a de manter algo acontecendo na tela – não há mesmo porque vê-los novamente. Isso de ter sempre uma ação sendo executada, um corte sendo feito, um efeito especial, uma música: não há espaço para o tédio ou para a desatenção, ou acima de tudo para pensar em qualquer coisa que não no próprio filme. Durante a experiência de assistir a algo, a audiência não se preocupa com nada além dos problemas sugeridos pelo enredo do filme em si, que são sempre resolvidos em sua totalidade até o fim da obra. O espectador não sai do cinema com dúvidas, com questões abertas do enredo para pensar ou com a sensação de que algumas coisas passaram despercebidas: o filme tem apenas a função de identificar os desejos e de satisfazê-los.

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Na criação da obra de arte

Texto originalmente escrito para a disciplina Cinema e Estética, referente ao quarto período do curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal Fluminense.

 

O verbo “criar” e o substantivo “criação” são ordinariamente utilizados mal. Com eles as pessoas pensam estar se referindo a um novo objeto, de modo que um artista quando pinta um quadro o cria, mas isso evidentemente não caracteriza um ato de criação. Ao que se sabe a natureza do universo é tal que qualquer coisa física apontada como nova não passa de um rearranjo de coisas já existentes. É preciso salientar novamente que ao que se sabe da natureza do universo não há nada nela que permita ele próprio estabelecer uma diferença entre dois objetos. Enquanto eu, um indivíduo, olho para duas árvores uma ao lado da outra e reconheço que se tratam de fato de duas árvores, o próprio universo não dispõe de dispositivos que diferenciem os átomos que compõem uma árvore dos átomos que compõem o ar que cercam a árvore, e nem dos átomos que compõem o chão e menos ainda dos que compõem a segunda árvore. Isto é, toda a estrutura de átomos organizados uns aos lados dos outros é apenas uma só.

A percepção do indivíduo, entretanto, reconhece nessa estrutura de átomos determinados padrões. Não só reconhece os padrões como os associa a conceitos conhecidos, os nomeia e os assimila. E aí encontra-se a única criação possível: no além da fisicalidade das coisas, na própria relação delas com o indivíduo; especificamente, na apreensão única que o indivíduo tem das coisas e na atribuição de valores que ele as faz.

Utilizar o termo “criar” em “criar uma obra de arte” não é incorreto sob esse ponto de vista, é apenas algo mal conduzido. Uma nova poesia ou um novo filme de fato não adicionam nada novo à configuração do universo senão um novo padrão que passaria desconhecido como novo se não fosse pela percepção e atribuição de valores humanos. O que o artista faz é portanto colocar como objeto de apreciação um próprio padrão capaz de proporcionar apreensão e atribuição de valores.

O indivíduo parece ser capaz de apreender e atribuir a todas as coisas que percebe, mas esse é um terreno bastante desconhecido. A atividade apreensiva e atributiva aparenta se dar de maneira diferente quando o indivíduo percebe obras de arte em relação ao seu lidar diariamente com outros padrões, como os que estão em sapatos, em nuvens, em paredes e todas as outras coisas que compõem o ambiente que o cerca. Por isso há de haver uma diferenciação entre relações que podem ser definidas como experiências estéticas e as que não o são. Se uma parte do ato de criação é criar padrões tais que contenham em si a potência de serem experiências estéticas, de que maneira a relação com, digamos, um filme é diferente da relação com, digamos, uma camiseta? Primeiro, na experiência estética todas as atitudes perceptivas estão voltadas para o objeto apreciado, e segundo, depois da experiência estética resta o conhecimento.

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A Vida e os Papéis de Carmen Santos

Texto originalmente escrito para a disciplina de História do Cinema Brasileiro, referente ao terceiro período do curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal Fluminense.

 

Carmen Santos na capa da revista Scena Muda nº 538, de 1931.

Maria do Carmo Gonçalves nasceu em Vila Flor, no norte de Portugal, em 8 de junho de 1904. Mas foi no Brasil que fez história: imigrou aos oito anos com a família, abandonou a escola para trabalhar pregando botões e estreou como atriz aos quinze, em 1919. Seus três primeiros filmes, entretanto, Urutau (1919), A Carne (1924) e Mademoiselle Cinema (1925) nunca foram exibidos ao público e Carmen só foi aparecer nas telas em Sangue Mineiro (1929), filme dirigido por Humberto Mauro, com quem faria muitas parcerias nos anos seguintes.

A divulgação desses filmes feitos em cima da figura de Carmen fez com que ela adquirisse status de estrela de cinema ao longo dos anos 20, algo completamente novo ao cinema brasileiro, estampando revistas, distribuindo autógrafos e recebendo inúmeras cartas de fãs apaixonadas. Mas foi atrás das telas que deu sua maior contribuição ao cinema no Brasil: como produtora, não só financiou projetos de extrema importância como também foi diretamente responsável pelo sucesso da carreira de grandes nomes como Humberto Mauro e Adhemar Gonzaga.

