untitled-1

A Máquina Voadora do Sr. Heru

Atualização 04/10/2017: Eu escrevi uma análise na qual eu tento identificar os problemas com esse texto e consequentemente suas causas e possíveis soluções. Aqui está: Um pouco sobre a natureza do narrador.


1.

Havia uma cidade que tinha tantas torres que a luz do sol mal conseguia alcançar o chão, mas nas ruas onde havia luz também havia a sombra da máquina voadora do Senhor Heru. O Senhor Heru era conhecido por todos da cidade: os adultos viam ele como um cientista de bastante respeito, já as crianças como um velho rabugentíssimo e tenebroso, apesar que um ou outro garoto que não tinha medo dele sempre era contratado para ajudá-lo a fazer manutenções durante o voo. Uma moedinha de ouro era o suficiente para fazer com que muitos garotos deixassem de lado o medo do Senhor Heru e o medo de altura e se pendurassem na parte de trás da máquina voadora.

Todas as pessoas daquela cidade e de muitas outras se reuniam ali e se espalhavam ao longo de muitas tendas e barracas na primeira sexta-feira de todos os meses, e eles vendiam e compravam muitas coisas. Em um desses dias o Sr. Heru passeava com sua máquina voadora, e lá embaixo incontáveis pessoas olhavam para cima boquiabertas. As pessoas que vinham de longe viam a máquina voadora com extrema surpresa e os moradores a olhavam com orgulho, pois a viam sempre e ficavam felizes por ela ter sido criada por alguém da cidade. No meio da multidão de compradores e vendedores um garoto e uma garota estavam olhando a máquina voadora do Sr. Heru, e eles não estavam nem surpresos e nem felizes – seus nomes eram Leo e Finna. Então eles apontaram os olhos para o chão, abaixaram os capuzes cinzas que estavam usando e voltaram a subir a rua. Estava tudo tão lotado que Finna segurou Leo pela mão e foi abrindo caminho e empurrando as pessoas antes de dar cada passo, e muitas dessas pessoas também usavam capuz pois o sol era poderoso onde alcançava.

Sobre as cabeças de Leo e Finna a máquina do Sr. Heru continuava planando de um lado para o outro, e ele só foi parar com as manobras mais impressionantes quando uma fumaça preta começou a sair de uma das asas. De repente todas as pessoas que estavam fazendo negócios levantaram a cabeça de uma vez e gritaram “Ó!”, e Leo e Finna também olharam boquiabertos. O Sr. Heru estava voando sem nenhum ajudante naquele dia para fazer uma manutenção durante o voo e pôde apenas guiar a máquina cambaleantemente até uma grande janela da sua própria torre, onde poderia pousar e consertá-la. Finna ficou animada com a cena e seu queixo caído logo se tornou um sorriso de canto de boca, mas Leo foi tomado por calafrios e maus pressentimentos. Ele puxou Finna pela mão para baixo de uma árvore onde havia poucas pessoas:

“Você acha que é melhor desistir?” Ele perguntou para ela. “Como vamos roubar a máquina se ela estiver com algum defeito?”

“Você está brincando?” Ela respondeu enquanto apertava as sobrancelhas. “Ele entrou voando na torre, a máquina está funcionando.”

“Não muito bem, senão o Sr. Heru teria continuado voando…” Leo inclinou a cabeça e virou os olhos como se estivesse desviando um olhar tímido. Finna colocou a mão em seu ombro e suspirou.

“Bem, o Sr. Heru vai consertar a máquina de qualquer maneira,” ele continuou dizendo. “Será que o Sr. Goliais não entenderia se a gente esperasse até ela estar voando normalmente?”

“Eu acho que não”, ela respondeu encolhendo os ombros. “Ele foi bem claro: roubamos a máquina  voadora do Sr. Heru e encontramos o Sr. Goliais quando o sol estiver se pondo, fazemos a entrega, pegamos o pagamento e pronto. Aquelas doze moedas de ouro vão resolver nossos problemas por muitos meses!”

Os olhos de Leo continuavam indo cada vez mais pro canto enquanto ele tentava pensar em alguma desculpa pra escapar daquela situação toda. Ele começou a gaguejar alguma coisa e por fim desabafou timidamente: “Vou te contar a verdade”, ele disse, “eu já estava com medo de pilotar a máquina antes, e agora com aquela fumaça saindo de uma das asas então…”

Finna já estava esperando que Leo se acovardasse em cima da hora e não conseguiu segurar suas risadas. Leo ficou todo vermelho e encolhido enquanto ela chacoalhava os ombros zombando dele. “Mas Leo”, ela disse, “você sabia que eu queria pilotar a máquina desde que o Sr. Goliais passou a missão. Se não queria fazer isso, por que não me deixou ficar com a parte complicada?”

“Ah, ah…” Ele respondeu desconcertado e envergonhado. “Você sabe, depois do desastre que foi aquele último roubo eu precisava ganhar uns pontos com o Sr. Goliais.” Ele deu de ombros enquanto se justificava e Finna contiuava rindo enquanto se lembrava da última missão que fizeram juntos. “Ainda preciso! Vamos esperar o Sr. Heru consertar a máquina, pelo menos não corro o risco de cair lá de cima ou sei lá.”

“Leo, está tudo bem,” Finna respondeu colocando a mão no ombro dele. “Está tudo bem. Deixa que eu entro na torre do Sr. Heru e roubo a máquina. Você distrai o Sr. Goliais. Essa parte da missão é tão importante quanto a pilotagem mas, bem, você sabe, eu gosto de fazer coisas mais agitadas .”

Leo pensou que aquela era uma oferta muito tentadora, mas ele continuava preocupado com o risco da máquina parar de funcionar no meio do ar. “Mas nesse caso quem vai correr o risco de morrer é você, dá na mesma!”

“Claro, claro!” Ela respondeu dando risadas. “Pode ser minha aventura mais divertida em muitos anos.”

Leo tentou responder, mas enquanto gaguejava Finna já entregava um pacote em uma de suas mãos e pela outra o puxava rua acima falando “vamos, vamos! Está combinado: você distrai o Sr. Heru enquanto eu roubo a máquina!” Eles continuaram subindo a avenida até que viraram para a esquerda em uma esquina, e então pararam no início de uma larga rua com várias casas muito modestas dos dois lados. Havia um grande portão centralizado onde a rua parava de seguir em linha reta e começava a dar a volta.  Era um portão muito alto, e muito alto era também o muro no qual ele ficava: pois esse muro cercava a torre do Sr. Heru, e a coisa toda era tão grande que ocupava o espaço de várias casas e era rodeada por uma rua circular que se ligava com outras retas que iam para todos os cantos da cidade, e em uma dessas Finna e Leo haviam parado e ficaram admirando o portão um pouco. Eles olharam um para o outro, e então Leo acenou para ela com a cabeça e eles se separaram: Finna se enfiou num beco entre as casas e Leo continuou andando em direção ao portão da torre do Sr. Heru.

