Pedaços de madeira viajam mais rápido que o som: quando quase matei meu primo

Eu já expliquei em outro post que costumava passar MUITO tempo com meus primos, e desses encontros surgiram dezenas de histórias boas. Uma que me apareceu agora na cabeça foi do dia em que quase matei meu primo mais novo com um CABO DE VASSOURA.

picapauvassoura

Ok, o negócio é um pouco mais complexo e eu nem lembro exatamente o motivo que me chegou a fazer aquilo. Provavelmente porque me divertia muito ver outras pessoas se machucando.
Como também já contei em outro post, eu moro em Rondônia e aqui tem mato pra tudo que é lado. Nesse dia estávamos na casa da nossa avó (materna) e havia um terreno abandonado ao lado da casa, com todo tipo de planta que você pode imaginar, junto com um pequeno córrego formado pela água da chuva e por tudo que os vizinhos descartavam. Como um esgoto em pequena escala.

A gente brincava lá.

Mas criança tem uma imaginação dos infernos, né? A gente chamava o lugar de “O SANITÁRIO” e ele era visto como uma entidade divina com força superior e incompreensível à todos nós. Vez ou outra chegávamos a jogar no tal córrego algumas frutas e bens materiais que encontrávamos no chão do lugar, como forma de agradar, agradecer e cultuar o Sanitário.

Fiz um mapa do lugar. Olha:

mapasanitario

(MAIOR complicado fazer esse “mapa”. Tinha feito um desenho lindo, mas o Photoshop fechou e tive que refazer. Morra, Photoshop, morra)

Então, aconteceu que meus dois primos estavam cultuando o córrego do sanitário e eu estava naquela parte em que ficavam os restos de uma casa abandonada, ou seja, eles estavam de costas para mim, uns 20 metros de distância na minha frente.

Pelo fato do terreno ser abandonado e baldio, os vizinhos jogavam lá tudo que é tipo de lixo, e vez em quando a gente achava algo útil pra brincar. Como tal, achei algo útil, só não para brincar: um cabo de vassoura. Eu sinceramente não faço a menor ideia de que diabos me deu na cabeça que de uma hora pra outra fiquei com uma vontade incontrolável de jogar aquilo nos meus primos. Escolhi o mais novo e joguei. Ao mesmo tempo em que fiz o movimento com as mãos para arremessar a madeira, gritei “CUIDADO”. Ilustrei a situação:

pedacodepau

Apesar de ter lançado o cabo de vassoura ao mesmo tempo em que gritava “cuidado”, a madeira chegou antes do som. Meu primo não conseguiu ouvir meu grito avisando-o do perigo, muito menos desviar de meu ataque. Naturalmente, a próxima cena foi essa:

pedacodepau2

Logicamente que eu comecei a rir como se fosse o último dia da minha vida.

Rapaz, eu só lembro do garoto pegando o cabo de vassoura no chão, colocando uma mão no pescoço, virando em minha direção e BUFANDO DE RAIVA. Esse dia foi épico. Enquanto ele tentava se tornar lúcido novamente, eu corria o mais rápido que podia. Corria pela minha vida. Determinado momento ele começou a ANDAR atrás de mim. Eu não sei que diabo aconteceu, mas eu corria como um ninja e ele vinha andando atrás de mim, e por incrível que pareça estava sempre na minha cola. Depois disso eu nem lembro de muita coisa, mas no fim das contas ele nem se vingou e esse foi certamente um dos dias da minha vida em que mais ri.

Literalmente matei meu avô jogando futebol

Eu tive um dos avôs mais maneiros do mundo, mas infelizmente isso não durou uns seis ou sete anos. O velho morreu cedo. Apesar dele levar um estilo de vida que certamente o faria morrer antes das outras pessoas (passava as noites em um boteco na esquina de casa, fumava o dia inteiro e por aí vai), ele morreu mesmo foi por culpa minha.

Pra você ter uma ideia, o cara era tão legal que eu já entrei na escola sabendo ler e escrever porque ele me ensinou em casa. Pré I, II e III, todo mundo lá morrendo de dor de cabeça pra aprender a ler e eu já sabia. Ele também me ensinou a somar e subtrair desde antes da escola, ou seja, se em algum momento eu conseguir algo na minha vida através do conhecimento que tenho, eu certamente estarei devendo isso a ele.

Apesar dele ter sido meu grande formador, acredito que de todas as coisas que ele fazia, duas se destacavam: balões e futebol. Sobre os balões, acontece que na minha cidade semanalmente é feita uma feira, e ele sempre me levava nessa feira só pra comprar um daqueles balões que flutuam (com hélio), aí a gente amarrava uma linha de pipa no balão e deixava ele subir. Essa era a grande diversão da minha vida na época, ao lado do futebol.

Ele comprou uma bola pra gente brincar, daquelas “bolas de leite”, que são feitas justamente pra criança. Era a tarde inteira chutando bola na varanda de casa. Todo santo dia eu ia para uma extremidade da varanda e ele para a outra, com a bola no meio, e aí a brincadeira começava.

Teve esse dia, especificamente, em que estávamos correndo e trocando de posição enquanto a pelota era tocada, mas de repente ele parou sem falar nada, ficou ofegante e sentou num banco que ficava ao lado da varanda. Eu continuei chutando minha bola, achando que ele estava apenas descansando ou algo do tipo… foi quando ele levantou e foi no banheiro, fechou a porta e do nada eu vi a irmã dele (que morava com a gente) desesperada, juntando uma papelada e mandando eu chamar meu pai. Mas meu pai não estava em casa, ele estava num bosque que ficava dois quartões abaixo, então eu tive que correr lá e chamar meu pai: “Tá tendo algum problema com o vô, pediram pra te chamar” e o cara saiu correndo que nem um ninja.

Chegamos em casa e a irmã do meu avô igualmente desesperada enquanto meu pai pedia ajuda para uma vizinha. Essa vizinha cedeu um carro para que meu avô fosse levado ao hospital, mas como ele não tinha condições de andar até o carro meu pai o pegou pelos braços e colocou no carro. Mais tarde eu recebi a infeliz notícia que meu avô morreu nos braços do meu pai, dentro do carro, antes mesmo de ser levado ao hospital.

Enquanto meu pai carregava meu avô, eu fui verificar o banheiro e vi sangue no vaso. Até hoje eu não encontrei uma explicação lógica para meu avô ter cagado sangue, mas enfim: o velho foi jogar futebol comigo, fez um esforço a mais, o coração acelerou, ele teve uma parada cardíaca e morreu.