Carmen Santos fundou a Film Artístico Brasileiro (FAB) e a Brasil Vita Filmes, produtora de grande importância para o desenvolvimento do cinema sonoro no país. Atuou ainda em Onde a Terra Acaba (1933), de Octávio Gabus Mendes, e Favela dos Meus Amores (1935), Cidade Mulher (1936) e Argila (1940), os três dirigidos por Humberto Mauro, além da participação no lendário Limite (1931), de Mário Peixoto.

Seu maior projeto foi Inconfidência Mineira (1948), filme baseado no episódio histórico de mesmo nome, no qual Carmen foi não só atriz e produtora mas também diretora – das primeiras do Brasil, junto com Cléo de Verberena e seu O Mistério do Dominó Preto (1930) e Gilda de Abreu e seu O Ébrio (1946).

Entre seus trabalhos como atriz, seu legado como produtora e seu pioneirismo como diretora, hoje sabemos de Carmen Santos apenas pelos inúmeros registros que há de sua vida e obra em revistas e jornais. Dos filmes, apenas Sangue Mineiro, Argila e Limite sobreviveram aos dias atuais, o restante foi irremediavelmente perdido em incêndios que abastaram seus próprios estúdios em 1958, seis anos depois de ter morrido devido a um câncer aos 48 anos.

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De RO pra RJ, faculdade e outras coisas #2 – Algumas HISTORINHAS

Ainda sobre minha mudança pra Niterói, reuni algumas HISTORINHAS das coisas que aconteceram durante o processo. Não rendem posts separados, mas são curiosas suficiente pra serem citadas. Clique para ler o primeiro post e entender a coisa toda.


1 – O contador de histórias no ônibus

Recapitulando:

2. A primeira vez em Niterói, Fevereiro/2016

Visto que já constava na lista de aprovados o meu nome, começava a parte de fato complicadassa: me mudar pro outro lado do país.

A coisa mais importante de se mudar pra outro lugar é ter um lugar para onde se mudar; como não tenho nenhum parente, amigo ou mesmo inimigo em terras cariocas, tive que resolver a coisa toda eu mesmo: umas cinco horas num ônibus pra chegar em Porto Velho, capital de Rondônia, onde peguei um avião pro Rio de Janeiro – mais umas oito ou nove horas, contando a conexão em Brasília.

Opa, corta! Começarei a contar mais ou menos nesse ponto: no ônibus. Entrei nele às 16 horas e sentei ao lado de um jovem completamente despojado, esticado na cadeira, com os pés na janela e um boné sobre o rosto; me acomodei elegantemente  e tudo permaneceu assim, calmo (o rapaz aparentemente dormia, ou fingia dormir), por uns quarenta ou cinquenta minutos, até o momento em que fomos todos surpreendidos por uma freada brusca.

As rodovias intermunicipais rondonienses são rodeadas por floresta amazônica, mato, capim e apenas isso. Aliás, já fica aí algo que não parece existir aqui para os lados do Rio de Janeiro: em Rondônia, entre uma cidade e outra há uma separação física gigantesca onde ninguém ousa viver. Dito isso, fica evidente que se o ônibus para do nada, no meio do nada, todo mundo pensa “pronto, fodeu”. E como eu tinha hora marcada pra chegar ao aeroporto, não só pensei “pronto, fodeu”, mas pensei “pronto, fodeu demais”.

Pelo fato de ter comprado minha passagem antecipadamente, meu assento era o de número 1, o que significa dizer que eu estava sentado na janela frontal e vendo absolutamente tudo que o motorista via – exceto que o ônibus tinha dois andares, por assim dizer, e eu estava no de cima enquanto que o motorista no de baixo. De qualquer forma, olhei pra frente tentando identificar o que causara a freada e vi lá um carro parado na nossa frente, o que rapidamente me levou a concluir que, wow, o motorista do ônibus foi obrigado a frear inesperadamente porque esse carro à nossa frente também freou inesperadamente. Antes de identificar porque diabos o carro da frente havia freado e nos obrigado a frear pra evitar um acidente, o rapaz ao meu lado se levantou de SUPETÃO e disse:

– Puta que pariu! Arrumaram esses buracos esses dias e já tá tudo lascado de novo! Esses caras são fodas! O dinheiro da gente vai pro lixo, não sei pra quê eu pago imposto!

Num movimento encéfaloperistaltico, minha massa cinzenta resolveu observar à frente do tal carro e vi lá um buraco na estrada. Liguei A com B e depois com C e ficou evidente que aconteceu o seguinte: o motorista do carro foi surpreendido pelo tal buraco, só o percebeu quando já estava em cima, e freou pra evitar merdas, depois, o motorista do ônibus percebeu que o motorista do carro havia parado de se mover, e pra evitar acidentes também pisou no freio. Aí, enquanto o carro e o ônibus voltavam a acelerar muito lentamente por sobre o buraco, olhei pro rapaz e disse:

– Pois é.