“Sr. Heru, Sr. Heru!” Ele gritou. Depois colocou no chão o pacote que o Sr. Goliais havia preparado para distrair o Sr. Heru e bateu muitas palmas enquanto olhava para cima na expectativa de uma resposta. O velho finalmente colocou a cabeça para fora da janela mais alta da torre e lançou para Leo uma expressão muito rabugenta que ele mal conseguiu enxergar lá de baixo. Suas sobrancelhas estavam apertadas e seu rosto e seu manto cinza estavam sujos com a graxa da máquina voadora, e ele ergueu os óculos de proteção que usava e gritou com toda a força: “Quem é? O que você quer?”

Leo levantou o pacote e gritou que estava lá para fazer uma entrega e que o Sr. Heru deveria descer para pegar, mas o velho não ia bem dos ouvidos e nem dos olhos, e daquela distância só conseguiu entender uma ou outra palavra sem sentido se misturando ao vento forte das alturas e enxergou apenas o que supôs ser uma pessoa sacudindo algo que parecia um pacote marrom acima da sua cabeça, e então ele gritou que quem quer que fosse que estivesse lá embaixo era um maldito por incomodar e que ele estaria descendo imediatamente.

O portão se abriu e o Sr. Heru se colocou parado ao lado dele, segurando-o aberto e revelando as paredes da torre lá dentro. A simples aproximação do Sr. Heru foi suficiente para fazer Leo dar um passo para trás assustado com a sua presença. Ele era um velho muito magro e sua pele era enrugada até a ponta dos dedos, mas estava sempre bem disposto e com muita pressa. Quando estava para perguntar quem era e o que queria o Sr. Heru reparou que diante dele estava um garoto, então de repente seus problemas foram iluminados por uma boa ideia e ele levantou as sobrancelhas com animação. “Perfeito!” Ele disse, “entra, entra!”

“Eu…” começou a dizer Leo, que estava preocupado em manter o Sr. Heru fora da torre e não tinha nenhum plano de deixar ele entrar, ou pelo menos seria um desastre se isso acontecesse antes de Finna sair de lá com a máquina voadora. Ele estendeu o pacote que o Sr. Goliais havia preparado como distração e começou a gaguejar: “Eu vim fazer uma entrega, senhor.”

O Sr. Heru desprezou completamente o pacote. Ele fez um sinal de desdenho com a mão e o empurrou para o lado. “Entra, foi muita coincidência ter aparecido alguém”, ele disse e então se aproximou animadamente de Leo e colocou a mão em seu ombro.  “Eu estava mesmo precisando de alguém para me ajudar a consertar a máquina.”

Leo ficou atordoado com o toque do Sr. Heru e com a proximidade de seu rosto, que ele considerava muito feio e amedrontador. Ele reuniu coragem das profundezas de seu coração e voltou a levantar o pacote. “Senhor, eu estou trabalhando. Pegue o pacote. Eu ainda tenho mais encomendas para entregar”, ele disse enquanto colocava o pacote entre ele e o Sr. Heru, que novamente o afastou com a mão e voltou a se colocar ao lado do portão e a segurá-lo aberto.

Calafrios tomaram o corpo de Leo quando ele percebeu que não ia conseguir manter o Sr. Heru lá fora pelo tempo necessário. Ele abaixou o pacote e o desespero dominou seus pensamentos. Sentiu uma tremedeira subir pela espinha e não gostou nada dela, então olhou para a direção do beco no qual Finna havia se enfiado mas ela já não estava mais lá. “É coisa simples,” ele ouviu o Sr. Heru dizer, “me ajude a consertar a máquina e eu até te dou umas moedas de prata.”

Leo pensou que aquela seria a oportunidade perfeita para desistir se Finna já não estivesse tentando entrar na torre, mas o medo dela ser pega caso ele não conseguisse atrasar o Sr. Heru ali fora o dominou e ele levantou de novo o pacote e disse “Então eu ajudo, claro, claro! Mas antes o senhor pode confirmar que está tudo certo com a encomenda? Senão meu patrão…” mas o Sr. Heru já o havia ignorado novamente e estava entrando apressado pelo portão: Leo pôde apenas ir correndo atrás. Quando abriram a porta e entraram na torre ele mal teve tempo de admirar a vastidão da sala, e antes mesmo que ele pudesse fazer uma nova tentativa de entrega e pelo menos manter o Sr. Heru por ali o velho já estava subindo uma escadaria ao lado da porta.

O Sr. Heru subia os degraus com passadas larguíssimas e com muita pressa enquanto Leo o acompanhava cambaleando, parte com a impressão de que a qualquer momento criaturas terríveis surgiriam daquele corredor mal iluminado que subia pelas paredes da torre e parte imaginando que tipo de coisas estariam guardadas nas dezenas de salas que surgiam enquanto eles subiam. Os sapatos do Sr. Heru batiam na madeira dos degraus e ecoava pelas paredes da escadaria, e quando ele começou a falar seus gritos rabugentos também reverberaram incompreensivelmente.

“É muito azar! É muito azar” Ele dizia a cada passo. “Eu tenho muitas coisas para fazer esta tarde e preciso dessa máquina funcionando até lá. Mas se você me ajudar acho que conseguimos terminar a coisa toda logo.”

“Eu não posso ficar muito, tenho muitas outras entregas pra fazer.” Leo respondeu e ficou surpreso quando sua voz também ecoou nas paredes.

“Inferno, garoto, eu disse que lhe pago!”

O Sr. Heru parou e se voltou para Leo enquanto tirou uma moeda de prata do bolso do manto e atirou para o garoto. Leo pegou a moeda e abaixou a cabeça enquanto olhava para a mão em que a segurava, depois olhou para a outra mão na qual segurava o pacote preparado pelo Sr. Goliais, então deu de ombros e voltou a subir as escadas atrás do Sr. Heru para enfrentar as crueldades do destino.

*****

2.

Finna se sentiu muito frustrada ao rodear a torre e descobrir que a rua estava cheíssima de pessoas e que não haveria nenhuma hipótese de pular o muro por aquele lado sem ser vista. Ela se meteu de novo nos becos e foi para alguma rua que ficava do lado esquerdo do portão no qual o Sr. Heru deveria estar com Leo. Ali só encontrou cachorros e pôde pular o muro para dentro da torre sem problemas.

Havia grama plantada em todo o chão e muitas plantas espalhadas pelo interior do muro. Assim que se jogou lá pra dentro ela logo se levantou e se escondeu atrás de um arbustro e começou a espiar em todas as direções. Foi quando ela viu uma das portas da torre aberta, e ao lado da porta havia três vasos de petúnias. Ela deu um sorriso para si mesma pois aquilo era exatamente como o Sr. Goliais havia descrito. O lugar todo pareceu estar completamente deserto, então ela correu em direção à porta já pensando em subir as escadas até a sala mais alta, mas quando ela estava para passar pela porta de repente ouviu vindo de dentro um eco de vozes vindo lá de dentro e por impulso se espremeu na parede ao lado dos vasos de petúnias.

