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A Senhorita que veio do mar

Os vento sopravam as velas do navio, e parada na proa a Senhorita Vivian observava as árvores se erguendo atrás da praia. Qualquer homem ao seu lado não teria visto senão um borrão no horizonte atrapalhando a mistura da águas com o céu – mas ah, vejam vocês! Hoje em dia eles contam que as águas eram a sua mãe, e o céu o seu pai! E a Senhorita Vivian olhava e via o que homem nenhum teria visto, e no seu coração ela desejava o que homem nenhum teria desejado, pois ninguém estava no navio além dela, e na sua solidão o navio se movia pela pura vontade do mar.

E então os homens se juntaram na praia e subiram nas árvores, e eles olharam e eles viram, mas não mais que apenas o navio eles enxergaram; quando este deixou de ser um ponto inalcançável nas distâncias e se tornou uma parede de madeira cobrindo toda a visão, só então eles perceberam a Senhorita Vivian. E eles contemplaram! E contemplavam! Os cabelos escuros como as águas durante a noite, o manto branco como as nuvens no céu durante o dia! E no seu esplendor, os olhos que refletiam a pureza do coração! E os homens olhavam, e eles suspiravam – mas eles não conheciam o desejo, não! Eles desceram das árvores, e em seus modos mais primitivos eles se ajoelharam e reverenciaram a Senhorita enviada pelas águas.

Com as cabeças apontadas para o chão, eles fecharam os seus olhos. Nos seus pensamentos mais profundos, os homens tiveram a certeza de que não deveriam olhar para aquela que havia vindo do mar, e, naquele momento, eles enxergaram a Senhorita Vivian apenas com o coração – mas ela! Com os olhos bem abertos, ela viu a essência por trás dos homens. Não árvores, e não animais, e não nada os seus olhos enxergaram além da essência dos homens! Os homens vendo o preto por trás das pálpebras sentiram um olhar caindo sobre eles, e era o olhar da Senhorita Vivian.

Os ventos desceram a Senhorita Vivian do navio, e os homens se levantaram. E o navio – ele se foi! Carregado pelas águas para longe, e depois engolido para as profundezas: ele se foi. Quando os homens sentiram os pés da Senhorita Vivian pisando na terra em que eles viviam, eles abriram os olhos, e mais uma vez eles contemplaram, e então ela sorriu para eles e eles sorriram para ela, e dentro deles a tristeza pela alegria foi iluminada. Eles sorriram para ela, sim; mas groceiro, o sorriso dos homens! Groceiro! Eles ainda não sabiam sorrir. Hoje em dia eles contam que aprenderam com ela, pois naquele momento os seus lábios finos puxaram delicadamente o canto da boca e revelaram não mais que um delicado arco branco. Eles olharam para o sorriso dela, e se envergonharam – nos seus corações o desejo mais profundo nasceu: eles queriam sorrir como a Senhorita Vivian. Eles não queriam sorrir para ela como groceiros! As bochechas dos homens se avermelharam. Eles sentiram vergonha.

E ela, vejam vocês! Ela se sentiu grata, e ela quis agradecer, e ela agradeceu: no fim da sua solidão, a Senhorita Vivian cantou para os homens. Ela cantou a sua gratidão com muitas palavras, mas eles não compreenderam nenhuma delas – eles ainda não sabiam compreender as palavras. Eles apenas ouviram a melodia, e os seus ouvidos se deliciaram com a voz doce ecoando por entre as árvores para dentro da floresta – mas ela! Ela cantou para os homens, e para as águas, e para o céu! E para a floresta ela também cantou! Ela cantou para que os homens não esquecessem, e para que os pássaros imitassem a sua música – e assim foi! Pela primeira vez os pássaros e os homens cantaram a mesma música que a Senhorita Vivian.


Conto escrito para um mini-concurso feito em um grupo de escritores no Whatsapp.

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O Porto do Comércio

Daniel foi tirado da água pelos piratas depois que ouviram seus gritos de socorro vindo de um barquinho, e assim que pôs seus pés no navio saiu à procura de um novo corpo – acabou possuindo um dos cozinheiros dos piratas, um homem baixo e cheio de cicatrizes, com marcas de queimaduras de óleo espalhadas pelos braços, um bigode grosso e amarelado pelo cigarro, o restante da barba rala e grisalha, nariz achatado e olhos fundos que pareciam estar sempre fechados. Ele também era muito, muito gordo, e parecia comer tanta banha de porco que havia se tornado um ele próprio. Esse se tornou o novo corpo de Daniel, e o antigo os piratas consideraram como morto e lançaram o cadáver de volta ao mar.