E então, bem, começamos a conversar.

Quer dizer, ele começou a conversar. Eu pensei em me suicidar umas onze vezes durante a conversa e me limitei a apenas responder o que ele dizia, sem instigar novos assuntos: o cara era ou um puta mentiroso ou o próprio Indiana Jones.

Digo isso porque ele não parava de contar suas aventuras, o que não é nada absurdo visto que até eu posso contar aventuras e estou fazendo isso agora, na verdade, mas suas histórias simplesmente não condiziam com a realidade: pelo que disse, ele já tinha morado uns anos no nordeste, outros em minas gerais, outros na bolívia, outros no paraguai, tinha também passado uns anos fazendo transporte de bovinos pelo país com um tio… por aí vai. E já julgando o livro pela capa: ele não parecia ter mais que, sei lá, vinte e cinco anos.

O sentimento de “para de inventar coisa, cara, por que cê tá fazendo isso?” já havia me consumido por completo – claro que talvez todas as milhares de histórias que ele contou sejam verdadeiras, mas, de novo, ou sua imaginação era colossal ou ele tinha uns dez mil anos de vida – quando o sujeito me perguntou pra onde ia e respondi “bem, Niterói, no Rio de Janeiro”, ele:

– Oloco! Rio de Janeiro? Vai mudar da água pro vinho, hein?

Eu já ia dar meu “Pois é…” quando me interrompeu:

– Já estive lá, fui numas festas. Aquele pessoal é tudo louco!

E danou de contar sobre aventuras envolvendo playboys cariocas, favelas e bailes funks. A essa altura eu finalmente estava interessado em saber onde é que a coisa toda ia parar, mas acabou que o ponto dele chegou e segui sozinho o resto da viagem.

2 – A senhora passando mal

Nah, só uma senhora no assento de traz que chamou o comissário de bordo logo que o avião saiu do chão. Ele fez umas perguntas básicas pra identificar o problema e até eu fiquei assustado quando ela disse que não comia algo “desde as dez horas” (eram sei lá, quatro e pouco da manhã). O rapaz saiu na hora e trouxe o que eles chamam de sanduiche (eu de pão com mortadela), e aí parece que ficou tudo bem. Ele até perguntou “quer que eu pergunte se tem um médico no avião?” e ela “não, não”. De qualquer forma, deu tudo certo daí em diante, aparentemente.

3 – Taxista legalzão

Em terra, no Rio de Janeiro, o próximo passo era chegar ao hotel que já estava agendado: peguei um táxi na porta do aeroporto e veio logo o primeiro baque: R$ 125,00. Estava acostumado com os táxis rondonienses, que cobram R$ 4,50 e te levam pra qualquer lugar da cidade, mas fazer o quê, né? Táva ali com as mãos praticamente amarradas, visto que não conhecia ninguém das redondezas e só tinha como guia um celular com acesso horrível a internet, então fui.

taxista

Não faço ideia de quem seja o cara aí da foto, mas todos os taxistas cariocas são clones dele.

Mas acabou que o taxista era um cara muito bacana e as meia hora que passei dentro do carro foram bem legais, porque depois que contei que era de Rondônia, ele resolveu ir me contando sobre onde estávamos. Fomos passando pelos lugares e ele foi explicando – destaque pra base da marinha, lugar que já conhecia pelos livros de história, mas ele me contou sobre a construção da ponte Rio-Niterói, sobre as plataformas de petróleo, sobre os submarino, sobre a “região serrana do rio”.

Ah, obviamente ele também reclamou da Dilma e disse que o Lula foi uma das maiores enganações que ele já viu, que fazia parte de sindicatos e o cara surgiu como um grande nome, por aí vai. Eu, que vinha quieto, vi uma oportunidade de falar algo e perguntei sobre as perspectivas pra 2018. Fiquei (positivamente) surpreso quando percebi que ele não sabia quem era Bolsonaro.

De tão bacana, o tiozão até se despediu com um “boa sorte, garoto” – sem contar que ligou pro hotel pra descobrir o endereço deles porque eu tinha anotado de forma confusa.

4 – Mais um contador de histórias no ônibus, mas real desta vez

Lá ia eu, fazendo pela segunda vez o mesmo caminho descrito no começo do post, no busão pra capital de RO e depois no avião pro RJ. A diferença é que dessa vez era definitivo, estava (v)indo pra ficar e não pra visitar apartamento, o que quer dizer que por dentro de Keven Fongaro estava todo um clima de fodam-se essas pessoas, logo estarei do outro lado do país e não existe a menor possibilidade de revê-las, quando PLAU, sou surpreendido por uma história de vida digna de Programa do Gugu!