Lá de fora ela não pôde entender nenhuma palavra entre os sons que ouviu, e depois disso as vozes não disseram mais nada por alguns minutos. Com o silêncio ela inclinou a cabeça e espiou dentro da torre, e os olhos de Finna viram apenas a grande sala vazia com outra porta aberta para a direção em que Leo deveria estar, uma escada surgindo para cima à sua direita e uma para baixo à sua esquerda. Ela ficou muito confusa e começou a se perguntar se Leo teria conseguido segurar o Sr. Heru lá fora ou se o velho teria descido para o subsolo da torre, pois as escadas que desciam à sua esquerda estavam com o alçapão aberto.

Finna começou a alternar seus olhares enquanto pensava. Olhava para as escadas descendo à esquerda, para as escadas subindo à direita e para a porta aberta do outro lado e imaginava onde o Sr. Heru estaria. Seu sangue começou a correr mais rápido nas veias e ela se sentiu agitada, pois aquele era um risco que não estava esperando. Ela se deixou guiar pelo próprio instinto e pela confiança em Leo e decidiu correr escadaria acima e continuar com o plano inicial.

Mas Finna não subiu se esgueirando pelas paredes, ao invés disso ela subiu dando passos largos, firmes e decididos, pensando apenas nas instruções de voo que o Sr. Goliais havia dado: quais botões do painel apertar para ligar a máquina voadora, como rodar a hélice para o motor funcionar, como decolar com ela pela janela da torre, como fazer curvas fechadas e como chegar com ela até o ponto de entrega. Ela passou por muitas portas que davam para muitas salas e muitos corredores, mas só se animou realmente quando viu a porta no fim da escadaria, pois aquela porta dava para a sala no topo da torre e lá deveria estar a máquina.

Ela estava tão excitada com a coisa toda que abriu um sorriso de orelha à orelha, e justo quando se apressou para a porta ouviu outra voz ecoar, mas dessa vez se tratava claramente de um grito de dor e descontentamento. Os próximos passos de Finna teriam sido diretamente para dentro da sala e para a máquina voadora que lá estaria, mas ao ouvir esse grito ela desviou para o lado e se espremeu na parede ao lado da porta, sentiu o coração quase sair pela boca com o susto e começou a suar frio. Ela estava para se acalmar quando o Sr. Heru surgiu correndo da porta ao seu lado como se fosse um vulto e desceu as escadas desesperadamente.

Antes de se perguntar o que teria acontecido ela pensou que aquela era sua chance. A adrenalina tomou conta do corpo de Finna e ela sentiu seu sangue pulsando nas veias. Da expressão de susto outro sorriso surgiu em seu rosto e ela virou para dentro da porta de uma vez sentindo que o voo na máquina proporcionaria uma das sensações mais recompensadoras do mundo, e então ela entrou de uma vez e quase não reparou na  máquina voadora à sua disposição no centro da sala, pois logo ao lado estava Leo sentado em um banquinho e com a cabeça baixa.

*****

3.

Quando Leo entrou na sala no topo da torre sua visão foi das mais excitantes, pois ele viu a máquina voadora parada no centro e muitas outras máquinas das quais ninguém nunca havia ouvido falar ao redor dela, ferramentas e peças de todos os tipos espalhadas em prateleiras e pelo chão, baús abertos e cheios até a tampa. E de todas as coisas que ele admirou a que mais o deixou impressionado foi a grande janela aberta da qual se podia ver o topo de muitas torres da cidade, e enquanto ele olhava para o céu azul com seus olhos arregalados a voz do Sr. Heru dominou a sala e trouxe seus pensamentos de volta à situação:

“Não toque em nada sem eu mandar!” Ele disse.

Então o Sr. Heru caminhou até uma das prateleiras ao lado da grande janela e pegou duas ferramentas muito pequenas para apertar parafusos, e de um dos baús ele pegou mais uma para cortar fios. Ele se ajoelhou ao lado de uma das asas da máquina, entregou uma das ferramentas para Leo e explicou exatamente o que ele deveria fazer, depois ele caminhou até a outra asa do outro lado e os dois começaram a trabalhar.

O problema das asas eles consertaram rapidamente pois apenas a que o Sr. Heru mexeu estava danificada, mas as engrenagens das duas eram ligadas e para mexer seguramente em uma era preciso manter a outra no lugar. Leo achou as instruções muito simples e apenas as seguiu sem dificuldades, mas seus pensamentos estavam inteiramente voltados para Finna. Ele estava preocupado que ela subiria as escadas para roubar a máquina voadora sem ter a consciência de que eles estariam lá em cima. Ele fez muitas perguntas para o Sr. Heru sobre as diversas máquinas que estavam na sala com a esperança de que Finna os ouviria conversando e não seria pega subindo as escadas, mas o Sr. Heru logo pediu a paciência e pediu silêncio enquanto ele se concentrava no conserto da máquina.

Ele começou a pensar em coisas diferentes que poderia ter dito e que teriam convencido o velho a aceitar o pacote, ou que pelo menos o manteriam lá fora por tempo suficiente para ela subir as escadas e sair voando. Foi quando o Sr. Heru deitou no chão e se enfiou embaixo da máquina para consertar o motor principal, e esta era a parte mais danificada. Leo precisou erguer a máquina rapidamente do chão para que o Sr. Heru pudesse mexer os braços com as ferramentas lá embaixo, mas enquanto a segurava a porta da sala aberta mostrava o abismo que era a escadaria da torre indo lá para baixo, e ele a olhava com a impressão que a qualquer momento Finna surgiria dali toda estabanada e que o Sr. Heru os pegaria e que então eles estariam com muitos problemas. A apreensão subiu pelas suas pernas e a preocupação que dominou seu corpo fez com que seus braços não conseguissem segurar a máquina por muito tempo, e se não fosse por isso ela já seria pesada demais de qualquer maneira: deixou a coisa toda desabar de uma vez em cima do velho.

O primeiro grito do Sr. Heru foi pela dor mas também exprimiu uma irritação que pareceu estar guardada há tempos. Sua voz ecoou em toda a sala, saiu pela janela e até desceu as escadas enquanto Leo se tremeu todo cem uma sensação de que havia cometido um erro terrível e fez o que pôde para puxar a máquina, mas o Sr. Heru começou a empurrá-la por conta própria e a dar muitos outros gritos assustadores. O pobre garoto não conseguiu entender uma palavra em meio ao seu desespero, mas a expressão rabugenta que estava no rosto do Sr. Heru quando ele se levantou de uma vez falou por si só: a mão cobria o nariz de onde escorria sangue, e todo o resto estava muito enrugado de ódio. Ele tirou a mão da frente da boca, apontou para o garoto e finalmente disse algo de maneira bem clara:

“Agora,” e chegou com seu rosto assombroso bem perto do de Leo, “eu te pagaria, garoto, mas agora é você quem me paga.” E apontou para um banquinho. “Sente ali e não mova um músculo até eu voltar.”

