The Church at Auvers Van Gogh

O tempo passa

eu sou deusa, eu sei de tudo, e vejo tudo e conheço todas as coisas. e sou triste. preciso dizer, eu sou triste. sou triste por ele e por ela; as coisas não acontecem jamais e eles vivem dias compridos. e eles sentem o tempo passando por cima deles. parece que dói.

olho e vejo diante dele uma estrada. Ele espera. Um dia prometeu que cruzariam seus caminhos, e nunca essa oportunidade foi concedida; abstenho, eles não tiveram a sorte. vem alguém de bicicleta. vem alguém correndo. alguém, vem alguém. sempre alguém. e enquanto continua assim, a estrada cresce e cresce, e vai dar cada vez mais funda no céu. pra ir embora fica mais difícil. o caminho é maior, ele não tem essa força toda pra chegar no fim. não tem jeito; eu diria, não tem jeito pra ele. vai ter que ficar parado. esperando e esperando. sozinho.

longe de lá ela passeia pelas florestas. duas, três, mil florestas ela visita. em cada floresta conhece as árvores, e a cada árvore faz uma nova promessa. e agora ela prometeu ao mundo todo e não pode mais escapar disso. deve para sempre visitar as florestas e cumprir sua palavra, ou então vai deixar as árvores chateadas. não se pode chatear as árvores; elas nunca esquecem e contam umas às outras, e suas raízes vão fundo embaixo das pedras e guardam lá muito bem o nome de todos que gostam e odeiam. e elas passam a odiar muito facilmente quem as chateia. e ela, eu tenho pena dela. sua primeira promessa foi a ele. agora ela não pode respeitar mais o seu primeiro amor. ela não pode respeitar o seu primeiro amor. parece que dói.

ele espera. a estrada cresce. os rios fazem nascer mais árvores; a chuva vem também para ele. ele diz, eu não ligo!, e espera e espera. faz desenhos na areia e puxa do bolso uma sacola; estica e assobia. só os passarinhos escutam. ele acha os passarinhos bonitos, mas não se importa que eles escutem. ela não escuta. está longe, não vem. a estrada cresceu demais. ela ainda cumpre as promessas às árvores; sabe das consequências, não consegue escapar disso. ela faz, não perde jamais as forças. busca honrar as palavras dadas para a natureza. mas ele. ele. ele não tem mais sobre o que pensar. está cansado. sozinho em sua mente. companhias no mundo não o satisfazem mais. não tem para onde ir. o horizonte acabou. pensa, não tem jeito. … parece que não tem mesmo. estou triste. triste por ele. desiste. desiste, rapaz. algum dia vai morrer aí mesmo. e ela que não sabe da sua situação vai continuar cumprindo promessas. a primeira só pode ser a última, se for. vai demorar, no mínimo vai demorar. não adianta esperar. você vai esperar pra sempre e vai morrer. e ela vai ficar cansada de tentar. desiste que eu falo pra ela parar. desiste que eu falo pra ela ir fazer outras coisas. ser feliz. divertir-se. desiste. … é uma pena que ele não me escuta. … a estrada cresce. as árvores nascem e complicam o mundo. ela continua. ele continua. eu repito: o tempo passa pra eles. parece que dói.

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Promessa antiga

Pela floresta ia andando docemente uma moça; e ao redor seis anjinhos cantavam assim:

                    Oh que flores mais lindas!

                    Essas cores nós nunca vimos, e ó!

                    Que cheiros que nunca sentimos!

                    Ara ara, aiaiai mas que lindeza!

E eles dançavam no ar e batiam as palminhas das mãos em seus pandeiros; e estes faziam tí-qui-tch! tí-qui-tch! e todo mundo gostava – até as lagartas que não gostavam de nada (nada no mundo!) nem ninguém; até elas achavam bom; e sorriam e falavam umas para as outras: “Mas que companhia mais bonita!” ou então “donde vem aqueles lá que cantam daquele jeito!”, e aí as outras concordavam, “não é, donde mesmo!” e ficavam todas bestas: oh todo mundo gostava!

E feliz da vida vinha atrás um asno; um asno que não sabia agir conforme queria, mas que sabia querer todas as coisas e era satisfeito com isso – e ele puxava uma carroça velha que fazia inhé! inhé! das rodas enferrujadas. E todo mundo gostava!

E gostaram mais quando chegaram todos num mar de cerejeiras, rosinhas de viver feliz. E nessa altura a floresta toda já acompanhava a moça e cantava e dançava com os anjinhos – e gostava muito não é! – todo mundo embaixo das cerejeiras sentindo o cheiro rosa. Cheirava rosa! E parecia rosa! E sentia rosa! Era tudo rosa naquelas terras das cerejeiras! Porque elas gostavam assim e queriam assim.

E uma delas falou para a moça dos passos doces: “Oh oi você! Pois eu te conheço, é?”

E a moça deu risadinhas até ficar com as bochechas rosadas e pensarem que ela era cerejeira também; e respondeu “ai, sim! Você me encontrou quando–”

“Quando quê!” interrompeu a cerejeira, ora muitíssima surpreendida. “Se eu nunca saí daqui!”

E a moça bateu palmas e os anjinhos foram sentar nos galhos da cerejeira; e ela disse, “é que você era semente ainda.”

“Ah-ha-ha!” riu a cerejeira até chacoalhar os anjinhos de volta pro céu, com desdém de pessoa séria. “Então você mente! Porque eu nem lembro de ser semente.”

“Lembra de mim, você!” respondeu a moça doce, “porque me amava.”

“Porque quê!” respondeu a cerejeira.

“Faz mal não!” disse alegremente a moça. “Posso te cortar?”

“Não! Vai embora, que seus papos são esquisitos e eu não gosto,” disse a cerejeira, e a moça não ligava para nada e tinha mais diversão para conseguir em outros lugares; então foi mesmo embora. Ah trá lá lá! Até os anjinhos voltaram e cantaram e dançaram junto com todo mundo…

Mas na outra semana a moça voltou com a chuva, e aí não teve jeito. Chegou pra cerejeira e falou assim, “será que eu posso te cortar?” e as gotinhas da chuva atazanando a pobre da árvore. “Sua peste!” ela respondeu, “eu pensei muito sobre isso. Não pode não.”

E riu a moça, que era danada mesmo! “Mas é melhor eu poder,” ela disse, “porque eu vou te cortar de qualquer jeito. Ai eu te prometi, querida!”

“Mas! Eu não permito! Eu! Não! Permito!” respondeu a cerejeira com o coraçãozinho cheio de raiva.

“Ai mas muita coisa! Se eu te corto sem você deixar não vai ser bom!” disse a moça, e danou de chorar até todo mundo ficar com dó. Até a chuva choveu mais um pouco de tristeza por causa dela; até as lagartas, que nunca choravam por nada (nada no mundo!) nem ninguém, choraram pela moça doce; oh tadinha! Falavam assim, as lagartas: “coitada dela, que coisa feia!” e também “quem é que faz mal pra uma coisinha assim!” e aí elas mesmas respondiam, “não é, quem faz! Que maldade!”

“Eu não acredito!” respondeu a cerejeira, “então pode me cortar! Mas vou deixar claro, é permissão mas não é vontade não viu! Vou deixar, mas sob protesto!”

E a moça sorriu! E comemorou como se tivesse ganhado o mundo de presente; e gritou, “ai, ai!” e “sim! Sim! Então vem pra cá meu asno!” e aí o asno obedeceu, porque ele fazia assim. E ele trouxe a carroça, e a moça foi delicadamente e pegou lá de cima um machado feito todinho de saudade, bem brilhante e afiado; e levantou ele pro alto bem forte, e – chomp! E chomp!, chomp!, chomp! fez o machado, e ai ai ai! Os anjinhos cantaram a música deles, e todo mundo dançou feliz – e a moça trabalhou duro enquanto isso, e olhem só vocês! Trouxe abaixo aquela cerejeira, que fez tchhhh-bum! E disse com bastante rancor, “ai!”

E danou a reclamar, a cerejeira! Estendida no chão, e bla-bla-bla! pra cá! E blá-blá-blá! pra lá! E continuou a moça com seu machado de saudade, chomp!, chomp!, chom! até a cerejeira perder todos os galhinhos e as flores rosas; e depois chomp!, chomp!, chomp! mais um pouco, e bla! bla! bla! daquele tronco reclamando sem parar! Mas ah! Se enfim! Ora enfim, por fim, no final! Não é que ela fez o que queria, aquela moça doce!

Saiu correndo pra beirada do rio e jogou aquele machado lá embaixo; todo feio e murcho, e podre e enferrujado! E gritou, “ai tchau!” e o machado nem respondeu – foi embora casado com as águas; e voltou pulando para sua cerejeira – e agora eu vou contar de verdade o que aconteceu! Pois não é! Não é que a cerejeira de tanto levar machadadas tomou outra forma! Ganhou uns bracinhos bem delicados e um cabelo rosa muito bonito, e os anjinhos trouxeram um vestido de seda que caiu assim, realmente muito bem! Ah enfim! Por fim, foi assim! Ah não, ah é! Não tinha mais nada para reclamar, a cerejeira; oh-há-há! Parou com os blá-blá-blás e danou a falar coisas bonitas de agradecimento e de alívio pra moça doce; e se abraçaram e se amaram que nem tinham feito antes, muito antes. Nossa, olha ali! Uma borboleta na janela! Será que ela quer entrar ou sair?

