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O que significa querer

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Ensaio a partir de um caso meu, mas do mundo

Sendo um homem a princípio hetero, eu quis muitas meninas e mulheres ao longo da infância e adolescência. Quis no sentido mais tradicional do querer: do desejo grego, da falta pelo que não se tem, da ausência, do espaço vazio que demanda algum preenchimento – o “querer tradicional”, digamos. Esse é um querer que serve para tudo que é coisa no mundo; das pessoas aos sapatos. É, como tal, um conceito majoritariamente inofensivo. Não serve para quase nada, senão para descrever a condição humana. Pouco contribui para transformá-la. Por isso que esse querer morreu; ou no mínimo respira por aparelhos.

É verdade: depois da filosofia existencialista não se pode mais querer da mesma maneira; depois do estruturalismo, do pós-estruturalismo, de um bocado de pessoas reconhecendo o mafuá da vida em comunidade. Existe-se hoje, digo, qualquer um existe hoje, sob o caos mais primordial da história da filosofia, sob o devir, sob o constante fluxo, a constante mudança: o tornar-se que opõe-se ao ser, mas que é, parece, ao mesmo tempo habitado pelo ser. O indivíduo é uma constância no meio do mundo: ele é a sobra da bagunça. Quê há para se querer nesse estado de coisas? Como podemos falar de “querer” sendo assim o mundo? Os atravessamentos são sempre imensos, as experiências perpétuas; o futuro é uma piada. O tornar-se nunca permite alcançar coisa alguma: nenhuma meta há no futuro, nada que possa ser tocado, alcançado mesmo – tudo isso se dá no presente: sem o querer tradicional. Se dá, apenas. Ocorre, só, como fosse ao acaso. Define-se assim o estar inserido no mafuá: um constante tornar-se que vai do indivíduo, ponto de percepção que mantém um nível quase irrelevante de identidade, até o mundo mesmo, que é sempre tão igual em dois momentos quanto o são as águas de um rio.

Mas o mafuá nos traz um novo querer. A morte do querer tradicional se pagou com o nascimento dele. Estar inserido no fluxo, naquilo que nunca foi e que nunca será, mas que sempre se torna – o instante – traz o “querer puro”. O querer que não é querer alguma coisa, mas querer, e só. Um querer que é único no mundo e que nunca se repete em dois instantes, que nunca se guarda para o futuro e que nunca se refere ao passado. Eis o querer puro: um movimento no mafuá. Eis a ironia: o mafuá é a incorporação da maior das resistências. Podemos dizer, o mafuá é o não-organizado, o não-ser, o não-linear: uma negação. Sobretudo, uma negação do que a sociedade demanda com seus braços e instituição: a escola, os hospitais, os mercados, as expectativas sociais, as convenções, enfim, uma série de instantes que tentam forçar-se organizados em nossas vidas. Impossível: o querer tradicional morreu. Não há o linear-organizado, há o mafuá. Negá-lo ou lutar contra ele (isto é, tentar excluí-lo ou privá-lo do indivíduo e da comunidade) é deixar de viver a vida, porque viver é exatamente um movimento no mafuá.

Lembro-me dos professores de escola tentando nos fazer compreender o Reino Animal a partir da capacidade de se movimentar por conta própria; e de alguma relação sendo estabelecida com a origem do termo, animal, animar, anima, alma: do latim, creio, ar, sopro, respiração. Coisas assim. Bem. Um retorno: sendo um homem, só é possível querer tradicionalmente sem uma emancipação dos meios que tentam inibir o mafuá. É também verdade: eles são por demais fortes, os meios. As escolas, principalmente; mas da mesma forma a necessidade do emprego, das oito horas por dia, do salário. Devemos, então, recear falar de “emancipação”, da possibilidade de realmente viver em comunidade completamente integrado ao mafuá. A emancipação completa, parece, não existe – ainda. Não no dia-a-dia propriamente dito, ao menos: vivemos na maior parte do tempo linearmente, inseridos na sociedade organizada. A emancipação e o mafuá ficam restritos às experiências estéticas, às contemplações artísticas, enfim, a alguns recortes da vida. Recortes no tempo e no espaço: os instantes de que falávamos. No pleno mafuá, os instantes confundiriam-se: teríamos que pensar se seriam sequer distinguíveis, se não seria, na verdade, um só tornar-se. Nos parece agora que o instante como tal, como um instante entre outros, só existe em relação a um passado e a um futuro, como fosse um parêntese, uma pausa. Um instante. Um instante de mafuá é o que temos na sociedade linearizada e organizada em que vivemos. Uma loucura! Mas será possível? Como pode as instituições minimamente cogitaram uma negação do mafuá? Como pode vidas inteiras se passarem sem sequer uma percepção do mafuá? Uns nascem e morrem achando que a vida é de fato organizada. Esses só podem querer tradicionalmente: o querer infinito, a tristeza existencial – um erro, não poderíamos dizer de outra forma.

Bem, mesmo. Eu nnão “queria” no sentido tradicional havia alguns anos: uns quatro ou cinco. Coincidiu de, nesse mesmo período, se não emancipar-me, então perceber o mafuá e perceber a negação dele tentando ser imposta em mim. Um olho que se abre cada vez mais a cada dia, ainda que não demonstre nenhum limite para sua completa abertura. Agora, de repente, quis de novo. Mas foi um novo querer. Foi aquele querer puro, o querer próprio ao mafuá. Ainda assim, e para minha grande surpresa, um querer que se mostrou como sendo um gesto de amor: um querer relacionado a alguns sujeitos.  Ousarei descrevê-lo, esse novo querer.