Uma grossa gota de sangue pingou pelo dedo do Sr. Heru, e logo que ele viu colocou de novo a mão no rosto e saiu correndo para um banheiro que havia alguns andares para baixo. Leo ficou sentado no banquinho com a cabeça baixa, mas sua mente ainda estava fascinada com a máquina. Ele percebeu que aquele momento poderia ser uma oportunidade e começou a cair em profundos pensamentos, mas antes que tivesse tempo de elaborar qualquer coisa ele ouviu uma voz:

“Leo?” ele ergueu a cabeça e viu que era Finna, com as sobrancelhas apertadas e parecendo estar muito confusa.

*****

4.

 “Isso é genial”, disse Finna ao se virar e encarar a máquina. “Eu lá embaixo pensando como faria pra subir, e você aqui pronto pra sair voando com a máquina e me deixar pra trás!” Ela jogou os ombros pra trás e começou a rir da coisa toda. “Quem diria, quem diria?”

“Bem….” Leo tentou responder mas da sua boca só saíram murmúrios e palavras gaguejadas. Finalmente ficou de pé, também deu de ombros e disse: “quando eu me dei conta já estava aqui.”

Pararam os dois um do lado do outro e admiraram a máquina voadora, parada no centro da sala e com a parte da frente apontada para a janela aberta. “Eu piloto”, ela disse colocando uma mão sobre o ombro de Leo.

“Nós morreríamos”, ele respondeu secamente, “o Sr. Heru ainda não terminou de consertar a máquina.”

Ela se ajoelhou e deu pancadinhas nas asas como se as estivesse examinando. Nenhum pedaço caiu e Finna ficou satisfeita com isso, então ela pulou para dentro da máquina e começou a apertar os botões indicados pelo Sr. Goliais. As hélices nas asas começaram a girar, primeiro muito devagar e depois cada vez mais rápidas até que o som que saía delas havia preenchido toda a sala. O Sr. Heru também ouviu lá de baixo e soltou outro grito de dor e ódio que subiu as escadas até o topo da torre para se misturar ao som da máquina e passar quase despercebido pelos dois. Leo notou e olhou na direção das escadas mas teve a impressão que o grito vinha de muito longe.

“Você está brincando”, disse Finna, “se ele conseguiu entrar aqui voando, nós conseguiremos sair. Sobe, sobe!”

Leo ficou muito impressionado com as hélices das asas girando à toda velocidade e mal ele abriu a boca para dizer “caramba, então nós realmente consertamos…” e elas pararam. As luzes do painel se apagaram e a máquina voadora desligou completamente. Finna voltou a apertar os botões mas nada aconteceu, e antes que o silêncio pudesse dominar a sala o grito do Sr. Heru se colocou em alto e bom tom, e seus sapatos também ecoavam a cada passo que ele dava em sua corrida escadaria acima. Fina olhou para a direção das escadas e deu uma pancada no volante com as duas mãos enquanto suspirou sua frustração. “Droga!” Ela disse. “Nós morreremos. Como podemos nos esconder dentro de uma sala?”

“Não, nós realmente consertamos a máquina!” Leo disse e correu até a hélice da frente e começou a girá-la. Fina bateu com a mão no rosto enquanto se lembrava das instruções do Sr. Goliais e disse “a hélice, claro, claro!”

Ela voltou a apertar os botões enquanto Leo girava, e finalmente os motores ligaram completamente. Os painéis reacenderam e as hélices voltaram a girar com todas as forças nas asas. Os dois abriram sorrisos largos. Leo pulou para dentro da máquina e Finna apertou vários botões e logo a coisa toda saiu em linha reta pela janela a toda velocidade.

Então era a sombra deles que corria pelas ruas da cidade lá embaixo, e o sangue correu tão rápido como nunca pelo corpo de Finna quando ela olhou e viu as pessoas pequenininhas caminhando entre as barracas. Ela puxou o volante com toda a força e fez a máquina rodopiar e fazer muitas curvas, e no chão todas as pessoas pararam para admirar. Naquelas alturas o vento era muito forte e ela mal podia ouvir os próprios pensamentos enquanto seus longos cabelos se esticavam e chicoteavam o rosto de Leo, que estava sentado logo atrás. Ela abriu a boca e soltou um grito de exaltação que se perdeu ao ser levado pelo vento, mas Finna se sentiu feliz como nunca.

Leo por sua vez não sentiu o vento em seu rosto mas apenas os cortantes fios de cabelo de Finna. Ele estava preocupadíssimo com o Sr. Heru e não parava de olhar para a torre com a impressão de que o velho sairia de lá enfurecido, talvez voando com asas próprias ou sabe-se lá o tipo de coisa que ele não deveria ter guardado naquela torre, mas o Sr. Heru não aparecia. Finna guiava a máquina em círculos no ar e eles davam cambalhotas e cambalhotas e subiam cada vez mais alto, mas Leo olhava para a torre e não via o Sr. Heru. “Vamos fazer o que o Sr. Goliais mandou e entregar a máquina!” Ele gritava, mas sua voz também era carregada pelo vento e suas palavras se perdiam para sempre.

O Sr. Goliais na verdade já havia entrado pela porta da sala e visto pela janela Leo e Finna voando com a máquina, e havia descido até uma das salas para pegar alguma de suas armas. Não que ele fosse gagá o suficiente para destruir sua própria invenção, mas ele a amava tanto que estava disposto a arriscar uma asa ou a outra para recuperar o aparato todo. Ele pensou em fazer uma das hélices parar, assim a máquina começaria a cair e um paraquedas de emergência se abriria e ele conseguiria recuperá-la no chão. Ele pegou uma arma com dois canos muito longos e finos e voltou a subir as escadas com toda a velocidade, torcendo para que os garotos ainda estivessem fazendo manobras em algum lugar próximo da torre.

E eles estavam: Leo gritava inaudivelmente para que fugissem com a máquina de uma vez e terminassem o serviço dado pelo Sr. Goliais enquanto Finna se divertia como nunca e guiava a máquina em manobras arriscadíssimas com um largo sorriso no rosto. O vento continuava poderoso contra seus rostos, mas justo quando Finna apontou a máquina para fugir e eles começaram a voar em linha reta veio da janela da torre do Sr. Heru uma pequena bala de metal desafiando as rajadas e passando de raspão por cima da asa direita da máquina. Depois veio outra também de raspão, e outra que acertou em cheio e fez um furo na estrutura. E então uma acertou a hélice, e Leo e Finna olharam horrorizados para a fumaça preta que começou a sair da asa, pois ao mesmo tempo a máquina começou a cambalear como se estivesse mais pesada de um lado do que do outro.