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Sozinha nas nuvens

Com saltos leves ela passava de um degrau para o outro, e de pouco em pouco ela vinha descendo – de lá! De lá de cima: do céu! Pois sobre as nuvens ela caminhava, e assim fazia com pés delicados tais que sequer tocavam qualquer coisa, mas – ela descia! E olhando para as árvores na floresta; alaranjadas côs raios do sol nascente tocando suas folhas – ela descia! Ó ela descia: cantando num murmúrio suave de notas melancólicas – daquelas! Possíveis de serem produzidos senão por um coração afundado em tristezas; mas no reunir do seu ímpeto de esperança – ela…! Ela descia!

Mas, ah! Ela não desceu de fato. Porque do último degrau ela saltou, ainda muito alta acima das gramas no chão – e de lá os pássaros a pegaram; e eles, abençoados de força e bonitos das asas – e com as compaixões saindo pelas gargantas: eles também cantaram melancolias. E imparáveis nas suas bondades, eles prenderam-se no vestido dela, e ela – ah! Ela não desceu! Não! Levada planando por sobre o solo, ela foi; e deixada pelas aves na frente dum carvalho, ela também foi.

E os pássaros, eles soltaram ela; e ela, caiu de joelhos na grama: e se ralou, e doeu, e sangrou – mas! Ela fechou os olhos e se curvou, e na sua reverência um assovio desceu do alto da árvore diante dela. E ela! Se levantou. E olhou para cima; mas viu apenas folhas. E ela gritou: três vezes, ela gritou. “Ó mãe!” ela gritou – “ó mãe minha!” também – “ó tu que conténs em ti uma parte de mim! Ó mãe de mim!” ainda, ela gritou! Mas de mais alturas na sua voz – ah, sim! De alturas que fizeram o grito parar longe; nos fundos da floresta não houve uma criatura que não o ouviu; ah, dos coelhos aos bois – dos animais poucos aos animais muitos, em todos os ouvidos aquele grito foi parar: e não diferente nos da Mãe ela mesma. Ah!

Porque a Mãe, ela ouviu também. E lá do alto da árvore ela pulou como quem pula com vontade de um abismo sem fim, e no chão ela caiu com o peso de infinitos trotes de cavalos – e a força! De infinitos trotes de cavalos. E a terra, ela tremeu! – e as árvores: tremeram! E as criaturas: chacoalharam e caíram! E a Mãe parou de pé, tal fosse ela em sua forma física uma árvore das mais altas, se erguendo para muitos metros! De aparência imovível, ela ficou de pé! E ela, a Mãe, disse: “Minha querida filha, ó minha pequena! De mim podes pedir tudo, que na verdade tu já tens, só não sabe ainda; porque tu tens o que eu tenho. E eu tenho tudo, eu ó a Mãe de todas as criaturas que te cercam! Eu ó a plantadora de todas as árvores! Eu ó a iluminadora do sol de todas as manhãs! Pedes, filha, que eu te darei.”

“Ó mãe minha”, respondeu a delicada moça. “Só, eu estou! Minha alma dói na vastidão da floresta! Eu caminho por entre as nuvens, e os pássaros me carregam. E eles cantam, e eu canto. Mas, Mãe! Nossos cantos são diferentes. Eles não me compreendem. Minhas solidões, elas todas dentro de mim. Elas se enfurecem e me batem por dentro! Onde eu não consigo alcançá-las, Mãe! Ó Mãe! Me dê um braço que se estique até onde as minhas feridas precisam de curativos!” Ela falou assim cá cabeça baixa, côs olhos apertados, cás lágrimas inundando os olhos e escorrendo para a terra, e regando as gramas e a raíz do carvalho atrás da Mãe; e chorando dessa maneira, com seu coração doendo de pensar e de sentir. Tão verdadeiro foi seu choro, que de pé diante dela, também a Mãe se comoveu. E choraram ambas por muito tempo, até as lágrimas secarem e a fonte da tristeza gritar de dentro do peito uma promessa de que produziria novas no futuro.

“Filha minha!” Disse a mãe. “Tu terás esse braço que tanto desejas! E ele vai tratar de todas as tuas feridas. E ele vai abraçar o teu conforto, e tu se sentirás bem. Porque, ó minha filha, mais que um braço, será feito! Verdadeiramente eu te digo: uma muleta! Minha querida, sim! Essa muleta que tu precisas para apoiar as tuas manquices será feita também do material que há em mim! E bela, ela será, e forte, e firme! E ela te proverás por onde andar sem cair! E um apoio tal ela será que, ó, se tu alguma vez andares torta será pelo peso excessivo da alegria no lado que se encontra o teu coração.” E com essa última palavra, ela, a Mãe, saiu correndo e desapareceu no meio das árvores.

 

E a moça solitária! Por doze dias mais ela permaneceu lamentando a sua solidão nas nuvens. Doze! Por doze dias também sua Mãe não deu sinal nenhum: sequer no seu carvalho ela apareceu; sequer nas beiradas dos rios; sequer no topo das montanhas. Doze! Por doze dias a moça procurou pela Mãe, na angústia de ter seu pedido atendido; e por doze dias suas esperanças desvaneceram e se converteram num manto ainda maior de tristeza – mas! Mal sabia ela que a Mãe – a Mãe! Estava moldando; estava arrancando as coisas necessárias e colocando elas no formato adequado. Estava desenhando com linhas sensíveis nos pedaços para que o todo final pudesse ser capaz de ostentar um sopro de movimento!

Então, eis que a Mãe! Ó, por sua vez; num canto escondido da floresta, dentro duma caverna coberta pelas folhas das árvores: ela trabalhou por doze dias sem nenhum descontínuo: sem mesmo um para o sono! Sem mesmo um para a fome; menos ainda um para a sede; precisão nenhuma tinha ela daquelas coisas enquanto talhava; e…! E ela talhou: ela talhou do primeiro ao décimo segundo dia – mas nesse ela talhou pela última vez: porque ah! Nada mais ela tinha a retirar da forma grotesca que pela primeira vez havia se colocado diante dela: aquela forma que outrora havia precisado ser moldada jazia-se na frente dela ofertando apenas a possibilidade da adição – e a Mãe, ela adicionou. O que faltava no resultado do seu trabalho – ela adicionou!

Pois abrindo a boca ela deixou sair um ar de quentura tal que esfumaçou – mas! Esfumaçou… vejam vocês! Esfumaçou – colorido! Ah! E o ar quente saiu pela boca da caverna, e ele empurrou os galhos das árvores, e as folhas delas se abriram – e a luz! Do sol; a luz do sol! Ah! Ela entrou e iluminou mesmo a parede final lá de dentro; e a fumaça colorida! Se misturou na luz. E no meio daquilo, desapareceram: a Mãe e sua obra.

 

E na noite daquele dia: de fato, tarde – da noite, a Mãe saiu da sua caverna e deslizou por cima – e, ó! Para cima – das árvores até as nuvens. Nos ombros: carregava o presente para a moça triste; que recém havia dormido das suas insônias de tristeza. Ah! A situação era tal que a escuridão encontrava-se fora e dentro da coitada; e desacordada estava não no seu único momento possível de luz, mas no seu único momento – de nada! E se não era aquele o último consolo do seu coração até então desamparado.

Mas enquanto a Mãe se movia para os céus, sua velocidade tremenda cortava o ar – e fazia soar para todos os lados, como que! Ah! Como que trovões de mil tempestades! Acordaram: os animais; os que estavam no topo das árvores e os que estavam enfiados em raízes; e! Mesmo os que estavam debaixo d’água: acordaram – e a moça! Ó! Acordou também do seu refúgio noturno.

Ela se levantou com uma perturbação corporal imensa; com olhos de choros guardados. Enquanto coçava as pálpebras e olhava ao redor, ouviu mais uma vez o estrondo das tempestades… e, pobrezinha! Que susto ela tomou! E: que desespero, também! Ficou de pé num instante e saiu correndo pelas nuvens, buscando a origem do grande distúrbio – mas na escuridão sem fim que era aquela noite, ela pôde apenas correr sem rumo. Ouviu mais uma vez os trovões e viu um clarão surgindo num canto dos olhos: e correu na direção dele.

Quando chegou na borda das nuvens, sua Mãe surgiu de repente – e contemplem! Lá! Nos ombros da Mãe! Ela viu, ó! Ela viu: alguma coisa que brilhava! Algum ponto claro na negritude da noite! Tamanha foi a curiosidade que seu coração se apressou, e ela…! Respirou fundo e apertou os olhos numa tentativa de enxergar – mas!

“Minha filha! Eu senti pena dos teus sofrimentos, e na floresta que eles formavam eu decidi abrir um caminho que te permitirás escapar! Para essa coisa que tu precisavas eu atribuí tudo o que achei de bem – mas, minha filha! Algo ainda falta no teu presente! Algo que poderá ser atribuído por ti apenas, pois assim eu determino melhor – e esse algo, ó minha filha, chama-se: amor! Esta é tua tarefa, e enquanto ela não for cumprida teu presente permanecerá sendo senão uma luz no horizonte do teu olhar!” Assim disse a Mãe, que, depois de fazê-lo, retirou do ombro a coisa que brilhava, colocou-a nas nuvens diante da moça assustada e desapareceu.

