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Escrevendo sobre o que não é o foco do livro

Texto escrito ano passado em resposta a um post no Clube de Autores de Fantasia que pedia dicas “sobre como desenvolver o romance entre dois personagens durante a história quando o romance não é o foco do livro”:


Acho que em primeiro lugar é preciso se voltar à questão do foco.

Você diz que o romance não é o foco do livro, e isso me faz pensar que, bem, então quer dizer que o livro *tem* um foco. Nesse caso vale a pena pensar sobre o que o foco quer dizer para a narração da história. Uma definição de “história” que eu acho linda foi dada pelo Aristóteles e coloca que elas são uma sequência de acontecimentos, e que cada um dos acontecimentos pode ser de início (quando não é precedido por nenhum outro), de fim (quando não é sucedido por nenhum outro) e de meio (quando é sucedido e precedido por outros). Absolutamente brilhante. Se o que você está contando se encaixa nisso, e provavelmente sim, você está narrando uma mudança, digo, no *início* as coisas estão de um jeito e conforme elas vão acontecendo no *fim* elas vão estar de um outro jeito. Eu suponho que você esteja falando de “foco” como sendo a coisa que sofrerá essa mudança (por exemplo, sei lá, quem exerce o poder em um determinado lugar).

Agora, escrever o livro tendo em mente uma definição tão pura de “foco” traria resultados problemáticos porque o seu livro contaria apenas os acontecimentos-de-meio essenciais para que a grande mudança acontecesse – nesse caso ou o livro teria duas páginas ou então ele seria preenchido com coisas que não tem a menor relação com o que está sendo contado, vulgo “encheção de linguiça”. Então, bem, considere que naturalmente que muitos dos acontecimentos que compõem a sua história não são nem de início e nem de fim mas não necessariamente são os responsáveis por fazer a mudança entre um e outro, eles são simplesmente acontecimentos-de-meio que são não-essenciais. Um exemplo: “fulano acordou com sede, se espreguiçou e foi até a cozinha beber um copo de água”, o acontecimento “se espreguiçou” não foi o responsável por fazer “acordou com sede” se transformar em “beber um copo de água”, mas se ele não estivesse ali e essa história fosse um pouco mais complexa ela se tornaria insuportável (imagine estender o “foi até a cozinha”, que é o acontecimento-de-meio essencial para a mudança, por 200 páginas. Ugh. [a não ser, é claro, que você escreva como escreveu Bukowski ou Graciliano Ramos pra fazer as 200 páginas serem interessantíssimas, mas aí é outra questão completamente diferente]) Meio que a tendência das obras de Fantasia é a de enxer o livro com acontecimentos-de-meio que são não-essenciais, ou pelo menos isso é o que acontece nos livros que a maioria das pessoas costuma considerar bem escritos. Nesse caso o “foco” não é a especificidade da mudança (o foco não é “matar a sede”, não é “derrotar o inimigo”, não é “reconquistar a cidade” etc), nesses casos o “foco” é narrar os acontecimentos que se passaram entre o começo e o fim de forma geral. Harry Potter é um exemplo pessoalmente favorito, mas a maior parte dos livros de Fantasia são tão longos porque a maioria das frases que compõem eles são “eles olharam ao redor e…”, “ele cruzou os braços e…”, “ele caminhou até…”, “ele olhou para o…” que são as coisas que fazem a história suportável e que não são transformam o começo da história no fim dela.

Eu acho que sob essa luz é possível inserir o romance sem medo. No fim das contas o começo (“eles não estão juntos”) e o final (“eles estão juntos”) das nossas relações na vida real são ligados por muitos acontecimentos-de-meio que nós só podemos perceber que são acontecimentos-de-meio depois que a coisa toda aconteceu. Esses dias eu voltava da faculdade com uma garota e comentava com ela sobre a dificuldade de uma prova, e eu certamente teria feito isso com qualquer outra pessoa, mas o ponto é que se algum dia surgir uma relação entre nós eu vou olhar para trás e entender esse acontecimento como sendo um acontecimento-de-meio essencial para a mudança início-fim na história da nossa relação, enquanto que agora ele é apenas um acontecimento-de-meio não-essencial de outra história (a história em que no início eu estava na faculdade e no fim eu cheguei em casa e descansei).

