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Por um autógrafo

O Aeroporto Interplanetário De Terceira Ordem estava lotado com os aventureiros mais desprezíveis do sistema, todos  se dirigindo para realizar mais uma limpeza étnica que o Governo faria. Em algum canto do Aeroporto havia um garoto que preferia estar em casa, mas se encontrava sentado ao lado do pai, se incomodando com uma multidão de criaturas grotescas que só o incomodaria mais se não estivesse com um Catálogo de Criaturas Desprezíveis do Sistema (Edição Especial Pós-Rebelião-Prisional) em mãos, tentando encontrar lá algum bastardo que estivesse ao seu redor. Achou quase todos.

Seus olhos entediados arregalaram-se no momento em que repararam no impossível-de-não-se-reparar capacete dourado flutuando sobre a multidão: era de Blarg, o ídolo das crianças de todas as espécies, considerado um dos aventureiros mais admiráveis da galáxia porque conseguia fazer seu trabalho sem entrar pro Catálogo de Criaturas Desprezíveis do Sistema – e ainda assim ali estava ele, dividindo o saguão do aeroporto com todos os outros. O garoto não pôde senão se colocar de pé, usar uma mão pra segurar a própria cabeça no lugar e a outra pra apontar enquanto gritava:

– Aah! Ma…Mab lá la… É! Aque… Ta!

Estava tão afetado que as palavras não conseguiram sair da sua boca de uma forma que fizessem sentido; ao menos não para ele, porque esses murmúrios fizeram um aventureiro alienígena no banco ao lado se emocionar ao ouvir versos tão famosos em sua língua serem pronunciados por uma criança. O garoto deu quatro passos desesperados em direção ao famoso Blarg e seu capacete dourado, mas freou ao perceber que estava quatro passos mais próximos da multidão de criaturas desprezíveis.

Uma breve pane cerebral o fez dar uma bela olhada nas bestas que teria que enfrentar pra chegar a Blarg. Um grupo de Minhocas D’Água se arrastava pelo chão (que evidentemente não tinha água nenhuma) com um esforço fantástico que deixava pra trás uma gosma amarela suposta a desaparecer no habitat. Três Cachorróides cheiravam a gosma enquanto dois homúnculos felpudos comentavam o fato. Um androide empurrava um carrinho cheio de peças sucateadas, talvez pedaços dele mesmo. Uma imensa bola de gordura contava piadas para uma Moscazona entediada. Um grupo de homens-com-braços-extras brigavam num círculo. Nenhum deles estava injustamente no Catálogo de Criaturas Desprezíveis que o garoto trazia consigo, mas o capacete dourado de Blarg já estava desaparecendo no fim do corredor, onde dava uma sala de embarque. Era se enfiar na multidão ou perder a oportunidade.

Seus pés realmente não queriam caminhar por entre aquela escória, então a primeira coisa que trataram de fazer quando o garoto começou a correr foi de se prenderem na gosma das Minhocas D’Água. Pisou com tanta força que o plasma esverdeado se impregnou nas ranhuras das solas dos sapatos. Isso o obrigou a, logo de cara, enfrentar uma fétida catinga que pairava naquele ponto, talvez vinda da cozinha do Restaurante Atômico No. 1, que servia pratos para criaturas fotossintetizantes que nunca pediam nada além de criatividade e ousadia nas refeições que jamais comiam, ou talvez o cheiro viesse das próprias criaturas fotossintetizantes enfiadas no chão do lado de fora, limpando suas armas.

A travessia seria longa com os sapatos insistindo em grudarem no chão a cada passo, e o fedor estava insuportável. Tirou alguns segundos para acenar a mão num gesto particularmente ofensivo às criaturas fotossintetizantes, e foi o momento em que viu que Blarg estava para entrar na sala de embarque e soltou um grito com seu nome com toda força que pôde, mas o aventureiro não ouviu. Observando a luta do garoto, um dos homens-com-braços-extras se sentiu tocado e resolveu fazer algo: levantou o garoto e começou a carregá-lo até Blarg. O momento do toque foi tão desgostoso  e nojento que o garoto se encolheu sobre si mesmo e se perguntou se valeria a pena passar por isso. Pensou que sim, porque viu uma Moscazona chamando a atenção de Blarg para ele.

O garoto, suspenso por quatro dos braços extras que o homem possuía, olhava para Blarg enquanto este se virava para onde a Moscazona apontava com suas antenas. Houve uma mágica troca de olhares entre a criança e seu ídolo que fez seus olhos brilharem por reconhecerem a unicidade do momento. Impagavelmente, foi colocado no chão e ficou paralisado enquanto Blarg se aproximava.

Parado diante do aventureiro que tinha três ou quatro vezes seu tamanho, deixou o descrente queixo despencar. Blarg parou e tirou o capacete para que seus cabelos fossem chacoalhados pelo vento e eternizassem a memória do garoto, depois se ajoelhou e usou a mão esquerda para lhe acariciar o cabelo. Era a mão que usava para puxar algemas da cintura; a outra, naquele momento, serviu para deixar um autógrafo na camisa do pequeno fã.

Blarg e seu capacete dourado voltavam a entrar na sala de embarque enquanto o garoto esticava as barras da camisa para baixo com olhos esbugalhados de admiração. Era uma camisa de algum Time Interplanetário de Boliche Submarino, esporte que não praticava por não ser uma criatura submarina, e justamente por isso achava tão fascinante de assistir. Ia voltando para seu banco com um sorriso que ia de orelha a orelha, sinalizou um dedão levantado para o homem-com-braços-extras que o ajudara, e este respondeu com seis dedões – era um bom homem-com-braços-extras, os usava muito bem, afinal, não era tão desprezível quanto o catálogo representava.

A satisfação com o autógrafo era tamanha que passou pelo Restaurante Atômico sem sequer notar o cheiro que impregnava o ar, e não só desviou da gosma das Minhocas D’Água, como também fez carinho nos Cachorróides que fungavam aqui e ali. Com olhos alegres, se acomodou no banco e voltou a admirar o autógrafo na camisa. A multidão de criaturas desprezíveis parou por alguns segundos e voltou seus olhos ao garoto, cada qual refletindo a curiosa beleza que havia naquele ato ingenuo.