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Um texto de J. R. R. Tolkien sobre Contos de Fadas

Penso que fiz uma das leituras mais úteis de toda minha vida. Sabe o J. R. R. Tolkien, aquele d’O Senhor dos Anéis? Então, ele tem um texto sobre conto de fadas!

Ah, se sebos ainda não são lugares sagrados. Dei de cara com um livrinho surrado que tinha “Tolkien” escrito na capa, esquecido no fundo de uma prateleira. Quando peguei, rapaz, era um livro com alguns textos antigos do sujeito que não eram mais publicados. Todos em inglês, e pasme, paguei três reais por essa maravilha.

Agora, o ponto é o seguinte: esse livro se chama Tree and Leaf, e o primeiro texto é um ensaio sobre contos de fadas chamado On Fairy Stories. Paradoxalmente desnecessário dizer que quando J. fucking R. R. Tolkien fala sobre contos de fadas, você escuta.

Ele começa respondendo à pergunta “O que são contos de fadas?”, contando, de maneira sensacional, qual a origem do termo e como ele era usado nos primórdios, pra depois falar sobre sua evolução e como é usado hoje em dia. A coisa vai pra outro nível de fantasticidade quando Tolkien resolve explicar quais as características desses textos que criam universos em que fadas são possíveis.

E aí é aula, meua migo. Pra quem gosta de escrever (qualquer tipo de texto), especialmente narrativas com universos fantasiosos, isso aqui é essencial – e pra quem simplesmente curte contos de fadas ou textos do Tolkien, também. No fim das contas minha recomendação é que você vá ler o On Fairy Stories por conta própria agora, até porque não tem nem trinta páginas, mas vale a pena deixar aqui alguns aforismos que extraí do texto:

“Mas, visto que o conto de fadas trata de “maravilhas”, ele não pode tolerar nenhum enquadramento ou mecanismo que dê a entender que toda a história em que ocorrem é uma ficção ou ilusão.”

“A mente que imaginou leve, pesado, cinzento, amarelo, imóvel, veloz também concebeu a magia que tornaria as coisas pesadas leves e capazes de voar, transformaria o chumbo cinzento em ouro amarelo e a rocha imóvel em água veloz. Se podia fazer uma coisa, podia fazer a outra; inevitavelmente fez ambas.”

“Mas os contos de fadas também oferecem, em grau ou modo peculiar, estas coisas: Fantasia, Recuperação, Escape, Consolo, coisas de que as crianças por via de regra precisam menos que os mais velhos.”

“A Fantasia é uma atividade humana natural. Certamente ela não destrói a Razão, muito menos insulta; e não abranda o apetite pela verdade científica nem obscurece a percepção dela. Ao contrário. Quanto mais arguta e clara a razão, melhor fantasia produzirá.”

“Se as pessoas realmente não conseguissem distinguir sapos de homens, não teriam surgido contos de fadas sobre reis sapos.”

“É claro que a Fantasia pode ser levada ao exagero. Pode ser malfeita. Pode servir a maus usos. Pode até iludir as mentes das quais surgiu. Mas, neste mundo caído, para que coisa humana isso não é verdade?”

“Por que desdenhar um homem se, estando na prisão, ele tenta sair e ir para casa? Ou se, quando não pode fazê-lo, pensa e fala sobre outros assuntos que não carcereiros e muros de prisão? O mundo exterior não se tornou menos real porque o prisioneiro não consegue vê-lo.”

PDF do texto “On Fairy Stories” em inglês

PDF do livro “Tree And Leaf” em português (texto “Sobre Contos de Fadas” na página 8)