 

Pois tal se encontrava a donzela: perplexa na borda das nuvens, encarando qualquer coisa emanando luz diante de si. No silêncio da noite, ela tentava decifrar as qualidades e formas do seu presente. “O que é isso?” Ela se perguntava, “qués que minha Mãe me deu? Oh, o que será?” Mas seus olhos doíam com a claridade contrastante. – Ela se afastava um pouco, se curvava e dava voltas: mas, nada; apenas o incômodo nas pupilas. E então, quando a frustração estava para invadir o seu coração – ela ouviu: “tu me entendes?”

Ó!

A moça deu um salto para trás. Ela ficou côs braços armados e as pernas abertas, como um animal aguardando o ataque dum inimigo.

Voltou a voz: “Ontem eu ouvi os pássaros, mas eu não os entendi. Eles são engraçados. Falaram e falaram, e eu quieta quieta tentando disfarçar que não estava conseguindo entendê-los…”

Ó! Pois, vejam vocês – qual foi a surpresa da moça! Se não era da coisa brilhante que a voz saía – e, além! Para uma surpresa ainda mais: como uma pena carregada pelo vento, ela chegava trazendo palavras sobre pássaros. Sobre pássaros!

“Ah! Eu te entendo sim! Então! É isso que tu fazes!” A moça disse, abaixando sua guarda.

“Eu não sei. Causa de quê que tu estavas me examinando daquela maneira?” Disse a dona da voz.

“Causa que eu não sei o quê tu fazes!” Respondeu a moça, e se calou. E, no silêncio, ela decidiu dar passos lentos e se aproximar – mas, a coitada! Fez isso olhando para os pés, porque à sua frente permanecia ainda a terrível claridade que machucava os olhos.

“Mas tu descobriste?” A dona da voz disse de repente.

A moça parou e se armou novamente, e respondeu: “Não! Não descobri o que tu fazes! Não muito bem, não!”

“Então tu olhaste tudo que tinha para ser olhado em mim e não compreendeste nada?” A dona da voz disse, e! E…! E riu! A moça se intrigou ainda mais, e voltou com seus passos vagarosos.

“Ah! Do qués que tu ris? Eu olhei, mas eu não vi. É que tu és tão clara que dóem minhas vistas e eu não enxergo nada.”

A dona da voz ignorou a primeira pergunta e se ateve à parte que julgou interessante: “Clara? Mas está tudo tão escuro aqui,” e riu novamente. “Qués que é isso em que eu estou pisando?”

“São as nuvens. Eu vivo aqui. Do qués que tu ris?”

“Aqui! Nas nuvens! Ora só!” E riu ainda uma vez mais. “Então o que eu estava admirando ainda ontem era o seu lar!”

“Tu estavas? Do qués que tu ris?”

Mas! A dona da voz, resoluta a satisfazer apenas suas próprias vontades – não respondeu. Apenas riu de maneira descontrolada; riu em gritinhos agudos que ecoaram pela noite. E então: a moça não aguentou mais. Ela! Aproveitou que já havia se aproximado um tanto, se encolheu um pouco, como uma onça… e! Num instante ínfimo! Se saltou na direção da coisa brilhante – e! Voou com os braços abertos, agarrou o que conseguiu, e, ah! E…! E caíram ambas lá de cima!

De olhos fechados, a moça não sentiu o vento cortando eles durante a queda – mas! Muitas outras coisas ela sentiu: ela apertou seu presente – e apalpou, e deslizou cás mãos no que não podia ser senão uma cintura: e “ah!” ela suspirou boquiaberta! E, ainda durante a queda! Ela levantou os dedos e enrolou neles fios que não podiam ser senão de cabelos: e “ah!” uma vez mais ela exclamou! E então, ó! Ela compreendeu tudo. E, em choque, ela acarinhou o presente da Mãe.

 

Enquanto a outra começava a rir com os toques da mocinha, como quem recebe gracejos inesperados – os pássaros! Pássaros da noite! Eles vieram e impediram-nas de cair; e eles pegaram as moças e levaram-nas abraçadas de volta para as nuvens.

“Do qués que tu ris?” Disse a moça quando pisou novamente e soltou a outra.

“É que tu és muito engraçadinha! Cheia de sustos!” E riu.

Foi dali, ó que coisa, que elas começaram uma conversa agradável. E elas falaram no decorrer da madrugada, e elas contaram piadas e compartilharam gostos, e pararam apenas quando o sol começou a nascer – para saltar pelas nuvens e cantar côs pássaros. Naquela manhã, juntas, elas fizeram uma canção que dizia assim:

            “Andando aqui, em cima das nuvens, e

                  saltando sobre elas, de mãos dadas.

            Correndo contigo, ao meu lado,

                  nós nos divertimos!

                        Oh oh!

            Voando, vêm os pássaros, e,

                  cantando, se afastam.

            Planando, perdem altura,

                  olhando-os, nós nos divertimos!

                        Oh oh!

            Ricos raios (de sol) atravessam

                  nossas nuvens pelos lados.

            Chegam como (se fossem) águas tônicas, e

                  nós nos divertimos!

                        Oh oh!

            Andando aqui, em cima das nuvens, e

                  saltando sobre elas, de mãos dadas.

            Correndo contigo, ao meu lado,

                  nós nos divertimos!

                        Oh oh!”

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O macaco, a pedra e o sofá

Atualização 31/05/2018: Eu escrevi uma análise na qual eu tento identificar os problemas com esse texto e consequentemente suas causas e possíveis soluções. Aqui está: O problema da presença do narrador, mimesis e diegesis.


Um dia Ana chegou em casa e encontrou um macaco sentado em seu sofá. Ele não a percebeu de imediato pois estava entretido olhando para o teto, mas os seus pelos estavam visivelmente imundos e isso havia sujado todo o sofá. As manchas de terra incomodaram muito Ana, e ela deu três batidas na porta que fizeram o macaco olhar para ela.

“Com licença, Sr. Macaco. O que você está fazendo aqui?” Ana disse.

“Ora, eu decidi me mudar para cá. Quem é você?” Respondeu o macaco, coçando a cabeça e analisando Ana de cima para baixo.

Ana colocou sua cesta de frutas no chão, tirou os sapatos sujos de lama e se apressou até o macaco. “Mas Sr. Macaco, essa casa é minha! Esse sofá também é meu. Se você estiver querendo comprá-lo, essa é outra questão que nós podemos discutir com prazer –”

“Não, não”, interrompeu o macaco. “Veja bem, a floresta agora me pertence. A sua casa está na floresta e por isso também me pertence, naturalmente.”

“Mas Sr. Macaco!”

O macaco se levantou devagar e levantou um dos dedos, e quando Ana ficou em silêncio ele a entregou uma pequena pedra colorida. “Viu só? A floresta é minha, eu lutei pela pedra e venci.”

“Oh.”

Ana olhou frustrada para a pedra em suas mãos: a floresta era realmente do macaco e quanto a isso ela não poderia fazer nada, mas ela gostava muito da sua casa e estava disposta a tentar mantê-la.

“Tudo bem, eu entendo, mas tenha pena de mim! Eu não tenho para onde ir. Essa casa é tudo o que eu possuo, se você for ficar com ela… O que será de mim?” Ana disse.

“Eu acho que isso não é muito problema meu.” O macaco respondeu.

Ana bateu um pé forte no chão e olhou espantada para o macaco. “Isso é um absurdo, Sr. Macaco! Se é desse jeito que você pretende cuidar da floresta, ela não vai ficar nas suas mãos por muito tempo. Disso eu tenho certeza!” Ela disse.

“Isso sim é problema meu, senhorita,” disse o macaco, e então ele pegou a pedra das mãos de Ana e voltou a se sentar e a encarar o teto. “Mas apenas meu. Se algum dia essa pedra passar para as mãos de outra pessoa talvez você possa voltar para esta casa. Até lá, queira por gentileza se retirar.”

“Eu não me irei me retirar, Sr. Macaco!” Ana disse, e ela se sentou no sofá ao lado do macaco com os braços cruzados. “Na verdade, eu só vou me levantar daqui quando você for embora.”

O macaco estava tão decidido a continuar com a casa que também resolveu que só iria se levantar quando Ana fosse embora, e por isso os dois ficaram sentados se sentindo irritados até a noite cair. Entretanto, pouco depois de escurecer muitos amigos do macaco entraram pela porta sem fazer perguntas. Todos estavam gritando e pareciam prontos para dar uma festa para comemorar a nova casa do macaco, e Ana não conseguiu ficar parada diante disso. Ela se levantou para mandá-los embora e depois voltou a se sentar.

“Ah, seus sujos, meus tapetes! Ah, xô, xô!” Ela disse para eles, e eles foram embora confusos já que olharam para o macaco e ele apenas se manteve inexpressível no sofá.

Os dois passaram a noite dormindo no sofá, e quando a manhã chegou o macaco acordou e encontrou Ana ainda ao seu lado com os olhos fechados. Ele pegou a sua pedra colorida e a encarou por alguns minutos enquanto refletia. Ele pensou nas coisas que teria para fazer mais tarde, e pensou também que por causa delas não poderia ficar sentado ali para sempre, então ele acordou Ana com a intenção de resolver a coisa toda finalmente.

“Você é muito teimosa”, disse o macaco.

