Conto: O Garoto e o Raio

O Garoto seguia, pouco antes do anoitecer, o mesmo caminho que seguia todos os dias do ano desde o início do período escolar. Se sentia seguro fazendo aquele percurso, afinal o conhecia como a palma da sua mão – preferencialmente o contrário: o Garoto conhecia a palma da sua mão como conhecia aqueles pedaços de rua entre a escola e sua casa.

Apesar disso, foi tomado de uma aflição incalculável quando viu cair do céu gotas grossas de uma Chuva de Novembro. Aliás, se parasse para pensar, e não parou, saberia que a aflição foi causada pela escuridão repentina do céu, pelo alto som dos trovões e pelos clarões rápidos que iluminavam seu caminho; os raios. No fim das contas, o Garoto apenas tinha medo dos raios.

Ele os conhecia. Ele teve aulas de física. Ele sabia o que era um Raio. Ele sabe. Ele sente o perigo se aproximar e não vê escapatória, sabendo da força de seus inimigos e não tendo um escudo para se defender de seus ataques, ele vê sua morada longe. Ele tenta alcançá-la, e faz isso numa velocidade tão alta que até mesmo um raio, um maldito raio, não poderia atingir o Garoto. Ele, nesse momento, encara a morte face-a-face, pois para aumentar sua habilidade de locomoção, abandona os movimentos de suas pernas e passa a fazer uso de sua bicicleta. A bicicleta, objeto metálico, objeto de desejo do Raio, objeto de alcance do Raio, objeto de fetiche do Raio. Sim, um maldito fetiche. Do Raio.

O que seria mais rápido, afinal? O Garoto, chamando seu inimigo para uma batalha, montou em sua bicicleta e pôs velocidade máxima em direção à sua casa. A bicicleta, objeto e objetivo comum tanto do Garoto como do Raio. Ou o Garoto usa a bicicleta para atingir sua residência, ou o Raio usa a bicicleta para atingir o Garoto.

POW!

Escapou do primeiro. Mais rápido que a bala, o Raio cai à direita do Garoto. Parece que… mas aquilo é… sim! O medo era metafísico. O Garoto percebeu que estava, estaria e estará são e salvo, pois, em sua direita encontrava-se, pasmem, um para-raios.

Numa epifania rápida, o Garoto voltou a se sentir como se sentia antes: seguro. O caminho que fazia diariamente entre a casa e a escola se mostrava amigável e digno de receber sua confiança, afinal havia acabado de salvar sua vida.

O Garoto, enfim, chega em casa.