*****

5.

Leo olhou para a janela da torre e viu o Sr. Heru com uma arma abaixada em uma das mãos e uma luneta apontada para eles na outra. Depois viu o velho sair correndo escada abaixo a toda velocidade deixando a luneta pra trás e levando a arma consigo.

“Está tudo bem, está tudo bem”, Finna virou para trás e começou a gritar enquanto Leo tentava fazer uma leitura labial, “eu vou conseguir pousar!”

Ele olhou atônito e confuso, e ela pôde apenas repetir “pousar, pousar!” em gritos cada vez mais altos e abafados, pois a máquina começava a perder altitude. Leo pensou que aquilo era mal, muitíssimo mal, pois se eles chegassem ao chão ainda vivos o Sr. Heru estaria lá esperando. Ele não conseguiu pensar em outra solução a não ser levar a máquina até o lugar indicado pelo Sr. Goliais, mas antes que ele pudesse manifestar qualquer pensamento a hélice da asa direita parou completamente. A máquina voadora começou a rodopiar no ar e a cair vertiginosamente. A mudança de pressão foi tão alta e tão rápida que Finna desmaiou instantaneamente e Leo sentiu como se sua cabeça fosse explodir, mas de uma vez o paraquedas de segurança se abriu e eles começaram a cair muito devagar.

Leo olhou para baixo completamente desorientado e viu as pessoas se reunindo no ponto em que eles cairiam com a máquina. Ele gritou por Finna e sua voz finalmente soava pelo ar de maneira audível, mas ela ainda estava desmaiada e não respondeu nada. Leo a chacoalhou incessantemente pelo ombro e também nada aconteceu. Poucas possibilidades passaram por sua cabeça, mas seus pensamentos estavam dominados pelo temor de inevitavelmente chegarem ao chão e serem pegos pelo Sr. Heru. Em seu desespero e falta de opções, Leo olhou para as hélices soltando fumaça e só pôde se rastejar por cima da asa para tentar consertar o estrago.

Foi muito difícil para ele se manter concentrado em analisar as hélices e descobrir se poderia fazer alguma coisa, e enquanto ele suava frio e puxava um e outro fio o Sr. Heru certamente se aproximava pelas ruas lá embaixo com a arma nas mãos. Havia muitas coisas tirando sua atenção, mas ele apenas quase perdeu o equilíbrio e se esborrachou no chão quando Finna abriu os olhos e soltou um grito de espanto.

*****

6.

A vista de Finna estava muito mais dominada por torres e árvores altas do que pelo azul do céu e as nuvens se movendo calmamente nele, e no momento em que acordou ela também pôde ouvir um ou outro grito de fascínio vindo de baixo, pois a máquina voadora continuava caindo muito lentamente. Ela sentiu um breve alívio ao ver o paraquedas aberto guiando-os levemente até o chão, mas foi Leo sentado em uma das asas a visão que lhe causou uma súbita aflição: ele não estava segurando em nada e havia um finzinho de fumaça preta saindo das hélices. Ela olhou para baixo e percebeu a distância que estavam do chão, e viu também as pessoas se reunindo naquele ponto da rua, mas virando uma esquina distante estava o Sr. Heru, correndo conforme sua vitalidade permitia e segurando na mão a arma com canos longos. Então ela alternou seus olhares rapidamente entre Leo e o chão, e exprimiu toda a sua confusão em um grito.

Leo sentiu o coração pulsando na altura da garganta, não pelo grito inesperado em si mas porque por alguns segundos ele teve a certeza absoluta de que iria perder o equilíbrio e que despencaria daquela altura como uma fruta madura cai do pé. Ele se reequilibrou e olhou para Finna enquanto limpava um suor frio do rosto. Ela estava e mal sabia o que iria perguntar primeiro, mas finalmente acabou gritando: “Você consertou?”

Leo estava completamente sem jeito e desengonçado. Ele não tinha uma alça para segurar com firmeza e segurava a asa da máquina com toda a força possível entre as pernas. Além disso, seu corpo estava em choque com toda a situação e sua pele estava mais pálida do que nunca, mas havia um sentimento de dever cumprido pois as hélices realmente não estavam mais soltando fumaça. “Não sei. Vamos tentar!” Ele gritou de volta.

E ela tentou: apertou todos os botões que o Sr. Goliais havia dito para apertar, e o painel ao lado do volante acendeu suas luzes e as hélices das asas começaram a girar com toda velocidade enquanto Leo voltava para o banco. Eles abriram largos sorrisos, mas antes que as pessoas no chão pudessem voltar para seus negócios com um assunto a mais para conversar as hélices pararam de novo e a máquina voltou a desligar. Finna gritou e bateu com as mãos no volante com muito descontentamento. “A hélice da frente!” Ela gritou.

“Mais um arranhão e eu mato vocês!” Veio a voz do Sr. Heru lá de baixo, com a arma apontada para cima. “Apenas deixem cair! Deixem cair!”

Leo já estava rastejando por cima da máquina até seu bico, mas parou e gritou para o Sr. Heru “então explode ela!” E depois girou as hélices da frente enquanto Finna voltou a apertar os botões. A máquina ligou finalmente, e a arrancada para frente que tentaram dar foi tão potente que teriam desaparecido de uma vez no horizonte se não fosse o paraquedas impedindo a coisa toda de sair do lugar: mais uma vez Leo rastejou por cima da estrutura para tentar soltar as cordas do paraquedas.

O Sr. Heru estava com o dedo no gatilho e tremia como nunca. Ele pensou que daquela distância não erraria e certamente traria a máquina ao chão, mas talvez de maneira completamente inútil. Então ele apontou sua mira para Leo e começou a atirar com a esperança de recuperar a máquina de alguma maneira, mas já era tarde demais: Leo soltou o paraquedas e se agarrou na lataria enquanto Finna puxou uma alavanca e a máquina desapareceu no horizonte na direção da floresta além da cidade.

*****

7.

Leo e Finna sobrevoaram muitas árvores antes de chegarem até a clareira na qual encontraram o Sr. Goliais. Finna se divertiu tanto guiando a máquina em várias manobras arriscadas que gritou até ficar rouca. Leo ficou apenas sentado no banco de trás admirando a paisagem, pois as árvores e as montanhas surgindo para seus olhos traziam uma sensação de alívio recompensadora e uma visão que o deixava fascinado.