“Você não me deixa outra opção!” Ana respondeu.

O macaco caminhou até a janela e olhou para as árvores. “Muito bem, eu tenho uma proposta.” Ele disse, e Ana ficou de pé e escutou-o com atenção. “Você pode ficar com a casa, mas eu quero o sofá. E também quero que você cate meus piolhos duas vezes por semana.”

“Oh, eu não acho que farei isso. Digo, o sofá é muito importante para mim. Ele está aqui desde que eu me mudei para cá… Ah, não, não! Não dá para eu me desfazer dele desse jeito, Sr. Macaco!” Disse Ana.

O macaco deu um suspiro profundo e disse finalmente “Ora, então você vai ficar sem o sofá e sem a casa, porque de qualquer maneira eu tenho a pedra… Você quer lutar por ela?”

“Lutar pela pedra? Francamente! Se nós lutássemos você deixaria minhas roupas imundas como fez com meu sofá.”

“Se você não quiser lutar por ele, o sofá é meu e eu diria que ele não está nem um pouco imundo.”

“Ah, Sr. Macaco, vocês do norte da floresta são criaturas terríveis! Você sabe muito bem que só poderia me vencer em uma barbaridade como uma luta. Nós aqui do sul não resolvemos nossos problemas com essas coisas estúpidas e sem sentido, nós resolvemos com educação.”

O macaco pareceu se sentir insultado, mas logo ele se calou e sentou no sofá ao lado de Ana.

“Muito bem, então, muito bem! O que você propõe?” Ele disse.

“Em primeiro lugar eu proponho que você vá embora,” Ana respondeu. “Mas eu acho que você irá recusar essa proposta muito antes de levar ela em consideração, então, bem, eu tenho uma que você vai aceitar sem precisar pensar duas vezes… Eu proponho que você me dê a pedra e fique com a casa.”

“Garota tola, garota tola, eu não serei enganado assim tão fácil… Nesse caso eu te entregaria a pedra e você usaria ela para pegar a casa de volta. Não, não mesmo.”

“Hummmm… Então eu proponho uma partida de xadrez.”

O macaco achou a proposta muito justa, e logo Ana colocou um tabuleiro entre os dois no sofá. O macaco jogou com as peças escuras e começou movendo um dos peões que ficam em frente aos cavalos. Esse movimento rende posições que com certeza são muito agradáveis para pessoas que sabem jogá-las, mas o macaco não sabia. Por outro lado, Ana sabia, e ela se aproveitou do deslize do macaco para aplicá-lo um mate-pastor, que é uma das formas mais humilhantes de se vencer um adversário no xadrez pois a vitória ocorre depois de quatro movimentos. O macaco se sentiu de fato humilhado, mas Ana queria apenas resolver o problema e não tirou sarro dele.

“Agora você pode me dar a pedra e sair da minha casa, por gentileza.” Ana disse.

O macaco olhou para as paredes um tanto frustrado. “A pedra?” Ele disse. “Eu achei que a partida tivesse sido só pela casa.”

“Ah, não, Sr. Macaco. Você disse que nós deveríamos lutar pela pedra e eu propus um jogo de xadrez, sim?”

O macaco era uma criatura que mantinha suas palavras, no fim das contas. Então ele se levantou do sofá, entregou a pedra para Ana e saiu pela porta cabisbaixo e resmungando consigo mesmo. Ana viu pela janela ele desaparecer na floresta, caminhando por cima das folhas no chão. O pobre animal sequer teve forças para subir em uma árvore e ir pulando para sua antiga casa, mas Ana não sentiu pena nenhuma dele. Ao contrário, seu sofá estava imundo e ela precisava lavá-lo com a maior urgência possível, e como ela havia sentado no sofá ela também precisava se lavar. Depois Ana pensou na possibilidade de ter se contaminado com os piolhos do macaco, e isso a deixou muito preocupada. A sua preocupação foi tão grande que ela passou o resto da manhã limpando a casa, e durante toda a tarde ela esteve em baixo do chuveiro, mas depois que todo o serviço havia sido feito ela estava se sentindo muito bem em casa de novo.


Atualização 31/05/2018: Eu escrevi uma análise na qual eu tento identificar os problemas com esse texto e consequentemente suas causas e possíveis soluções. Aqui está: O problema da presença do narrador, mimesis e diegesis.

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A Máquina Voadora do Sr. Heru

Atualização 04/10/2017: Eu escrevi uma análise na qual eu tento identificar os problemas com esse texto e consequentemente suas causas e possíveis soluções. Aqui está: Um pouco sobre a natureza do narrador.


1.

Havia uma cidade que tinha tantas torres que a luz do sol mal conseguia alcançar o chão, mas nas ruas onde havia luz também havia a sombra da máquina voadora do Senhor Heru. O Senhor Heru era conhecido por todos da cidade: os adultos viam ele como um cientista de bastante respeito, já as crianças como um velho rabugentíssimo e tenebroso, apesar que um ou outro garoto que não tinha medo dele sempre era contratado para ajudá-lo a fazer manutenções durante o voo. Uma moedinha de ouro era o suficiente para fazer com que muitos garotos deixassem de lado o medo do Senhor Heru e o medo de altura e se pendurassem na parte de trás da máquina voadora.

Todas as pessoas daquela cidade e de muitas outras se reuniam ali e se espalhavam ao longo de muitas tendas e barracas na primeira sexta-feira de todos os meses, e eles vendiam e compravam muitas coisas. Em um desses dias o Sr. Heru passeava com sua máquina voadora, e lá embaixo incontáveis pessoas olhavam para cima boquiabertas. As pessoas que vinham de longe viam a máquina voadora com extrema surpresa e os moradores a olhavam com orgulho, pois a viam sempre e ficavam felizes por ela ter sido criada por alguém da cidade. No meio da multidão de compradores e vendedores um garoto e uma garota estavam olhando a máquina voadora do Sr. Heru, e eles não estavam nem surpresos e nem felizes – seus nomes eram Leo e Finna. Então eles apontaram os olhos para o chão, abaixaram os capuzes cinzas que estavam usando e voltaram a subir a rua. Estava tudo tão lotado que Finna segurou Leo pela mão e foi abrindo caminho e empurrando as pessoas antes de dar cada passo, e muitas dessas pessoas também usavam capuz pois o sol era poderoso onde alcançava.

Sobre as cabeças de Leo e Finna a máquina do Sr. Heru continuava planando de um lado para o outro, e ele só foi parar com as manobras mais impressionantes quando uma fumaça preta começou a sair de uma das asas. De repente todas as pessoas que estavam fazendo negócios levantaram a cabeça de uma vez e gritaram “Ó!”, e Leo e Finna também olharam boquiabertos. O Sr. Heru estava voando sem nenhum ajudante naquele dia para fazer uma manutenção durante o voo e pôde apenas guiar a máquina cambaleantemente até uma grande janela da sua própria torre, onde poderia pousar e consertá-la. Finna ficou animada com a cena e seu queixo caído logo se tornou um sorriso de canto de boca, mas Leo foi tomado por calafrios e maus pressentimentos. Ele puxou Finna pela mão para baixo de uma árvore onde havia poucas pessoas:

“Você acha que é melhor desistir?” Ele perguntou para ela. “Como vamos roubar a máquina se ela estiver com algum defeito?”

“Você está brincando?” Ela respondeu enquanto apertava as sobrancelhas. “Ele entrou voando na torre, a máquina está funcionando.”

“Não muito bem, senão o Sr. Heru teria continuado voando…” Leo inclinou a cabeça e virou os olhos como se estivesse desviando um olhar tímido. Finna colocou a mão em seu ombro e suspirou.

“Bem, o Sr. Heru vai consertar a máquina de qualquer maneira,” ele continuou dizendo. “Será que o Sr. Goliais não entenderia se a gente esperasse até ela estar voando normalmente?”

“Eu acho que não”, ela respondeu encolhendo os ombros. “Ele foi bem claro: roubamos a máquina  voadora do Sr. Heru e encontramos o Sr. Goliais quando o sol estiver se pondo, fazemos a entrega, pegamos o pagamento e pronto. Aquelas doze moedas de ouro vão resolver nossos problemas por muitos meses!”

Os olhos de Leo continuavam indo cada vez mais pro canto enquanto ele tentava pensar em alguma desculpa pra escapar daquela situação toda. Ele começou a gaguejar alguma coisa e por fim desabafou timidamente: “Vou te contar a verdade”, ele disse, “eu já estava com medo de pilotar a máquina antes, e agora com aquela fumaça saindo de uma das asas então…”

Finna já estava esperando que Leo se acovardasse em cima da hora e não conseguiu segurar suas risadas. Leo ficou todo vermelho e encolhido enquanto ela chacoalhava os ombros zombando dele. “Mas Leo”, ela disse, “você sabia que eu queria pilotar a máquina desde que o Sr. Goliais passou a missão. Se não queria fazer isso, por que não me deixou ficar com a parte complicada?”

“Ah, ah…” Ele respondeu desconcertado e envergonhado. “Você sabe, depois do desastre que foi aquele último roubo eu precisava ganhar uns pontos com o Sr. Goliais.” Ele deu de ombros enquanto se justificava e Finna contiuava rindo enquanto se lembrava da última missão que fizeram juntos. “Ainda preciso! Vamos esperar o Sr. Heru consertar a máquina, pelo menos não corro o risco de cair lá de cima ou sei lá.”