Basicamente, chegou um homem com uma menina de uns cinco anos e eles se sentaram nos assentos da fileira do outro lado do corredor. Eu, no maior clima de foda-se, nem me toquei, mas o outro homem sentado do meu lado puxou assunto e os dois foram conversando. Passei a viagem toda (umas seis horas) ouvindo o papo, e não me sinto deselegante de contar aqui porque as pessoas das cadeiras ao redor se juntaram e no fim das contas ficou claro que meio que ele conta a história pra qualquer um que quiser ouvir.

Seguinte, a menina tomou alguma coisa que não devia e ferrou com o próprio estômago. Alguma coisa que a mãe passava no cabelo, algo me diz que era água-oxigenada, mas já não tenho mais certeza. De qualquer forma, ela tinha uns dois anos quando fez isso, e evidentemente essa arte-de-crança acabou ferrando não só o estômago como também os pais.

A garota ficou alguns meses em coma, segundo o pai, até porque foi daqueles casos em que vários médicos falaram que não tinha solução antes de algum deles aparecer com um tratamento supercaro, o que foi uma luz no fim do túnel que significava apenas um próximo túnel, porque os pais não tinham dinheiro. E, pra piorar, a mãe os abandonou. Ficou lá aquele pai com uma criança em coma, precisando de um tratamento que ele não poderia pagar e, ainda por cima, sem ajuda (financeira e pessoal) da mãe.

Ele fez o que deu: largou tudo e pediu socorro pra todo mundo que conhecia, e as pessoas socorreram. Acabou que através de uma vaquinha ele conseguiu se mudar com a menina pra São Paulo, especificamente pro Hospital das Clínicas de São Paulo, onde, segundo ele, conseguiu viver graças à ajuda das outras pessoas que frequentavam o hospital, ONGs, doações, esse tipo de coisa. Ficou sem trabalhar porque passava o dia inteiro lá com a filha.

A filha, aliás, começou a passar por várias cirurgias e não dava em nada. Com o passar dos anos, começou a progredir, eventualmente. O pai não explicou o processo detalhadamente, mas ele ficava dizendo que era milagre e que os médicos sempre passavam prognósticos negativos e tudo mais. Foda.

Daí chegamos no ponto em que encontramos o cara na viagem: a garota lá, andando, falando, brincando, enfim, mó boa. O cara até mostrou a cicatriz que ela tinha ao lado do umbigo. Pelo que entendi, eles estavam voltando pra sampa pra mais uma sessão-de-alguma-coisa e se ver livre do problema pra sempre.

5 – Mais caras estranhos tendo conversas esquisitas

Só que no voo Brasília-Rio de Janeiro, os dois acentos ao lado do meu foram ocupados por uns jovens que ficaram umas três horas conversando sobre a maneira que a mídia lidava com alguma secretaria do DF em que eles trabalhavam. Três horas, santa mãe de deus. Foi insuportável.

6 – Uma japa mó <3 no aeroporto

Estava eu aproveitando as comodidades do aeroporto, lugar que descobri que adoro, simplesmente sentado e olhando a alta movimentação de pessoas, esperando as estatísticas agirem e me proporcionarem um acontecimento interessante… e aconteceu: uma garota me veio pedir doação.

E foi bem estranho num primeiro momento porque ela só entregou um panfleto e estendeu a mão. Fiquei todo mas que diabos?, li o panfleto rapidamente e vi que falava alguma coisa sobre crianças famintas, olhei pra garota e ela só dizia “obrigado, obrigado” num sotaque muito esquisito.

Como ela tinha todo o biotipo do estereótipo asiático, logo supus que ela não fosse brasileira e não falasse português, mas fui surpreendido. Depois de analisar o panfleto, eu murmurei uns “quê?” enquanto meu cérebro decidia se ia escorrer pelo lado esquerdo ou pelo lado direito, então ela tentou soltar explicações. Falou muito esquisitamente sobre “doação” pra “ajudar crianças”, e no meio soltou um termo em inglês. Pensei, oh!, tá aí, uma oportunidade pra usar meu inglês.

E isso foi bem importante. Digo porque eu entendo inglês muito bem há bastante tempo, mas sabe como é, lá em Rondônia eu nunca tive oportunidade de testar na prática, sabe? Respondi a garota em inglês e ela fez uma expressão que claramente dizia rá!, até que enfim, posso me expressar.

E deu tudo certo. Ela explicou a coisa toda detalhadamente e ainda perguntou sobre mim. Contei pra ela que estava de mudança, tentei fazer ela entender que picas de estado é Rondônia – inclusive, falei que ficava do lado/dentro da Amazônia, porque todo gringo conhece a Amazônia, e ela respondeu com Amazônia? Aquele lugar onde as pessoas são tipo…? e bateu com a mão na boca, imitando um índio. Me senti bastante ofendido, mas ela era tão legal e cute que só respondi é, mais ou menos, não exatamente, sabe… de maneira bastante desconcertada. No fim das contas doei 20 reais, que era o que eu tinha no bolso, e ficou por isso mesmo.