Estar com a alma dentro do corpo do cozinheiro era uma sensação tão ruim quanto vê-lo de fora, mas Daniel não tinha outra opção, apesar que ele adoraria ter: corpos deteriorados e pútridos eram os únicos que ele conseguia possuir, pois estes eram os que abrigavam almas fracas suficientes para serem chutadas para fora, e assim o cozinheiro gordo e moribundo foi possuído.

Daniel estava na cozinha do navio, mastigando incansável uma maçã que de tão velha havia se tornada emborrachada como chiclete, tentando encontrar algo capaz de melhorar o aspecto do corpo do cozinheiro. Ele pensou no quanto aquela situação era irônica: trocar de corpo para fugir do pessoal da Alma Perdida e da morte, e então uma preocupação imensa para evitar a morte natural do novo corpo. Apesar de não ter feito tantas vezes esse procedimento em alto mar, Daniel acabou percebendo que toda a comida de um navio pirata é velha e de pior qualidade. Ele encontrou batatas e beterrabas, e enquanto constatava que as cenouras estavam tão más que o fariam se sentir pior naquele corpo do que melhor, ouviu um grito abafado vindo de cima.

“Pesqueiros, pesqueiros à vista! Navios pesqueiros à vista!” Dizia o grito, tão alto que todos os piratas pararam para ouvir, “Porto do Comércio em uma semana!”.

Então todos no navio passaram uma semana comendo o que de pior havia para ser comido, pois Daniel preparava os melhores alimentos para si mesmo em uma tentativa falha de se sentir melhor. Apesar disso, ele conseguiu passar toda a viagem sem ser notado, disfarçado como cozinheiro do navio. Os piratas tinham o costume de beber e conversar, e lá Daniel ouviu muitas histórias enquanto o tempo passava. Quando ele voltou a ouvir o grito vindo de cima, dessa vez indicando que finalmente  haviam chegado ao Porto do Comércio, espiou com ansiedade pela janela e viu o grande mercado flutuando no oceano.

A estrutura enorme se erguia como se fosse uma metrópole no meio de um continente, com incontáveis casas de madeira que podiam ser vistas à grande distância. Muitas pessoas moravam no Porto do Comércio, e muitas outras vinham dos quatro continentes para se encontrar ali e fazer negócios. As ruas eram recheadas de barracas que vendiam todo tipo de produto, mas muitas delas vendiam peixes pescados na região pelos próprios moradores, que faziam a vida assim. Quando o navio se aproximou, Daniel pôde ver a fachada da Taverna dos Porcos erguendo-se gigantesca no centro do mercado, a maior e mais movimentada taverna de todo o Porto do Comércio, que ele conhecia muito bem de outras visitas.

O sol estava escaldante, e fazia brilhar todas as peças de metais que ornamentavam os  inúmeros navios que iam e vinham. Haviam navios de todos os tipos, vindo de todos os mares, e muitos possuíam estátuas espalhadas na proa, brasões desenhados nas laterais e velas, e cores extravagantes. Quando os navios ancoravam as pessoas logo desciam e iam se amontoar nas ruas centrais do Porto do Comércio, de modo que as bordas eram quase desertas em comparação ao centro, e de qualquer forma ninguém ficava no mesmo lugar por mais que alguns minutos.

O navio de Daniel foi ancorar no lado Leste, onde costumavam atracar os navios que ficariam lá por alguns dias. Os navios pesqueiros que precisavam sair e voltar o tempo todo usavam o lado Sul do porto, e nos lados Norte e Oeste acontecia embarque e desembarque de outras mercadorias. A coisa era tão grande que não havia como regular e, na verdade, era uma gigantesca bagunça que se misturava em todas as direções – os únicos que respeitavam os lados corretos de se ancorar um navio eram os próprios moradores e os que operavam sob lei de algum reinado, e estes eram minoria, pois quase todos os que visitavam o Porto do Comércio eram piratas que atracavam no lado que estivesse mais próximo.