“Leo, está tudo bem,” Finna respondeu colocando a mão no ombro dele. “Está tudo bem. Deixa que eu entro na torre do Sr. Heru e roubo a máquina. Você distrai o Sr. Goliais. Essa parte da missão é tão importante quanto a pilotagem mas, bem, você sabe, eu gosto de fazer coisas mais agitadas .”

Leo pensou que aquela era uma oferta muito tentadora, mas ele continuava preocupado com o risco da máquina parar de funcionar no meio do ar. “Mas nesse caso quem vai correr o risco de morrer é você, dá na mesma!”

“Claro, claro!” Ela respondeu dando risadas. “Pode ser minha aventura mais divertida em muitos anos.”

Leo tentou responder, mas enquanto gaguejava Finna já entregava um pacote em uma de suas mãos e pela outra o puxava rua acima falando “vamos, vamos! Está combinado: você distrai o Sr. Heru enquanto eu roubo a máquina!” Eles continuaram subindo a avenida até que viraram para a esquerda em uma esquina, e então pararam no início de uma larga rua com várias casas muito modestas dos dois lados. Havia um grande portão centralizado onde a rua parava de seguir em linha reta e começava a dar a volta.  Era um portão muito alto, e muito alto era também o muro no qual ele ficava: pois esse muro cercava a torre do Sr. Heru, e a coisa toda era tão grande que ocupava o espaço de várias casas e era rodeada por uma rua circular que se ligava com outras retas que iam para todos os cantos da cidade, e em uma dessas Finna e Leo haviam parado e ficaram admirando o portão um pouco. Eles olharam um para o outro, e então Leo acenou para ela com a cabeça e eles se separaram: Finna se enfiou num beco entre as casas e Leo continuou andando em direção ao portão da torre do Sr. Heru.

“Sr. Heru, Sr. Heru!” Ele gritou. Depois colocou no chão o pacote que o Sr. Goliais havia preparado para distrair o Sr. Heru e bateu muitas palmas enquanto olhava para cima na expectativa de uma resposta. O velho finalmente colocou a cabeça para fora da janela mais alta da torre e lançou para Leo uma expressão muito rabugenta que ele mal conseguiu enxergar lá de baixo. Suas sobrancelhas estavam apertadas e seu rosto e seu manto cinza estavam sujos com a graxa da máquina voadora, e ele ergueu os óculos de proteção que usava e gritou com toda a força: “Quem é? O que você quer?”

Leo levantou o pacote e gritou que estava lá para fazer uma entrega e que o Sr. Heru deveria descer para pegar, mas o velho não ia bem dos ouvidos e nem dos olhos, e daquela distância só conseguiu entender uma ou outra palavra sem sentido se misturando ao vento forte das alturas e enxergou apenas o que supôs ser uma pessoa sacudindo algo que parecia um pacote marrom acima da sua cabeça, e então ele gritou que quem quer que fosse que estivesse lá embaixo era um maldito por incomodar e que ele estaria descendo imediatamente.

O portão se abriu e o Sr. Heru se colocou parado ao lado dele, segurando-o aberto e revelando as paredes da torre lá dentro. A simples aproximação do Sr. Heru foi suficiente para fazer Leo dar um passo para trás assustado com a sua presença. Ele era um velho muito magro e sua pele era enrugada até a ponta dos dedos, mas estava sempre bem disposto e com muita pressa. Quando estava para perguntar quem era e o que queria o Sr. Heru reparou que diante dele estava um garoto, então de repente seus problemas foram iluminados por uma boa ideia e ele levantou as sobrancelhas com animação. “Perfeito!” Ele disse, “entra, entra!”

“Eu…” começou a dizer Leo, que estava preocupado em manter o Sr. Heru fora da torre e não tinha nenhum plano de deixar ele entrar, ou pelo menos seria um desastre se isso acontecesse antes de Finna sair de lá com a máquina voadora. Ele estendeu o pacote que o Sr. Goliais havia preparado como distração e começou a gaguejar: “Eu vim fazer uma entrega, senhor.”

O Sr. Heru desprezou completamente o pacote. Ele fez um sinal de desdenho com a mão e o empurrou para o lado. “Entra, foi muita coincidência ter aparecido alguém”, ele disse e então se aproximou animadamente de Leo e colocou a mão em seu ombro.  “Eu estava mesmo precisando de alguém para me ajudar a consertar a máquina.”

Leo ficou atordoado com o toque do Sr. Heru e com a proximidade de seu rosto, que ele considerava muito feio e amedrontador. Ele reuniu coragem das profundezas de seu coração e voltou a levantar o pacote. “Senhor, eu estou trabalhando. Pegue o pacote. Eu ainda tenho mais encomendas para entregar”, ele disse enquanto colocava o pacote entre ele e o Sr. Heru, que novamente o afastou com a mão e voltou a se colocar ao lado do portão e a segurá-lo aberto.

Calafrios tomaram o corpo de Leo quando ele percebeu que não ia conseguir manter o Sr. Heru lá fora pelo tempo necessário. Ele abaixou o pacote e o desespero dominou seus pensamentos. Sentiu uma tremedeira subir pela espinha e não gostou nada dela, então olhou para a direção do beco no qual Finna havia se enfiado mas ela já não estava mais lá. “É coisa simples,” ele ouviu o Sr. Heru dizer, “me ajude a consertar a máquina e eu até te dou umas moedas de prata.”

Leo pensou que aquela seria a oportunidade perfeita para desistir se Finna já não estivesse tentando entrar na torre, mas o medo dela ser pega caso ele não conseguisse atrasar o Sr. Heru ali fora o dominou e ele levantou de novo o pacote e disse “Então eu ajudo, claro, claro! Mas antes o senhor pode confirmar que está tudo certo com a encomenda? Senão meu patrão…” mas o Sr. Heru já o havia ignorado novamente e estava entrando apressado pelo portão: Leo pôde apenas ir correndo atrás. Quando abriram a porta e entraram na torre ele mal teve tempo de admirar a vastidão da sala, e antes mesmo que ele pudesse fazer uma nova tentativa de entrega e pelo menos manter o Sr. Heru por ali o velho já estava subindo uma escadaria ao lado da porta.

O Sr. Heru subia os degraus com passadas larguíssimas e com muita pressa enquanto Leo o acompanhava cambaleando, parte com a impressão de que a qualquer momento criaturas terríveis surgiriam daquele corredor mal iluminado que subia pelas paredes da torre e parte imaginando que tipo de coisas estariam guardadas nas dezenas de salas que surgiam enquanto eles subiam. Os sapatos do Sr. Heru batiam na madeira dos degraus e ecoava pelas paredes da escadaria, e quando ele começou a falar seus gritos rabugentos também reverberaram incompreensivelmente.

“É muito azar! É muito azar” Ele dizia a cada passo. “Eu tenho muitas coisas para fazer esta tarde e preciso dessa máquina funcionando até lá. Mas se você me ajudar acho que conseguimos terminar a coisa toda logo.”

“Eu não posso ficar muito, tenho muitas outras entregas pra fazer.” Leo respondeu e ficou surpreso quando sua voz também ecoou nas paredes.

“Inferno, garoto, eu disse que lhe pago!”

O Sr. Heru parou e se voltou para Leo enquanto tirou uma moeda de prata do bolso do manto e atirou para o garoto. Leo pegou a moeda e abaixou a cabeça enquanto olhava para a mão em que a segurava, depois olhou para a outra mão na qual segurava o pacote preparado pelo Sr. Goliais, então deu de ombros e voltou a subir as escadas atrás do Sr. Heru para enfrentar as crueldades do destino.

*****

2.

Finna se sentiu muito frustrada ao rodear a torre e descobrir que a rua estava cheíssima de pessoas e que não haveria nenhuma hipótese de pular o muro por aquele lado sem ser vista. Ela se meteu de novo nos becos e foi para alguma rua que ficava do lado esquerdo do portão no qual o Sr. Heru deveria estar com Leo. Ali só encontrou cachorros e pôde pular o muro para dentro da torre sem problemas.

Havia grama plantada em todo o chão e muitas plantas espalhadas pelo interior do muro. Assim que se jogou lá pra dentro ela logo se levantou e se escondeu atrás de um arbustro e começou a espiar em todas as direções. Foi quando ela viu uma das portas da torre aberta, e ao lado da porta havia três vasos de petúnias. Ela deu um sorriso para si mesma pois aquilo era exatamente como o Sr. Goliais havia descrito. O lugar todo pareceu estar completamente deserto, então ela correu em direção à porta já pensando em subir as escadas até a sala mais alta, mas quando ela estava para passar pela porta de repente ouviu vindo de dentro um eco de vozes vindo lá de dentro e por impulso se espremeu na parede ao lado dos vasos de petúnias.

Lá de fora ela não pôde entender nenhuma palavra entre os sons que ouviu, e depois disso as vozes não disseram mais nada por alguns minutos. Com o silêncio ela inclinou a cabeça e espiou dentro da torre, e os olhos de Finna viram apenas a grande sala vazia com outra porta aberta para a direção em que Leo deveria estar, uma escada surgindo para cima à sua direita e uma para baixo à sua esquerda. Ela ficou muito confusa e começou a se perguntar se Leo teria conseguido segurar o Sr. Heru lá fora ou se o velho teria descido para o subsolo da torre, pois as escadas que desciam à sua esquerda estavam com o alçapão aberto.

