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Um pouco sobre minhas finadas criações de preás

Então, minha infância foi recheada de animais.

Comecei com Costelinha, um cachorro que minha tia achou na rua (ainda filhote) e me deu de presente. Ganhei o Costelinha quando tinha uns cinco ou seis anos, eu acho, e fiquei com ele até meados dos meus doze ou treze, quando de repente ele saiu de casa e voltou com a cabeça toda quebrada e pronto pra morrer. Nesse meio tempo aconteceram várias coisas:

1) Mudei o nome do Costelinha pra Costela, considerando seu envelhecimento;

2) Ganhei vários outros cachorros: Bob (fugiu), Max (era muito agressivo e resolvemos dar ele pra outra família), Luizinho (morreu doente), Farofa (morreu doente), Pitty (acabou sendo passada pra minha avó e posteriormente morreu doente) e Pirata (morreu doente);

3) Achei uma gata em frente a um templo de testemunhas de jeová, levei ela pra casa, chamei-a de Dudinha (evidente que mudei para apenas Duda depois, mesma lógica do Costela) e no fim do ano já tinha mais de dez gatos. Cheguei a ter mais de vinte gatos simultaneamente, e todos descendentes da Duda. Como não castrei nenhum, eventualmente eles simplesmente saiam pela vizinhança e não voltavam nunca mais;

4) Eu e um amigo resolvemos criar frango. Digo, um frango, como animal de estimação, sabe? Acontece que compramos frango de granja, o que nos levou a descobrir que esses frangos são geneticamente modificados ou sei lá o quê pra ficarem gordaços e serem comidos, ou seja, eles morrem naturalmente antes de virarem adultos. Depois, acabei desenvolvendo quase que uma fobia por galinhas;

5) Meu pai arranjou um papagaio, que acabou ficando comigo e minha avó depois que ele foi pra cadeia . Posteriormente, acabei tendo um papagaio imaginário;

6) Tive dois jabutis que foram criados soltos no quintal. Claro que acabaram fugindo, eventualmente.

Deu pra perceber que cada caso puxa um milhão de histórias que merecem posts próprios, mas, pra hoje, FOCA NO PREÁ:

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Antes de conseguir o Costelinha, eu queria muito (muito mesmo) ter um animal de estimação, especialmente um cachorro. Mas, bem, sabe como é, todas as complicações envolvidas em cuidar de um cão e tudo mais acabaram inviabilizando o negócio – pelo menos até o Costelinha me ser entregue magica e inesperadamente pela minha tia, como já disse.

Eis que meu pai, em toda sua sabedoria e experiência de vida, surgiu com a ideia de criarmos preás. Ele já havia feito isso antes, então já sabia como a coisa toda funcionava: alimentação, comodidades, reprodução, etc, meu pai era SÁBIO em relação aos preás.

E lá fomos nós, conseguimos uma gaiola estragada que tivemos que consertar e colocamos um casal que compramos numa petshop. Com o passar do tempo, acabei aprendendo o que meu pai sabia sobre preás simplesmente por lidar com eles diariamente. Uma das primeiras coisas que aprendi, inclusive, foi que preás se reproduzem muito rápido: três ou quatro filhotes a cada dois meses, se me lembro bem. “É parecido com coelho”, dizia meu pai.

Essa primeira leva de preás acabou não dando em nada porque nos livramos dela logo que conseguimos o Costelinha, simplesmente soltamos todos num bosque e pronto. Mas a segunda vez que eu e meu pai decidimos criar preás foi muito mais interessante: não tínhamos mais a gaiola, mas tínhamos uma caixa d’água velha que viramos de cabeça pra baixo e cercamos com madeira.

Na primeira vez, quem se preocupava em cuidar dos preás de fato era meu pai, mas na segunda a responsabilidade ficou quase toda pra mim, de modo que acabei me apegando aos bichos. Quer dizer, eu é quem todos os dias dava água e comida pra eles.

Meu pai, por outro lado, basicamente usava a casinha dos preás como esconderijo de drogas. Ele simplesmente colocava os malotes em baixo da tal caixa d’água e ficava por isso mesmo, a relação dele com os animais não ia muito além.

Isso teve dois resultados:

  1. Teve a vez em que meu pai foi pegar um bloco de maconha que tinha colocado lá, e quando ele percebeu o negócio estava todo corroído. Sim, os preás decidiram roer a maconha: ficaram a semana toda se comportando de maneira esquisita e acabaram morrendo uns dois ou três; meu pai deve ter deixado de ganhar uns cinquenta reais que faturaria com a venda.
  2. Certa feita estava lá eu mostrando os preás pra um amigo meu, todo feliz, quando de repente esse meu amigo resolveu que queria pegar os preás que estavam dentro da casinha (vulgo caixa d’água) pra poder segurar eles nas mãos. Pensei “rapaz, fodeu, o cara vai colocar a mão dentro da casinha e tirar altas maconhas lá de dentro”. Enfiei lá minha mão, tirei um dos preás, entreguei pro garoto, e enquanto ele brincava eu usei das minhas habilidades de caráter ninja pra tirar a maconha e esconder em outro lugar. Foi um movimento arriscado, mas funcionou.

Fato é que dessa vez a criação de preás se saiu muito bem. Eles se reproduziram tanto que vez ou outra acabávamos sendo obrigados a soltar alguns pra evitar superlotação da caixa d’água, sem contar que eu fiquei bastante apegado por cuidar deles diariamente – felicidade que se foi quando meu pai chegou em casa bebaço e resolveu PULAR em cima das madeiras que cercavam a caixa d’água, de modo que todos os preás fugiram. Por um lado fiquei chateado por perder tudo e sem saco de começar outra criação do zero, mas também fiquei aliviado por não ter mais que me preocupar em dar água e comida todo dia.