A âncora começou a descer, e Daniel olhou pela janela do navio estacionado: lá estava uma grande rua, que se estendia em linha reta até se perder no horizonte. O chão era de madeira, e se erguia sobre a água em cima de inúmeras pilastras flutuantes, muito grossas e também de madeiras, de modo que a estrutura ficava numa altura razoável na qual a maioria dos navios conseguia atracar e as pessoas conseguiam descer sem dificuldades. Haviam muitos caixotes e containers gigantes espalhados, esperando um navio específico vir buscar, e haviam outros sendo arrastados por pessoas esquisitissimas que vinham sabe-se lá de onde e os colocavam no lugar certo. As gaivotas sobrevoavam e se acumulavam em cima de navios pesqueiros que não deveriam estar desembarcando ali no lado Leste, mas muitas também davam voos rasantes e pescavam seus peixes por conta própria. Daniel as viu ainda pela janela de seu navio pirata e ficou contente por um instante, depois se intrigou com a vida das gaivotas e começou a pensar sobre o tipo de coisa que ele vinha fazer no Porto do Comércio para conseguir viver.

Quando o sol iluminou os caminhos que saíam da borda Leste e levavam ao centro do mercado, ele voltou a se sentir melhor pois a visão o fez se lembrar da Taverna dos Porcos e do carneiro grelhado que serviam lá, e das bebidas que acharia para comprar nas barracas próximas à borda Sul, e dos artistas que se apresentavam nos cabarés no centro do mercado à noite. Então ele tentou pensar em alguma maneira de visitar todos esses lugares e ainda conseguir cumprir sua missão, pois Daniel estava bastante preocupado e consciente de que seria complicado fazer seu trabalho no Porto do Comércio sem ser percebido pelo pessoal da Alma Perdida.

Quando os piratas finalmente esticaram a prancha para fora do navio, Daniel desceu para o mercado muito mais preocupado com eles, o pessoal da Alma Perdida, do que com a missão que tinha que cumprir e a Taverna dos Porcos. “Uma pena que aqueles malditos me seguem por todos os cantos desse mundo”, ele pensou, “as pessoas nunca deixam alguns homens fazerem seu trabalho em paz”. Então desceu, ainda desajeitado e se sentindo mal no corpo do cozinheiro, e seguiu pelos caminhos mais desertos que conseguiu encontrar. Em algum lugar no centro do Porto do Comércio deveria achar um corpo melhor para possuir, pelo menos era isso que planejava.


Uma nota: os textos de ficção que escrevo pra esse blog são textos de estudo, quer dizer, coisas que escrevo pra testar ou treinar algo. O de hoje não é uma história com começo, meio e fim – em formato de conto, como costumo fazer – na verdade é, hummm, uma versão aprofundada, talvez, do texto Corpos e Almas no Porto do Comércio, e esse sim é um conto. Algo equivalente a um capítulo de uma narrativa maior, imagino. Digo isso porque escrevi esse texto pra testar umas ideias que andei tendo sobre descrições, e preferi simplesmente reutilizar o Porto do Comércio ao invés de me preocupar em criar algo novo, e talvez eu acabe fazendo isso muitas outras vezes no futuro e essa nota venha a calhar. É isso. : P

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Corpos e Almas no Porto do Comércio

Atualização 12/04: Duas semanas depois desse texto ter sido publicado eu escrevi outro explorando o início dessa mesma história. Leia “O Porto do Comércio” clicando aqui.


Daniel estava no corpo, e descia com uma garotinha pelos caminhos que cortavam o mercado enquanto a alma que antes havia habitado aquela carne agora vagava livremente pelo mundo. À venda nas prateleiras, o cheiro das incontáveis espécies locais de peixes se misturava com o de todo tipo de produto vindo dos quatro cantos do mundo, impregnava o ar e fazia queimar o nariz. Era impossível que Daniel não fosse visto por algum membro da Alma Perdida ali, em um lugar tão movimentado.

Ele estava preocupadíssimo que o pessoal da Alma Perdida certamente o veria, e que aquele seria um lugar horrível para enfrenta-los, e que era de partir o coração ter que se apoderar do corpo do pai daquela garotinha. Ela devia ter uns seis ou sete anos, e portava um rosto com feições ingênuas, com olhos grandes e de muita inocência. Quando a viu pessoalmente, Daniel quase não acreditou que uma garota tão cativante era tão importante e, de certa forma, perigosa.