 

“Querer” é um empurrão que te faz mover-se pelo mafuá; assim, um puxão, uma força, alguma coisa que causa algum movimento. Há aí qualquer semelhança com o querer tradicional: no querer tradicional, aquele que quer, digamos, comprar frutas, executa as ações necessárias para alcançar este objetivo. O querer puro não dispõe de finalidades, e o caminho entre um ponto e outro só existe enquanto se caminha sobre ele, porque os próprios pontos são mais ou menos indefinidos no caos do mafuá, e os lugares já pisados pertencem ao passado, enquanto os passos futuros jamais chegarão – é que no mafuá há apenas o aqui e o agora. Eis o movimento no mafuá: sem rastros e sem trilha; sem de-onde-vem e sem para-onde-vai: apenas o ir. Mas como alguma coisa se move sem uma finalidade? “Mover-se” não é um deslocamento, sair do A e ir para o B? Quê fazer sem o A e sem o B? Não, não é isso o “mover-se”: “mover-se” é uma maneira de descrever uma alternância no estado das coisas. As coisas “eram”, digamos, assim, e agora não são mais: isso “estava” aqui e agora também já não está mais – mas agora, esperamos, está claro: não “era” e não “estava”, porque o mafuá apenas torna-se. Mas há o indivíduo: aquele que percebe o mafuá; aquele que é tocado pelo mafuá, que o vê, que o ouve, que o sente. Parece que se há um ser, há nesse nível apenas: ainda assim, isso exigiria um estudo que aqui não cabe. Em todo caso, o movimento, para o indivíduo, se dá ao nível da percepção: mover-se é perceber o mafuá e se confundir com ele; perceber-se, perceber-se como sendo o próprio mafuá; perceber-se tornando-se indistinguível dele. Mover-se, portanto, requer uma suspensão do passado e do futuro. Uma experiência! Como dizemos, uma experiência com arte ou coisa assim. Mas também uma experiência de amor – uma suspensão do ser e uma elevação do tornar-se que se dá na presença de um outro, por causa dele. Um movimento causado pelo outro.

É próprio do mafuá ser difícil de se explicar. A língua é organizada, as palavras possuem significados prévios, a sintaxe é como é: usar esses meios para falar do mafuá é sempre um trabalho de conversão e de empobrecimento, por definição. Como, digamos, transmitir cores em falas, ou transmitir sons em desenhos, ou representar o 3D em 2D: a velha qualia se perde, parece. Seria mais prudente transmitir a vermelhidão do vermelho mostrando o vermelho, ao invés de falar sobre ele. Assim, também, o mafuá se percebe melhor pelo contato direto com ele: uma sala escura e uma obra audiovisual, lágrimas e lágrimas com aquela música, uma troca de olhares, um abraço. Bem. Para casos assim, podemos recorrer a uma das técnicas mais antigas e, felizmente, funcionais da história da filosofia: as metáforas e alegorias. Ei-la na imagem:

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As teorias de Einstein são frequentemente explicadas com ilustrações como essa. Não nos surpreende: elas são quase autoexplicativas no nível mais fundamental da coisa. Digamos, há um espaço que seria plano como uma tábua, mas aí surge sobre ele qualquer coisa pesada, por exemplo, um planeta, e o espaço se curva e se deforma por causa desse peso. A curva/demonstração, por sua vez, faz com que outros objetos “caiam” em uma determinada direção, com que sejam puxados para o ponto em que o peso se concentra. Para nós, que estamos interessados apenas na metáfora: basta. O objeto do querer (aquilo que se quer), isto é, o objeto do querer no mafuá, do querer puro, é uma perturbação no próprio mafuá. Aquilo que se quer perturba o mundo. “O mundo está aí,” como disseram vários: mas habitar o mafuá, suspender o passado e o futuro e entregar-se ao instante, e perceber-se sendo puxado na direção de alguma coisa que perturba o mafuá, o próprio mundo – isto é o querer.

Este é o querer que nos resta hoje, depois de todos os avanços e emancipações alcançados ao nível pessoal, ao nível da comunidade, e ao nível da história da filosofia. Por sorte, o querer que nos resta é também o mais belo. Ele requer um instante único no mundo, um instante em que tudo se torna e nada é ou foi, mas ele existe belamente – e existe também como gesto de amor, como um querer entre dois sujeitos: dois que deixam todo o resto de lado, que suspendem absolutamente tudo com exceção do próprio mafuá, e que entregam-se a ele, e que experienciam plenamente o instante e a maravilha do tornar-se. Querer como um gesto de amor é, na bagunça do mundo e na ausência do ser, causar uma perturbação mútua no mafuá; uma perturbação que atinge os sujeitos todos, e que os faz moverem-se. “Querer”, no amor, hoje, só pode ser mesmo um movimento na direção do outro.


Nota: o conceito de “mafuá” foi trabalhado nesse texto como uma derivação direta da “Pedagogia do mafuá”, conforme proposta no livro “Inevitavelmente Cinema: educação, política e mafua”, de Cezar Migliorin.