Universo

Trabalhadores na expansão do Universo

Lá ia Deus com seus ajudantes; lá…, lá – mas lá! Lá longe. E ali embaixo ficáva eu e meus camarada. Pois aquele mal caráter ia voando e não mexia uma mão pra fazer o serviço, tu acredita? Quem fazia o trabalho pesado era a gente. Aqueles blocões de oxigênio? Nós. Os blocões de hidrogênio? Nós também. Eu, coitado, cás costas doendo de tanto carregar peso; olhando pra cima e pensando nessas bobagens. Virei pro Luís e falei assim: “Ô Luís.”

O Luís, aí tu pensa num rapaz lento. Não pensava em coisa nenhuma. Ele só ia fazendo. Só chegava em casa porque levavam ele; e quando deitava dormia de uma vez. Esse Luís aí. Ele olhou pra mim e gritou assim: “Vai trabalhar, seu bosta!”

Aí eu pensei “Luís, homem ignorante,” mas não falei nada que eu sou educado. Mas que o Luís era um baita de um ignorante, ele era. Ô homem burro. Bosta era ele, aquele animal. Mas tá bom. Voltei pro meu serviço; que eu voltei, eu voltei, mas eu fiquei o dia todo pensando naquilo. Fiquei remoendo o pouco-caso não fazendo serviço nenhum lá de cima e a gente fazendo o universo crescer no lugar dele. Cada quilômetro que a gente ia fazendo, ah aí minha raiva só ia aumentando. Como que pode? Não dá nem pra acreditar. Mas fiz meu serviço; quem não faria, não é? Lá longe! Aquele folgado. Nem olhava, mas com certeza táva vendo a gente trabalhando de algum outro jeito. Ninguém nunca tinha deixado de trabalhar por muito tempo, mas de certo que se alguém deixasse o cara descia lá de cima pra dar pito na gente. Eu fico indignado. Fiquei, não é.

Pois fiquei ruminando aquilo até ele mandar a gente ir embora. Nem foi ele que mandou, foi um ajudante que desceu lá de cima e mandou no lugar dele. Ah! Aí eu não me aguentei. Precisei colocar pra fora. Soltei um gritão desse jeito: “Ô Deus!” e não é que o desgracento teve a coragem de responder sem nem olhar pra mim? Ele falou bem alto, “Vai trabalhar, seu bosta!”

Fui o pior vendedor de DIM-DIM do mundo

Antes dos dez anos de idade, a coisa com a qual eu mais gastava minha grana era videogame. Qualquer trocado que eu conseguia era imediatamente torrado em uma ou duas horas numa Lan House de computadores e PS1/2. Naturalmente, esse dinheiro vinha sempre do meu pai, da minha mãe, de algum tio ou qualquer coisa do tipo, mas um dia me surgiu uma ideia que poderia me livrar dessa dependência familiar: vender dim-dim. Eu sei que o nome muda em cada lugar do país, mas estou falando disso:

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Empreendimento milionário, como pode imaginar.

Comprei lá o material necessário pra fabricar o produto. Paguei R$ 2,50 no dim-dim em sí, se me lembro bem. Fora isso, arrumei uma caixa de isopor, preparei tudo e fui no lavador de carros/bar ao lado da minha casa vender o tal dim-dim para as centenas de pessoas que passavam por lá diariamente.

O primeiro dia foi um sucesso e não ocorreu nenhum problema. O complicado, mesmo, foi no segundo dia… Cheguei lá no lavador, já conhecido como “O menino que vende dim-dim” e tentei fazer meu negócio. O fato marcante desse dia é que um dos senhores comprou TODOS os dim-dims. Estava no local para vender meu produto e conseguir dinheiro, mas um velho me pagou e levou todos de uma vez só!

Logicamente, eu comecei a chorar e corri para o meio do matagal que ficava do outro lado da minha casa. Fiquei escondido lá por uns bons quarenta minutos, engasgando no choro. Lembro que até ouvia várias pessoas me procurando, gritando meu nome e tudo mais, quando meu pai saiu derrubando aqueles matos na base do chute e me achou lá no meio, chorando. Todo mundo me perguntando porque eu estava daquele jeito, qual era o grande problema em ter vendido todos os dim-dims de uma vez só…

Pra mim a resposta parecia óbvia, mas aparentemente só pra mim, mesmo. Como será que aquele pessoal não notou que se o senhor comprou tudo que eu tinha, eu consequentemente fiquei sem mais nada pra vender?

Como menor aprendiz, fui demitido depois de quatro horas de trabalho

Só fui ter aquele “tchum” de que minha mãe não me sustentaria para sempre aos treze ou quatorze anos. Consequentemente passei essa época da minha vida pensando MUITO sobre formas de conseguir fazer muito dinheiro em pouco tempo, e uma das principais conclusões que obtive foi que, para conseguir isso, eu precisaria de alguma reserva. Para conseguir fazer dinheiro, eu iria precisar de dinheiro. Tipo Jesus com os peixes e os pães.