Se o status do relacionamento dos personagens não é *a* grande mudança que está sendo narrada no seu livro, só jogue esses pequenos acontecimentos-de-meio essenciais para a relação como se eles não fossem nada que fica tudo certo. De grão em grão a galinha enche o papo. Não precisa de uma cena desenhada especificamente para retratar um acontecimento causador do romance, e não precisa também fazer nenhuma cena de introspecção em que o personagem pensa sobre como tal pessoa é interessante ou o que quer que seja – nesses casos provavelmente o leitor ficaria com a sensação de estar lendo um acontecimento-de-meio que é essencial para uma história que tem início e fim que são diferente dos que você está contando no livro.

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Três notas em Harry Potter

Repostando aqui esse pequeno texto que escrevi para postar no grupo Clube dos Autores de Fantasia.


Três coisas ficaram marcadas na minha memória sobre o universo de Harry Potter:

Primeiro, as informações que são entregues para os leitores podem claramente ser separadas em dois grandes grupos: as coisas que são familiares a nós e as coisas que não são.
Com “as coisas que são familiares a nós” eu me refiro aos cabelos, alturas dos personagens, formato dos lábios, laços parentescos etc; elementos que não são propriamente de fantasia e que definitivamente existem no mundo real e fazem parte das nossas vidas, e que consequentemente não precisam de nenhum tipo de explicação porque nós já os conhecemos suficientemente. Nos momentos em que alguma informação precisa ser passada para o leitor referente a alguma dessas coisas, isso é feito com o uso do narrador. Logo frases como “A cicatriz em sua testa, que tinha formato de raio, estava queimando…” ou “Tio Vernon, tia Petúnia e Dudley eram os únicos parentes vivos de Harry” e outras semelhantes exemplificam isso de o narrador aparecer, entregar a informação que precisa ser entregue e pronto.

Por outro lado, há as coisas que pertencem a um mundo que o leitor ainda não conhece e que consequentemente precisam de explicações para que sua função dentro da história possa ser compreendida. Nesses casos o narrador não aparece e entrega as explicações, como se fosse ele o único capaz de iluminar as nossas mentes e traduzir os elementos fantasiosos em coisas que nós podemos compreender. O que há é uma mistura entre a necessidade das explicações e o que acontece na história. Logo, quando Harry ganha o Manto da Invisibilidade (que é algo fantasioso e portanto pode ter qualquer outra característica além da invisibilidade implicada pelo nome), nós ficamos sabendo o que é preciso saber sobre ele por meio da carta que acompanha o presente. Semelhante ao que acontece na primeira aparição da Nimbus 2000, que se dá em um momento em que várias pessoas contemplam ela em uma vitrine e falam sobre o quanto ela é uma vassoura sensacional e tudo o mais, e também há em seguida uma explicação dada por Ron para o Harry, se minha memória não falha.

Em segundo lugar, apesar de me lembrar muito bem de longas descrições físicas sobre como os personagens, os lugares e os objetos apareciam diante dos olhos do Harry, eu me lembro muito melhor de como ele se sentiu diante das visões. Como o Harry se sentiu na primeira aparição do Hagrid, e do Dumbledore, e o momento do Chapéu Seletor, e a Hermione de vestido e tudo o mais: quando eu paro para me lembrar dos “momentos” da história, a primeira coisa que é evocada em mim é a sensação do que estava acontecendo no momento. Quando penso no Início de O Cálice de Fogo em que Voldemort mata o jardineiro Frank, por exemplo, penso primeiro em uma sensação gigantesca de suspense e horror do que no visual da coisa toda, mesmo com as descrições – isso me parece ser uma causa direta da empatia que é estabelecida entre o leitor e os personagens, no sentido que eu leitor consigo me colocar tanto no lugar deles que a “sensação de ter estado lá” me atinge.

Em terceiro lugar, a sensação de grandeza que é estabelecida sem que o narrador precise contar diretamente o quanto o universo da história é grande e complexo, e ainda por cima o constante aumento nessa sensação de grandeza conforme a história progride. Eu até diria que nós estamos limitados a conhecer apenas as coisas que se relacionam com a história; eu me lembro de ter lido o primeiro livro e pensado “uau, que universo gigantesco, muitas histórias interessantes poderiam ser contadas aqui” mas eu jamais imaginaria que ao terminar a leitura do segundo livro eu estaria pensando o que eu pensei, “oh bem, então o universo de Harry Potter é ainda maior do que eu conhecia pelo primeiro livro” e a mesma coisa aconteceu com as leituras seguintes. Há sempre algo novo para se conhecer nas novas histórias porque nas histórias velhas nós ficamos conhecendo apenas o que se precisava conhecer.