A maior parte do que aconteceu a partir daí já foi contada no outro post sobre a mudança, mas, bem, o resumo é que saí de lá e cheguei aqui – como essa era a meta desde o começo, a conclusão desses dois posts é:

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Seis pontos de The Avengers que se relacionam com a Hollywood Clássica

Texto originalmente escrito para a disciplina de História do Cinema Mundial, referente ao primeiro período do curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal Fluminense.

 

FICHA TÉCNICA:
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Título: Os Vingadores – The Avengers (Original: The Avengers)
Direção: Joss Whedon
Lançamento: 2012
País: Estados Unidos da América
Duração: 143 minutos
IMDB8,1/10

O lançamento de Os Vingadores – The Avengers, ou simplesmente Os Vingadores, em 2012, impactou a produção e o consumo de material cinematográfico de tal maneira que ainda não somos capazes de identificar os limites das mudanças ocasionadas. Fato é que ao ultrapassar a marca do bilhão de dólares e se tornar uma das maiores bilheterias de todos os tempos, o filme apresentou à indústria o potencial escondido num gênero pouco explorado.

Assim, nos anos seguintes os filmes de super-heróis dominaram o mercado de blockbusters, contando não só com sucesso de público e crítica, mas também com o interesse e empenho de investidores e grandes nomes dos bastidores do cinema. Com bilheterias cada vez maiores – em fato, a partir de 2012 sempre houve ao menos um filme de super-heróis no Top 4 de bilheteria mundial, sempre rondando bilhão de dólares -, observamos a crescente contratação das maiores estrelas de Hollywood, bem como a entrada de grandes diretores e roteiristas no gênero.

Para entender o que fez d’Os Vingadores um filme a ser seguido como modelo por muitos outros que obtiveram igual sucesso – não só do gênero de super-heróis, as produções cinematográficas em geral sofreram influências significativas –, proponho observar as origens do chamado Cinema Clássico Americano e estabelecer as cabíveis relações, evidenciando, assim, a maneira com a qual a construção de tal blockbuster encontra suas explicações nos primeiros passos de Hollywood. Para tanto, é necessário que tenhamos determinados conhecimentos:

1. Em relação ao Cinema Clássico Americano (uma breve visão geral)

Com o Cinema Europeu abalado pela Primeira Guerra Mundial (1914-1918), os realizadores estadunidenses se deparam com uma situação favorável e começam a se desenvolver. Ao longo da década de vinte do século passado, há a aparição de vários diretores e estúdios, que se tornaram responsáveis por estabelecer um modelo de produção e consumo de Cinema que foi absoluto até meado dos anos sessenta do Século XX, apesar de ter deixado rastros dominantes também nas obras do Século XXI.

Entre as principais características desse período que se convencionou chamar de Cinema Clássico Americano ou Era de Ouro de Hollywood, talvez a de maior impacto tenha sido o Star System – uma mudança na forma de produzir que passou a dar grande destaque aos atores, tornando-os simpáticos ao público, que passou a assistir aos filmes pelo fato de contarem com a presença das estrelas hollywoodianas. Foi uma estratégia extremamente funcional adotada pelas crescentes produtoras (FOX, M.G.M,. Paramount, Universal, e outras) que ocasionou um exponencial lucro em produções que, sem os astros para atraírem o público, não trariam retorno financeiro.

Assim, os investidores passaram a injetar cada vez mais dinheiro em grandes produções: grandes estrelas, grandes cenários, melhores profissionais de som e imagem disponíveis, maquiadores e equipamentos – esses altos investimentos resultaram num determinado método de produção no qual os filmes produzidos seguiam instruções dos estúdios que cobriam desde aspectos técnicos até os enredos escritos, em outras palavras, é possível dizer que nesse momento houve o aparecimento de características fordistas na indústria cinematográfica estadunidense.

Observa-se também que as narrativas fílmicas continham começo, meio e fim, contando a história de um personagem principal geralmente homem (ou de um casal heterossexual) que era introduzido com determinada situação de vida estável no primeiro ato do filme, passando por conflitos no segundo ato e resolvendo-os e retornando à normalidade no terceiro.

Isso tudo havia de ser contado com coerência, de maneira clara e que não confundisse o espectador. Para isso, também surgiram técnicas e instruções, sendo algumas: filmes passaram a se dividir em gêneros narrativos com linguagem específica, a câmera se movimentava e expunha os acontecimentos de vários pontos de vista, regras de continuidade e utilização de flashbacks.

Além disso, vale destacar que após a Crise de 1929, o Cinema hollywoodiano teve participação fundamental como agente não só financeiro, mas também trabalhando a identidade moral da população, por isso os filmes desse período tendiam a enfatizar valores morais e o lado humano das personagens.