Quando eles pousaram e entregaram a máquina ao Sr. Goliais ele fez muitas perguntas e eles contaram toda a história de como o roubo aconteceu. O Sr. Goliais ficou tão impressionado que além de ter pago as doze moedas de ouro que havia prometido também deu uma moeda de prata especialmente para Leo, e ele guardou ela no bolso junto com a outra moeda de prata que o Sr. Heru havia lhe dado na torre.

O sol já havia se afundado no horizonte e desaparecido além das montanhas mais distantes quando eles voltaram para a cidade. Foram direto para o banco depositar parte das moedas de ouro e depois resolveram ir pra casa. Eles estavam descendo uma grande avenida e ela ainda estava movimentadíssima, pois as pessoas que haviam se reunido ali em muitas barracas durante o dia para comprar e vender suas coisas também estavam se reunindo durante a noite para festejar. Muita gente vinha de fora para fazer comércio naquela cidade na primeira sexta feira de cada mês, e antes de ir embora eles passavam a noite comendo, bebendo e se divertindo.

Finna estava novamente puxando Leo pela mão avenida-abaixo enquanto abria caminho na multidão quando ele parou e guiou ela até uma das barracas de lanches que abriam especialmente naquelas sextas-feiras. Com as duas moedas de prata ele comprou dois espetos muito grandes com carnes e mandioca assada, e então eles sentaram em baixo de uma árvore ao lado da barraca e ficaram comendo. Enquanto assistiam as pessoas indo e vindo, Finna não parava de relembrar o roubo da máquina voadora e de falar sobre o quanto ela havia se divertido com as manobras arriscadas que haviam feito pelos ares. “Uma sensação tão boa, tão boa!” Eram as palavras roucas dela, e Leo apenas ouviu a ela em silêncio, com muita atenção e admiração, fazendo sinais com a cabeça sempre que ela dizia algo e dando pequenos sorrisos enquanto mastigava.


Atualização 04/10/2017: Eu escrevi uma análise na qual eu tento identificar os problemas com esse texto e consequentemente suas causas e possíveis soluções. Aqui está: Um pouco sobre a natureza do narrador.

Untitled-1

De repente lembrei de Yu-Gi-Oh! na minha infância

2005, uma terça feira qualquer, manhã. Você provavelmente estava assistindo algum desenho na TV Globinho? Porque se sim, meus parabéns, mas se não, só posso lamenter por sua infância ter sido pior que a minha.

maxresdefault

Hoje eu acordei e me veio a falta de você, TV Globinho.

 

Foi aí onde conheci Dragon Ball, Beyblade, Inuyasha, Digimon, Pokémon, Medabots… enfim, uma porrada de coisas que marcaram meus primeiros dez anos de vida. Acontece que vez ou outra algum desses desenhos acabava sendo mais que algo que via na TV e saía pro mundo real.

Com Yu-Gi-Oh! e suas cartas de duelo foram assim.

Ontem quando voltava da academia dei de cara com uma loja de jogos de carta, tabuleiro, rpg e outras coisas nerds. Fiquei PROFUNDAMENTE EMOCIONADO quando olhei pra placa na entrada e vi isso entre os logotipos dos produtos que vendiam lá:

yugioh_logo_small

Nossa, são tantas emoções, bixo. Na mesma hora tive lembranças de umas coisinhas que aconteceram há uns, sei lá, dez anos, e quero aproveitar pra contar aqui três pequeninos CAUSOS envolvendo Yu-Gi-Oh! na minha infância antes que me esqueça. Mas antes já aproveito pra deixar aqui duas recomendações:

Se você já conhece a série, com certeza vai gostar muito de Yu-Gi-Oh! Duel Generation, jogo que tem versão tanto pra Android (download aqui) quanto pra IOS (download aqui). Cito rapidamente três motivos pra jogar: 1) mecânica que você já conhece, 2) mais de seis mil cartas disponíveis no sistema do jogo 3) dá pra jogar online com a galera 4) é grátis. Você não quer mais que isso, né?

Agora, se não conhece a série original, vai assistir AGORA! Tem no Netflix, e na verdade até no youtube. Destaque: vale MUITO a pena ver dublado. E de quebra aí vai uma breve explicação pros infelizes que não assistiram/jogaram essa maravilha:

Existia esse desenho/anime/mangá que consistia em personagens duelando, mas esses duelos eram feitos usando cartas. Tipo truco, mas cada carta apresentava um monstro com atributos de ataque e defesa, e tinham também as cartas mágicas e armadilhas, que afetavam os seus ou os monstros do inimigo, baseando toda a parte de estratégia do jogo. Acontece que foi um sucesso tão grande que acabaram lançando as tais cartinhas no mundo real, e elas eram mais ou menos assim:

bestas-divinas

Pronto. Agora, tá vendo esses três monstrinhos aí de cima? Então, são os chamados Deuses Egípcios, e dentro do jogo são não só fortes pra caramba como também raríssimos de serem encontrados. Em outras palavras, objeto de desejo de todo jogador.

Eu tinha os três.

E troquei com um cara por uns cinco carrinhos de brinquedo estragados.

Não faço ideia de porquê fiz isso, mas fato é que fui duramente criticado por todos os meus primos. “Como assim?! Você tinha os Deuses Egípcios e simplesmente TROCOU?”, e eu “sim, mas por cinco carrinhos, cara…” e eles “mas os carrinhos são todos velhos e fodidos! Você é doido!”. No momento nem me toquei, o arrependimento só foi vir quando comecei a perder duelos que venceria se não tivesse me livrado das cartas raras.

Mas a má fase acabou quando consegui essa belezinha:

final_zpsmxk7fn75

A gloriosa CARTADA FINAL. Basicamente tudo que você precisa fazer é colocar essas cartas em jogo e a partida acaba. Tipo, do nada. Evidente que ficou tão chato que acabamos concordando em parar de usar esses cards apelões.

Outra coisa que me lembro é de ter passado a infância toda tentando possuir o Exódia, mais um deus egípcio poderosíssimo dentro do jogo. A diferença dele para os outros é que o Exódia não consistia de uma carta só, mas de seis: uma carta com a cabeça, outras duas para cada braço, o tronco noutra e mais duas com as pernas.

Com o decorrer dos anos fui acumulando quase todas, só me faltava a perna direita pra completar o Exódia. Eis que surge na escola um garoto vindo dos Estados Unidos e possuidor de altíssimas cartas de Yu-Gi-Oh, e quando fomos compartilhar histórias ele falou “Ei, precisa só da perna direita pra completar? Eu tenho e te dou!”.

Êta momento emocionante.

No outro dia, ele voltou com a carta que me faltava e a felicidade não cabia no meu peito. O resumo da ópera é que cheguei em casa e descobri que a perna que eu não tinha era, na verdade, a esquerda. Ou seja, a partir daquele momento eu tinha o Exódia mas com duas pernas direitas. Como fiquei com vergonha de contar pro cara e perguntar se ele tinha a outra carta pra me dar, então ficou por isso mesmo.

