Literalmente matei meu avô jogando futebol

Eu tive um dos avôs mais maneiros do mundo, mas infelizmente isso não durou uns seis ou sete anos. O velho morreu cedo. Apesar dele levar um estilo de vida que certamente o faria morrer antes das outras pessoas (passava as noites em um boteco na esquina de casa, fumava o dia inteiro e por aí vai), ele morreu mesmo foi por culpa minha.

Pra você ter uma ideia, o cara era tão legal que eu já entrei na escola sabendo ler e escrever porque ele me ensinou em casa. Pré I, II e III, todo mundo lá morrendo de dor de cabeça pra aprender a ler e eu já sabia. Ele também me ensinou a somar e subtrair desde antes da escola, ou seja, se em algum momento eu conseguir algo na minha vida através do conhecimento que tenho, eu certamente estarei devendo isso a ele.

Apesar dele ter sido meu grande formador, acredito que de todas as coisas que ele fazia, duas se destacavam: balões e futebol. Sobre os balões, acontece que na minha cidade semanalmente é feita uma feira, e ele sempre me levava nessa feira só pra comprar um daqueles balões que flutuam (com hélio), aí a gente amarrava uma linha de pipa no balão e deixava ele subir. Essa era a grande diversão da minha vida na época, ao lado do futebol.

Ele comprou uma bola pra gente brincar, daquelas “bolas de leite”, que são feitas justamente pra criança. Era a tarde inteira chutando bola na varanda de casa. Todo santo dia eu ia para uma extremidade da varanda e ele para a outra, com a bola no meio, e aí a brincadeira começava.

Teve esse dia, especificamente, em que estávamos correndo e trocando de posição enquanto a pelota era tocada, mas de repente ele parou sem falar nada, ficou ofegante e sentou num banco que ficava ao lado da varanda. Eu continuei chutando minha bola, achando que ele estava apenas descansando ou algo do tipo… foi quando ele levantou e foi no banheiro, fechou a porta e do nada eu vi a irmã dele (que morava com a gente) desesperada, juntando uma papelada e mandando eu chamar meu pai. Mas meu pai não estava em casa, ele estava num bosque que ficava dois quartões abaixo, então eu tive que correr lá e chamar meu pai: “Tá tendo algum problema com o vô, pediram pra te chamar” e o cara saiu correndo que nem um ninja.

Chegamos em casa e a irmã do meu avô igualmente desesperada enquanto meu pai pedia ajuda para uma vizinha. Essa vizinha cedeu um carro para que meu avô fosse levado ao hospital, mas como ele não tinha condições de andar até o carro meu pai o pegou pelos braços e colocou no carro. Mais tarde eu recebi a infeliz notícia que meu avô morreu nos braços do meu pai, dentro do carro, antes mesmo de ser levado ao hospital.

Enquanto meu pai carregava meu avô, eu fui verificar o banheiro e vi sangue no vaso. Até hoje eu não encontrei uma explicação lógica para meu avô ter cagado sangue, mas enfim: o velho foi jogar futebol comigo, fez um esforço a mais, o coração acelerou, ele teve uma parada cardíaca e morreu.