2. Em relação ao filme (um resumo dos principais pontos da trama)

Os Vingadores inicia-se apresentando as instalações da agência de espionagem S.H.I.E.L.D. e o roubo de um item por ela guardado, o Tesseract, uma aparente fonte de energia com potencial desconhecido. Sabendo ser Loki o autor do crime e da iminente ameaça que a posse do Tesseract poderia causar à raça humana, o diretor Nick Furry decide por buscar a ajuda dos terráqueos mais poderosos catalogados pela S.H.I.E.L.D., sendo eles Tony Stark, Bruce Banner e Steve Rogers.

Ao observar esse breve resumo do primeiro ato do filme, onde somos introduzidos ao mundo no qual se passa a narrativa, quais são os personagens e suas motivações, presumimos que uma série de perguntas devem surgir à mente do espectador – “O que é o então chamado Tesseract? Quem é Loki? Quem é Tony Stark? O que é S.H.I.E.L.D.?” –, mas isso não acontece: eles já entraram na sala de cinema com algumas informações.

Tratando-se de uma sequência que estabelece relações entre outros filmes da produtora, a Marvel Studios, Os Vingadores constrói seu primeiro ato com a ajuda das obras que o precedem. O espectador já conhece Thor, o Tesseract e Loki de Thor (2011); Steve Rogers e a S.H.I.E.L.D. de Capitão América: O Primeiro Vingador (2011); Tony Stark, Phil Coulson e Natasha Romanoff de Homem de Ferro 2 (2010); Bruce Banner de O Incrível Hulk (2008), e assim por diante.

Com isso, logo nos primeiros minutos de filme somos reintroduzidos a um mundo em que as coisas estavam em ordem na última vez que o vimos – após a mudança no status-quo causada por Loki, acompanhamos Natasha Romanoff (ou Viúva Negra) recrutando Bruce Banner (ou Hulk), Phil Coulson solicitando a ajuda de Tony Stark (ou Homem de Ferro), e o próprio Nick Furry encarregando-se de Steve Rogers (ou Capitão América).

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Loki surge como vilão logo no primeiro ato do filme, trazendo à tona o conceito de universo cinematográfico.

Com os superpoderosos reunidos para recuperar o Tesseract, estes voam para a Alemanha para impedir Loki de roubar irídio, material necessário para estabilizar o artefato que havia roubado e usá-lo para trazer criaturas alienígenas para atacar e dominar a terra. Uma vez alcançado o objetivo, os heróis retornam para as instalações da S.H.I.E.L.D. escoltando Loki num avião que acaba interceptado pelo seu irmão, Thor, ocasionando assim uma batalha entre os vários poderosos presentes.

Após brigarem, Thor, Steve Rogers, Tony Stark e Natasha Romanoff racionalizam e decidem reunir esforços para descobrir onde está o Tesseract e impedir o plano de Loki de se concretizar. Entretanto, um ataque dos aliados do vilão faz com que Bruce Banner fuja do controle e assuma a identidade de Hulk, ocasionando uma gigantesca confusão na sede da S.H.I.E.L.D. que culmina na separação dos heróis, morte de Phil Coulson e fuga de Loki.

Dirigindo-se à Torre Stark, Loki inicia a abertura do portal utilizando o Tesseract. Tony tenta impedi-lo, mas acaba sendo arremessado pelo vilão do alto do prédio e salvo por sua armadura superpoderosa antes de tocar o chão. Assim, o portal se abre e o planeta é invadido.

Diante da situação, a S.H.I.E.L.D. resolve adotar medidas emergenciais e utilizar-se do fato dos alienígenas estarem centrados num ponto, atacando-os com uma bomba em um míssil. Num ato final, Tony Stark segura o aparato e guia-o para a nave-mãe dos invasores no exato momento em que seus companheiros conseguem fechar o portal.

Com Loki deixando de ser uma ameaça, este segue sob os cuidados de Thor para sua terra natal, ao passo que o restante do planeta volta a se reencontrar com seu estado de paz e protetorado dos heróis.

Uma vez evidenciados os principais pontos em relação ao filme Os Vingadores e ao denominado Cinema Clássico Americano, podemos, finalmente, estabelecer e analisar algumas das relações existentes entre os dois temas, hora relações de semelhança e hora relações de diferença. São elas:

1. A participação do estúdio

Propondo-se a criar um universo cinematográfico, ou seja, um espaço em um mundo fictício que é explorado em diferentes filmes de maneira coesa e sem que aja contradição, a Marvel Studios teve que arranjar meios para fazer isso acontecer.

Geralmente a indústria cinematográfica mantém a coesão, em primeiro lugar, garantindo que filmes sequenciais sejam feitos pelos mesmos realizadores (diretores e roteiristas, principalmente) – prática não adotada pela Marvel Studios, que investe em novos nomes sempre que expande seu universo fílmico. Assim, optaram por subordinar e limitar seus realizadores a uma mente criativa única, Kevin Feige.