Aí pensei que “pô, eles dão emprego pra menor de idade, não dão?” e fui me informar sobre isso na internet. Tá, confirmei que sim, eles dão emprego pra menor de idade. Falei com minha mãe e ela rapidamente usou seus poderes para falar com outras pessoas que manjavam do assunto, uma dessas pessoas era o namorado dela na época. O cara é meio que um grande fazendeiro aqui da região (acredite, ser um grande fazendeiro EM RONDÔNIA é algo MUITO FODA) e conseguiu um emprego pra mim.

Ele entrou em contato com várias pessoas que trabalhavam pra ele ou com ele e conseguiu arrumar algo muito bom: legalmente como menor aprendiz, carteira assinada, um salário mínimo, meio período, café da manhã e almoço na empresa, e mais um bocado de coisa.

Sabe o que eu fiz? SABE O QUE EU FIZ? Caguei. Literalmente caguei PRO emprego e NO emprego.

Quer dizer, a princípio me interessou muito: fui lá na empresa numa quinta feira, fiz uma rápida entrevista e o cara se interessou muito pelo meu perfil, até chegou a dizer que gostou muito de mim e que via um bom futuro etc e tal, disse que eu estava contratado e que era pra ir lá no dia seguinte (sexta), às 08:00 da manhã para meu primeiro dia de trabalho. Saí de lá com um puta sorriso no rosto e um pensamento estupidamente falho de “ei, Rondônia, conheça seu novo filho milionário”, passei no emprego da minha mãe e ela me levou pra casa.

No outro dia, sexta-feira, acordei às 07:00, tomei banho, bebi um café e fui trabalhar. Não minto pra você se dizer que foi a coisa mais constrangedora da minha vida… todo mundo lá já se conhecia. Vinte caras criados na mais pura roça (vendendo produtos agrícolas pra caras igualmente criados na roça) estavam tendo que lidar com a presença de um novo funcionário: um playboyzinho de quatorze anos criado a leite com pêra e ovomaltino, e que além de tudo tem medo de equinos e bovinos. Cara, eu estava completamente deslocado. COMPLETAMENTE. Foi um fracasso, uma vergonha. Qualquer coisa que me mandavam fazer eu era incapaz, principalmente porque era um ambiente que eu completamente desconhecia e tudo mais. Felizmente eu aprendo rápido, até passei parte desse dia lendo BULAS DE REMÉDIOS PRA CAVALO pra ver se aprendia a fazer algo direito. Fora isso, eu tive que contar duzentos parafusos, carregar um cortador de grama pra um caminhão e espanar as celas dos cavalos. Ah, ainda passei por um constrangimento por culpa de uns funcionários zoeiros: um cara chegou e pediu “uma cerrinha de cano” pra um atendente, o atendente me chamou e disse “atende o rapaz aqui”, logicamente eu pensei “mas que porra?” e respondi “claro”. Não fazia a menor ideia de onde estavam as cerras e muito menos de como era o processo de efetuar a venda de um produto da loja. Repassei o serviço pra outro cara e vida que segue. Ok…

Aquela motivação de “vou virar milionário” passou completamente assim que cheguei em casa e pensei na manhã de merda que eu tinha acabado de ter. Táva desmotivado pra caramba: odiava o lugar, ia perder todas as manhãs fazendo algo que não gosto, as pessoas de lá preferiam me zoar que me ajudar, o ambiente era completamente desconhecido pra mim e exatamente o oposto ao que eu me criei… “Cara, eu posso aguentar isso em troca de um salário mínimo todo mês” pensei, mas eis que caiu do céu a oportunidade de largar aquele emprego odioso.

No outro dia, no sábado, eu fui jogar um futebol de manhã, como era de costume fazer sempre. A diferença desse jogo para os outros jogos da minha vida é que dessa vez eu estava trabalhando, e ninguém me avisou que pessoas trabalham na manhã de sábado. Ou seja, faltei no serviço pra jogar futebol. Foda que quando eu cheguei lá eu lembrei que trabalhava e que talvez eu teria que estar espanando algo ao invés de chutando uma bola, mas ignorei e segui jogando.

Cheguei em casa e minha mãe me avisou da cagada que eu havia feito. Ela até disse que o gerente ligou pra ela e perguntou se eu estava doente, mas ela estupidamente disse que “não, ele foi jogar futebol” e aí eu meio que me fodi. Cheguei lá na segunda já pensando em sair daquele lugar infernal, mas o gerente nem falou comigo, mais ou menos como fez no primeiro dia de trabalho: na hora eu tive a clara noção de que ele pensou “hum, deixa ele trabalhar aí, ele não sabia… se ele fizer tudo direitinho hoje, eu deixo ele continuar”, mas eu realmente não queria continuar lá e fiquei o tempo todo encostado numa mesa esperando ele me mandar embora. Umas duas horas depois de chegar, ele me chamou na sala dele, disse que “ainda não era o momento certo”, que eu “deveria estar mais maduro antes de trabalhar”, me deu CEM REAIS (!!!), assinou uma “referência de trabalho” e me mandou embora.

Resumo: fui contratado na quinta, na sexta trabalhei por 4 horas, no sábado faltei pra jogar futebol, na segunda de manhã fui demitido e na segunda a tarde comprei um fone de ouvido muito bom. Larguei um emprego odioso e ganhei uma boa história pra contar, então que se dane, existem milhares de formas de se conseguir dinheiro e acredito que vender produtos para cavalos não é bem o meu forte.