Mas ela era; em fato, a garotinha, cujo nome atual era Alice, era muito poderosa – mais poderosa que Daniel. Nas entranhas da sua aparência habitava uma alma que vagava de corpo em corpo há milênios, e que havia se apoderado do da garota enquanto ela ainda era um bebê de alma fraca.

Ninguém sabia – nem que a tal alma poderosa estava no corpo da garota, nem do que a ela era capaz, pois durante todo esse tempo de existência ela pouco havia feito além de viver vidas perfeitamente normais e inexpressivas. Ninguém exceto o pessoal da Alma Perdida e o pessoal que estava pagando Daniel pelo serviço. Por alguma razão, a alma estava usando o corpo de Alice de forma disfarçada há uns seis ou sete anos, e sabe-se lá por quanto tempo mais continuaria sob esse disfarce, fingindo.

Daniel nunca recebia muitas informações, e o contato com seus patrões era mínimo. Eles sempre passavam as missões da maneira mais direta e sucinta possível, diziam o que ele deveria fazer e ficava por isso mesmo; dessa vez, sua tarefa era dominar o corpo do pai biológico da garotinha sem que ela percebesse a nova alma ao seu lado, e guia-la até a cabine de um navio ancorado. Depois que conseguisse colocar a garota para dentro, poderia sair do corpo, ir embora e deixar o restante com outro agente qualquer que não lhe informaram. Falaram apenas isso, e que a alma da garota era a alma, cuja história Daniel e todos os outros já haviam ouvido.

Metade da missão estava completa e a garota o seguia em direção às embarcações ancoradas. Era isso. Isso e chegar ao navio sem ser notado por alguém da Alma Perdida, e consequentemente muito menos por Alice.

*****

Era uma sensação esquisitíssima a de estar no corpo do pai de Alice. Daniel ficou imaginando as coisas horríveis que as pessoas não fazem com o próprio corpo, e que elas seriam mais atenciosas se tivessem que de repente transferir a própria alma pra um corpo mal cuidado. A garota olhava fixamente para ele, e ele a encarava de volta como se a alma controlando o corpo ainda fosse a do pai.

Por isso Daniel era tão bom: ele conseguia pensar em outras coisas e continuar agindo como a alma original. Normalmente, alguém que salta de um corpo para outro precisa manter um foco tremendo pra conseguir imitar o modo de agir do dono anterior, sem contar o trabalho de pesquisa e observação necessário de se fazer antes da transferência.

Não Daniel, ele ficava ali, pensando num belo carneiro assado, ou em ficar bêbado até esquecer seu verdadeiro nome, e ao mesmo tempo conseguia replicar os comportamentos que fossem precisos replicar. Por isso ele havia sido o contratado para este caso.

O pessoal da Alma Perdida andava pra lá e pra cá, tentando identificar Alice no meio da multidão; eles não viam a alma de Daniel, mas Daniel via as almas deles. Já havia percebido algumas dúzias vagando aleatoriamente pelas ruelas da cidade, e sempre precisava desviar com a garota para evitar qualquer aproximação – eles só poderiam reconhecê-la se estivessem próximos o suficiente para sentir a presença da alma dela.

O pessoal da Alma Perdida era pútrido. Almas que abandonaram os corpos originais há muito, muito tempo, que resignaram do direito de ter um corpo fixo em troca da imortalidade; almas que sacrificaram suas presenças no mundo material pela existência da Alma Perdida, e assim a organização existia sabe-se lá há quantos milênios.

Eles estavam atrás de Daniel desde que ele deixou a organização. Passaram 40 anos tentando encontra-lo no Condado Condor, a maior metrópole já feita pelo homem, tão grande e agitada que até um elefante conseguiria se esconder por meses sem ser notado – a menos que o elefante e sua alma estivessem sendo procurados pelo pessoal da Alma Perdida, nesse caso, nem que levasse todo o tempo do mundo, encontrariam até a alma de uma formiga.

Depois disso, encontraram-no numa vilazinha no meio de um deserto no Sudoeste, uma vilazinha tão isolada e esquecida pelo restante dos homens que nem nome tinha. Ainda assim, encontraram Daniel, e de lá o seguiram para os mares. De fato seguiram os rastros deixados por qualquer que fosse o navio no qual Daniel se escondia, mas não o alcançavam, exceto quando ele eventualmente era obrigado a parar em alguma cidade para algum serviço.