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O tal do Kevin Feige.

Partem de Feige instruções sobre como os filmes devem ser realizados. Assim, através da sua figura o estúdio é capaz de controlar e garantir uma série de características às obras, de modo que, mesmo em filmes escritos e dirigidos por artistas com concepções completamente diferentes, o espectador consegue observar a sequência do universo cinematográfico existente entre um e outro.

Esse controle criativo exercido pelo estúdio é tão notável que ao longo das produções alguns profissionais acabaram abandonando os projetos, como aconteceu com Edward Norton em Os Vingadores. O ator que havia interpretado Hulk no filme anterior alegou incompatibilidades criativas e logo fui substituído por Mark Ruffalo, encarregado de interpretar o mesmo personagem de seu predecessor – sob controle de Kevin Feige, mesmo que Hulk em Os Vingadores tenha sido escrito, interpretado e dirigido por pessoas diferentes do Hulk em O Incrível Hulk (2008), o espectador compreende que se trata do mesmo personagem a despeito de sua aparência. Continue lendo

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Como está sendo, afinal, cursar Cinema

Sexta-feira passada (dia 05) aconteceram duas coisas importantíssimas no Rio de Janeiro: a abertura das Olímpiadas, e minhas férias que finalmente começaram. Isso significa que o primeiro semestre/período da faculdade de Cinema e Audiovisual que estou cursando na UFF acabou, e eu tenho algumas coisas pra relatar aqui.

Seguinte, acabei de sair do Ensino Médio e não fazia a menor ideia de como funcionava um curso universitário, então os pontos que vou levantar aqui são exatamente os que cansei de pesquisar antes de fazer minha inscrição e não encontrei: afinal, o que diabos acontece num curso de Cinema?

Não assistimos tantos filmes quanto achei que assistiríamos

Antes de entrar, minha ideia mais básica de como seria o curso era de que nós assistiríamos incontáveis filmes e os professores explicariam sobre os processos de produção. Pensava que o ponto da coisa toda era estudar como os filmes são feitos, e que não teria jeito melhor do que analisá-los.

Rapidamente percebi que isso não acontece, e o porquê acabou sendo bastante óbvio. Em primeiro lugar, o problema do tempo: a maioria dos longa-metragem tem entre 1:30h e 2h, o que significa que se nós assistíssemos a um por aula já não restaria tempo pro professor ensinar nada. Quer dizer, você pode ler um livro de 100 páginas em um dia ou em uma semana, mas um filme de duas horas sempre vai levar duas horas pra ser assistido.

Esse problema do tempo limita bastante o número de longas que vemos, porque ou usamos a aula pra ver filme ou usamos a aula pra ouvir o professor falar, sabe? O resultado é que não assistimos tantos longas quanto esperava, e no fim das contas acabamos vendo muitos (muitos mesmo) curta-metragens e fragmentos (a cena que importar para a aula) de longas.

Mas calma que isso se resolve de outro jeito: muitas recomendações e indicações

A parte boa de assistir trechos de longas ou curtas metragens é que em três minutos você descobre a existência de um filme excelente que era totalmente desconhecido. Sempre anoto de onde vem as cenas que vemos em sala para poder ver o filme completo em casa, com isso pude assistir filmes ótimos que não passam na TV e nem são recomendados por amigos.

Aliás…

Muita interação fora de sala

Nós temos muitos grupos no Whatsapp e no Facebook. Muitos mesmo: tem grupo pra cada matéria, tem grupo pra quem é calouro, tem grupo pra quem é do curso, tem grupo só pra quem cursa licenciatura… E é tudo bastante ativo.

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Imagino que em 2016 esse tipo de interação aconteça em todos os cursos, mas no de Cinema você tem o bônus de ser informado de inúmeros eventos que acontecem na cidade. Eu não fazia ideia que aconteciam tantas mostras culturais, exibições gratuitas e cineclubes por aí.

Percebe? Por um lado nós não assistimos muitos filmes em sala, mas fora dela só fica sem assistir filme quem quer (ou quem não tem tempo, evidentemente). Os próprios professores e os alunos divulgam essas coisas, e destaco que a quantidade é realmente surpreendente. Se eu que mal converso com as pessoas recebo tantos convites pra eventos no Facebook, imagino aqueles caras que são amigos de todo mundo.

Ah, e esse tipo de interação entre os alunos que acontece nas redes sociais vai além do consumo de filmes e entra também na produção. Sempre vejo nas timelines algum pedido/oportunidade de participar de alguma gravação: é muito comum que algum aluno esteja fazendo algum filme e precise de ajuda com alguma função, e é muito mais fácil simplesmente pedir ajuda de outros alunos que sair por aí procurando um profissional que cobre fortunas e tudo mais.

Incentivo e suporte à produção

Então, eu particularmente tô no curso pra aprender – minha intenção é muito mais colocar ideias na minha cabeça do que tirar elas de lá –, mas já deu pra notar que o pessoal afim de produzir tá num ótimo lugar.

