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Como está sendo, afinal, cursar Cinema

Sexta-feira passada (dia 05) aconteceram duas coisas importantíssimas no Rio de Janeiro: a abertura das Olímpiadas, e minhas férias que finalmente começaram. Isso significa que o primeiro semestre/período da faculdade de Cinema e Audiovisual que estou cursando na UFF acabou, e eu tenho algumas coisas pra relatar aqui.

Seguinte, acabei de sair do Ensino Médio e não fazia a menor ideia de como funcionava um curso universitário, então os pontos que vou levantar aqui são exatamente os que cansei de pesquisar antes de fazer minha inscrição e não encontrei: afinal, o que diabos acontece num curso de Cinema?

Não assistimos tantos filmes quanto achei que assistiríamos

Antes de entrar, minha ideia mais básica de como seria o curso era de que nós assistiríamos incontáveis filmes e os professores explicariam sobre os processos de produção. Pensava que o ponto da coisa toda era estudar como os filmes são feitos, e que não teria jeito melhor do que analisá-los.

Rapidamente percebi que isso não acontece, e o porquê acabou sendo bastante óbvio. Em primeiro lugar, o problema do tempo: a maioria dos longa-metragem tem entre 1:30h e 2h, o que significa que se nós assistíssemos a um por aula já não restaria tempo pro professor ensinar nada. Quer dizer, você pode ler um livro de 100 páginas em um dia ou em uma semana, mas um filme de duas horas sempre vai levar duas horas pra ser assistido.

Esse problema do tempo limita bastante o número de longas que vemos, porque ou usamos a aula pra ver filme ou usamos a aula pra ouvir o professor falar, sabe? O resultado é que não assistimos tantos longas quanto esperava, e no fim das contas acabamos vendo muitos (muitos mesmo) curta-metragens e fragmentos (a cena que importar para a aula) de longas.

Mas calma que isso se resolve de outro jeito: muitas recomendações e indicações

A parte boa de assistir trechos de longas ou curtas metragens é que em três minutos você descobre a existência de um filme excelente que era totalmente desconhecido. Sempre anoto de onde vem as cenas que vemos em sala para poder ver o filme completo em casa, com isso pude assistir filmes ótimos que não passam na TV e nem são recomendados por amigos.

Aliás…

Muita interação fora de sala

Nós temos muitos grupos no Whatsapp e no Facebook. Muitos mesmo: tem grupo pra cada matéria, tem grupo pra quem é calouro, tem grupo pra quem é do curso, tem grupo só pra quem cursa licenciatura… E é tudo bastante ativo.

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Imagino que em 2016 esse tipo de interação aconteça em todos os cursos, mas no de Cinema você tem o bônus de ser informado de inúmeros eventos que acontecem na cidade. Eu não fazia ideia que aconteciam tantas mostras culturais, exibições gratuitas e cineclubes por aí.

Percebe? Por um lado nós não assistimos muitos filmes em sala, mas fora dela só fica sem assistir filme quem quer (ou quem não tem tempo, evidentemente). Os próprios professores e os alunos divulgam essas coisas, e destaco que a quantidade é realmente surpreendente. Se eu que mal converso com as pessoas recebo tantos convites pra eventos no Facebook, imagino aqueles caras que são amigos de todo mundo.

Ah, e esse tipo de interação entre os alunos que acontece nas redes sociais vai além do consumo de filmes e entra também na produção. Sempre vejo nas timelines algum pedido/oportunidade de participar de alguma gravação: é muito comum que algum aluno esteja fazendo algum filme e precise de ajuda com alguma função, e é muito mais fácil simplesmente pedir ajuda de outros alunos que sair por aí procurando um profissional que cobre fortunas e tudo mais.

Incentivo e suporte à produção

Então, eu particularmente tô no curso pra aprender – minha intenção é muito mais colocar ideias na minha cabeça do que tirar elas de lá –, mas já deu pra notar que o pessoal afim de produzir tá num ótimo lugar.

Em primeiro lugar tem os dois pontos que já citei: a interação é tão grande que é muito fácil conseguir outros alunos interessados em ajudar na filmagem, e através deles você também vai ficar sabendo de muitas oportunidades de concursos publicos/privados que financiarão sua produção, mostras para inscrever seus filmes e tudo mais.