Assim, ali estavam todos em Equília, ou, como a costumavam chamar, Porto do Comércio. Tratava-se de um grande mercado flutuante no centro do oceano – realmente grande, imenso, com hospedarias, três portos, tavernas, até casas, e tudo o mais – e posicionava-se à mesma distância de todos os quatro continentes, sendo o local ideal para todo tipo de venda e troca de produtos. De forma geral, não funcionava de maneira diferente de uma cidade tinha até ruas e líderes políticos.

O navio de Daniel estava ancorado na borda oeste do Porto do Comércio, ao lado de outras muitas dúzias de navios de comerciantes; especificamente, seu navio estava ancorado ao lado de um navio muito extrovertido, com grandes velas listradas de laranja e roxo e dois leões esculpidos em ouro presos à proa, de modo que era fácil para Daniel encontrar seu navio em meio aos outros todos. Esse tipo de embarcação costuma ser alvo de piadas de várias pessoas respeitáveis, de modo que era provavelmente propriedade de algum rei ou qualquer outro poderoso, do qual ninguém ousava tirar sarro.

Apesar de não ser tão chamativo, o navio de Daniel também era muito grande – na verdade, o navio não era propriamente seu, e ele apenas havia possuído a alma de algum dos cozinheiros, um chefe. Era um navio pirata, e tão logo Daniel possuiu a alma do homem os piratas passaram a comer dos pratos mais terríveis, de uma hora pra outra, pois nem Daniel tinha capacidade de preparar algo bom, nem os piratas ousavam quebrar seus códigos de ética e reclamar do cozinheiro.

A essa altura a alma do cozinheiro já deveria ter voltado para seu corpo que jazia em um canto escondido do Porto do Comércio, no qual Daniel trocou para o corpo do Pai de Alice. Estavam os dois caminhando com o oceano na direita, o ex-navio pirata de Daniel ancorado a algumas centenas de metros, e ele procurando pelo navio de seus patrões, no qual deveria entregar Alice.

Ninguém havia lhe informado como era esse tal navio, se era como os de sempre ou se era algo disfarçado e menos chamativo que o habitual. Seus olhos saltavam extremamente confusos de um para o outro, tentando adivinhar em qual haveria alguém o esperando com a garota. Isto é, alguém que não fizesse parte do pessoal da Alma Perdida, pois se eles descobrissem o navio antes de Daniel, certamente o duplicariam para enganá-lo ou outra coisa do tipo – os meios para esse tipo de artimanha eles possuíam.

Mas naquele momento Daniel teve que se preocupar com alguém que não era membro da Alma Perdida: Alice. A garota, que não parava de olhá-lo fixamente desde que começaram a caminhar em direção aos navios ancorados, ainda no centro do Porto do Comércio, finalmente falou.

– Quem é você? – Ela disse, com a expressão mais inocente lançada, fixamente, na direção de Daniel.

Daniel, que estava pensando em algum lugar do Porto do Comércio que servisse carne de porco, se virou de repente, as rugas nas testas e os olhos muito assustados.

– O quê? – Ele disse.

– Quem é você? – Repetiu Alice, ainda de maneira calma e doce.

– Seu pai, ora, garota! – Disse Daniel, que continuava imitando os mais detalhados trejeitos da pobre alma que algum dia havia habitado aquele corpo, e puxou-a pela mão.

– Vamos, vem!

–Perguntarei o contrário, então. – Ela respondeu com o pé firme no chão, se recusando a sair do lugar. – Você sabe quem eu sou?

E Daniel respondeu que ele era seu pai e ela era sua filha, e que ela deveria parar de falar daquela maneira porque estava assustando-o e ele não estava entendendo. Entretanto, nas profundezas da sua alma, enfiada nos cantos daquele corpo deplorável, ele estava desesperado tentando pensar em como escapar daquela situação.

Ali estava ele, sequestrando Alice, de alma tão conhecida e poderosa, e pronto para entregá-la para quem o contratou para o serviço – mas agora ela sabia. “Agora ela sabe!”, pensou ele, num desespero tremendo, “e agora, e agora?”.