De qualquer forma, passei alguns anos sem me envolver com preás até minha última tentativa, lá pelos idos de 2011. Foi uma empreitada financeira: descobri que as petshops não só vendiam preás como também compravam, pensei “tá aí, eu manjo disso, posso levar pra frente esse negócio” e prossegui.

Fiz uma casinha, coloquei um casal, e quando os filhotes dos filhotes começaram a se reproduzir fui lá eu vender os mais novos e obter meu LUCRO. Aí veio a decepção, porque descobri que compravam cada um por DOIS REAIS, e isso não pagava nem o que eu gastava em ração por semana. Fiquei frustrado e acabei com toda a criação, evidentemente.

E pronto, nunca mais me envolvi. O resumo da ópera é que já passaram mais preás pelas minhas mãos do que notas de R$ 100. Vale dizer que meu último encontro com um foi relatado aqui, em 2014, quando meu gato apareceu em casa assim:

gatorato

Aos oito anos viajei escondido da minha mãe e não fui molestado

Oito, nove, dez… Sei lá, nem lembro mais. Lembro que gostava muito de jogos e o cara me ofereceu isso, então não tive muita escolha:

Minigame

Era um sábado, e sábado na minha cidade é dia de feira. Basicamente a galera toda se junta numa rua (sempre a mesma), a galera monta várias barracas, a galera chega com caminhões de produtos naturais cultivados em casa e a galera vende esses produtos pra uma parte da galera que não está lá para vender. A maioria do pessoal que compra é idoso, daqueles que reclamam da industrialização dos produtos e coisas do tipo: minha avó era (é) uma dessas pessoas. Nesse sábado, eu estava lá na feira com ela, mais pela minha profissão temporária de Carregador de Compras, algo que fazia com maestria – infelizmente hoje dei um tempo e não faço mais esse tipo de serviço sujo.

Nesse dia, especificamente, um rapaz que eu nunca tinha visto na vida apareceu e veio falar comigo. Minha mente ainda era muito pura para pensar em pedofilia, mas eu parei pra observar o maluco: ele era alto, magro e tinha barbicha. Basicamente ele me disse isso aí:

– Seu pai me mandou vir te buscar, a gente vai viajar e é pra você ir junto.

Para o bom entendimento dessa situação, vale ressaltar que nessa época meu pai morava numa cidade vizinha por causa de um emprego, logo essa fala fez muito sentido pra mim. Eu meio que pensei “porra, meu pai é mó legal, não deu pra vir aqui então mandou um amigo me buscar”, peguei e fui.

O foda é que minha vó nem tentou me impedir. Ela falou umas coisas com o sujeito, mas parece que ela já conhecia e confiava nele. Eu fui, parti ali da feira mesmo, levei só a roupa do corpo e deixei as compras pra minha avó carregar.

Fomos pra uma rodoviária e ganhei aquele videogame. A partir desse momento eu soube que estava fazendo a coisa certa e que não dava pra voltar atrás.

Nós pegamos o ônibus à tarde e só fomos chegar na tal cidade vizinha, Vale do Paraíso, no começo da madrugada. Descemos do ônibus e meu pai já estava do lado de fora nos esperando. Ele apertou a mão do cara, agradeceu e fomos embora.

Eu e meu pai seguimos ali da rodoviária para um Lavador (algo me diz que isso tem um nome diferente em outros lugares, mas para todos os efeitos é aquele estabelecimento em que as pessoas lavam os carros dos outros, jogam truco e perdem quantias milionárias comprando geladinho). Nos fundos do lugar haviam uns quartos bem lascados, de madeira e caindo aos pedaços: meu pai morava lá. Nem nos falamos muito, chegamos e fomos direto dormir. Ele até avisou que era pra dormir muito e dormir bem, porque no dia seguinte iríamos passar o começo da madrugada acordados, indo atrás de ônibus pra viajar.

E foi, mano. Só lembro de estar entrando no ônibus e seguindo rumo à Cacoal, outra cidade vizinha. Nós fomos pra lá porque em Cacoal tem um lugar chamado Cacoal Selva Park, que é basicamente um parque integrado à natureza e com várias atrações, tais como piscina, lagoa, animais, tirolesa e outras.

Terrível. Eu realmente gostaria de descrever mais sobre minha estadia no local mas não lembro de PICAS do que aconteceu. Quer dizer, até lembro de uma coisa ou outra por causa de algumas fotos que tenho aqui. Resumidamente:

  • Haviam três onças numa jaula e elas cagavam no mesmo lugar. Um dos cantos era preenchido por uma montanha de merda de onça.
  • Lá eu descobri que tenho medo de araras porque meu pai queria que eu tirasse foto com elas, logo tentei me aproximar mas sentia a morte cada vez mais perto.
  • Eu e meu pai pegamos um PEDALINHO (não sei como isso se chama em outros lugares do Brasil, mas falo daquela coisa que se usa para andar sobre as águas a base de pedaladas) e ROUBAMOS. O funcionário do parque disse que a gente podia ir do ponto X até o ponto Y por Z minutos e meu pai simplesmente cagou pra ele: passamos a tarde toda lá na PQP do riacho, onde ninguém ia.
  • Comi muito Cheetos e bebi muita Fanta Laranja.

E é isso aí. Cheguei em casa e minha mãe quase me matou, apesar da minha avó ter explicado pra ela pra onde eu havia ido, minha mãe passou o mês inteiro contando que havia sonhado comigo se afogando e tinha certeza que isso era uma visão do futuro ou qualquer coisa do tipo.

Atualização 04/10/2015: recuperei uma FOTO do episódio da arara. Tive que tirar uma foto da foto porque não tenho aqueles SCANNERS:

arara