Finna começou a alternar seus olhares enquanto pensava. Olhava para as escadas descendo à esquerda, para as escadas subindo à direita e para a porta aberta do outro lado e imaginava onde o Sr. Heru estaria. Seu sangue começou a correr mais rápido nas veias e ela se sentiu agitada, pois aquele era um risco que não estava esperando. Ela se deixou guiar pelo próprio instinto e pela confiança em Leo e decidiu correr escadaria acima e continuar com o plano inicial.

Mas Finna não subiu se esgueirando pelas paredes, ao invés disso ela subiu dando passos largos, firmes e decididos, pensando apenas nas instruções de voo que o Sr. Goliais havia dado: quais botões do painel apertar para ligar a máquina voadora, como rodar a hélice para o motor funcionar, como decolar com ela pela janela da torre, como fazer curvas fechadas e como chegar com ela até o ponto de entrega. Ela passou por muitas portas que davam para muitas salas e muitos corredores, mas só se animou realmente quando viu a porta no fim da escadaria, pois aquela porta dava para a sala no topo da torre e lá deveria estar a máquina.

Ela estava tão excitada com a coisa toda que abriu um sorriso de orelha à orelha, e justo quando se apressou para a porta ouviu outra voz ecoar, mas dessa vez se tratava claramente de um grito de dor e descontentamento. Os próximos passos de Finna teriam sido diretamente para dentro da sala e para a máquina voadora que lá estaria, mas ao ouvir esse grito ela desviou para o lado e se espremeu na parede ao lado da porta, sentiu o coração quase sair pela boca com o susto e começou a suar frio. Ela estava para se acalmar quando o Sr. Heru surgiu correndo da porta ao seu lado como se fosse um vulto e desceu as escadas desesperadamente.

Antes de se perguntar o que teria acontecido ela pensou que aquela era sua chance. A adrenalina tomou conta do corpo de Finna e ela sentiu seu sangue pulsando nas veias. Da expressão de susto outro sorriso surgiu em seu rosto e ela virou para dentro da porta de uma vez sentindo que o voo na máquina proporcionaria uma das sensações mais recompensadoras do mundo, e então ela entrou de uma vez e quase não reparou na  máquina voadora à sua disposição no centro da sala, pois logo ao lado estava Leo sentado em um banquinho e com a cabeça baixa.

*****

3.

Quando Leo entrou na sala no topo da torre sua visão foi das mais excitantes, pois ele viu a máquina voadora parada no centro e muitas outras máquinas das quais ninguém nunca havia ouvido falar ao redor dela, ferramentas e peças de todos os tipos espalhadas em prateleiras e pelo chão, baús abertos e cheios até a tampa. E de todas as coisas que ele admirou a que mais o deixou impressionado foi a grande janela aberta da qual se podia ver o topo de muitas torres da cidade, e enquanto ele olhava para o céu azul com seus olhos arregalados a voz do Sr. Heru dominou a sala e trouxe seus pensamentos de volta à situação:

“Não toque em nada sem eu mandar!” Ele disse.

Então o Sr. Heru caminhou até uma das prateleiras ao lado da grande janela e pegou duas ferramentas muito pequenas para apertar parafusos, e de um dos baús ele pegou mais uma para cortar fios. Ele se ajoelhou ao lado de uma das asas da máquina, entregou uma das ferramentas para Leo e explicou exatamente o que ele deveria fazer, depois ele caminhou até a outra asa do outro lado e os dois começaram a trabalhar.

O problema das asas eles consertaram rapidamente pois apenas a que o Sr. Heru mexeu estava danificada, mas as engrenagens das duas eram ligadas e para mexer seguramente em uma era preciso manter a outra no lugar. Leo achou as instruções muito simples e apenas as seguiu sem dificuldades, mas seus pensamentos estavam inteiramente voltados para Finna. Ele estava preocupado que ela subiria as escadas para roubar a máquina voadora sem ter a consciência de que eles estariam lá em cima. Ele fez muitas perguntas para o Sr. Heru sobre as diversas máquinas que estavam na sala com a esperança de que Finna os ouviria conversando e não seria pega subindo as escadas, mas o Sr. Heru logo pediu a paciência e pediu silêncio enquanto ele se concentrava no conserto da máquina.

Ele começou a pensar em coisas diferentes que poderia ter dito e que teriam convencido o velho a aceitar o pacote, ou que pelo menos o manteriam lá fora por tempo suficiente para ela subir as escadas e sair voando. Foi quando o Sr. Heru deitou no chão e se enfiou embaixo da máquina para consertar o motor principal, e esta era a parte mais danificada. Leo precisou erguer a máquina rapidamente do chão para que o Sr. Heru pudesse mexer os braços com as ferramentas lá embaixo, mas enquanto a segurava a porta da sala aberta mostrava o abismo que era a escadaria da torre indo lá para baixo, e ele a olhava com a impressão que a qualquer momento Finna surgiria dali toda estabanada e que o Sr. Heru os pegaria e que então eles estariam com muitos problemas. A apreensão subiu pelas suas pernas e a preocupação que dominou seu corpo fez com que seus braços não conseguissem segurar a máquina por muito tempo, e se não fosse por isso ela já seria pesada demais de qualquer maneira: deixou a coisa toda desabar de uma vez em cima do velho.

O primeiro grito do Sr. Heru foi pela dor mas também exprimiu uma irritação que pareceu estar guardada há tempos. Sua voz ecoou em toda a sala, saiu pela janela e até desceu as escadas enquanto Leo se tremeu todo cem uma sensação de que havia cometido um erro terrível e fez o que pôde para puxar a máquina, mas o Sr. Heru começou a empurrá-la por conta própria e a dar muitos outros gritos assustadores. O pobre garoto não conseguiu entender uma palavra em meio ao seu desespero, mas a expressão rabugenta que estava no rosto do Sr. Heru quando ele se levantou de uma vez falou por si só: a mão cobria o nariz de onde escorria sangue, e todo o resto estava muito enrugado de ódio. Ele tirou a mão da frente da boca, apontou para o garoto e finalmente disse algo de maneira bem clara:

“Agora,” e chegou com seu rosto assombroso bem perto do de Leo, “eu te pagaria, garoto, mas agora é você quem me paga.” E apontou para um banquinho. “Sente ali e não mova um músculo até eu voltar.”

Uma grossa gota de sangue pingou pelo dedo do Sr. Heru, e logo que ele viu colocou de novo a mão no rosto e saiu correndo para um banheiro que havia alguns andares para baixo. Leo ficou sentado no banquinho com a cabeça baixa, mas sua mente ainda estava fascinada com a máquina. Ele percebeu que aquele momento poderia ser uma oportunidade e começou a cair em profundos pensamentos, mas antes que tivesse tempo de elaborar qualquer coisa ele ouviu uma voz:

“Leo?” ele ergueu a cabeça e viu que era Finna, com as sobrancelhas apertadas e parecendo estar muito confusa.

*****

4.

 “Isso é genial”, disse Finna ao se virar e encarar a máquina. “Eu lá embaixo pensando como faria pra subir, e você aqui pronto pra sair voando com a máquina e me deixar pra trás!” Ela jogou os ombros pra trás e começou a rir da coisa toda. “Quem diria, quem diria?”

“Bem….” Leo tentou responder mas da sua boca só saíram murmúrios e palavras gaguejadas. Finalmente ficou de pé, também deu de ombros e disse: “quando eu me dei conta já estava aqui.”

Pararam os dois um do lado do outro e admiraram a máquina voadora, parada no centro da sala e com a parte da frente apontada para a janela aberta. “Eu piloto”, ela disse colocando uma mão sobre o ombro de Leo.

“Nós morreríamos”, ele respondeu secamente, “o Sr. Heru ainda não terminou de consertar a máquina.”

Ela se ajoelhou e deu pancadinhas nas asas como se as estivesse examinando. Nenhum pedaço caiu e Finna ficou satisfeita com isso, então ela pulou para dentro da máquina e começou a apertar os botões indicados pelo Sr. Goliais. As hélices nas asas começaram a girar, primeiro muito devagar e depois cada vez mais rápidas até que o som que saía delas havia preenchido toda a sala. O Sr. Heru também ouviu lá de baixo e soltou outro grito de dor e ódio que subiu as escadas até o topo da torre para se misturar ao som da máquina e passar quase despercebido pelos dois. Leo notou e olhou na direção das escadas mas teve a impressão que o grito vinha de muito longe.

“Você está brincando”, disse Finna, “se ele conseguiu entrar aqui voando, nós conseguiremos sair. Sobe, sobe!”

Leo ficou muito impressionado com as hélices das asas girando à toda velocidade e mal ele abriu a boca para dizer “caramba, então nós realmente consertamos…” e elas pararam. As luzes do painel se apagaram e a máquina voadora desligou completamente. Finna voltou a apertar os botões mas nada aconteceu, e antes que o silêncio pudesse dominar a sala o grito do Sr. Heru se colocou em alto e bom tom, e seus sapatos também ecoavam a cada passo que ele dava em sua corrida escadaria acima. Fina olhou para a direção das escadas e deu uma pancada no volante com as duas mãos enquanto suspirou sua frustração. “Droga!” Ela disse. “Nós morreremos. Como podemos nos esconder dentro de uma sala?”

