Lipovetsky

Sobre Marvel e Sociedade Leve

Texto originalmente escrito para a disciplina Sociologia da Cultura, referente ao quarto período do curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal Fluminense.

 

Em resposta à pergunta: “Comente o texto de lipovetsky considerando as relações entre indivíduo e sociedade na contemporaneidade, ou seja, na ‘sociedade leve’: ‘a mobilidade que caracteriza o consumidor contemporâneo é filha do processo de desregulação, destradicionalização e individualização hipermoderna (…) agora é consumo mais intimista e hedonista que domina, largamente esvaziado das lógicas de desafio inter-humano, de rivalidade estatuária, de enfrentamento simbólico’.”

Eu quero fazer minhas reflexões sobre o assunto a partir dos filmes de super-heróis da Marvel Studios. O sucesso de público e de bilheteria que eles vêm fazendo é representativo da atuação dos indivíduos na sociedade leve, então ponha-se a questão: por que tantos indivíduos se dispõem a ir ao cinema assistir aqueles filmes, e porque os índices de aprovação da crítica especializada e da audiência geral são tão positivos? Digamos, os últimos três filmes e suas respectivas bilheterias de R$ 860 milhões, R$ 880 milhões e R$ 820 milhões.

Nessa altura os diretores e roteiristas dos novos filmes da Marvel seguem fórmulas extremamente rígidas, de modo que o público sabe de antemão o que esperar dos próximos lançamentos – aqui a produção apenas reflete a demanda: não se ousa, se entrega mais do mesmo porque esse mesmo é justamente o que o consumidor quer. Nesse sentido pode-se explorar duas implicações desse tema: primeiro que há uma vontade dos consumidores, segundo que há algo de satisfação de vontades nesses filmes.

A vontade dos consumidores, os seus desejos e as suas esperanças de com o ingresso do filme obter o prazer de ter um desejo satisfeito são forças que não se mostravam nas sociedades anteriores como capazes de guiar os pensamentos e as ações dos indivíduos. Nessas, não se fazia o que se fazia para satisfazer um desejo; ao contrário, muitas das coisas que se fazia, se fazia com a certeza de que prazer nenhum seria satisfeito ao fim da atividade. O indivíduo agia muito mais buscando uma satisfação futura do que qualquer outra coisa, ou então buscando a satisfação de desejos que não eram propriamente os seus.

Essas situações em que os desejos eram mais uma imposição ou uma construção coletiva do que de origem introspectiva se opõem ao que acontece com o espectador da Marvel contemporâneo. Os críticos mais ferrenhos às obras que colocam que elas não suportam nenhum tipo de escrutínio ou processo de pensamento ignoram que o espectador sequer quer ver o mesmo filme duas vezes. Ao longo de todo o filme estão piadas que perderiam a graça se ouvidas novamente, e estão planos tão rápidos que não servem nenhuma função senão a de manter algo acontecendo na tela – não há mesmo porque vê-los novamente. Isso de ter sempre uma ação sendo executada, um corte sendo feito, um efeito especial, uma música: não há espaço para o tédio ou para a desatenção, ou acima de tudo para pensar em qualquer coisa que não no próprio filme. Durante a experiência de assistir a algo, a audiência não se preocupa com nada além dos problemas sugeridos pelo enredo do filme em si, que são sempre resolvidos em sua totalidade até o fim da obra. O espectador não sai do cinema com dúvidas, com questões abertas do enredo para pensar ou com a sensação de que algumas coisas passaram despercebidas: o filme tem apenas a função de identificar os desejos e de satisfazê-los.