Em segundo lugar, há de se destacar que a própria universidade dá um incentivo bem bacana. A UFF tem equipamentos de filmagem que os alunos podem acessar gratuitamente, mas é claro que, como existem mais pessoas querendo usá-los do que equipamentos disponíveis, é preciso enfrentar certa burocracia pra isso, até porque os alunos usando os equipamentos pra atividades de sala de aula tem prioridade pra uso e tudo mais.

Além das câmeras e microfones, eles também oferecem espaço pra exibir. Existem algumas salas com projetores que os alunos podem simplesmente agendar um horário e exibir seus próprios filmes. Inclusive, sempre vejo nos grupos de Facebook algum aluno convidando pra exibição de seu filme.

É curioso ver a quantidade de filmes produzidos por alunos da universidade que são exibidos na universidade, filmados na universidade e com equipamentos da universidade. É algo que acontece com tanta frequência que vez ou outra ouço alguma história de alguém que faz tudo pra não se formar, simplesmente porque fora da faculdade é mais difícil de produzir do que dentro dela.

A conclusão é que, apesar de não ser minha intenção, o curso de Cinema é definitivamente um bom lugar pra você estar se sua intenção for colocar a mão na massa e gravar algum filme.

A maior parte do conhecimento não vem do professor: debates, muitos debates

Depois de todos esses anos no Ensino Fundamental e Ensino Médio, a palavra “aula” traz à minha mente a imagem de um professor tentando transmitir algum de seus conhecimentos para os alunos. Agora estou espantado porque percebi que a faculdade funciona exatamente do jeito contrário.

De todo o tempo que passamos estudando algum assunto em sala de aula, só uma parte muito pequena consiste no professor dando explicações. Geralmente ele só escolhe um assunto, pede pra lermos alguns textos em casa e quando chega a hora da aula todo mundo discute.

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influência gritante desse cidadão: Paulo Freire.

E, assim, discussão mesmo, cara. Os alunos dão seus pontos de vista, argumentos, rebatem uns aos outros, e por aí vai. Nunca tinha visto esse tipo de coisa acontecer na escola, mas o fato é que a maior parte das coisas que aprendi na faculdade vieram de outros alunos e não do professor em si.

Dos professores que tive até agora, só um usa o método clássico de ensinar (parar na frente do quadro e dar explicações), mas mesmo assim é comum a aula dele ser interrompida por alguma troca de ideias com os alunos. Aliás, isso me faz pensar que não deve ser assim em todos os cursos: penso que deve ser algo com os cursos artísticos. Digo, não sei, Pintura, Cinema, Música, Poesia… Meio que não tem um jeito certo de fazer pro professor poder ensinar. Cada qual faz da sua maneira e o que dá pra fazer é promover uma troca de ideias, imagino.

De qualquer forma, por um lado dá pra dizer que definitivamente funciona, porque com esse método eu consegui aprender bastante sobre todos os assuntos levantados pelos professores. Mas por outro lado, percebo que perdemos bastante coisa porque nossos professores parecem todos muito capacitados. No meio das conversas dá pra notar que eles sabem bastante sobre Cinema, mas com esse esquema de debates eles só falam quando são perguntados ou quando o assunto surge. Dá a impressão que se as aulas fossem do jeito tradicional eles conseguiriam ensinar muito mais coisas.

Mas quer saber? Isso faz das aulas bem mais interessantes. Poucas vezes fico com vontade de dormir ou com os pensamentos em outros lugares. Em outras palavras, as aulas do curso de Cinema são bem mais legais que as aulas do Ensino Médio, não só por ser uma área que me interessa, mas principalmente pelo jeito que os professores fazem o trabalho deles.

Enfim, senhores… Por enquanto o que tenho pra relatar das aulas Cinema e Audiovisual é isso: não assisti muitos longas em sala, passei a conhecer alguns filmes excelentes através das infinitas recomendações, os alunos estão o tempo todo produzindo porque dentro da universidade isso é bem mais fácil do que fora, e as aulas são baseadas em trocar ideias.

Resumindo tudo, tá sendo bem legal. Se você caiu nesse post querendo saber se vale a pena ou não, minha impressão depois desse primeiro semestre é a de que curso é bastante, digamos, útil, tanto pra quem quer puramente aprender quanto pra quem quer botar a mão na massa e filmar algo – então pode ir sem medo de se arrepender, eu diria. No fim do próximo semestre eu volto aqui pra contar se algo mudou ou se reparei em coisas novas. :)