“Não, nós realmente consertamos a máquina!” Leo disse e correu até a hélice da frente e começou a girá-la. Fina bateu com a mão no rosto enquanto se lembrava das instruções do Sr. Goliais e disse “a hélice, claro, claro!”

Ela voltou a apertar os botões enquanto Leo girava, e finalmente os motores ligaram completamente. Os painéis reacenderam e as hélices voltaram a girar com todas as forças nas asas. Os dois abriram sorrisos largos. Leo pulou para dentro da máquina e Finna apertou vários botões e logo a coisa toda saiu em linha reta pela janela a toda velocidade.

Então era a sombra deles que corria pelas ruas da cidade lá embaixo, e o sangue correu tão rápido como nunca pelo corpo de Finna quando ela olhou e viu as pessoas pequenininhas caminhando entre as barracas. Ela puxou o volante com toda a força e fez a máquina rodopiar e fazer muitas curvas, e no chão todas as pessoas pararam para admirar. Naquelas alturas o vento era muito forte e ela mal podia ouvir os próprios pensamentos enquanto seus longos cabelos se esticavam e chicoteavam o rosto de Leo, que estava sentado logo atrás. Ela abriu a boca e soltou um grito de exaltação que se perdeu ao ser levado pelo vento, mas Finna se sentiu feliz como nunca.

Leo por sua vez não sentiu o vento em seu rosto mas apenas os cortantes fios de cabelo de Finna. Ele estava preocupadíssimo com o Sr. Heru e não parava de olhar para a torre com a impressão de que o velho sairia de lá enfurecido, talvez voando com asas próprias ou sabe-se lá o tipo de coisa que ele não deveria ter guardado naquela torre, mas o Sr. Heru não aparecia. Finna guiava a máquina em círculos no ar e eles davam cambalhotas e cambalhotas e subiam cada vez mais alto, mas Leo olhava para a torre e não via o Sr. Heru. “Vamos fazer o que o Sr. Goliais mandou e entregar a máquina!” Ele gritava, mas sua voz também era carregada pelo vento e suas palavras se perdiam para sempre.

O Sr. Goliais na verdade já havia entrado pela porta da sala e visto pela janela Leo e Finna voando com a máquina, e havia descido até uma das salas para pegar alguma de suas armas. Não que ele fosse gagá o suficiente para destruir sua própria invenção, mas ele a amava tanto que estava disposto a arriscar uma asa ou a outra para recuperar o aparato todo. Ele pensou em fazer uma das hélices parar, assim a máquina começaria a cair e um paraquedas de emergência se abriria e ele conseguiria recuperá-la no chão. Ele pegou uma arma com dois canos muito longos e finos e voltou a subir as escadas com toda a velocidade, torcendo para que os garotos ainda estivessem fazendo manobras em algum lugar próximo da torre.

E eles estavam: Leo gritava inaudivelmente para que fugissem com a máquina de uma vez e terminassem o serviço dado pelo Sr. Goliais enquanto Finna se divertia como nunca e guiava a máquina em manobras arriscadíssimas com um largo sorriso no rosto. O vento continuava poderoso contra seus rostos, mas justo quando Finna apontou a máquina para fugir e eles começaram a voar em linha reta veio da janela da torre do Sr. Heru uma pequena bala de metal desafiando as rajadas e passando de raspão por cima da asa direita da máquina. Depois veio outra também de raspão, e outra que acertou em cheio e fez um furo na estrutura. E então uma acertou a hélice, e Leo e Finna olharam horrorizados para a fumaça preta que começou a sair da asa, pois ao mesmo tempo a máquina começou a cambalear como se estivesse mais pesada de um lado do que do outro.

*****

5.

Leo olhou para a janela da torre e viu o Sr. Heru com uma arma abaixada em uma das mãos e uma luneta apontada para eles na outra. Depois viu o velho sair correndo escada abaixo a toda velocidade deixando a luneta pra trás e levando a arma consigo.

“Está tudo bem, está tudo bem”, Finna virou para trás e começou a gritar enquanto Leo tentava fazer uma leitura labial, “eu vou conseguir pousar!”

Ele olhou atônito e confuso, e ela pôde apenas repetir “pousar, pousar!” em gritos cada vez mais altos e abafados, pois a máquina começava a perder altitude. Leo pensou que aquilo era mal, muitíssimo mal, pois se eles chegassem ao chão ainda vivos o Sr. Heru estaria lá esperando. Ele não conseguiu pensar em outra solução a não ser levar a máquina até o lugar indicado pelo Sr. Goliais, mas antes que ele pudesse manifestar qualquer pensamento a hélice da asa direita parou completamente. A máquina voadora começou a rodopiar no ar e a cair vertiginosamente. A mudança de pressão foi tão alta e tão rápida que Finna desmaiou instantaneamente e Leo sentiu como se sua cabeça fosse explodir, mas de uma vez o paraquedas de segurança se abriu e eles começaram a cair muito devagar.

Leo olhou para baixo completamente desorientado e viu as pessoas se reunindo no ponto em que eles cairiam com a máquina. Ele gritou por Finna e sua voz finalmente soava pelo ar de maneira audível, mas ela ainda estava desmaiada e não respondeu nada. Leo a chacoalhou incessantemente pelo ombro e também nada aconteceu. Poucas possibilidades passaram por sua cabeça, mas seus pensamentos estavam dominados pelo temor de inevitavelmente chegarem ao chão e serem pegos pelo Sr. Heru. Em seu desespero e falta de opções, Leo olhou para as hélices soltando fumaça e só pôde se rastejar por cima da asa para tentar consertar o estrago.

Foi muito difícil para ele se manter concentrado em analisar as hélices e descobrir se poderia fazer alguma coisa, e enquanto ele suava frio e puxava um e outro fio o Sr. Heru certamente se aproximava pelas ruas lá embaixo com a arma nas mãos. Havia muitas coisas tirando sua atenção, mas ele apenas quase perdeu o equilíbrio e se esborrachou no chão quando Finna abriu os olhos e soltou um grito de espanto.

*****

6.

A vista de Finna estava muito mais dominada por torres e árvores altas do que pelo azul do céu e as nuvens se movendo calmamente nele, e no momento em que acordou ela também pôde ouvir um ou outro grito de fascínio vindo de baixo, pois a máquina voadora continuava caindo muito lentamente. Ela sentiu um breve alívio ao ver o paraquedas aberto guiando-os levemente até o chão, mas foi Leo sentado em uma das asas a visão que lhe causou uma súbita aflição: ele não estava segurando em nada e havia um finzinho de fumaça preta saindo das hélices. Ela olhou para baixo e percebeu a distância que estavam do chão, e viu também as pessoas se reunindo naquele ponto da rua, mas virando uma esquina distante estava o Sr. Heru, correndo conforme sua vitalidade permitia e segurando na mão a arma com canos longos. Então ela alternou seus olhares rapidamente entre Leo e o chão, e exprimiu toda a sua confusão em um grito.

Leo sentiu o coração pulsando na altura da garganta, não pelo grito inesperado em si mas porque por alguns segundos ele teve a certeza absoluta de que iria perder o equilíbrio e que despencaria daquela altura como uma fruta madura cai do pé. Ele se reequilibrou e olhou para Finna enquanto limpava um suor frio do rosto. Ela estava e mal sabia o que iria perguntar primeiro, mas finalmente acabou gritando: “Você consertou?”

Leo estava completamente sem jeito e desengonçado. Ele não tinha uma alça para segurar com firmeza e segurava a asa da máquina com toda a força possível entre as pernas. Além disso, seu corpo estava em choque com toda a situação e sua pele estava mais pálida do que nunca, mas havia um sentimento de dever cumprido pois as hélices realmente não estavam mais soltando fumaça. “Não sei. Vamos tentar!” Ele gritou de volta.

E ela tentou: apertou todos os botões que o Sr. Goliais havia dito para apertar, e o painel ao lado do volante acendeu suas luzes e as hélices das asas começaram a girar com toda velocidade enquanto Leo voltava para o banco. Eles abriram largos sorrisos, mas antes que as pessoas no chão pudessem voltar para seus negócios com um assunto a mais para conversar as hélices pararam de novo e a máquina voltou a desligar. Finna gritou e bateu com as mãos no volante com muito descontentamento. “A hélice da frente!” Ela gritou.

“Mais um arranhão e eu mato vocês!” Veio a voz do Sr. Heru lá de baixo, com a arma apontada para cima. “Apenas deixem cair! Deixem cair!”

Leo já estava rastejando por cima da máquina até seu bico, mas parou e gritou para o Sr. Heru “então explode ela!” E depois girou as hélices da frente enquanto Finna voltou a apertar os botões. A máquina ligou finalmente, e a arrancada para frente que tentaram dar foi tão potente que teriam desaparecido de uma vez no horizonte se não fosse o paraquedas impedindo a coisa toda de sair do lugar: mais uma vez Leo rastejou por cima da estrutura para tentar soltar as cordas do paraquedas.

O Sr. Heru estava com o dedo no gatilho e tremia como nunca. Ele pensou que daquela distância não erraria e certamente traria a máquina ao chão, mas talvez de maneira completamente inútil. Então ele apontou sua mira para Leo e começou a atirar com a esperança de recuperar a máquina de alguma maneira, mas já era tarde demais: Leo soltou o paraquedas e se agarrou na lataria enquanto Finna puxou uma alavanca e a máquina desapareceu no horizonte na direção da floresta além da cidade.