De qualquer forma, mantive todas as minhas cartas até meados de 2013 ou 2014, quando namorava uma garota que era muito fã da série e não possuía carta nenhuma. No meu bom coração de namorado, peguei-a admirando meu baralho velho e como eu mesmo não tocava nele há anos decidi simplesmente DÁ-LO. Uns meses depois terminamos, e ela até tentou me devolver mas eu estava numa onda de “nah, dane-se, pode ficar”, então acabou sendo esse meu último encontro com Yu-Gi-Oh!, mas ó, só lembrança maravilhosa.

GodCabecalho

Assistir ao trailer do novo God of War me deixou cheio de saudades

E logo eu, que não gosto de jogos que se jogam sozinhos, sou um grande fã de God of War. Tá, tá bom, talvez grande fã seja exagero, mas que lembro da franquia com uma saudade imensa, isso sim.

De volta à época em que o recém lançado Playstation 3 ainda era um sonho distante pra maioria das crianças, ainda mais as rondonienses, a alegria da molecada era feita com o glorioso Playstation 2 e seus incontáveis jogos vendidos em camelôs por preço de banana.

A nostalgia me consome quando lembro que eu e meus primos reuníamos aos sábados algumas notas de dois reais e descíamos as ruas pra comprar jogos. Cinco reais cada um, três por dez. Acho que é por isso que não tenho um pingo de interesse de pagar mais de cem reais por um jogo das gerações atuais, me parece completamente absurdo.

20160620_145637.jpg

De novo essa foto, só pra mostrar que ainda tenho as capas dos jogos piratas que comprava no camelô. Três por R$ 10 – época de ouro da humanidade.

De qualquer forma, comprávamos sempre os jogos de coisas que já conhecíamos por outros meios, como Dragon Ball e Naruto, ou jogos que já havíamos jogado em outros lugares, como Need For Speed, ou jogos com capas que pareciam interessantes. Numa dessas a gente descobriu God of War.

Quando começamos a jogar, logo de cara ficamos espantados com a parte visual e o clima que o jogo trazia. Lembro do jogo começar já com uma pancadaria num navio destroçado em alto mar, com toda uma atmosfera tempestuosa. Quer dizer, vendo os gráficos hoje nem parece tudo isso, mas à época a gente nem conseguia imaginar como a coisa toda poderia ser visualmente melhor.

Viciamos rapidão. Zeramos mais de uma vez. Rapidão.

Particularmente, acabei ficando enjoado com a jogabilidade de ter que passar o jogo inteiro apertando a mesma tecla e vendo o personagem fazer tudo sozinho, mas me divertia muito com o jogo principalmente por causa da história.

Cara, que mundinho bem estruturado. Os plots, as soluções, a apresentação dos personagens… demais. Não bastasse o jogo me soar tão interessante, ainda apareceu nas bancas o Gof of War 2, que não decepcionou por ter a mesma pegada só que com acontecimentos bem mais grandiosos no roteiro. E o 3, então? Levou a coisa toda pra outro nível, até os titãs apareceram brigando enquanto eu ficava completamente perplexo com a foderocidade do universo criado pelo game.

Eis que estou eu vagando pela internet essa semana quando PLAU, me aparece esse trailer:

Olha esse Kratos, se não é um SENHOR personagem.

O universo do jogo é tão sensacional que fez com que eu não me interessasse em joga-lo, mas em aprecia-lo. E é essa minha expectativa pro que foi apresentado no trailer: que se dane a jogabilidade, quero me imergir no mundo de Kratos e ver algo grandioso mais uma vez. Boto fé, hein.

Como palavras não descrevem a nostalgia que esse vídeo me causou, só posso terminar esse post com uma imagem:


selolagrimasmasculinas

 

Untitled-1

Um breve caso de bullying na minha infância

Como o primeiro caso que vou contar aconteceu numa igreja católica, já deixo de spoiler que a história não envolve padres.

É o seguinte: como a parte da família que mais convivia comigo era bastante católica, fui forçado a fazer catecismo. Eu acabava indo à igreja por osmose, ficava lá só torcendo pro tempo passar e poder voltar logo pra casa. Achava tudo aquilo um saco e mesmo assim segui as imposições porque falavam comigo de um jeito que eu me sentia muito mal por não ser batizado. Todo mundo achava isso um absurdo e deixavam explícito que ou eu fazia o tal catecismo e me batizava ou eu meio que não seria, sei lá, aceito socialmente.

A situação ficou ainda mais incômoda quando minha bisavó faleceu e passou os últimos meses de vida falando sobre como queria me ver batizado e tudo mais, aí não teve outro jeito, fui lá.

As aulas eram aos sábados nos fundos da igreja, só uma hora por semana – e mesmo assim era insuportável. Fiquei um ano inteiro cursando aquela foda pra no fim das contas nem ser batizado (porque ninguém me avisou da cerimônia e quando eu reparei ela já tinha acontecido). Sem contar que não aprendi nada, só ensinavam as dezenas e dezenas de cantos e orações que eu já estava careca de ouvir nas missas, mas ficou por isso mesmo: um ano jogado fora.

wrestlemania-30-john-cena-vs-bray-wyatt

Perdi toda a exibição que o SBT fez de WWE, e olha que eu gostava bastante.

Não bastasse ter que aturar esse besteirol todo, ainda estudava comigo um cara um pouco mais velho (eu devia ter uns 10 anos e ele uns 15, mas não tenho certeza) que fazia o famigerado bullying. Rapaz… Esse cara, não seja esse cara.

Puta cara chato, meu.

Eu era muito quieto e passava a aula toda tentando me comportar, permanecer em silêncio e ouvir o que os professores tinham pra falar. Ele, por razões completamente avulsas ao meu entendimento, tinha como missão me encher o saco. O tal garoto, que se não me engano se chamava Thalles, ou Thalisson, algo assim, ficava o tempo todo me cutucando, empurrando, jogando bolinha de papel, coisas do tipo.

A princípio, nada de mais. Quero dizer, incomodava? Incomodava, mas eu podia lidar com aquele nível de cara chato.

EIS QUE ele toma uma decisão radical numa aula qualquer: esquentar um lápis numa das oito milhões de velas que existiam na igreja e encostar o lápis quente no meu braço. Foi o cúmulo. Quando aquilo aconteceu, fui automaticamente possuído por um espirito vingador e resolvi que ia partir o cara na porrada (ou melhor, na capoeira) até ele nunca mais incomodar ninguém.

Como eu não queria deixar de ter a imagem de aluno comportado que tinha (isso era algo que deixava minha família bastante orgulhosa), optei por não fazer isso dentro da igreja. Quando a aula acabou, peguei minha bicicleta e fiquei na esquina da igreja esperando ele sair pra poder arrebenta-lo com socos e pontapés.

papa-nega-audiencia-a-dalai-lama-para-evitar-problemas-com-china

Aqui vemos o próprio Papa fazendo facepalm pra essa coisa toda.