Em primeiro lugar tem os dois pontos que já citei: a interação é tão grande que é muito fácil conseguir outros alunos interessados em ajudar na filmagem, e através deles você também vai ficar sabendo de muitas oportunidades de concursos publicos/privados que financiarão sua produção, mostras para inscrever seus filmes e tudo mais.

Em segundo lugar, há de se destacar que a própria universidade dá um incentivo bem bacana. A UFF tem equipamentos de filmagem que os alunos podem acessar gratuitamente, mas é claro que, como existem mais pessoas querendo usá-los do que equipamentos disponíveis, é preciso enfrentar certa burocracia pra isso, até porque os alunos usando os equipamentos pra atividades de sala de aula tem prioridade pra uso e tudo mais.

Além das câmeras e microfones, eles também oferecem espaço pra exibir. Existem algumas salas com projetores que os alunos podem simplesmente agendar um horário e exibir seus próprios filmes. Inclusive, sempre vejo nos grupos de Facebook algum aluno convidando pra exibição de seu filme.

É curioso ver a quantidade de filmes produzidos por alunos da universidade que são exibidos na universidade, filmados na universidade e com equipamentos da universidade. É algo que acontece com tanta frequência que vez ou outra ouço alguma história de alguém que faz tudo pra não se formar, simplesmente porque fora da faculdade é mais difícil de produzir do que dentro dela.

A conclusão é que, apesar de não ser minha intenção, o curso de Cinema é definitivamente um bom lugar pra você estar se sua intenção for colocar a mão na massa e gravar algum filme.

A maior parte do conhecimento não vem do professor: debates, muitos debates

Depois de todos esses anos no Ensino Fundamental e Ensino Médio, a palavra “aula” traz à minha mente a imagem de um professor tentando transmitir algum de seus conhecimentos para os alunos. Agora estou espantado porque percebi que a faculdade funciona exatamente do jeito contrário.

De todo o tempo que passamos estudando algum assunto em sala de aula, só uma parte muito pequena consiste no professor dando explicações. Geralmente ele só escolhe um assunto, pede pra lermos alguns textos em casa e quando chega a hora da aula todo mundo discute.

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influência gritante desse cidadão: Paulo Freire.

E, assim, discussão mesmo, cara. Os alunos dão seus pontos de vista, argumentos, rebatem uns aos outros, e por aí vai. Nunca tinha visto esse tipo de coisa acontecer na escola, mas o fato é que a maior parte das coisas que aprendi na faculdade vieram de outros alunos e não do professor em si.

Dos professores que tive até agora, só um usa o método clássico de ensinar (parar na frente do quadro e dar explicações), mas mesmo assim é comum a aula dele ser interrompida por alguma troca de ideias com os alunos. Aliás, isso me faz pensar que não deve ser assim em todos os cursos: penso que deve ser algo com os cursos artísticos. Digo, não sei, Pintura, Cinema, Música, Poesia… Meio que não tem um jeito certo de fazer pro professor poder ensinar. Cada qual faz da sua maneira e o que dá pra fazer é promover uma troca de ideias, imagino.

De qualquer forma, por um lado dá pra dizer que definitivamente funciona, porque com esse método eu consegui aprender bastante sobre todos os assuntos levantados pelos professores. Mas por outro lado, percebo que perdemos bastante coisa porque nossos professores parecem todos muito capacitados. No meio das conversas dá pra notar que eles sabem bastante sobre Cinema, mas com esse esquema de debates eles só falam quando são perguntados ou quando o assunto surge. Dá a impressão que se as aulas fossem do jeito tradicional eles conseguiriam ensinar muito mais coisas.

Mas quer saber? Isso faz das aulas bem mais interessantes. Poucas vezes fico com vontade de dormir ou com os pensamentos em outros lugares. Em outras palavras, as aulas do curso de Cinema são bem mais legais que as aulas do Ensino Médio, não só por ser uma área que me interessa, mas principalmente pelo jeito que os professores fazem o trabalho deles.

Enfim, senhores… Por enquanto o que tenho pra relatar das aulas Cinema e Audiovisual é isso: não assisti muitos longas em sala, passei a conhecer alguns filmes excelentes através das infinitas recomendações, os alunos estão o tempo todo produzindo porque dentro da universidade isso é bem mais fácil do que fora, e as aulas são baseadas em trocar ideias.

Resumindo tudo, tá sendo bem legal. Se você caiu nesse post querendo saber se vale a pena ou não, minha impressão depois desse primeiro semestre é a de que curso é bastante, digamos, útil, tanto pra quem quer puramente aprender quanto pra quem quer botar a mão na massa e filmar algo – então pode ir sem medo de se arrepender, eu diria. No fim do próximo semestre eu volto aqui pra contar se algo mudou ou se reparei em coisas novas. :)