*****

7.

Leo e Finna sobrevoaram muitas árvores antes de chegarem até a clareira na qual encontraram o Sr. Goliais. Finna se divertiu tanto guiando a máquina em várias manobras arriscadas que gritou até ficar rouca. Leo ficou apenas sentado no banco de trás admirando a paisagem, pois as árvores e as montanhas surgindo para seus olhos traziam uma sensação de alívio recompensadora e uma visão que o deixava fascinado.

Quando eles pousaram e entregaram a máquina ao Sr. Goliais ele fez muitas perguntas e eles contaram toda a história de como o roubo aconteceu. O Sr. Goliais ficou tão impressionado que além de ter pago as doze moedas de ouro que havia prometido também deu uma moeda de prata especialmente para Leo, e ele guardou ela no bolso junto com a outra moeda de prata que o Sr. Heru havia lhe dado na torre.

O sol já havia se afundado no horizonte e desaparecido além das montanhas mais distantes quando eles voltaram para a cidade. Foram direto para o banco depositar parte das moedas de ouro e depois resolveram ir pra casa. Eles estavam descendo uma grande avenida e ela ainda estava movimentadíssima, pois as pessoas que haviam se reunido ali em muitas barracas durante o dia para comprar e vender suas coisas também estavam se reunindo durante a noite para festejar. Muita gente vinha de fora para fazer comércio naquela cidade na primeira sexta feira de cada mês, e antes de ir embora eles passavam a noite comendo, bebendo e se divertindo.

Finna estava novamente puxando Leo pela mão avenida-abaixo enquanto abria caminho na multidão quando ele parou e guiou ela até uma das barracas de lanches que abriam especialmente naquelas sextas-feiras. Com as duas moedas de prata ele comprou dois espetos muito grandes com carnes e mandioca assada, e então eles sentaram em baixo de uma árvore ao lado da barraca e ficaram comendo. Enquanto assistiam as pessoas indo e vindo, Finna não parava de relembrar o roubo da máquina voadora e de falar sobre o quanto ela havia se divertido com as manobras arriscadas que haviam feito pelos ares. “Uma sensação tão boa, tão boa!” Eram as palavras roucas dela, e Leo apenas ouviu a ela em silêncio, com muita atenção e admiração, fazendo sinais com a cabeça sempre que ela dizia algo e dando pequenos sorrisos enquanto mastigava.


Atualização 04/10/2017: Eu escrevi uma análise na qual eu tento identificar os problemas com esse texto e consequentemente suas causas e possíveis soluções. Aqui está: Um pouco sobre a natureza do narrador.

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A flauta de Romeu

Atualização 19/06/2017: Eu escrevi uma análise na qual eu tento identificar os problemas com esse texto e consequentemente suas causas e possíveis soluções. Aqui está: Analisando a vergonha que sinto de velhos textos: A Flauta de Romeu.


Havia uma vila na qual todos os jovens precisavam passar por um ritual para que pudessem se tornar magos. O ritual consistia em visitar o velho Babel, fazer o que quer que fosse que ele te ordenasse, e receber como prêmio um flauta que ele especialmente te fabricaria enquanto cumpriste tua tarefa. Nunca jovem algum havia deixado a casa de Babel sem carregar consigo a própria flauta, e Romeu, que estava em dia de enfrentar o ritual, não queria ser o primeiro a não ter o instrumento que lhe daria a Magia.

Ele chamou do lado de fora e logo o velho Babel abriu a porta e o convidou para sentar-se à mesa. Haveriam de apreciar um chá de hortelã com canela enquanto Babel decidiria a tarefa que Romeu deveria cumprir, e para tomar a mais sábia decisão, certificou-se de aprender os defeitos de Romeu através da conversação. O vai e vem das frases se arrastou mais que o esperado, e só depois de algumas horas Babel se deu conta de algo que presenciava pela primeira vez: a fraqueza do jovem estava no diálogo em si. Ele demonstrava excessivo interesse, e fazia muitas perguntas sobre a Magia, sobre as flautas e como elas funcionavam. O jovem Romeu não consegue utilizar a Magia porque tem ganância e desejo de conhecê-la, pensou o velho Babel.

Dali não levou muito a elaborar a tarefa, e pediu que Romeu o acompanhasse. Abriu uma porta e mandou que Romeu entrasse, dava num quarto vazio e com paredes de madeira e brancas. Uma imensa massa de calor se deslocou por eles e saiu para fora do quarto, como que se a porta fechada prendesse do lado de dentro muito mais ar do que havia do lado de fora. Romeu balançou para os lados e para trás, fez força nos pés e não caiu, mas suas sobrancelhas se mostraram impressionadas e espantadas com aquela força que fluiu por todo seu corpo; Babel apenas caminhou até o centro do quarto como se nada houvesse ali capaz de lhe abalar as estruturas. Com os dois sós, o velho disse assim:

– Romeu, passarás aqui três dias e três noites. Não te preocupes com comida e bebida, mas apenas em manter o silêncio. Veja as paredes brancas, aqui reina a Magia, eu garanto, e o quarto é vazio: nada há para perturbar sua Magia a não ser tu mesmo. Três dias, Romeu, e isso não irás fazer.

A porta se fechou e Romeu passou três dias em silêncio. Não disse nada, e tratou de ficar parado para que o corpo também se calasse. O mais difícil, porém, aconteceu depois: o velho Babel não voltara após os três dias. A luz começava a entrar por baixo da porta indicando uma quarta manhã, e nada do velho. Romeu esperava que aparecesse após os três dias, mas não veio, e resolveu que esperaria até o fim do quarto.

Chegada a quarta noite, o garoto se repetia as palavras de Babel: Romeu, passará aqui três dias e três noites. Ele o fez, e agora a pergunta que lhe intrigava era se deveria sair por conta própria. Ou haveria o próprio velho de abrir a porta? Pensou para concluir que, de um jeito ou de outro, a tarefa dada já estava cumprida, e era outra questão se importaria o que acontecesse depois dos três dias inicialmente demandados.

Mesmo com a certeza de ter realizado o dever, Romeu temeu cometer uma atitude desengonçada e arriscar perder sua flauta por causa dela. Ah, se quebrar o voto de silêncio no quinto dia e o velho resolver que isso seria uma boa razão para negar a flauta, pensou Romeu, ficaria sem a Magia… Passou o sexto e o sétimo ponderando da mesma maneira, mas no oitavo dia resolveu se levantar: não falou nada, e nem abriu a porta, mas caminhou pelo quarto enquanto pensava consigo a razão da demora.

– Como poderia estar ficando minha flauta? Deve ser mesmo muito trabalhoso fazer as flautas assim, com Magia e tudo…

Essas palavras foram suspiradas baixinhas por Romeu em algum momento da oitava tarde. Àquele mesmo tempo, o velho Babel colhia galhos para uma fogueira na floresta do lado de fora da casa, e as paredes brancas trataram de levar aquele pensamento alto até ele. O velho, sozinho, ouviu o sussurro dos ventos e respondeu com risos a pergunta que Romeu havia feito a si mesmo: decidira ainda no primeiro dia que não faria flauta nenhuma para o garoto.

A décima quarta noite foi para Romeu mais escura que todas as outras. Nela, decidiu que esperaria o dia seguinte, e se fosse o caso do velho não voltar iria ele mesmo abrir a porta e sair. Toda a monotonia o fez pensar se era assim tão importante sair de lá com a Magia, afinal ela reinava naquele quarto e suas paredes eram brancas, e não havia nada lá que não fosse ou sua própria presença ou meramente a ausência de algo do lado de fora da porta: realmente não precisou se preocupar com comer e beber porque sua fome e sede eram saciadas sem que precisasse abrir a boca, mas havia outras coisas pelas quais ainda sentia desejo.

Na manhã seguinte, Romeu acordou e tomou como primeiro ato um grito libertador. Não foi palavra porque não tinha nenhuma a dizer, apenas abriu a boca e deixou que o palato vibrasse com o que quer que fosse o som que estivesse com vontade de escapar. Girou tranquilamente a maçaneta da porta e não se espantou ao perceber o velho Babel sentado numa cadeira o encarando, como se o esperasse naquela mesma posição há dias.

O silêncio dominou tanto lá quanto dominara dentro do quarto, e os dois deixaram que os olhos se encarassem um pouco. Romeu não fez nenhuma pergunta; na verdade, os segundos se passaram e ele já se sentia constrangido. Ambos perceberam a Magia reinar no local e fluir de um ponto a outro por todos os lados. Romeu estava pronto pra continuar andando e deixar a casa quando o velho Babel se pôs de pé da cadeira. Ele levantou uma das mãos e disse as palavras que encerrariam aquele ritual:

– Romeu, eu não lhe fiz nenhuma flauta. Você não precisa de uma.

Romeu seguiu seu caminho, e entre um passo e outro apenas respondeu:

– Eu sei.


Atualização 19/06/2017: Eu escrevi uma análise na qual eu tento identificar os problemas com esse texto e consequentemente suas causas e possíveis soluções. Aqui está: Analisando a vergonha que sinto de velhos textos: A Flauta de Romeu.