Diga-se de passagem, pra você jovenzinho que não sabe, ainda era uma época em que o conceito de bullying mal era conhecido, e quando alguém nos enxia o saco ao invés de chorar nós quebrávamos os dentes uns dos outros. Porrada era a forma mais fácil que a gente tinha pra resolver a maioria dos problemas, algo que, apesar de particularmente não aprovar, fazia parte da cultura em que cresci.

Bem, fiquei lá, paradão, olhando pro portão da igreja e esperando ele sair pra seguir ele até um lugar onde pudéssemos nos tornar quites… E o cara simplesmente entrou num carro e foi embora.

Fiquei pasmo, mas determinado a alcançar minha vingança passei a semana toda, pela primeira vez, ansioso pela próxima aula. Sabe o que aconteceu? Ele nem foi.

Decepção total: o cara nem foi na aula seguinte. E nem nas outras. Nunca mais vi ele.

Foi uma frustração completa saber que ele fez todas aquelas merdas e não levou um soco no olho pra ficar esperto, ou um esporro da mãe, sei lá. Suponho que se me encheu tanto o saco também deve ter feito o mesmo com outros garotos, o que é lamentável. E imagina o quão ruim os pais dele devem ter sido pra conseguir criar uma criança com caráter tão lixoso.

Enfim, passei alguns anos tendo a esperança de reencontrá-lo por aí e finalmente poder realizar o famigerado acerto de contas, mas não aconteceu. Como acabei esquecendo o rosto dele com o passar dos anos, talvez até tenha topado com ele por aí e nem percebi, mas pronto, ficou por isso mesmo.

Untitled-1

Achei tudo que procurava num jogo em Anno 1404 (um game pra quem já gosta de Age of Mythology/Empires)

Senhoras e senhores, estou apaixonado – por um jogo.

DSC01021

Playstation 2 e Keven Fongaro nos idos de 2008.

Minha infância foi permeada de videogames: comecei com um Dynacom que ganhei tão logo vim ao mundo e atingi o ápice com um Playstation 2 quase na pré-adolescência. Lembro saudosamente, inclusive, de ir com frequência ao camelô e comprar três jogos por dez reais – feito inacreditável pra quem só conhece os consoles atuais e paga mais de cem num game. Ainda hoje tenho minha coleção de capas piratas que restaram dessa época dourada de jogatinas playstanísticas:

Paralelamente, com oito ou nove anos fui introduzido ao mundo dos jogos de computador, que se mostrou amplamente vasto e de maior desempenho à época. Sem demora, comecei a gastar a maior parte do meu tempo com Mu Online, The Sims, Need For Speed e Age of Mythology – esse último atravessou as barreiras temporais das viradas de ano e se instalou no que eu chamo, até hoje, de “meu jogo favorito”. Ou pelo menos chamava, porque agora eu conheço o glorioso Anno 1404!

Pra entender o que me prendeu tanto ao Anno, é preciso entender o que me prendeu tanto ao Age of Mythology na última década de vida: estratégia e ação.

20160620_145637.jpg

Repare na expressão alegre de quem jogou todos esses piratex por R$ 3,33 cada.

Em outras palavras, o que sempre gostei nos jogos foi de, justamente, jogar. E a partir de God of War, no Playstation 2, os jogos começaram a ter a tendência de não serem jogáveis. Um jogo que se joga sozinho, sem sua ajuda! Já pensou? Pois é, a indústria game pensou e hoje em dia todos os jogos são assim, todos os jogos atuais consistem em você apertar o mesmo botão e assistir as cenas cinematográficas com gráficos impecáveis. Esse é um fato que me entristece bastante, principalmente porque eu fico na obrigação de jogar jogos antigos. E não pense que é por falta de tentativa, porque eu acompanho sempre a lista dos lançamentos anuais, dos melhores jogos, das promessas e tudo mais: todos se jogam sozinho, nenhum oferece à mim a possibilidade de, enfim, jogar.

Já os jogos antigos, apesar de serem jogáveis e oferecerem um entretenimento digno, enfrentaram a falta de capacidade dos consoles/pcs de suas épocas: não há maneiras diferentes de jogar o mesmo jogo. Ou seja, como já joguei todo o GTA San Andreas, Vice City, Need For Speed Underground/Most Wanted, The Sims, Sim City, Call of Duty etc e tal, não tem a menor graça jogar de novo pela segunda, terceira ou quarta vez, porque o jogo é igual.

Age of Mythology não tem isso, ao contrário, cada partida é completamente nova. A mecânica é simples mas te possibilita jogar sempre algo diferente. O que mais me agrada é que ele traz as duas coisas que eu mais gosto: estratégia (você pode ganhar através de planos e da própria inteligência) e ação (se você não fizer nada, simplesmente é morto, então é sempre obrigado a estar jogando).

Mas depois de alguns anos sendo meu inseparável amigo pra horas de tédio, acabei cansando de jogar sempre o Age of Mythology. Apesar de me proporcionar cada vez uma partida diferente, me enchi de jogar sempre algo diferente num mesmo jogo, e comecei minha caçada por qualquer coisa que me lembrasse remotamente a alegria que este game sempre me trouxe. Surgiu ele…
Anno_1404_logo

É um Age of Mythology melhorado, beus abigos!

Continue lendo

blogslideshow2

Quando quebrei o dedão do pé por pura estupidez

Só uma lembrança rápida do dia em que eu quebrei o dedão do pé sem boas razões aparentes: correndo e tropeçando. Agora, sabe do que eu corria? Meu padrasto tinha uma filha e, de acordo com o que consigo lembrar, transformar a vida dela num inferno dantesco era uma das grandes ocupações da minha infância.

Estava eu lá, após alguma ação estúpida que não lembro qual, fugindo dela. Ela queria me surrar e eu infelizmente não queria ser surrado, então corria. Corria rindo, aliás, porque consegui deixar ela nervosa suficiente para correr atrás de mim, o que para (quase) irmãos significa o maior nível de nervosismo possível.

Eis que PLAU, saio correndo e deixo o dedão pra trás. Digo, tentei sair correndo mas o dedão ficou paradão lá no chão, preso no espacinho entre uma cerâmica e outra. Não sei se chutei, sei lá, mas logo caí esperneando no chão. Parei de rir na hora, desnecessário dizer. Depois de toda essa estupidez, a lição que fica é: foi karma, sim ou claro?

Aí você pensa, “nossa que merda, quebrou o dedo? Só isso? “, e eu respondo:

dedãoquebrado

Pois é, parceiro, colocaram gesso até meu joelho! Um dedo, UM ÚNICO MALDITO DEDO. E os enjalecados FODEM MINHA PERNA INTEIRA!