Continuou pensando, “o que ela vai fazer? O que ela pode fazer?”, e conforme a emoção do choque foi passando, entre uma engasgada e outra que já não era mais capaz de impedir, seu bom senso voltou, e pensou “como ela descobriu? Quando ela descobriu? Quando foi que eu deixei transparecer?”.

– Eu sou mais forte que você. – Ela disse. – Vim de tempos muito mais antigos, e sei muito mais. Ninguém pode se disfarçar perto de mim, eu sinto você, e sinto todos os outros ao redor de nós. O que vocês querem comigo?

Ele ainda pensava no momento em que as coisas tinham dado errado, no qual ele se revelou, então refletiu que contra uma alma como a de Alice não haveria outra maneira senão contar a verdade, de fato nem mesmo ele era capaz de engana-la.

– Certo, garota, se me permite te chamar chamar assim… – O estrondo de alguma arma sendo disparada preencheu o ar e sobrepôs o barulho que fazia os inúmeros navios chacoalhando sobre as águas. Era o pessoal da Alma Perdida. – Desvia!

Alice ouviu com clareza, mas não se moveu um centímetro para os lados; apenas inclinou a cabeça para continuar com os olhos apavorantes fixados em Daniel, que se jogou ao chão imediatamente quando se deu conta do tiro.

Um homem e uma mulher que faziam parte da Alma Perdida surgiram virando por uma das esquinas do Porto do Comércio. O primeiro usava as duas mãos para segurar um grande rifle, muito lustroso e estranhamente prateado, e a segunda levava um revólver em cada mão. Esse era o plano deles: matar Daniel enquanto ele não estivesse perto de nenhuma alma vulnerável, de modo que não pudesse se transferir de última hora e se safar – as pessoas se amontoavam em todas as partes do Porto do Comércio, exceto onde ancoravam os navios, lá só iam de passagem e o local era quase deserto a maior parte do tempo.

Na verdade, esse era o único meio de matar Daniel ou qualquer outro membro ou ex-membro da Alma Perdida. Ser morto sem ter uma alma vulnerável por perto: disso nem mesmo Alice e sua poderosa e antiquíssima alma (sua existência precedia a própria Alma Perdida) poderiam escapar. Assim, naquele momento estavam os dois, Daniel e Alice, correndo sérios riscos de serem, finalmente, mortos.

Entretanto, apenas Daniel demonstrava se preocupar com isso. A dupla da Alma Perdida deu vários disparos, e estavam ainda muito longe, mas se aproximavam a passos largos. Daniel se jogava desesperado de um lado para o outro, na tentativa de desviar, a cada som de tiro que ouvia. Alice, despreocupada, ainda o fitava.

– Quê você está fazendo? – Ele gritou para ela, então a puxou pelo braço, gritou “Vem” e saiu arrastando-a na maior velocidade que pôde na direção contrária da qual vinha o pessoal da Alma Perdida (mais duas mulheres haviam aparecido em outra esquina, e também carregavam rifles).

A garota se deixou levar, e seguiram os dois pela extensa costa do Porto do Comércio. Ela com a expressão séria, sem arrepiar um pelo do corpo sequer. Ele com uma das mãos segurando a dela e a outra segurando a própria cabeça, que naquele momento encontrava-se cheíssima de preocupação. Daniel estava próximo de se tornar o terceiro ex-membro da Alma Perdida a conseguir viver 350 anos depois de abandonar a organização – os membros ativos eram muito, muito mais velhos, mas os que resignavam raramente conseguiam fugir por mais de 70 – e realmente queria, e sempre achou que conseguiria, ir além, quebrar todas as marcas e tudo o mais.

O pessoal da Alma Perdida era como ratos num navio, e surgiam de todos os cantos do Porto do Comércio. Tiros atravessavam as ruas vindo de todas as direções, várias pessoas ficaram confusas, a polícia começou a procurar os atiradores, e a essa altura eles já puxavam os gatilhos sem saber pra onde apontar – ou seja, se estabeleceu uma confusão geral. Daniel e Alice continuaram correndo pelo meio de toda a bagunça, que acontecia mesmo ali, próximo aos navios ancorados.

Correram até encontrarem vários containers, alguns com peixes e outros com camarão, e quando pareceram estar seguros Daniel se ajoelhou e apoiou as mãos nos dois ombros da garota.

– Eu preciso te levar. – Ele disse.

– Por quê? – O rosto de Alice permaneceu inexpressível.

– Eu não sei especificamente, na verdade. – Daniel tirou as mãos dos ombros dela e encolheu os próprios; deu de ombros. – É meu trabalho. – Ele ouviu disparos que pareciam estar verdadeiramente próximos, então se assustou e deu um solavanco com o corpo, depois continuou. – Como você me descobriu? O que foi que eu fiz?

– Nada. Você foi muito bem. – Alice respondeu com os olhos fixos nele. – Mas eu sou melhor.

Os dois foram interrompidos por um rosto que surgiu no canto do container, logo atrás de Alice. Daniel viu e imediatamente empurrou a garota para trás. Ela caiu de costas no chão e sentiu bastante dor, mas o empurrão a fez desviar de um tiro: era o pessoal da Alma Perdida, haviam encontrado Daniel e Alice de novo.

Daniel começou a se jogar de um lado para o outro, num completo desespero e com bastante agilidade. A arma, apontada, o seguia de lá para cá, mas os tiros não o acertavam, pois era grande a habilidade que Daniel tinha de escapar de seja lá o que for. Na fração em que o inimigo se pôs a recarregar a pistola, Daniel puxou Alice com a maior força e logo estavam os dois caídos na água.

O Porto do Comércio se rodeava do mar aberto, com águas muito tranquilas, salvo tempestades. Haviam histórias de grandes e velhas criaturas que viviam nas profundezas da região, mas poucas pessoas levavam isso a sério – Daniel e Alice estavam seguros na água, que os protegia dos tiros. Ele olhou para trás e viu o pessoal da Alma perdida se jogando para persegui-lo, mas quando olhou para frente ele viu, finalmente: o navio dos seus patrões!, para onde deveria levar Alice.

O navio tinha dezenas de círculos vermelhas pintados numa linha horizontal que cobria toda a carapaça, mais círculos vermelhos (estes colossais) pintados nas velas, e outro grande círculo vermelho pintado numa bandeira branca presa à proa. Esse era o visual padrão de todos os navios do Império Sagrado, na verdade, e eram todos assim pois os Sacerdotes gostavam de coisas extravagantes que deixassem claro quem eles eram – e eles eram, ou pelo menos diziam ser, os únicos e verdadeiros servos de Deus, e apesar de pouca gente acreditar nisso, eles tinham grande fortuna e poder político.

Daniel chegou com Alice às escadas de corda que pendiam da lateral. Ela não fez esforço nenhum para subir, e Daniel precisou segurá-la pelo braço e se agarrar com o outro à escada enquanto os Sacerdotes puxavam ambos lá pra cima. O pessoal da Alma Perdida parou na água e ficou olhando pro navio, resmungando e desconcertados, até finalmente darem as costas e nadarem de volta para o Porto do Comércio.

Os Sacerdotes tinham um grande problema com o pessoal da Alma Perdida, e também com Alice, Daniel e todos os outros humanos com almas poderosas. Eles afirmavam que atos como passar a alma de um corpo para outro desagradava Deus, e portanto faziam tudo para impedir esse tipo de coisa – inclusive abrir exceções e contratar um ou outro, como Daniel. Eles pensavam que era melhor pagar um para prender vários, que deixar escapar todos.

Por hora, Daniel estava seguro. Os Sacerdotes não o deixariam ficar muito tempo no navio agora que Alice estava lá, de modo que e o serviço fora completo. Era pegar o pagamento e sair para encontrar um novo corpo e um meio de deixar o Porto do Comércio, pois o pessoal da Alma Perdida agora reconheceria o corpo do pai de Alice que estava utilizando.

Os Sacerdotes começaram se aproximaram e algemaram Alice. Começaram a conduzir a garota, mas Daniel ainda estava perturbado e pediu que esperassem. Perguntou novamente à Alice como foi que ela descobriu que era ele, e o que ele havia feito de errado que o entregara, mas a garota mais uma vez apenas respondeu que ela era mais velha e mais sábia, e que apesar disso ele havia se saído muito bem. Então ela se foi, levada pelos Sacerdotes, e Daniel saiu do navio para encontrar um novo corpo no Porto do Comércio.


Atualização 12/04: Duas semanas depois desse texto ter sido publicado eu escrevi outro explorando o início dessa mesma história. Leia “O Porto do Comércio” clicando aqui.